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30 de dezembro de 2009
29 de dezembro de 2009
Dois Pássaros a Voar (2)
Não. Não sou diferente. E, por conseguinte, esta rua já nem a sinto ao certo, já não apreendo as vidas que por ela passam gemebundas, porque sei que são iguais à minha, de uma displicente vontade de chegar ao trabalho a horas de levar com os habituais bons-dias dos colegas, preferencialmente apáticos, a obsessão trágica de um relógio pela exactidão. E já só presto atenção aos cagalhões que de quando em quando flutuam na de resto alarmantemente branca e cinzenta paisagem urbana, este deserto habitado por fantasmas, pelos fantasmas que somos nós. Já só olho para o chão onde ponho os pés para não pisar um cagalhão.
Mas um cagalhão como este que acabo de ver é uma obra de arte! Uma peça de génio despretensioso e autêntico. Tomara eu ser um cão e poder defecar e urinar à vontade nesta e noutras ruas, em todas as ruas e todos os sítios, onde me apetecesse. Urinar e defecar sobre os tapetes das senhoras, para cima dos carros, urinar e defecar e fornicar frente à apatia de toda a gente, com um obsceno à-vontade de rei da cidade. Quem me dera ser um grande mastim rafeiro, urinar e defecar e encontrar cadelas por essa cidade, que para mim seria de uma infinita, de uma perpétua novidade. Quem me dera passar a vida num alegre deambular selvagem, como o cão que passou por esta rua e lançou a sua bosta sem se envergonhar do que fez.
Mas sou um ser humano. Sou um ser humano, e ainda por cima bem comportado. Não fui sempre assim. Este violento torpor quotidiano socorre-se das memórias da juventude para nelas depositar a alma do caminhante, nostálgico, que assim faz da vida um túmulo em que ele não está verdadeiramente morto, mas numa letargia de recordações de um outro tempo que não morrerá, que é a única coisa que resta de verdadeiramente seu e o define, a sua imortalidade. Recordo-me agora de quando andava na vadiagem com a trupe… Éramos então pequenos demónios maltrapilhos e percorríamos as ruas de outra maneira, de uma maneira que já não existe. Vagueávamos sem pressa à procura de coisas várias com que satisfazer uma ociosa sede de conhecimentos. Lembro-me de cada rosto moreno e voo para o ferro velho, que ficava atrás do cemitério, e revejo-me nesse degredo cheio de antigos carros amontoados numa desordem imóvel, com os meus companheiros de aventuras, sentados na capota de um Toyota Corolla de 73 cheio de ferrugem, contemplando a cidade em baixo sob o pôr-do-sol, fumando um charro proibido e bebendo vinho de pacote. E lembro-me da fedelha violência divertida com que nos vingávamos da escola e de todas as outras catequeses, com que libertávamos a fúria acumulada com uma disciplina que não compreendíamos nem queríamos compreender. Bem abençoada essa fúria … De vidros partidos com calhaus arrancados à calçada, arremessados com histérica força adolescente, bombas de alumínio e ácido muriático rebentando em caixotes do lixo, mijo nos puxadores das portas dos prédios, nas soleiras das janelas, colchões imundos e trotinetas largadas com estardalhaço de madrugada em quintais de vizinhos antipáticos (e uma vez até foi uma cabra) … E dá-me uma raiva de tudo isso ter acabado e por ter, sem o ter desejado deveras, singrado na vida e ser agora um homem feito carregando um fardo de obrigações morais. Uma raiva de já só ter amigos bem comportados e com uma decência orgulhosa e altiva, indivíduos sérios e carrancudos movidos por uma obsessão abstracta, esquecidos de si, e por eu próprio ser de certo modo assim.
27 de dezembro de 2009
La Piedra
el que le da su ímpetu y dirección,
el que aporta el músculo y la voluntad.
Ella es la que cruza el aire
y se clava lejos, adonde no se oye
mi paso ni el eco de su partida.
De este lado sólo queda el peso
de una vida que llama con leves
parpadeos: piel quemada, brazos laxos,
del que ha cumprido con su labor.
Del otro lado está el misterio
de la tierra nueva, los surcos
recién abiertos de la nueva edificación.
Pero de eso nada sé: allá no pueden
mis ojos, ni mi oído alcanza
a entender su voz. Sólo saben
que la piedra partió, que está clavada
en alguna parte, sostenida acaso
por su propira fe, adonde no llega
mi voluntad, ni la imaginación.
Rafael Felipe Oteriño
em Nueva Poesía Argentina, organização de Leopoldo Castilla, Hiperión, 1987
Dois Pássaros a Voar (1)
Córdoba, Argentina, 8 de Dezembro de 2009
Enquanto escrevo, dou-me conta da minha estupidez sociológica: é que eu só sou livre, isto é, só me posso dar ao luxo desta vadiagem de pensamento e de geografia, porque tenho de comer e tive uma educação que me forneceu os instrumentos necessários para percorrer estes caminhos. O mesmo não se pode dizer das pessoas que exibem uma rotineira alegria pueril nesta praça. É o que sinto… E dá-me uma tristeza…
30 de novembro de 2009
19 de novembro de 2009
vou escrever toda a verdade com esta caneta que me cansa
em Cadernos, Vaslav Nijinski, Assírio & Alvim, 2004
4 de novembro de 2009
1 de novembro de 2009
8 FRAGMENTS FOR KURT COBAIN
Genius is not a generous thing
In return it charges more interest than any amount
of royalties can cover
And it resents fame
With bitter vengeance
Pills and powdres only placate it awhile
Then it puts you in a place where the planet's
poles reverse.
Where the currents of electricity shift
Your Body becomes a magnet and pulls to it despair
and rotten teeth,
Cheez Whiz and guns
Whose triggers are shaped tenderly into a false
lust
In timeless illusion
2/
The guitar claws kept tightening, I guess on your
heart stem.
The loops of feedback and distortion, threaded
right thru
Lucifer's wisdom teeth, and never stopped their
reverberating
In your mind
And from the stage
All the faces out front seemed so hungry
With an unbearably wholesome misunderstanding
From where they sat, you seemed so far up there
High and live and diving
And instead you were swamp crawling
Down, deeper
Until you tasted the Earth's own blood
And chatted with the buzzing-eyed insects that
heroin breeds
3/
You should have talked more with the monkey
He's always willing to negotiate
I'm still paying him off...
The greater the money and fame
The slower the pendulum of fortune swings
Your will could have sped it up...
But you left that on an airplane
Because it wouldn't pass customs and immigration
4/
Here’s synchronicity for you:
Your music’s tape was inside my Walkman
When my best friend from summer camp
Called with the news about you
I listened them…
It was all there!
Your music kept cutting deeper and deeper valleys
of sound
Less and less light
Until you hit solid rock
The drill bit broke
and the valley became
A thin crevice, impassible in time,
As time itself stopped.
And the walls became cages of brilliant notes
Pressing in…
Pressure
That’s how diamonds are made
And that’s where it sometimes all collapses
Down in on you
5/
Then I translated your muttered lyrics
And the phrases were curious:
Like “incognito libido”
And “Chalk Skin Bending”
The words kept getting smaller and smaller
Until
Separated from their music
Each letter spilled out into a cartridge
Which fit only in the barrel of a gun
6/
And you shoved the barrel in as far as possible
Because that’s where the pain came from
That’s where the demons were digging
The world outside was blank
Its every cause was just a continuation
Of another unsolved effect
7/
But Kurt…
Didn’t the thought that you would never write
another song
Another feverish line or riff
Make you think twice?
That’s what I don’t understand
Because it’s kept me alive, above any wounds
8/
If only you hadn’t swallowed yourself into a coma
in Rome…
You could have gone to Florence
And looked into the eyes of Bellinni or Rafael’s
Portraits
Perhaps inside them
You could have found a threshold back to beauty’s arms
Where it all began…
No matter that you felt betrayed by her
That is always the cost
As Frank said,
Of a young artist’s remorseless passion
Which starts out as a kiss
And follows like a curse
em Void of Course, Jim Carroll, Penguin Books, 1998
27 de outubro de 2009
Insomniac
Blueblack, with the much-poked periods of stars
Letting in the light, peephole after peephole –
A bonewhite light, like death, behind all things.
Under the eyes of the stars and the moon's rictus
He suffers his desert pillow, sleeplessness
Stretching its fine, irritating sand in all directions.
Over and over the old, granular movie
Exposes embarrassments – the mizzling days
Of childhood and adolescence, sticky with dreams,
Parental faces on tall stalks, alternately stern and tearful,
A garden of buggy rose that made him cry.
His forehead is bumpy as a sack of rocks.
Memories jostle each other for face-room like obsolete film stars.
He is immune to pills: red, purple, blue –
How they lit the tedium of the protracted evening!
Those sugary planets whose influence won for him
A life baptized in no-life for a while,
And the sweet, drugged waking of a forgetful baby.
Now the pills are worn-out and silly, like classical gods.
Their poppy-sleepy colors do him no good.
His head is a little interior of grey mirrors.
Each gesture flees immediately down an alley
Of diminishing perspectives, and its significance
Drains like water out the hole at the far end.
He lives without privacy in a lidless room,
The bald slots of his eyes stiffened wide-open
On the incessant heat-lightning flicker of situations.
Nightlong, in the granite yard, invisible cats
Have been howling like women, or damaged instruments.
Already he can feel daylight, his white disease,
Creeping up with her hatful of trivial repetitions.
The city is a map of cheerful twitters now,
And everywhere people, eyes mica-silver and blank,
Are riding to work in rows, as if recently brainwashed.
Sylvia Plath
24 de outubro de 2009
O RÉPTIL QUE DEIXOU DE SER RÉPTIL
Acontece que o sangue do artista é também um acontecimento que gera um rio que não cessa porque é de uma abundância infinita. E é por isso que estamos aqui e falamos destas coisas, porque continuamente vemos o sangue do poeta extremo e dele bebemos, e dele nascemos, humanos, e continuamos a inventar a humanidade. Não desistimos.
high on rebellionwhat i feel when i'm playing guitar is completely cold and crazy. like i don't owe nobody nothing and it's a test just to see how far i can relax into the cold wave of a note. when everything hits just right (just and right) the note of nobility can go on forever. i never tire of the solitary E and i trust my guitar and don't care about anything. sometimes i feel like i've broken through and i'm free and i could dig into eternity riding the wave and realm of the E. sometimes it's useless. here i am struggling and filled with dread – afraid that i'll never squeeze enough graphite from my damaged cranium to inspire or asphyxiate any eyes grazing like hungry cows across the stage or page. inside i'm just crazy. inside i must continue. i see her, my stiff muse, jutting about in the forest like a broken speeding statue. the colonial year is dead and the greeks too are finished. the face of alexander remains not solely due to sculpture but through the power and magnetism and foresight of alexander.
the artist preserves himself. maintain his swagger. is intoxicated by ritual as well as result. look at me i'm laughing. i am lapping cocaine from the hard brown palm of the bouncer. i trust my guitar.
therefore we blackout together. therefore i would wade thru scum for him and scum is ahead but we just laugh. ascending through the hollow mountain i am peeking. we are kneeling we are laughing we are radiating at last. this rebellion is a gas which we pass.
em Babel, Patti Smith, G. P. Putnam's Sons, New York, 1978
15 de outubro de 2009
em O Colosso de Maroussi (1941), Henry Miller, trad. Fernanda Pinto Rodrigues, Livros do Brasil, 1996
14 de outubro de 2009
13 de outubro de 2009
Sei que a arte é um engodo e que nele morre o peixe mais comum
próximo das tumescências do ópio, de um êxtase quase religioso - um estado de quase iluminação, quase o cerne da existência...
Sei que me engano quando procuro a verde negação das fronteiras inaliáveis da existência.
Sei que no fim...
Que no fim não haverá pão para ninguém, que tudo será putrefacção e vermes que sobrevivem
Que passam a vida a sobreviver porque nada mais existe.
Sei que produzo embustes para negar a passagem do Tempo.
11 de outubro de 2009
8 - A Mãe do Monstro
8 de outubro de 2009
7 de outubro de 2009
Blues Poem
I carry a horn to blow in all these streets
A solo riff out of my head
How could your ever know I feel
So high on life and feet and ass and legs and thighs
That I can rise and dance with all the stars
And I can eat the moon and laugh and I can cry
The dark caves of cities hungry streets
The tired faces dark and dreary bent
and all the death it dies
I let it die
I lift my horn and blow some sounds
some soul for kids to come
Some unborn sun
in darker streets than mine
Magicians carry wings so they can fly
Let's blow a horn and love
Let's get on it and ride
and laugh and dance and jive
Let's shake the dead and let the downers die
The magic of the singers warms the earth
A song
A poem
Some paradise of mind
I got to smile now
I'm feeling good
The city street
The palace of my mind
Jack Micheline

em The Outlaw Bible of American Poetry, edited by Alan Kaufman, Basic Books, 1999
em O Colosso de Maroussi (1941), Henry Miller, trad. Fernanda Pinto Rodrigues, Livros do Brasil, 1996
4 de outubro de 2009
Milan Kundera
(Eh pá, ó Milan, essa afirmação parece ser muito inteligente, mas o meu anarquismo não é um desejo de morte disfarçado, mas uma afirmação de vida.)
3 de outubro de 2009
Henry Miller no filme Reds (1981), de Warren Beatty, sobre John Reed.
(Para todos aqueles que têm a pretensão de querer mudar a sociedade: a política é uma merda, não há nela altruísmo mas cobardia, cobardia do indivíduo que não toma consciência de si. Sim Henry, o político é um ser cobarde.)
A Ausência do Mito
Vi uma coisa que se partiu em mil fragmentos dourados
outros de uma rutilância espectral
outros de uma escuridão fatal, a matriz de toda a absurda escuridão do mundo
tão insuportavelmente real.
Apanhei os fragmentos, e com eles quis fazer um novo Deus, para oferecer ao mundo
- os fragmentos não se juntaram, a desordem tinha uma força que os mantinha soltos e espalhados
e então deitei-os fora, os fragmentos que formam o mundo,
e agora o que é mundo?
Reparo ainda nos fragmentos, nos padrões que formam e que se vão criando e destruindo, a plasticidade das coisas fortuitas,
e os fragmentos deslocam-se para longe,
e não entendo, não entendo como uma coisa tão perfeita se pode assim desconjuntar e transformar-se em porcaria cósmica.
Não entendo a inexistência de Deus.
Nenhuma delas pode ser fruída ou abraçada se a outra estiver ausente.
em O Colosso de Maroussi (1941), Henry Miller, trad. Fernanda Pinto Rodrigues, Livros do Brasil, 1996
1 de outubro de 2009
Falamos de Arte, falamos de Crime, falamos de Revolução.
A arte é um crime. A arte é um crime político.
30 de setembro de 2009
7 - Lázaro ressuscita para a mão de Leonor
Eis o que pensa a velha tartaruga de costas tortas com o que resta da sua juventude, que reside na cabeça aprisionada em memórias, um desejo meramente mental que não tem forma de se expressar porque o corpo não responde, o caralho permanece naquela horrorosa prostração encarquilhada e serena, naquela moleza infecta cheia de medicamentos.
― Se não se importa, não preciso de o ver, mas agradecia que mo embrulhasse.
― Com certeza.
E então o velho, saudoso de antigas erecções, põe-se a agarrar e a agitar o membro preguiçoso com fúria, olhando para o traseiro de Leonor, mas o gajo não se entesa, não, em vez disso são as lágrimas da impotência que se ejaculam dos olhos e correm com abundância pelos vales do rosto cansado. E, mal ela acaba de embrulhar o livro e olha para o cliente, ele continua com a mão a segurar o pirilau reformado, a chorar, e olha para ela com um focinho de cão angustiado que mete dó. Pede desculpa. E ela tem pena, faz uma expressão de tristeza e bondade e dirige-se para ele, põe-se de cócoras e pega-lhe na mão, na outra mão que nervosamente tentava limpar as lágrimas do rosto, e a primeira acanha-se e desgarra o pénis inútil.
― Então, o que é que passa? Diga-me, por favor… – Também ela já com as lágrimas a nascerem-lhe nos olhos, a voz trémula. – Posso fazer alguma coisa?
O velho geme, tenta dizer qualquer coisa, mas não consegue deixar de gaguejar, mas eis que se exalta e grita:
― Já não sou um homem, porra! – Agarra na mão dela com brutalidade e põe-na com violência no pénis senil. – Isto está morto, ouviu!? Morto! …
― Largue-me! – E espeta-lhe um estalo que o leva ao chão.
O velho desfaz-se em lágrimas e encolhe-se em posição fetal, abandonado à devastação da sua fragilidade naquele momento. Leonor recupera a bondade e deposita a mão piedosa no braço do senhor, e diz-lhe:
― Como é que não é homem? Com certeza que é, e com muito para dar…
― Pois então prove-mo. – As lágrimas entrando na garganta quase octogenária, formando nervosas palavras líquidas e ridículas que aprendem a morrer.
Leonor toma consciência de uma sensação estranha que a invade, a de ter um dever premente a cumprir, e então baixa a mão para o sexo do homem e lentamente começa a mexer nele, enquanto a outra mão se enfia no seu próprio sexo e os olhos manifestam uma sensação de deleite que é apenas a recordação de um hábito, revirando-se e fitando o tecto, e geme palavras porcas como se estivesse num filme porno a ser visto por adolescentes virgens. E eis o milagre: o pénis do homem volta à vida e larga uma torrente enorme de sémen, com milhões de lázaros espermatozóides.
O velho vai-se embora balbuciando agradecimentos e batendo nervosamente no chão com a bengala de que já não precisa, e Leonor imagina que, em vez do livro, ele oferecerá à mulher o vigor ressurrecto, e então a mente da esposa desfrutará da recordação do tempo em que os dois eram capazes e gozavam, descrentes do amanhã. Em dias como estes, Leonor sente-se magnânime, de um altruísmo que a liberta por momentos do pequeno caos da sua vida, e rejubila ao constatar que a vida dela pode servir para alguma coisa além de estar atrás daquele balcão a vender livros, que os seus actos são manifestações ocasionais de uma missão cujos contornos reais são por enquanto insondáveis, mas existentes. Pois a nossa heroína sabe da existência de um projecto, entrevê-o vagamente através do nevoeiro que preenche o seu quotidiano, o horrível fumo de escape, vislumbra uma coisa vaga que está ali algures. E talvez não tarde a ouvir o rugido do leão na planície da celebração perpétua, o lugar da sua permanência do Tempo, e talvez o grande felino venha ter consigo amanhã e a encarne.
(Toda a gente tem um animal que a representa. O dela é o leão, criatura obscena mas de uma certa nobreza, o orgulho de uma dignidade denunciada pela pose.)
29 de setembro de 2009
em Os Cus de Judas, António Lobo Antunes, Leya, 26ª Edição (bolso), 2008
28 de setembro de 2009
O Primeiro
Um dia, nasceu o primeiro exemplar do que viria a ser designado como um poeta, e a partir daí tudo mudou…
22 de setembro de 2009
20 de setembro de 2009
O Altruísmo de Susan Sontag
A free life is one in which you are willing to be uncomfortable some of the time, and insecure some of the time.
Mulherengos Líricos e Mulherengos Épicos
A obsessão dos primeiros é uma obsessão lírica; o que procuram nas mulheres não é senão eles próprios, não é senão o seu próprio ideal, mas, ao fim e ao cabo, apanham sempre uma grande desilusão, porque, como sabemos, o ideal é precisamente o que nunca se encontra. Como a desilusão que os faz andar de mulher em mulher dá, ao mesmo tempo, uma espécie de desculpa melodramática à sua inconstância, não poucos corações sensíveis acham comovente a sua perseverante poligamia.
A outra obsessão é uma obsessão épica e as mulheres não vêem nela nada de comovente: como o homem não projecta nas mulheres um ideal subjectivo, tudo tem interesse e nada pode desiludi-lo. E esta impossibilidade de desilusão encerra em si algo de escandaloso. Aos olhos do mundo, a obsessão do femeeiro épico não tem remissão (porque não é resgatada pela desilusão).
Como o femeeiro lírico gosta sempre do mesmo tipo de mulheres, quase nem se repara quando tem uma amante nova; os amigos causam-lhe sérios embaraços porque nunca vêem que a sua companheira já não é a mesma e tratam as suas amantes sempre pelo mesmo nome.
Na sua caça ao conhecimento, os femeeiros épicos afastam-se cada vez mais da beleza feminina convencional (de que depressa se cansam) e acabam infalivelmente como coleccionadores de curiosidades. Têm consciência de tal coisa, envergonham-se um pouco dela e, para não incomodar os amigos, nunca aparecem em público com as amantes.
em A Insustentável Leveza do Ser, Milan Kundera, trad. Joana Varela, Dom Quixote, 1986
The Black Art, poema de Anne Sexton
those trances and portents!
As if cycles and children and islands
weren't enough; as if mourners and gossips
and vegetables were never enough.
She thinks she can warn the stars.
A writer is essentially a spy.
Dear love, I am that girl.
A man who writes knows too much,
such spells and fetiches!
As if erections and congresses and products
weren't enough; as if machines and galleons
and wars were never enough.
With used furniture he makes a tree.
A writer is essentially a crook.
Dear love, you are that man.
Never loving ourselves,
hating even our shoes and our hats,
we love each other, precious, precious.
Our hands are light blue and gentle.
Our eyes are full of terrible confessions.
But when we marry,
the children leave in disgust.
There is too much food and no one left over
to eat up all the weird abundance.
em The Complete Poems, Anne Sexton, Mariner Books, 1999
19 de setembro de 2009
Logro
Alpinistas
18 de setembro de 2009
Canto Moço
Somos filhos da madrugada
Pelas praias do mar nos vamos
À procura de quem nos traga
Verde oliva de flor no ramo
Navegamos de vaga em vaga
Não sabemos de dor nem mágoa
Pelas praias do mar nos vamos
À procura da manhã clara
Lá no cimo de uma montanha
Acendemos uma fogueira
Para não se apagar a chama
Que dá vida na noite inteira
Mensageira pomba chamada
Companheira da madrugada
Quando a noite vier que venha
Lá no cimo de uma montanha
Onde o vento cortou amarras
Largaremos p´la noite fora
Onde há sempre uma boa estrela
Noite e dia ao romper da aurora
Vira a proa minha galera
Que a vitória já não espera
Fresca brisa moira encantada
Vira a proa da minha barca
Estupor Agradável
Mas ainda não somos máquinas, queremos ainda ficar emboscados neste redemoinho de alegorias incompreensíveis devoradoras de incauto esperma consagrado a obliteradas aventuras sôfregas, votadas previamente à feliz resignação do fracasso, ao destino onde a transmutação se cumpre eternamente e a vida é simplesmente um rio que transborda e inunda tudo.
17 de setembro de 2009
Lobo Antunes na Guerra Colonial
A pouco e pouco a usura da guerra, a paisagem sempre igual de areia e bosques magros, os longos meses tristes do cacimbo que amareleciam o céu e a noite do iodo dos daguerreótipos desbotados, haviam-nos transformado numa espécie de insectos indiferentes, mecanizados para um quotidiano feito de espera sem esperança, sentados tardes e tardes nas cadeiras de tábuas de barril ou nos degraus da antiga administração de posto, fitando os calendários excessivamente lentos onde os meses se demoravam num vagar enlouquecedor, e dias bissextos, cheios de horas, inchavam, imóveis, à nossa volta, como grandes ventres podres que nos aprisionavam sem salvação. Éramos peixes, percebe, peixes mudos em aquários de pano e de metal, simultaneamente ferozes e mansos, treinados para morrer sem protestos, para nos estendermos sem protestos nos caixões da tropa, nos fecharem a maçarico lá dentro, nos cobrirem com a Bandeira Nacional e nos reenviarem para a Europa no porão dos navios, de medalha de identificação na boca no intuito de nos impedir a veleidade de um berro de revolta. […] Éramos peixes, somos peixes, fomos sempre peixes, equilibrados entre duas águas na busca de um compromisso impossível entre a inconformidade e a resignação, nascidos sob o signo da Mocidade Portuguesa e do seu patriotismo veemente e estúpido de pacotilha, alimentados culturalmente pelo ramal da Beira Baixa, os rios de Moçambique e as serras do sistema Galaico-Duriense, espiados pelos mil olhos ferozes da Pide, condenados ao consumo de jornais que a censura reduzia a louvores melancólicos ao relento de sacristia de província do Estado Novo, e jogados por fim na violência paranóica da guerra, ao som de marchas guerreiras e dos discursos heróicos dos que ficavam em Lisboa, combatendo, combatendo corajosamente o comunismo nos grupos de casais do prior, enquanto nós, os peixes, morríamos nos cus de judas uns após outros, tocava-se um fio de tropeçar, uma granada pulava e dividia-nos ao meio, trás, o enfermeiro sentado na picada fitava estupefacto os próprios intestinos que segurava nas mãos, uma coisa amarela e gorda e repugnante e quente nas mãos…em Os Cus de Judas, António Lobo Antunes, Leya, 26ª Edição
ALTAMENTE RECOMENDÁVEL
Automaat...
Portanto, como descrever uma paisagem onírica? Que linguagem usar?
Respiro fundo. Tudo começa com um golpe profundo na barriga. Urro de dor, ouço a lâmina a raspar-me num osso e tenho a coragem de perguntar: Qual osso? Qual osso? Começo a rir-me, despejo gargalhadas inúteis na solidão da noite encardida.
Devia ter um plano, parar um bocado para pensar nele. Não paro de escrever, sou um autómato. Sou um instrumento, mas não sei quem é que me está usar, quem me grita palavras ao ouvido, que energia é esta que eu tenho... Não para de vomitar essas palavras. Não tenho nenhum plano, nenhuma estrutura dentro da minha cabeça. Não quero salvação, nem procuro o mecanismo. Talvez isto seja terapêutico, esta ruptura com o inteligível?...
Passo dois dias no Inferno e volto de lá alegremente intoxicado. Esta corrupção, esta intoxicação. O acto que represento é dos mais perigosos.
Gostava de inventar uma ficção, para acabar com o tédio do egocentrismo, uma ficção que se possa escrever facilmente, com uma dialética razoável, uma história na qual eu me perca diariamente quando chego a casa, um vício, uma prisão adorável. Uma experiência lírica objectiva, que sirva para eu perder-me de mim. Porque o que eu quero, honestamente, é perder-me de mim e aventurar-me na dimensão dos prazeres impessoais, dedicar-me ao hedonismo antigo.
16 de setembro de 2009
Les Enfants Terribles
15 de setembro de 2009
Silly hangover
O homem cansou-se de tão neurasténica alegria... Sente-se mal e quer vomitar as entranhas. Está dentro dele encurralado, maior do que a bebedeira que apanhou. Crê que os outros não se deixaram vencer pelo ego da angústia - porque, sem dúvida, a eles também lhes deve estar a custar, mas para eles não passa de um mal-estar físico, uma dor orgânica legítima, sem indícios vagos de preocupações éticas e existencialismos mesquinhos, mas o homem sente-se submerso num mundo a que não pertence, divagando palermas alucinações. Tem estado doente desde que nasceu.
14 de setembro de 2009
Pura invenção militante - qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência
Paradoxo
O que é a Arte? Desnudação pública contagiante. O desígnio de extrema liberdade.
6 - A latrina onde Leonor caga sobre despotismo da Literatura
― Bom dia. Eu vim aqui para ver se encontrava um livro de poemas para a minha esposa, que gosta muito de ler. Talvez me possa ajudar. Tem alguma sugestão? António Gedeão não seria má ideia. Andava lá por casa um livro dele, mas o meu neto levou-o.
― António Gedeão não temos. Talvez lhe possa sugerir um livro do Cesário Verde. Saiu há pouco tempo, é de um manuscrito que encontraram recentemente no baú de um descendente de Silva Pinto, que publicou a compilação da sua poesia. Pelos vistos incompleta…
― Parece-me bem. Posso dar uma vista de olhos?
― Com certeza. Vou buscá-lo. Mas sente-se, ponha-se à vontade…
E, enquanto Leonor se dirige à secção onde os rostos dos poetas ainda lutam para ostentarem as suas particularidades – sim, porque a poesia é uma afirmação de rostos, de traços individuais, porque denuncia continuamente a tragédia da individualidade –, o velho senta-se vagarosamente numa poltrona encostada a uma parede de tijolos vermelhos, perto de uma ferrugenta escada em caracol que sobe para o misterioso andar de cima, onde talvez o patrão da empregada faça ocasionalmente uma pequena peregrinação de livros e reflexão, ou somente os livros morram soterrados em pó e escuridão, ou simplesmente o andar onde a empregada possa ir verter os líquidos e putrefacções habituais, que vencem assim literatura, que no andar de baixo constitui um negócio e uma arrogância, um luxo. Subitamente, quando o organismo ruge de orgânica inquietude, as vicissitudes do espírito, com o seu rol de lacrimejantes bramidos de pura embirração, desaparecem, toda a literatura e toda a tolice desaparecem, e tomamos súbita consciência do sangue e dos músculos, do despotismo da carne e do desejo.
Isto vem mesmo a calhar...
Um poeta está sentado na Holanda. Pensa na tradição. Diz para si mesmo: eu sou alimentado pelos séculos, vivo afogado na história de outros homens. E a sua alma é atravessada pelo sopro primordial. Mas tem a alma perdida: é um inocente que maneja o fogo dos infernos. Abre-se ao fundo da sua meditação holandesa um grande lago: a solidão, e em volta passeiam vacas. A Holanda agora é isto: vacas, e - no centro - o inferno, a revolucionária inocência de um poeta sentado.
– Por quem me tomam? – pode ele perguntar. – O que eu quero é o amor.
E sempre assim, sempre: cidades inexplicáveis no meio da terra ou prados imensos onde se tem medo. Prados para vacas, não para um poeta di-la-ce-ra-do por uma tormentosa inocência.
in Herbeto Hélder, Os Passos em Volta, Assírio & Alvim, 9ª Edição, 2006
13 de setembro de 2009
They may not mean to but they do
They fill you with the faults they had
And add some extra just for you.
But they were fucked up in their turn
By fools in old style hats and coats
Who half the time were soppy-stern
And half at one another's throats.
Man hands on misery to man.
It deepens like a coastal shelf.
Get out as early as you can
And don't have any kids yourself.
Philip Larkin
"Até fazem um casal engraçado..."
3 de setembro de 2009
31 de agosto de 2009
Godless
Os excessos da imaginação
Jean-Michel Basquiat30 de agosto de 2009
«Por que não publicar?»
Enrique Vila-Matas cita Nicholas Chamfort:
Porque não desejo fazer como as gentes das letras, que se parecem a asnos que dão coices e lutam pelo seu lugar na manjedoura vazia.
in Enrique Vila-Matas, Bartleby & Companhia, Assírio & Alvim, 2001
26 de agosto de 2009
Uma síntese de Muriel Barbery
in Muriel Barbery, A Elegância do Ouriço, Editorial Presença, 2008
23 de agosto de 2009
"Deve-se estar sempre embriagado."
Mais de quoi? De vin, de poésie ou de vertu, à votre guise. Mais enivrez-vous.
Et si quelquefois, sur les marches d'un palais, sur l'herbe verte d'un fossé, dans la solitude morne de votre chambre, vous vous réveillez, l'ivresse déjà diminuée ou disparue, demandez au vent, à la vague, à l'étoile, à l'oiseau, à l'horloge, à tout ce qui fuit, à tout ce qui gémit, à tout ce qui roule, à tout ce qui chante, à tout ce qui parle, demandez quelle heure il est; et le vent, la vague, l'étoile, l'oiseau, l'horloge, vous répondront: «Il est l'heure de s'enivrer! Pour n'être pas les esclaves martyrisés du Temps, enivrez-vous sans cesse! De vin, de poésie ou de vertu, à votre guise.»
in Charles Baudelaire, Les Paradis Artificiels, GF-Flammarion, 1966
Deve-se estar sempre embriagado. Nada mais conta. Para não sentir o horrível fardo do Tempo que esmaga os vossos ombros e vos faz pender para a terra, deveis embriagar-vos sem tréguas.
Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha.
Mas embriagai-vos. E se algumas vezes, nos degraus de um palácio, na erva verde de uma vala, na solidão baça do vosso quarto, acordais, já diminuída ou desaparecida a embriaguez, perguntai ao vento, à vaga, à estrela, à ave, ao relógio, a tudo que foge, a tudo o que geme, a tudo que rola, a tudo que canta, a tudo que fala, perguntai que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, a ave, o relógio, vos responderão: «São horas de vos embriagardes! Para não serdes os escravos martirizados do Tempo, embriagai-vos sem cessar! De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha.»
in Charles Baudelaire, Os Paraísos Artificiais, Editorial Estampa, 1971
22 de agosto de 2009
Os Frutos do Mal
16 de agosto de 2009
5 - A festança
No entanto, mal ela abre a porta a festa dissipa-se, os livros voltam às prateleiras sem as nódoas do vinho entornado em pleno espasmo orgíaco dos génios, as garrafas e os instrumentos musicais volatilizam-se, todas as marcas desaparecem do local. Ela acende a luz e já os livros estão mortos e enfileirados nas prateleiras, prontos a serem devorados pelas traças vorazes, que são os leitores. E então senta-se, abre o computador, vê o mail, as notícias do dia, e espera. Geralmente, pouco há a fazer de manhã, mas alguém tem de estar na loja. Nesses ocasiões, Leonor retoma a leitura de um livro e desliga-se da realidade quotidiana para entrar num dos imensos mundos paralelos que a arte tem para oferecer, mas vai também descobrindo este mundo, os pormenores e as razões profundas, o que é para mudar e a beleza extática, infortúnios e bem-aventurança.
14 de agosto de 2009
13 de agosto de 2009
A banana entalada na vagina
12 de agosto de 2009
4 - Corvos da imaginação prodigiosa
É sempre com este tipo de alegria, excessivamente constante, diária, que a empregada do café lhe dá as boas vindas ao estabelecimento. A sua boa disposição chega a ser irritante. Grotesca. Dá ideia que a mulher é cega para o que se passa no mundo, ou simplesmente louca, talvez tenha uma deficiência neurológica que a destitua da porção de tristeza que faz parte das pessoas normais. Sim, porque uma pessoa que está sempre alegre não é pode ser lá muito saudável…
― Bom dia, Lucinda. Cá se vai andando, com a cabeça entre as orelhas. Faço o que posso.
― O que é que vai ser?
― Um galão e meia torrada.
Senta-se a mesinha livre perto da janela e tira o livrinho preto onde escreve as palavras que lhe ocorrem de vez em quando no comboio, em certas manhãs de inspiração poética. São palavras que a resgatam da confusão da vida e anunciam a existência de uma estética intemporal e sublime, que dá sentido à existência, mesmo que esse estética seja por vezes atroz, por ser incomparavelmente superior ao mundo em que vive, tragicamente inestético. Outras vezes, voam-lhe para a cabeça frases que, em vez de descreverem o belo inexistente, sublimam o feio existente ao horrível e terrífico. Leonor oscila entre as duas utopias, o extremamente belo e o insuportavelmente feio, o Paraíso e o Inferno. Oscila entre os dois absolutos como um trapo esvoaçante no bruto vendaval da inspiração, ante o qual não há nada a fazer. Pega-se numa caneta, num pedaço de papel, e escreve-se, escreve-se com fervor até que a sede de infinito se extinga. Elimina-se o excesso de vida. Cede-se. Eis o que Leonor escreve:
Estes pássaros lançam-se empertigados e frenéticos contra as janelas, querendoEntretanto, chegam-lhe à mesa a torrada e o galão, juntamente com o eterno sorriso imbecil de Lucinda, que se apressa a exclamar-lhe um lancinante bom-apetite. Enquanto come, Leonor observa à sua volta a frequente inquietação matinal das pessoas emproadas, enfiadas nas suas cogitações profissionais, abelhas e formigas, com excepção evidente e rotineira para o pensionista idoso que lê um jornal desportivo, traços fisionómicos de um velho sacana grosseiro e mafioso, características de um rosto antigo que vão desaparecendo sob as areias movediças do tempo, atrás das rugas, dando lugar a outro rosto ainda mais antigo, que é o rosto da morte, da ternura da morte. É isso… Desaparece a inquietação da vida e aparece a ternura denunciado a morte. Tarde ou cedo, essa ternura e essa morte aparecem a toda a gente.
parti-las para entrarem em mim. São milhões e só eu os vejo. São negros como
corvos, mas sei que não existem nos tratados de biologia, porque ainda não foram
estudados, portanto não são corvos. São talvez demasiado aterradores para alguém
lhes prestar atenção, para alguém lhes ver. Eu sou especial. Vejo-os, passo a
vida toda a vê-los porque tenho uma coragem invulgar. Não os quero ver, mas não
posso deixar de ter a minha visão, o meu talento, porque senão morreria. Não
quero morrer. Viverei sob a fúria destes milhões de corvos de um outro mundo,
que querem comer-me os miolos, e entre os cegos da minha própria espécie, que
não os vêem porque não têm tomates. Sou uma mulher com tomates!
A morte ternurenta é exclusiva dos idosos no fim da linha, mas há em alguns rostos jovens uma outra morte, que é a morte horrível em vida – o caso da trintona caixa-de-óculos que se dedica, sempre que a vê no café, sem companhia, à leitura da invariável revista de empolgantes fofoquices, perdendo uma lastimável quantidade de tempo na secção das previsões astrológicas, enquanto vai sorvendo o café. A mulher tem um rosto apagado e mórbido, fechado para divagações da autoria dos jornalistas da revista – adivinhamo-la na companhia dos cometas que povoam este mundo, em casamentos de luxo ou divórcios conturbados, em hotéis de cinco estrelas ou singularmente adornadas discotecas, distintas perfumarias e boutiques da moda. Leonor surpreende-se a ela própria com este pensamento – as divagações desta leitora infatigável de revistas rosa-choque não são geradas por ela, mas por outras pessoas. Todo o seu imaginário, o teor das suas fantasias conscientes, é configurado pelo poder que vigora na tribuna da comunicação social. Esta mulher está morta porque a sua individualidade não é visível.
Leonor acaba o galão e paga a conta. Lucinda berra-lhe um lancinante volte-sempre.







