30 de dezembro de 2009


Amazona Frustrada (1990), óleo sobre tela de Julio Lavallén
http://juliolavallen.blogspot.com/

29 de dezembro de 2009

Dois Pássaros a Voar (2)

E todos percorremos as ruas como se fôssemos numa procissão antiga e sagrada, uma procissão de vermes movidos por uma implacável fisiologia exterior a cada um de nós, a de um animal feroz de que nós somos as células, o sangue e o pensamento que se repete década a década, século a século, fossilizado no fluido necrótico do seu egoísmo de rosto encoberto, besta senil e teimosa que se recusa a morrer. Percorremos as ruas aos tropeções, soltando envergonhados ganidos mudos, vergados por um cansaço indigno mas silencioso e humilde, cobardemente camuflado de acordo com a pedagogia dos heróis da frente, fiéis à escultura que se fez sem consentimento no cérebro de uma infância remota, de uma esperteza ingénua e tímida que não havia de percorrer estas velhas ruas … Mas percorre, necessariamente percorre com resignação faminta de pão. Não se trata de prostração, portanto. Caminhamos assim, de olhos chumbados, mal-humorados, permanentemente exaustos, porque a tal somos obrigados. Trata-se do mais elementar sentido de sobrevivência. Porque havia eu de ser diferente?
Não. Não sou diferente. E, por conseguinte, esta rua já nem a sinto ao certo, já não apreendo as vidas que por ela passam gemebundas, porque sei que são iguais à minha, de uma displicente vontade de chegar ao trabalho a horas de levar com os habituais bons-dias dos colegas, preferencialmente apáticos, a obsessão trágica de um relógio pela exactidão. E já só presto atenção aos cagalhões que de quando em quando flutuam na de resto alarmantemente branca e cinzenta paisagem urbana, este deserto habitado por fantasmas, pelos fantasmas que somos nós. Já só olho para o chão onde ponho os pés para não pisar um cagalhão.
Mas um cagalhão como este que acabo de ver é uma obra de arte! Uma peça de génio despretensioso e autêntico. Tomara eu ser um cão e poder defecar e urinar à vontade nesta e noutras ruas, em todas as ruas e todos os sítios, onde me apetecesse. Urinar e defecar sobre os tapetes das senhoras, para cima dos carros, urinar e defecar e fornicar frente à apatia de toda a gente, com um obsceno à-vontade de rei da cidade. Quem me dera ser um grande mastim rafeiro, urinar e defecar e encontrar cadelas por essa cidade, que para mim seria de uma infinita, de uma perpétua novidade. Quem me dera passar a vida num alegre deambular selvagem, como o cão que passou por esta rua e lançou a sua bosta sem se envergonhar do que fez.
Mas sou um ser humano. Sou um ser humano, e ainda por cima bem comportado. Não fui sempre assim. Este violento torpor quotidiano socorre-se das memórias da juventude para nelas depositar a alma do caminhante, nostálgico, que assim faz da vida um túmulo em que ele não está verdadeiramente morto, mas numa letargia de recordações de um outro tempo que não morrerá, que é a única coisa que resta de verdadeiramente seu e o define, a sua imortalidade. Recordo-me agora de quando andava na vadiagem com a trupe… Éramos então pequenos demónios maltrapilhos e percorríamos as ruas de outra maneira, de uma maneira que já não existe. Vagueávamos sem pressa à procura de coisas várias com que satisfazer uma ociosa sede de conhecimentos. Lembro-me de cada rosto moreno e voo para o ferro velho, que ficava atrás do cemitério, e revejo-me nesse degredo cheio de antigos carros amontoados numa desordem imóvel, com os meus companheiros de aventuras, sentados na capota de um Toyota Corolla de 73 cheio de ferrugem, contemplando a cidade em baixo sob o pôr-do-sol, fumando um charro proibido e bebendo vinho de pacote. E lembro-me da fedelha violência divertida com que nos vingávamos da escola e de todas as outras catequeses, com que libertávamos a fúria acumulada com uma disciplina que não compreendíamos nem queríamos compreender. Bem abençoada essa fúria … De vidros partidos com calhaus arrancados à calçada, arremessados com histérica força adolescente, bombas de alumínio e ácido muriático rebentando em caixotes do lixo, mijo nos puxadores das portas dos prédios, nas soleiras das janelas, colchões imundos e trotinetas largadas com estardalhaço de madrugada em quintais de vizinhos antipáticos (e uma vez até foi uma cabra) … E dá-me uma raiva de tudo isso ter acabado e por ter, sem o ter desejado deveras, singrado na vida e ser agora um homem feito carregando um fardo de obrigações morais. Uma raiva de já só ter amigos bem comportados e com uma decência orgulhosa e altiva, indivíduos sérios e carrancudos movidos por uma obsessão abstracta, esquecidos de si, e por eu próprio ser de certo modo assim.
Enquanto a mente divaga, certa que está da ausência de perigo no ambiente físico que a rodeia, os pés caminham automáticos. Quinze minutos e estou na estação de comboios da CP, onde a multidão se acumula à espera de um contentor que a leve aos diversos empregos. Sento-me num pequeno muro e sinto o vento gelado a varrer-me os pensamentos, que logo se diluem na atmosfera fria e cinzenta, e fico com a sensação de ter uma cara que contrasta com tudo o resto. E penso que tenho uma identidade susceptível de sofrimento, uma coisa com vontade própria. O comboio lá vem, já cheio, e a turba operária entra lá para dentro e aperta-se com a destreza habitual. O veículo arranca com uma força de sentido contrário ao do vento, que lá fora, furioso, protesta e reclama a sua soberania perdida, mas ninguém o ouve. O ar condicionado está ligado e as pessoas tiram os casacos e põem-se a ler o jornal gratuito, ou o romance de pacotilha da moda, ou falam com frenesi matinal dos assuntos do dia anterior, enquanto outros, como eu, lançam o olhar para o exterior que invernalmente fere o ânimo que sobra de tão costumeira vidinha laboral. E o monstro pára em todos os apeadeiros para deixar entrar e sair mais mão-de-obra.

27 de dezembro de 2009

La Piedra

Yo soy el que arroja la piedra,
el que le da su ímpetu y dirección,
el que aporta el músculo y la voluntad.
Ella es la que cruza el aire
y se clava lejos, adonde no se oye
mi paso ni el eco de su partida.
De este lado sólo queda el peso
de una vida que llama con leves
parpadeos: piel quemada, brazos laxos,
del que ha cumprido con su labor.
Del otro lado está el misterio
de la tierra nueva, los surcos
recién abiertos de la nueva edificación.
Pero de eso nada sé: allá no pueden
mis ojos, ni mi oído alcanza
a entender su voz. Sólo saben
que la piedra partió, que está clavada
en alguna parte, sostenida acaso
por su propira fe, adonde no llega
mi voluntad, ni la imaginación.

Rafael Felipe Oteriño

em Nueva Poesía Argentina, organização de Leopoldo Castilla, Hiperión, 1987

Dois Pássaros a Voar (1)

Depois de uma noite mal dormida, acordei tarde e confuso. Entre cada pestanejar, conseguia sentir a realidade a escorrer lentamente pelos meus olhos adentro a caminho do meu cérebro, que, desconfortavelmente, se via obrigado a largar o seus pensamentos etéreos e forçado a tentar decifrar a informação inescapável do mundo tangível. O sono e a vigília entrelaçavam-se ainda um no outro, ondulando como uma cortina ao vento. À medida que o exterior se impunha na minha mente, opressivamente dominando todos os meus sentidos, os primeiros pensamentos conscientes, ainda incoerentes, começavam a formar-se. “Não sei quem sou”, veio-me à superfície momentaneamente para desaparecer logo de seguida, afogado por uma série de considerações desconexas sobre as tarefas vulgares do ritual matutino. A evidência do mundo e de um novo dia, embora severamente filtrada, impunha-se já com alguma clareza. Nada me parecia diferente, nada tinha mudado, e tudo estava ali. Sem nenhuma perspectiva de mudar. E tinha mesmo que me levantar. Obediente, levantei-me então. Praticamente sem me dar conta do que estava a fazer, fui desajeitadamente em direcção à porta do quarto, abri-a e, enquanto saía, o gato entrou. Ignorei-o e continuei em direcção à casa de banho. Quando de lá saí para a cozinha, a neblina mental do acordar tinha sido substituída pelas nuvens carregadas da rotina por cumprir. Na cozinha, levantei a mão e liguei o rádio apanhando apenas o fim do noticiário – uma inutilidade qualquer sobre futebol, de como a “nossa selecção” tinha ganho não sei bem o quê, um jogo contra outras pessoas que eram de outro sítio, ao que parece. “Óptimo!”, pensei, “Ainda bem que aquelas pessoas marcaram mais golos do que as outras pessoas lá do outro sítio.”
Desencorajado, interrompi o repórter e desliguei o rádio. Com um suspiro na boca e no peito, fui em direcção ao frigorífico. Pão, umas latas de cerveja, manteiga, ovos e restos de anteontem. O suficiente. Por momentos, pensei em começar o dia como o Jim Morrison e beber uma cerveja, mas já tinha feito isso uma vez, em circunstâncias que prefiro não recordar e, francamente, não me apetece partilhar. Seja, e com isso tiro o pão e a manteiga, o meu pequeno-almoço preferido. Frente ao balcão, curvo a cabeça, encosto a testa à porta do armário e, nessa posição, com o peso do corpo suportado pela cabeça apoiada contra o móvel, como. Enquanto ponho os nacos de pão com manteiga na boca, os meus sonhos flutuam e dançam nalgum lugar intangível, mas vislumbres das suas sombras roçam a minha consciência. Deixo-me ficar assim enquanto como, nas esperança de que algo se cristalize, que haja alguma breve revelação. Nada.
Volto para o quarto: a rotina da roupa vem de seguida. Evitando ao máximo qualquer escolha complicada (também para poupar tempo, porque já estou atrasado), opto por uma combinação que sei ser aceitável, e assim rapidamente ultrapasso mais uma pequena etapa. Verdadeiramente não há muito mais a fazer. Pego nas coisas que preciso para o trabalho, verifico compulsivamente que tenho as chaves no bolso, saio do apartamento e desço as escadas.
Foda-se.
Com um resignado mau humor, dou meia volta e subo as escadas que tinha acabado de descer. Procuro as chaves na mochila – afinal estão no bolso; lá consigo entrar. Exacto: oiço o gato a miar por de trás da porta do meu quarto. Abro-lhe a porta e ele sai satisfeito, fugindo para qualquer lado. Sem mais demora, saio pela segunda vez pela porta da frente. Espero que o gato tenha comida. Não volto para verificar e desço as escadas. Quando saio pela porta do prédio, o mundo exterior atinge-me como um estrondo mudo: tudo no seu lugar. Habituado ao choque, já mal reajo – como se alguém me viesse dizer algo que eu já sabia. Paro por alguns segundos, respiro fundo e começo a andar. A rua onde moro, sem ser de luxo, é numa das partes relativamente boas da cidade – no centro, relativamente bem conservado, árvores e alguns canteiros. Moram lá pessoas de todos os tipos e de várias classes. Além disso, não é uma zona especialmente chique ou cara, o que a torna ainda mais apetecível. Enquanto faço o meu percurso, vou sobretudo olhando para o chão. No entanto, vou reparando nos pontos que vejo todos os dias e que me fazem sentir simultaneamente seguro e enjoado: o cabeleireiro antes de chegar à esquina, a padaria (o meu sitio preferido), o café onde antes comprava cigarros, etc. Não posso deixar de pensar: diferentes rotinas começam a diferentes horas – a da padaria já começou há algum tempo, a do café seguiu-se, o cabeleireiro ainda não abriu. Os respectivos donos ou donas tiveram uma rotina idêntica à minha de manhã. Só podem ter tido. Momentos de confusão idêntica perante os golpes imperdoáveis do despertador e da realidade exterior, e momentos subsequentes de resposta obediente e previsível – tal como a minha. Cada um deles na sua casa, no seu contexto, mas todos a fazerem o mesmo. Rodeados por objectos diferentes, mas guiados pelo mesmo impulso.
Sigo. Enquanto caminho, o interior da minha cabeça cintila com actividade neuronal que não posso controlar. Variadas memórias, pensamentos e imagens circulam. De um certo ponto de vista, gosto destes momentos – são uma espécie de teatro interior privado, onde constantemente surgem sementes de pensamentos, ideias e visões. Apesar de não ter praticamente nenhum controlo sobre o que se passa na minha cabeça, vou-me entretendo a pensar e a recapitular situações e a revisitar sentimentos. Algumas das memórias mais intensas, pela sua própria natureza e conteúdo, eventualmente brilham com mais força e causam um estranho espasmo físico. É como se os neurónios que tiveram a infelicidade de as recordar explodissem em todas as direcções numa minúscula super-nova de emoção, disparando impulsos eléctricos por todo o lado. O resultado peculiar é que, de tempos a tempos, como se alguém me apertasse subitamente um nervo sensível, torço e arrasto o pé (o esquerdo), que assim se submete às ordens de um órgão coordenador central onde, ironicamente, reina a desordem.
E assim começa mais um dia. Afasto-me de casa arrastando o pé e o espírito, ambos vassalos do passado e do presente, e de algo que verdadeiramente não entendo ou finjo não entender.

Córdoba, Argentina, 8 de Dezembro de 2009

Ao fim da tarde, o calor devidamente dissipado… Na praça central, as crianças morenas correm atrás das pombas e os casais jovens preparam secretas devassidões nocturnas, sob a estátua de um austero cavaleiro de olhos vigiantes que para mim não tem nome. Talvez tenha nome para os nativos, ou, se não nome, pelo menos um certo significado na existência colectiva do povo, é certo que inconsciente, mas talvez por isso mais importante e, atrevo-me a dizer, repressivo. Refiro-me a um vago nacionalismo pernicioso de província. Este pensamento ocorre-me porque sinto uma diferença substancial entre a minha liberdade e a vida destas pessoas, que permanecem acorrentadas à manjedoura onde nasceram, presas de uma beatífica inocência escrava. É como se, como tem acontecido noutras paragens, a minha libertina vontade colidisse com a prostração amorfa dos locais, como se vivêssemos, eu e a multidão, em mundos, não fisicamente, mas espiritualmente separados que de repente quase embatessem num meu assomo de lucidez.
Enquanto escrevo, dou-me conta da minha estupidez sociológica: é que eu só sou livre, isto é, só me posso dar ao luxo desta vadiagem de pensamento e de geografia, porque tenho de comer e tive uma educação que me forneceu os instrumentos necessários para percorrer estes caminhos. O mesmo não se pode dizer das pessoas que exibem uma rotineira alegria pueril nesta praça. É o que sinto… E dá-me uma tristeza…
A narrativa destrói a poesia.

30 de novembro de 2009

Untitled (Reward), 2009, de Charlotte Dumas

19 de novembro de 2009

vou escrever toda a verdade com esta caneta que me cansa

Sei do que a minha caneta precisa para escrever bem. Compreendo a minha caneta. Conheço-lhe os hábitos, por isso poderia inventar uma melhor. Hei-de inventar uma caneta melhor, porque sinto o que é preciso. Não gosto de carregar no papel, mas uma caneta de tinta permanente gosta que se carregue no papel. Estou habituado a escrever a lápis, porque me canso menos. A caneta de tinta permanente cansa-me a mão, porque tenho de carregar no papel. Hei-de inventar uma caneta que não obrigue a fazer força. A força que a caneta de tinta permanente exige não dá beleza à letra, por isso não se devia ter de fazer força. A força que se faz não deixa escrever bem, mas não vou pôr a minha caneta de parte enquanto não tiver inventado outra. Se a caneta se partir, mandá-la-ei concertar. Se a caneta se cansar, comprarei outra. Não deitarei fora esta caneta enquanto ela escrever. Não largarei esta caneta enquanto não tiver inventado uma nova. Quero que as pessoas trabalhem para se aperfeiçoarem, por isso escreverei com esta caneta. Gosto dos objectos aperfeiçoados. Não gosto dos objectos. Gosto dos objectos se são necessários. Não gosto da publicidade, porque a publicidade mente. Gosto da publicidade porque a publicidade é a verdade. Gosto da verdade, por isso vou escrever toda a verdade com esta caneta.

em Cadernos, Vaslav Nijinski, Assírio & Alvim, 2004

4 de novembro de 2009

Canadian Beauty

fotografia da autoria de Horace Roye

1 de novembro de 2009

8 FRAGMENTS FOR KURT COBAIN

1/
Genius is not a generous thing
In return it charges more interest than any amount
of royalties can cover
And it resents fame
With bitter vengeance

Pills and powdres only placate it awhile
Then it puts you in a place where the planet's
poles reverse.
Where the currents of electricity shift

Your Body becomes a magnet and pulls to it despair
and rotten teeth,
Cheez Whiz and guns

Whose triggers are shaped tenderly into a false
lust
In timeless illusion

2/
The guitar claws kept tightening, I guess on your
heart stem.
The loops of feedback and distortion, threaded
right thru
Lucifer's wisdom teeth, and never stopped their
reverberating
In your mind

And from the stage
All the faces out front seemed so hungry
With an unbearably wholesome misunderstanding

From where they sat, you seemed so far up there
High and live and diving

And instead you were swamp crawling
Down, deeper
Until you tasted the Earth's own blood
And chatted with the buzzing-eyed insects that
heroin breeds

3/
You should have talked more with the monkey
He's always willing to negotiate
I'm still paying him off...
The greater the money and fame
The slower the pendulum of fortune swings

Your will could have sped it up...
But you left that on an airplane
Because it wouldn't pass customs and immigration

4/
Here’s synchronicity for you:

Your music’s tape was inside my Walkman
When my best friend from summer camp
Called with the news about you

I listened them…
It was all there!
Your music kept cutting deeper and deeper valleys
of sound
Less and less light
Until you hit solid rock

The drill bit broke
and the valley became
A thin crevice, impassible in time,
As time itself stopped.

And the walls became cages of brilliant notes
Pressing in…
Pressure
That’s how diamonds are made
And that’s where it sometimes all collapses
Down in on you

5/
Then I translated your muttered lyrics
And the phrases were curious:
Like “incognito libido”
And “Chalk Skin Bending”

The words kept getting smaller and smaller
Until
Separated from their music
Each letter spilled out into a cartridge
Which fit only in the barrel of a gun

6/
And you shoved the barrel in as far as possible
Because that’s where the pain came from
That’s where the demons were digging

The world outside was blank
Its every cause was just a continuation
Of another unsolved effect

7/
But Kurt…
Didn’t the thought that you would never write
another song
Another feverish line or riff
Make you think twice?
That’s what I don’t understand
Because it’s kept me alive, above any wounds

8/
If only you hadn’t swallowed yourself into a coma
in Rome…
You could have gone to Florence
And looked into the eyes of Bellinni or Rafael’s
Portraits

Perhaps inside them
You could have found a threshold back to beauty’s arms
Where it all began…

No matter that you felt betrayed by her
That is always the cost
As Frank said,
Of a young artist’s remorseless passion

Which starts out as a kiss
And follows like a curse

em Void of Course, Jim Carroll, Penguin Books, 1998

27 de outubro de 2009

Insomniac

The night is only a sort of carbon paper,
Blueblack, with the much-poked periods of stars
Letting in the light, peephole after peephole –
A bonewhite light, like death, behind all things.
Under the eyes of the stars and the moon's rictus
He suffers his desert pillow, sleeplessness
Stretching its fine, irritating sand in all directions.

Over and over the old, granular movie
Exposes embarrassments – the mizzling days
Of childhood and adolescence, sticky with dreams,
Parental faces on tall stalks, alternately stern and tearful,
A garden of buggy rose that made him cry.
His forehead is bumpy as a sack of rocks.
Memories jostle each other for face-room like obsolete film stars.

He is immune to pills: red, purple, blue –
How they lit the tedium of the protracted evening!
Those sugary planets whose influence won for him
A life baptized in no-life for a while,
And the sweet, drugged waking of a forgetful baby.
Now the pills are worn-out and silly, like classical gods.
Their poppy-sleepy colors do him no good.

His head is a little interior of grey mirrors.
Each gesture flees immediately down an alley
Of diminishing perspectives, and its significance
Drains like water out the hole at the far end.
He lives without privacy in a lidless room,
The bald slots of his eyes stiffened wide-open
On the incessant heat-lightning flicker of situations.

Nightlong, in the granite yard, invisible cats
Have been howling like women, or damaged instruments.
Already he can feel daylight, his white disease,
Creeping up with her hatful of trivial repetitions.
The city is a map of cheerful twitters now,
And everywhere people, eyes mica-silver and blank,
Are riding to work in rows, as if recently brainwashed.

Sylvia Plath

24 de outubro de 2009

O RÉPTIL QUE DEIXOU DE SER RÉPTIL

Falamos também de uma aventura de visões que persistem inquietas nas suas mutações escandalosas, que nunca se tornam escassas e que porventura transbordam a taça da sanidade mental, que inevitavelmente transportam o monstro ao local onde ele é executado, apedrejado até à morte pelo povo ainda mais hediondo do que ele, sim o povo que se vê defraudado, talvez injustiçado, vilipendiado porque os actos do gigante se tornaram escabrosos, demasiado extasiantes, demasiado profanos e de uma obscenidade intolerável. Porque o réptil fartou-se de ser réptil, da sua condição reptiliana e rastejante, e decidiu inventar a dignidade e criar uma nova espécie, e então encarnou o conceito e tornou-se um homem e cresceu. Não se contentando com esse primeiro crime, ainda teve a ousadia de expandir o conceito e quis inventar a humanidade. Mas os répteis não querem deixar de ser répteis e rastejar sob o olhar implacável do Deus, também inventado, que logo lhes ordena que assassinem o monstro, o infame ser humano, antes que a humanidade nasça da nebulosa fantasia e comece a debandada geral. E então os répteis montam um altar, levam a ele o gigante e matam-no.
Acontece que o sangue do artista é também um acontecimento que gera um rio que não cessa porque é de uma abundância infinita. E é por isso que estamos aqui e falamos destas coisas, porque continuamente vemos o sangue do poeta extremo e dele bebemos, e dele nascemos, humanos, e continuamos a inventar a humanidade. Não desistimos.
high on rebellion


what i feel when i'm playing guitar is completely cold and crazy. like i don't owe nobody nothing and it's a test just to see how far i can relax into the cold wave of a note. when everything hits just right (just and right) the note of nobility can go on forever. i never tire of the solitary E and i trust my guitar and don't care about anything. sometimes i feel like i've broken through and i'm free and i could dig into eternity riding the wave and realm of the E. sometimes it's useless. here i am struggling and filled with dread – afraid that i'll never squeeze enough graphite from my damaged cranium to inspire or asphyxiate any eyes grazing like hungry cows across the stage or page. inside i'm just crazy. inside i must continue. i see her, my stiff muse, jutting about in the forest like a broken speeding statue. the colonial year is dead and the greeks too are finished. the face of alexander remains not solely due to sculpture but through the power and magnetism and foresight of alexander.

the artist preserves himself. maintain his swagger. is intoxicated by ritual as well as result. look at me i'm laughing. i am lapping cocaine from the hard brown palm of the bouncer. i trust my guitar.

therefore we blackout together. therefore i would wade thru scum for him and scum is ahead but we just laugh. ascending through the hollow mountain i am peeking. we are kneeling we are laughing we are radiating at last. this rebellion is a gas which we pass.

em Babel, Patti Smith, G. P. Putnam's Sons, New York, 1978

15 de outubro de 2009

O estrondo da lucidez quando recuperamos do ilusório estupefaciente... É como um bofetada fria, o choque do ar gelado quando embate com o calor do organismo, as vagas violentas do mar contra um rochedo solitário que perde a esperança e quase desaba para desaparecer nas águas do esquecimento. E nós revoltamo-nos, não gostamos desta diferença. Aqueles que de nós são corajosos, tomam uma de duas vias, em vez de ficarem parados - ou aceitam o mundo e morrem, perdendo-se nele para sempre, ou simplesmente incendeiam o mundo, ateiam fogos em toda a parte até serem assassinados.
Às vezes a música vem trazer alívio à alma danada, que na sua timidez conjectura uma aplicação da sua ira, num quarto onde toma lugar um tumulto secreto e insondável.
A música não tolera o silêncio, o segredo, e assalta todos os lugares, dissipa todas as sombras, desfaz todos os medos...
A cirurgia fará, claro, novos progressos, embora seja difícil perceber para que servirão. Todo o nosso modo de vida tem de se modificar. Nós não precisamos de melhores recursos cirúrgicos, precisamos de uma vida melhor. Se todos os cirurgiões, todos os analistas, todos os médicos pudessem ser retirados da sua actividade e reunidos durante um tempo no grande anfiteatro de Epidauro, se pudessem discutir em paz e sossego geral, a resposta seria encontrada rapidamente, e seria unânime: REVOLUÇÃO. Uma revolução à escala mundial de alto a baixo, em todos os países, em todas as classes, em todos os domínios da consciência. O combate não é contra a doença: a doença é um derivado. O inimigo do homem não são os micróbios, mas o próprio homem, o seu orgulho, os seus preconceitos, a sua estupidez, a sua arrogância. Nenhuma classe está imune, nenhum sistema possui uma panaceia. Cada um, individualmente, tem de se revoltar contra um modo de vida que não é o seu. A revolta, para ser eficaz, tem de ser contínua e inexorável. Não chega derrubar governos, senhores, tiranos: cada um tem de derrubar as suas próprias ideias preconcebidas de certo e errado, bom e mau, justo e injusto. Temos de abandonar as trincheiras arduamente disputadas em que nos metemos e sair para terreno aberto, e renunciar às nossas armas, aos nossos haveres, aos nossos direitos como indivíduos, classes, nações, povos. Mil milhões de homens que procuram a paz não podem ser escravizados. Escravizámo-nos a nós próprios com a nossa visão mesquinha e circunscrita da vida. É magnífico oferecer a própria vida por uma causa, mas os mortos não realizam nada. A vida exige que ofereçamos algo mais: espírito, alma, inteligência, boa vontade. A natureza está sempre pronta para preencher as lacunas deixadas pela morte, mas a natureza não pode fornecer a inteligência, a vontade, a imaginação para derrotar as forças da morte. A natureza restaura e repara, mais nada. Ao homem cabe erradicar o instinto homicida, que é infinito nas suas ramificações e manifestações. É inútil evocar Deus, assim como é vão responder à força com a força. Toda a batalha é um casamento concebido em sangue e angústia, toda a guerra é uma derrota para o espírito humano. A guerra é apenas uma imensa manifestação, em estilo dramático, dos falsos, ocos e pseudo conflitos que diariamente têm lugar em toda a parte, até mesmo nos chamados tempos de paz. Todo o homem contribui com a sua parte para manter a carnificina em acção, até aqueles que parecem manter-se afastados. Estamos todos envolvidos, participamos todos, quer queiramos quer não. A Terra é criação nossa e nós temos de aceitar os frutos da nossa criação. Enquanto nos recusarmos a pensar em termos do bem do mundo e dos bens do mundo, de ordem mundial e paz mundial, assassinar-nos-emos e atraiçoar-nos-emos uns aos outros. Isso pode continuar até à trombeta do juízo final, se desejarmos que seja assim. Nada pode trazer um mundo novo e melhor, a não ser o nosso próprio desejo de que ele chegue. O homem mata por medo, e o medo é uma hidra. Desde que comecemos a chacinar, não haverá fim para isso. Uma eternidade não chegará para vencer os demónios que nos torturam. Quem pôs lá os demónios? Eis uma pergunta para cada um fazer a si mesmo. Que cada homem sonde o seu próprio coração. Nem Deus nem o Diabo são os culpados, e certamente que não monstros tão insignificantes como Hitler, Mussolini, Estaline e quejandos. Certamente que não papões como catolicismo, capitalismo, comunismo. Para quê pôr os demónios lá, no nosso coração, para nos torturarem? É uma boa pergunta, e se a única maneira de encontrar a resposta é ir a Epidauro, então rogo a todos que larguem tudo e vão lá. Imediatamente.

em O Colosso de Maroussi (1941), Henry Miller, trad. Fernanda Pinto Rodrigues, Livros do Brasil, 1996

14 de outubro de 2009

Não concordo com a morte. Tenho medo do escuro.

13 de outubro de 2009

Sei que a arte é um simulacro de liberdade, talvez um treino para aquilo que virá no futuro a encher a gente de turbulências de corpos perigosamente próximos do ideal comum.
Sei que a arte é um engodo e que nele morre o peixe mais comum
próximo das tumescências do ópio, de um êxtase quase religioso - um estado de quase iluminação, quase o cerne da existência...
Sei que me engano quando procuro a verde negação das fronteiras inaliáveis da existência.
Sei que no fim...
Que no fim não haverá pão para ninguém, que tudo será putrefacção e vermes que sobrevivem
Que passam a vida a sobreviver porque nada mais existe.
Sei que produzo embustes para negar a passagem do Tempo.

11 de outubro de 2009

HR Giger

8 - A Mãe do Monstro

À noite, Leonor sonha que os espermatozóides do velho lhe entraram pela boca e agora vivem dentro dela, no estômago, como se ela fosse a baleia de Jonas e os espermatozóides fosses profetas nela aprisionados e angustiados. Um deles, o escolhido, alimenta-se dos vermes que lhe povoam o sistema digestivo e cresce, expande o seu organismo. Não tarda estará demasiado grande para caber dentro dela, e então terá de nascer, possivelmente encontrará o caminho para um buraco já existente, o ânus, e sairá por ele com asas, um homúnculo haplóide capaz de voar, e rasgará o ar silencioso da humanidade. As pessoas hão-de gritar e chorar, receosas da força voraz da terrível alimária, e sucumbirão ao inferno das suas mentes quando a besta exibir as garras. Depois, o mundo será uma desolação de carnes em putrefacção, e acabará assim o esplendor da nossa espécie, como alimento para a fome do demónio que Leonor acordou. Só que ela continuará viva, e será simultaneamente sua esposa e sua mãe, ele fará do seu útero um abrigo e um refúgio da monstruosidade que o faz cometer verdadeiras atrocidades, porque ele também é um ser humano, só que é demasiado grande e tem muita fome, vendo-se na obrigação de assustar toda a gente para depois lhes comer.

8 de outubro de 2009

Ganesh Baba, fotografia da autoria de Ira Cohen

7 de outubro de 2009

Blues Poem

I got no smile cause I'm down
I carry a horn to blow in all these streets
A solo riff out of my head
How could your ever know I feel
So high on life and feet and ass and legs and thighs
That I can rise and dance with all the stars
And I can eat the moon and laugh and I can cry
The dark caves of cities hungry streets
The tired faces dark and dreary bent
and all the death it dies
I let it die
I lift my horn and blow some sounds
some soul for kids to come
Some unborn sun
in darker streets than mine
Magicians carry wings so they can fly
Let's blow a horn and love
Let's get on it and ride
and laugh and dance and jive
Let's shake the dead and let the downers die
The magic of the singers warms the earth
A song
A poem
Some paradise of mind
I got to smile now
I'm feeling good
The city street
The palace of my mind

Jack Micheline


em The Outlaw Bible of American Poetry, edited by Alan Kaufman, Basic Books, 1999
É bom estarmos apenas simplesmente felizes, é um bocadinho melhor sabermos que estamos felizes; mas compreender que estamos felizes e saber porquê e como, de que maneira, graças a que encadeamento de acontecimentos ou circunstâncias, sabê-lo e mesmo assim estarmos felizes, estarmos felizes no estar e no saber, bem, isso transcende a felicidade, isso é beatitude, e se possuímos algum bom senso devemos matar-nos ali, no momento, e acabar com o assunto.

em O Colosso de Maroussi (1941), Henry Miller, trad. Fernanda Pinto Rodrigues, Livros do Brasil, 1996

4 de outubro de 2009

Os extremos marcam a fronteira para lá da qual não há vida, e, tanto em arte como em política, a paixão do extremismo é um desejo de morte disfarçado.

Milan Kundera

(Eh pá, ó Milan, essa afirmação parece ser muito inteligente, mas o meu anarquismo não é um desejo de morte disfarçado, mas uma afirmação de vida.)

3 de outubro de 2009

I think that a guy who is always interested in the condition of the world and changing it, either has no problems of his own or refuses to face them.

Henry Miller no filme Reds (1981), de Warren Beatty, sobre John Reed.

(Para todos aqueles que têm a pretensão de querer mudar a sociedade: a política é uma merda, não há nela altruísmo mas cobardia, cobardia do indivíduo que não toma consciência de si. Sim Henry, o político é um ser cobarde.)

A Ausência do Mito

Vi uma coisa que ainda ninguém viu.
Vi uma coisa que se partiu em mil fragmentos dourados
outros de uma rutilância espectral
outros de uma escuridão fatal, a matriz de toda a absurda escuridão do mundo
tão insuportavelmente real.
Apanhei os fragmentos, e com eles quis fazer um novo Deus, para oferecer ao mundo
- os fragmentos não se juntaram, a desordem tinha uma força que os mantinha soltos e espalhados
e então deitei-os fora, os fragmentos que formam o mundo,
e agora o que é mundo?
Reparo ainda nos fragmentos, nos padrões que formam e que se vão criando e destruindo, a plasticidade das coisas fortuitas,
e os fragmentos deslocam-se para longe,
e não entendo, não entendo como uma coisa tão perfeita se pode assim desconjuntar e transformar-se em porcaria cósmica.
Não entendo a inexistência de Deus.

Nenhuma delas pode ser fruída ou abraçada se a outra estiver ausente.

Quando acordei e subi à coberta, o navio deslizava por um estreito apertado. De ambos os lados havia colinas baixas e áridas, suaves outeiros de terra salpicados de violetas e de proporções humanas tão íntimas que faziam chorar de alegria. O sol estava quase no zénite e o seu fulgor era ofuscantemente intenso. Encontrava-me precisamente naquele pequeno mundo grego cujas fronteiras descrevera no meu livro alguns meses antes de deixar Paris. Era como acordar e encontrar-me vivo num sonho. Havia algo de fenomenal na proximidade luminosa destas duas costas cor de violeta. Deslizávamos exactamente da mesma maneira que le douanier de Rousseau descrevera no seu quadro. Era mais do que uma atmosfera grega: era poético e não pertencia a nenhum tempo ou lugar efectivamente conhecidos pelo homem. O próprio barco era o único elo com a realidade. Estava cheio até às muradas de almas perdidas desesperadamente agarradas aos seus poucos haveres terrenos. Mulheres esfarrapadas, de peitos desnudos, tentavam em vão amamentar os filhos pequenos que berravam desalmadamente; estavam sentadas no chão da coberta, num chiqueiro de vómito e sangue, e o sonho que iam atravessando nem lhes roçava as pálpebras. Se tivéssemos sido torpedeados naquele instante, teríamos passado assim, no meio de vómito, sangue e confusão, para o negro mundo inferior. Naquele momento rejubilei com o facto de ser livre de haveres, livre de todos os laços, livre de medo e inveja, e maldade. Podia ter passado serenamente de um sonho para outro sem possuir nada, sem lamentar nada, sem desejar nada. Nunca tive maior certeza de que a vida e a morte são uma e a mesma coisa e nenhuma delas pode ser fruída ou abraçada se a outra estiver ausente.

em O Colosso de Maroussi (1941), Henry Miller, trad. Fernanda Pinto Rodrigues, Livros do Brasil, 1996

1 de outubro de 2009

Falamos de Arte, falamos de Crime, falamos de Revolução.

A arte e o crime provêem talvez da mesma fonte. A arte é essencialmente criminosa, se for a sério, porque transgride, isto é, só encontra sentido na revolta, porque o desacordo com a realidade tem de se manifestar num comportamento hostil à mesma. Em virtude dessa tensão entre o sujeito e aquilo que o enjoa, este acumula durante uma boa parte da sua vida um ódio e uma energia que inicialmente se reprimem, por serem assustadores, mas que depois, por continuarem a encher em catadupas a cabeça do pobre demónio, o obrigam a deitar tudo cá para fora. E então o gajo canta, e diz que é tudo horrível e que tudo está mal… Não chega a dizer que é preciso mudar a realidade, nem parte desse pressuposto, nem muitas vezes toma consciência dessa vontade; antes grita e chora. Mas, nos outros que o ouvem e o vêm nos seus andrajos, o seu público, começa a acordar uma consciência, a qual é verdadeiramente perigosa porque se pode traduzir em mudança.
A arte é um crime. A arte é um crime político.

30 de setembro de 2009

7 - Lázaro ressuscita para a mão de Leonor

Entretanto, a miúda chega com o seu andar naturalmente pérfido, balanceando a atenção do espectador embasbacado e supliciado, agitando as sementes nos colhões que gostariam de conquistar aquela terra repleta de carícias, romance e tragédia, para nela germinar depois a imortalidade de Adão e de Eva, os amantes primordiais. Vem… À tua passagem cresce a roseira brava onde o orvalho jaz apaixonado, a tua vinda põe termo à malícia de toda a humanidade, que morre perante a contemplação do teu corpo.
Eis o que pensa a velha tartaruga de costas tortas com o que resta da sua juventude, que reside na cabeça aprisionada em memórias, um desejo meramente mental que não tem forma de se expressar porque o corpo não responde, o caralho permanece naquela horrorosa prostração encarquilhada e serena, naquela moleza infecta cheia de medicamentos.
― Se não se importa, não preciso de o ver, mas agradecia que mo embrulhasse.
― Com certeza.
E então o velho, saudoso de antigas erecções, põe-se a agarrar e a agitar o membro preguiçoso com fúria, olhando para o traseiro de Leonor, mas o gajo não se entesa, não, em vez disso são as lágrimas da impotência que se ejaculam dos olhos e correm com abundância pelos vales do rosto cansado. E, mal ela acaba de embrulhar o livro e olha para o cliente, ele continua com a mão a segurar o pirilau reformado, a chorar, e olha para ela com um focinho de cão angustiado que mete dó. Pede desculpa. E ela tem pena, faz uma expressão de tristeza e bondade e dirige-se para ele, põe-se de cócoras e pega-lhe na mão, na outra mão que nervosamente tentava limpar as lágrimas do rosto, e a primeira acanha-se e desgarra o pénis inútil.
― Então, o que é que passa? Diga-me, por favor… – Também ela já com as lágrimas a nascerem-lhe nos olhos, a voz trémula. – Posso fazer alguma coisa?
O velho geme, tenta dizer qualquer coisa, mas não consegue deixar de gaguejar, mas eis que se exalta e grita:
― Já não sou um homem, porra! – Agarra na mão dela com brutalidade e põe-na com violência no pénis senil. – Isto está morto, ouviu!? Morto! …
― Largue-me! – E espeta-lhe um estalo que o leva ao chão.
O velho desfaz-se em lágrimas e encolhe-se em posição fetal, abandonado à devastação da sua fragilidade naquele momento. Leonor recupera a bondade e deposita a mão piedosa no braço do senhor, e diz-lhe:
― Como é que não é homem? Com certeza que é, e com muito para dar…
― Pois então prove-mo. – As lágrimas entrando na garganta quase octogenária, formando nervosas palavras líquidas e ridículas que aprendem a morrer.
Leonor toma consciência de uma sensação estranha que a invade, a de ter um dever premente a cumprir, e então baixa a mão para o sexo do homem e lentamente começa a mexer nele, enquanto a outra mão se enfia no seu próprio sexo e os olhos manifestam uma sensação de deleite que é apenas a recordação de um hábito, revirando-se e fitando o tecto, e geme palavras porcas como se estivesse num filme porno a ser visto por adolescentes virgens. E eis o milagre: o pénis do homem volta à vida e larga uma torrente enorme de sémen, com milhões de lázaros espermatozóides.
O velho vai-se embora balbuciando agradecimentos e batendo nervosamente no chão com a bengala de que já não precisa, e Leonor imagina que, em vez do livro, ele oferecerá à mulher o vigor ressurrecto, e então a mente da esposa desfrutará da recordação do tempo em que os dois eram capazes e gozavam, descrentes do amanhã. Em dias como estes, Leonor sente-se magnânime, de um altruísmo que a liberta por momentos do pequeno caos da sua vida, e rejubila ao constatar que a vida dela pode servir para alguma coisa além de estar atrás daquele balcão a vender livros, que os seus actos são manifestações ocasionais de uma missão cujos contornos reais são por enquanto insondáveis, mas existentes. Pois a nossa heroína sabe da existência de um projecto, entrevê-o vagamente através do nevoeiro que preenche o seu quotidiano, o horrível fumo de escape, vislumbra uma coisa vaga que está ali algures. E talvez não tarde a ouvir o rugido do leão na planície da celebração perpétua, o lugar da sua permanência do Tempo, e talvez o grande felino venha ter consigo amanhã e a encarne.
(Toda a gente tem um animal que a representa. O dela é o leão, criatura obscena mas de uma certa nobreza, o orgulho de uma dignidade denunciada pela pose.)

29 de setembro de 2009

Porque sempre estive isolado, Sofia, durante a escola, o liceu, a faculdade, o hospital, o casamento, isolado com os meus livros por demais lidos e os meus poemas pretensiosos e vulgares, a ânsia de escrever e o torturado pânico de não ser capaz, de não lograr traduzir em palavras o que me apetecia berrar aos ouvidos dos outros e que era Estou aqui, Reparem em mim que estou aqui, Oiçam-me até no meu silêncio e compreendam, mas não se pode compreender, Sofia, o que se não diz, as pessoas olham, não entendem, vão-se embora, conversam umas com as outras longe de nós, esquecidas de nós, e sentimo-nos como as praias em outubro, desabitadas de pés, que o mar assalta e deixa no baloiçar inerte de um braço desmaiado. Sempre estive sozinho, Sofia, mesmo na guerra, sobretudo na guerra, porque a camaradagem da guerra é uma camaradagem de generosidade falsa, feita de um inevitável destino comum que se sofre em conjunto sem de facto se partilhar, estendidos no mesmo abrigo enquanto os morteiros estoiram como os ventres repletos de ferro ferido dos cancerosos nas enfermarias do hospital, apontando ao tecto narizes agudos de pássaros que apodrecem, sozinho, mesmo na missão abandonada, sentado com o tenente no banco traseiro do jipe sobe as acácias, a escutar os insectos e os pássaros e o ensurdecedor silêncio de África, sozinho na enfermaria no meio dos feridos que gemiam, e choravam, e chamavam por mim noites a fio, dobrados pelo medo e pelas dores. Que imbecil aquela guerra, Sofia, digo-te eu aqui acocorado na sanita diante do espelho que implacavelmente me envelhece, sob esta luz de aquário e estes azulejos vidrados, estes metais, estes frascos, estas louças sem arestas, que imbecil aquela guerra numa África miraculosa e ardente onde apetecia nascer como o girassol, o arroz, o algodão e as crianças surdem num impero de géiser, fumegante e triunfal.

em Os Cus de Judas, António Lobo Antunes, Leya, 26ª Edição (bolso), 2008

28 de setembro de 2009

The artist keeps breaking on through to the other side.


TÊM QUE VER ESTE VÍDEO. É OBRIGATÓRIO!!!


O Primeiro

Era uma vez um poeta. Não se sabia o que era um poeta antes de ele ter nascido, nem se sabia o que era o amor ou a liberdade, e ninguém cantava, ou sequer saltava, na rua. A voz não passava de um instrumento ao serviço de um pragmatismo puro e horrível de sobrevivência, porque assim tinha de ser. Ninguém pinocava sem ser na posição de missionário, como estava prescrito e com o mínimo de prazer, para trazer a filharada útil ao reino, e eles cumpriam-no à risca, porque sentiam o olhar implacável de um ser superior sobre as suas cabeças, observando-as sempre de perto, um Deus horrível que até os pensamentos vigiava. O que era o mundo? Que imagens e sonhos povoavam este sítio, que costumes e teorias? O mundo era um pouco o que é hoje, com menos palavras e menos complexidades – uma comunidade de camponeses felizes e simpáticos a mando de um tirano que eles diziam ter sido enviado por Deus para os governar, um rei balofo que tinha tantas meretrizes quantas quisesse e quando quisesse, e que estava constantemente bêbado, o que era um hábito feliz da sua divindade. Mais ninguém bebia, todo o vinho era enfiado em garrafas de vidro de várias formas e cores e armazenado nas caves do palácio real, que os pajens iam buscar para dar de beber ao rei. E quando este se irritava, farto talvez de ver o mundo inteiro a gemer à sua volta numa elíptica permanente de que ele era o centro, malhava nos servos, açoitava os cavalos, queimava as colheitas… Às vazias o rei morria, mas logo a seguir vinha outro, filho do primeiro e mais jovem e bonito, e as pessoas então rejubilavam, aplaudiam muito nos desfiles em que o novo glutão acenava e sorria, exibindo o esplendor da sua figura e poder. Era sempre um homem. Era o Grande Macho, o Grande Latifundiário. E era isso a nação, um galinheiro em que todos andavam a esgravatar na sua felicidade sem nada saberem, a espiritualidade no poder e no sangue, centrada no galináceo principal que flutuava na penugem vermelha dos outros galináceos, e isto sucedia-se com impressionante naturalidade e fazia parte da vida, ninguém julgava nada e sobretudo ninguém pensava nada, tudo fluía sem filosofia.
Um dia, nasceu o primeiro exemplar do que viria a ser designado como um poeta, e a partir daí tudo mudou…

22 de setembro de 2009

O Piano de Michael Nyman

20 de setembro de 2009

O Altruísmo de Susan Sontag



I mean, if you are going to be a creative person, you will be in some way a dissenter, you will be in a diasagreement with a lot what is going on in your society.

A free life is one in which you are willing to be uncomfortable some of the time, and insecure some of the time.

Mulherengos Líricos e Mulherengos Épicos

Os homens que têm a mania das mulheres dividem-se facilmente em duas categorias. Uns procuram em todas as mulheres a ideia que eles próprios têm da mulher tal como ela lhe aparece em sonhos, o que é algo de subjectivo e sempre igual. Aos outros, move-os o desejo de se apoderarem da infinita diversidade do mundo feminino objectivo.
A obsessão dos primeiros é uma obsessão lírica; o que procuram nas mulheres não é senão eles próprios, não é senão o seu próprio ideal, mas, ao fim e ao cabo, apanham sempre uma grande desilusão, porque, como sabemos, o ideal é precisamente o que nunca se encontra. Como a desilusão que os faz andar de mulher em mulher dá, ao mesmo tempo, uma espécie de desculpa melodramática à sua inconstância, não poucos corações sensíveis acham comovente a sua perseverante poligamia.
A outra obsessão é uma obsessão épica e as mulheres não vêem nela nada de comovente: como o homem não projecta nas mulheres um ideal subjectivo, tudo tem interesse e nada pode desiludi-lo. E esta impossibilidade de desilusão encerra em si algo de escandaloso. Aos olhos do mundo, a obsessão do femeeiro épico não tem remissão (porque não é resgatada pela desilusão).
Como o femeeiro lírico gosta sempre do mesmo tipo de mulheres, quase nem se repara quando tem uma amante nova; os amigos causam-lhe sérios embaraços porque nunca vêem que a sua companheira já não é a mesma e tratam as suas amantes sempre pelo mesmo nome.
Na sua caça ao conhecimento, os femeeiros épicos afastam-se cada vez mais da beleza feminina convencional (de que depressa se cansam) e acabam infalivelmente como coleccionadores de curiosidades. Têm consciência de tal coisa, envergonham-se um pouco dela e, para não incomodar os amigos, nunca aparecem em público com as amantes.

em A Insustentável Leveza do Ser, Milan Kundera, trad. Joana Varela, Dom Quixote, 1986

The Black Art, poema de Anne Sexton

A woman who writes feels too much,
those trances and portents!
As if cycles and children and islands
weren't enough; as if mourners and gossips
and vegetables were never enough.
She thinks she can warn the stars.
A writer is essentially a spy.
Dear love, I am that girl.

A man who writes knows too much,
such spells and fetiches!
As if erections and congresses and products
weren't enough; as if machines and galleons
and wars were never enough.
With used furniture he makes a tree.
A writer is essentially a crook.
Dear love, you are that man.

Never loving ourselves,
hating even our shoes and our hats,
we love each other, precious, precious.
Our hands are light blue and gentle.
Our eyes are full of terrible confessions.
But when we marry,
the children leave in disgust.
There is too much food and no one left over
to eat up all the weird abundance.

em The Complete Poems, Anne Sexton, Mariner Books, 1999


19 de setembro de 2009

Arte CoBrA



















Karel Appel, Wild Horse Rider

Logro

A poesia aparece furiosamente com as suas súplicas de uma existência perfeita, eterna, bonita, exigindo a extinção do cheiro da morte e querendo incendiar hospitais e cemitérios, igrejas e todos os edifícios que possam porventura acolher o indizível sofrimento do ser humano, e as palavras que o escolhido profere são de outro tipo – infância, fogo, música, transformação, nudez, movimento, cópula, respiração –, e de repente tudo aparece assim, de uma inocência fundamental que renasce em todo o lado, o absolutismo da arte dominando a vida em todas as instâncias.
No fim, depois de tanto espalhafato inútil, o poeta morre para não mais viver.

Alpinistas

Temos ascendido com frequência notável ao tipo de loucura plena de bem-aventurança, de pernas fracas e bambas e o suor escorrendo como feixes de mel espesso pelas costas atribuladamente, colando-se à roupa, uma aventura através do cansaço para chegarmos lá acima, ao planalto enevoado onde dançamos com as odaliscas nuas em cima das nuvens, a luz na erva e nos pássaros, espalhada com um fulgor obsceno por toda a parte, um azul feérico irreal envolvendo-nos e massajando-nos a pele, que é uma película frágil através da qual comunicamos com o mundo. Chegamos e desaparece-nos o cansaço, desaparece tudo e transformamo-nos em pura sensação, puro júbilo orgásmico infinito. Esta intensidade não tardará a matar-nos, mas o facto não é significativo.

18 de setembro de 2009



















Nighthawks
, Edward Hopper, 1942

Canto Moço



Somos filhos da madrugada
Pelas praias do mar nos vamos
À procura de quem nos traga
Verde oliva de flor no ramo
Navegamos de vaga em vaga
Não sabemos de dor nem mágoa
Pelas praias do mar nos vamos
À procura da manhã clara

Lá no cimo de uma montanha
Acendemos uma fogueira
Para não se apagar a chama
Que dá vida na noite inteira
Mensageira pomba chamada
Companheira da madrugada
Quando a noite vier que venha
Lá no cimo de uma montanha

Onde o vento cortou amarras
Largaremos p´la noite fora
Onde há sempre uma boa estrela
Noite e dia ao romper da aurora
Vira a proa minha galera
Que a vitória já não espera
Fresca brisa moira encantada
Vira a proa da minha barca

Estupor Agradável

E o que dizer do álcool? Um indivíduo que desconhecesse a composição elementar das moléculas e a cadeia de reacções que desemboca no nascimento de todo o tipo de objectos, mesmo contra a vontade destes, esse indivíduo diria simplesmente que o álcool é a substância alquímica da alegria. A ideia aproxima-se da verdade emocional demasiado certeiramente, bate certo com o que sabemos intuitivamente sem considerarmos o conhecimento escolástico de que somos os filhos indesejados, o conhecimento no qual não tomamos parte construtora sem antes perdermos os caralhos as conas os intestinos, sem antes nos transformarmos em meras bocas disformes e grotescas semelhantes a poças lodosas nauseabundas espalhadas pela superfície da terra com desagradável preguiçosa comísera punição, sem antes perdermos a vida e nos tornarmos estátuas corriqueiras que simbolizem um idolatrado deus verdadeiramente ausente, e de tomarmos o rumo da pura representação… E o que sobretudo amamos não passa de um mito inventrado por outrém!
Mas ainda não somos máquinas, queremos ainda ficar emboscados neste redemoinho de alegorias incompreensíveis devoradoras de incauto esperma consagrado a obliteradas aventuras sôfregas, votadas previamente à feliz resignação do fracasso, ao destino onde a transmutação se cumpre eternamente e a vida é simplesmente um rio que transborda e inunda tudo.

17 de setembro de 2009

Lobo Antunes na Guerra Colonial

A pouco e pouco a usura da guerra, a paisagem sempre igual de areia e bosques magros, os longos meses tristes do cacimbo que amareleciam o céu e a noite do iodo dos daguerreótipos desbotados, haviam-nos transformado numa espécie de insectos indiferentes, mecanizados para um quotidiano feito de espera sem esperança, sentados tardes e tardes nas cadeiras de tábuas de barril ou nos degraus da antiga administração de posto, fitando os calendários excessivamente lentos onde os meses se demoravam num vagar enlouquecedor, e dias bissextos, cheios de horas, inchavam, imóveis, à nossa volta, como grandes ventres podres que nos aprisionavam sem salvação. Éramos peixes, percebe, peixes mudos em aquários de pano e de metal, simultaneamente ferozes e mansos, treinados para morrer sem protestos, para nos estendermos sem protestos nos caixões da tropa, nos fecharem a maçarico lá dentro, nos cobrirem com a Bandeira Nacional e nos reenviarem para a Europa no porão dos navios, de medalha de identificação na boca no intuito de nos impedir a veleidade de um berro de revolta. […] Éramos peixes, somos peixes, fomos sempre peixes, equilibrados entre duas águas na busca de um compromisso impossível entre a inconformidade e a resignação, nascidos sob o signo da Mocidade Portuguesa e do seu patriotismo veemente e estúpido de pacotilha, alimentados culturalmente pelo ramal da Beira Baixa, os rios de Moçambique e as serras do sistema Galaico-Duriense, espiados pelos mil olhos ferozes da Pide, condenados ao consumo de jornais que a censura reduzia a louvores melancólicos ao relento de sacristia de província do Estado Novo, e jogados por fim na violência paranóica da guerra, ao som de marchas guerreiras e dos discursos heróicos dos que ficavam em Lisboa, combatendo, combatendo corajosamente o comunismo nos grupos de casais do prior, enquanto nós, os peixes, morríamos nos cus de judas uns após outros, tocava-se um fio de tropeçar, uma granada pulava e dividia-nos ao meio, trás, o enfermeiro sentado na picada fitava estupefacto os próprios intestinos que segurava nas mãos, uma coisa amarela e gorda e repugnante e quente nas mãos…

em Os Cus de Judas, António Lobo Antunes, Leya, 26ª Edição

ALTAMENTE RECOMENDÁVEL

"My mission is to communicate, to wake people up, to give them my energy and accept theirs..."

Automaat...

Tento descrever uma paisagem puramente onírica. Que linguagem usar? Tento esgravatar no subconsciente, mas talvez este tenha morrido, soterrado em tanto bloqueio católico. Depois, dizem-me que o subconsciente existe e persiste, que o animal nunca morre, que o monstro é imortal e é por causa dele que eu estou vivo.
Portanto, como descrever uma paisagem onírica? Que linguagem usar?
Respiro fundo. Tudo começa com um golpe profundo na barriga. Urro de dor, ouço a lâmina a raspar-me num osso e tenho a coragem de perguntar: Qual osso? Qual osso? Começo a rir-me, despejo gargalhadas inúteis na solidão da noite encardida.
Devia ter um plano, parar um bocado para pensar nele. Não paro de escrever, sou um autómato. Sou um instrumento, mas não sei quem é que me está usar, quem me grita palavras ao ouvido, que energia é esta que eu tenho... Não para de vomitar essas palavras. Não tenho nenhum plano, nenhuma estrutura dentro da minha cabeça. Não quero salvação, nem procuro o mecanismo. Talvez isto seja terapêutico, esta ruptura com o inteligível?...
Passo dois dias no Inferno e volto de lá alegremente intoxicado. Esta corrupção, esta intoxicação. O acto que represento é dos mais perigosos.
Gostava de inventar uma ficção, para acabar com o tédio do egocentrismo, uma ficção que se possa escrever facilmente, com uma dialética razoável, uma história na qual eu me perca diariamente quando chego a casa, um vício, uma prisão adorável. Uma experiência lírica objectiva, que sirva para eu perder-me de mim. Porque o que eu quero, honestamente, é perder-me de mim e aventurar-me na dimensão dos prazeres impessoais, dedicar-me ao hedonismo antigo.

16 de setembro de 2009

Les Enfants Terribles

E ainda que os ventos perigosos nos empurram furiosos para as escarpas da morte, nos obriguem a vacilarmos perante o espectáculo aterrador dos abismos de bocas abertas para nos apanharem a carne fresca de crianças loucas, eternamente nascidas para as emboscadas da vida, eternamente ignorantes, eternamente embriagadas, ainda que os elementos conspirem para nos calarem para sempre, grita em nós continuamente uma consciência larvar de esperança, uma promessa de democracia, a ousadia de construir um campo imenso onde se possa brincar à vontade, e o estado original regresse para não mais cair no esquecimento.

15 de setembro de 2009

Silly hangover

The scene stands stubborn: num quarto suburbano mergulhado em trevas homicidas, exactamente no meio da civilização mas longe de qualquer contacto humano, um homem é assaltado pelos pensamentos negros habituais, imaginações que principiaram subtis e que agora o atacam violentamente, que agora quase o submergem. O homem permanece obsequiosamente vivo contra a sua vontade mais genuína, num corpo agonizante que se recusa a mexer, em delírio numa horrível tarde de Domingo depois de um escândalo nocturno – mais um, neste caso. A roupa vomitada no chão. O que é que se pode fazer? – Estes dias são mesmo assim, um gajo sai à rua para espairecer apenas, para levar com ar nas trombas, estar com a gajada emparvecendo a juventude, e acaba por apanhar uma bezana descomunal, de caixão à cova., absolutamente inútil. Quatro compinchas num parque público e três garrafas de estupefacção engarrafada, a danada percentagem de etanol, escassas pessoas passando por eles. A noite é uma criança. Tinham decidido apanhar uma tosga assim de repente, e então passaram pelo contenente e compraram um brande, uma garrafa de cachaça com limonada (dizia caipirinha no rótulo) e uma garrafa de rum ornamentada com a imagem de um palhaço do defunto império britânico. Tudo fácil depois de uns tragos, agora é uma porcaria pesada que não lhe sai da cabeça. Trôpegos e alegres, com a cabeça ausente, limpa de toda a imundície da vida acordada habitual, começaram a correr – esta cena passa-se no Parque das Nações perto do Oceanário, há para ali uns canteiros e umas poças de água que se tornam muito porreiros quando se está alcoolizado. Andaram por ali aos saltos como crianças terríveis sem os pais por perto, putos novos que reencontraram a inocência, a genuína inocência que o álcool por vezes concede. Putos sem pensamentos importantes e com uma alegria genuína no lugar do espírito. Putos genuinamente alegres.
O homem cansou-se de tão neurasténica alegria... Sente-se mal e quer vomitar as entranhas. Está dentro dele encurralado, maior do que a bebedeira que apanhou. Crê que os outros não se deixaram vencer pelo ego da angústia - porque, sem dúvida, a eles também lhes deve estar a custar, mas para eles não passa de um mal-estar físico, uma dor orgânica legítima, sem indícios vagos de preocupações éticas e existencialismos mesquinhos, mas o homem sente-se submerso num mundo a que não pertence, divagando palermas alucinações. Tem estado doente desde que nasceu.

Na curva da estrada à covas feitas no chão e em todas florirão rosas de uma nação.

Back to the 60s!

It can be even more important than reading the byble six times, or becoming a pope, or something like that.

We shall overcome.

Free at last! Free at last! Thank God Almighty, we are free at last!

Cry baby.

Wear some flowers in your head!

California dreamin´.

14 de setembro de 2009

Pura invenção militante - qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência

O Sócrates caiu da cadeira com entalhes rócócós de ouro para o pirilau enorme da mulher do Cavaco Silva, o actual presidente da república, que está em casa a ver a cerimónia de coroação do Salazar. Os quatro homens em questão acreditam no poder e na morte. E em fogo de artificio, pago pelos contribuintes para que a alienação se possa perpetuar infindamente.

Paradoxo

O que é a Democracia? O suicídio progressivo do Estado, a sua morte lenta.
O que é a Arte? Desnudação pública contagiante. O desígnio de extrema liberdade.

6 - A latrina onde Leonor caga sobre despotismo da Literatura

Até à hora do almoço, entra na livraria apenas um velhote de costas tortas com uma bengala, a olhar para os livros muito vagarosamente e demorando-se na leitura dos títulos, murmurando imperceptíveis coisas que nascem da poeira do cérebro. A empregada oferece-lhe os préstimos, ele sorri e diz que está só a ver, obrigado. Leonor deixa-se estar atrás do balcão, põe o cabelo para trás das costas, cruza os braços e recosta-se na cadeira, os seios retesando a blusa vermelha, a olhar para o velhote prestes a desconjuntar-se ao mínimo tropeção numa frase magnífica ou numa imagem sugestiva de algo menos corriqueiro que o quotidiano prenhe de lugares comuns, algo que ainda seja capaz de satisfazer os apetites recônditos de um idoso com os pés para a cova. Não tropeça, mas dirige-se a ela com ar de cágado sabichão com dobras antigas no pescoço, lianas de pântano moribundo aos tremelicos. Em contrapartida, a fragilidade do corpo é recompensada pela esperteza do olhar e a limpidez da voz.
― Bom dia. Eu vim aqui para ver se encontrava um livro de poemas para a minha esposa, que gosta muito de ler. Talvez me possa ajudar. Tem alguma sugestão? António Gedeão não seria má ideia. Andava lá por casa um livro dele, mas o meu neto levou-o.
― António Gedeão não temos. Talvez lhe possa sugerir um livro do Cesário Verde. Saiu há pouco tempo, é de um manuscrito que encontraram recentemente no baú de um descendente de Silva Pinto, que publicou a compilação da sua poesia. Pelos vistos incompleta…
― Parece-me bem. Posso dar uma vista de olhos?
― Com certeza. Vou buscá-lo. Mas sente-se, ponha-se à vontade…
E, enquanto Leonor se dirige à secção onde os rostos dos poetas ainda lutam para ostentarem as suas particularidades – sim, porque a poesia é uma afirmação de rostos, de traços individuais, porque denuncia continuamente a tragédia da individualidade –, o velho senta-se vagarosamente numa poltrona encostada a uma parede de tijolos vermelhos, perto de uma ferrugenta escada em caracol que sobe para o misterioso andar de cima, onde talvez o patrão da empregada faça ocasionalmente uma pequena peregrinação de livros e reflexão, ou somente os livros morram soterrados em pó e escuridão, ou simplesmente o andar onde a empregada possa ir verter os líquidos e putrefacções habituais, que vencem assim literatura, que no andar de baixo constitui um negócio e uma arrogância, um luxo. Subitamente, quando o organismo ruge de orgânica inquietude, as vicissitudes do espírito, com o seu rol de lacrimejantes bramidos de pura embirração, desaparecem, toda a literatura e toda a tolice desaparecem, e tomamos súbita consciência do sangue e dos músculos, do despotismo da carne e do desejo.

Isto vem mesmo a calhar...

Este gajo andou muito pelas europas a constatar a solidão fundamental, castigo para o espírito inquieto. Algo do género... Para onde quer que vás, a fúria vai contigo.

Um poeta está sentado na Holanda. Pensa na tradição. Diz para si mesmo: eu sou alimentado pelos séculos, vivo afogado na história de outros homens. E a sua alma é atravessada pelo sopro primordial. Mas tem a alma perdida: é um inocente que maneja o fogo dos infernos. Abre-se ao fundo da sua meditação holandesa um grande lago: a solidão, e em volta passeiam vacas. A Holanda agora é isto: vacas, e - no centro - o inferno, a revolucionária inocência de um poeta sentado.
– Por quem me tomam? – pode ele perguntar. – O que eu quero é o amor.
E sempre assim, sempre: cidades inexplicáveis no meio da terra ou prados imensos onde se tem medo. Prados para vacas, não para um poeta di-la-ce-ra-do por uma tormentosa inocência.

in Herbeto Hélder, Os Passos em Volta, Assírio & Alvim, 9ª Edição, 2006

13 de setembro de 2009

They fuck you up, your mum and dad,
They may not mean to but they do
They fill you with the faults they had
And add some extra just for you.

But they were fucked up in their turn
By fools in old style hats and coats
Who half the time were soppy-stern
And half at one another's throats.

Man hands on misery to man.
It deepens like a coastal shelf.
Get out as early as you can
And don't have any kids yourself.

Philip Larkin

"Até fazem um casal engraçado..."

Passam dias, semanas, meses… Morrem os dois muito lentamente, sem se aperceberem. Para além de copularem com uma dedicação desmesurada e tóxica, possuídos de uma voracidade extraordinária, falam muito do que lhes vai na alma e dos livros que podem ler. Ambos conhecem a estética, apesar de não serem artistas (pelo menos não oficialmente). Conhecem a estética que lhes enche a cabeça, a estética que está dentro deles e que é uma doença que os põe contra o mundo, que é terrivelmente feio. Ele escreve e ela pinta, o que é singularmente romântico e estúpido. Ela diz que tem visões extraordinárias que tem de pôr nos quadros para não ficar maluca, para não explodir, e ele diz-lhe que as palavras que entram para dentro dele tem de as pôr no papel para não ficar maluco, para não explodir. Estão obcecados com a beleza e querem inventar formas novas de a materializar. Querem dar visibilidade ao milagre, pô-lo à solta na rua para que os transeuntes tropecem nele e se apercebam que estão vivos. São infelizes e têm a cabeça cheia de ilusões e de sonhos, de ideais. Constataram isso e perceberam a tragédia da vida inusitada que escolheram, da qual não há volta a dar. Tal não os impede de, ao olharem para os cães que desfilam contentes nas suas fatiotas públicas, terem inveja dessa distracção. Ora aplaudem a simplicidade dessas gentes, ora gozam com ela. Não há volta a dar. Não há volta a dar.

3 de setembro de 2009

Sinto-me culpado porque o meu trabalho é puramente abstracto, porque só produzo combinações de símbolos. Gostava de produzir batatas em vez de abstracções.

31 de agosto de 2009

Godless

Uma lâmina aguçada golpeando a carne do incrédulo, que de repente se apercebe da realidade imediata da dor e urra em desespero, porque não a pode suportar. Abrimos os olhos para a súbita crueza dos elementos, a frieza do aço, a clara nitidez dos objectos físicos, e constatamos que não há objectos que não sejam físicos – e isto é o desespero, a constatação da natureza somente física da realidade –, e nada no mundo nos seduz positivamente, mas muito nos seduz negativamente, para um prazer agressivo e viciante de auto-flagelação.

Os excessos da imaginação

"À primeira vista não passava de um ser que juntara o seu corpo humano a uma cabeça equina, com cauda de sereia e escamas de serpente."
Umberto Eco

Desligados do fluxo incessante da acção histórica, em recessos antigos e secretos vivem os poetas da intemporalidade – mendigos santos barbudos, beatíficas crianças delinquentes, pelintras maltrapilhos magricelas… Os andrajosos profetas do instante desdenham a traição inerente às intenções e permanecem obstinadamente na aventura do satori, estragando o corpo na derradeira mutilação da iluminação. Esses cósmicos indivíduos são inofensivos, porque não há finalidade nos seus actos. Mas há aquelas raras excepções, de quem parte do exílio para comunicar as visões singulares, e esses casos é que são verdadeiramente insólitos… O Zezinho foi um deles. Abandonou aquele silêncio auto-contemplativo e tomou a firme resolução de proclamar o nirvana como se este se tratasse de um objectivo da sociedade. A coisa tornou-se política, sem contudo deixar de ser artística e devidamente explosiva. Desvairado começou a pintar paredes, como fez primeiro Basquiat, poeta pictórico nova-iorquino janado. A sua arte começava a produzir transfigurações nos rostos, gargalhadas colossais e esgares de pânico, extrema alegria e puro terror. Ele queria construir uma sociedade sem tempo, uma humanidade dominada pela sensualidade, e por isso as suas peças atacavam directamente as vísceras, sem mediação racional. Tornou-se megalómano.
Há um preço a pagar pelo embuste da arte. É que, apesar dos seus eflúvios de poderosa criatividade, o Zezinho ainda tinha um aspecto físico normal, as pessoas consideravam-no um ser humano. Um dia acordou e assustou-se – a sua cabeça parecia a cabeça de um cavalo, e em vez das pernas tinha agora uma cauda de sereia. A namorada apressou-se a chamar a ambulância.
Agora, Zezinho passa os dias num asilo para doentes mentais. É um homem de aspecto normal, mas, na sua demência, continua a achar que tem uma cabeça equina e uma cauda de sereia em vez das pernas. A imaginação atraiçoou-o.

Jean-Michel Basquiat

30 de agosto de 2009

«Por que não publicar?»

Enrique Vila-Matas cita Nicholas Chamfort:

Porque não desejo fazer como as gentes das letras, que se parecem a asnos que dão coices e lutam pelo seu lugar na manjedoura vazia.

in Enrique Vila-Matas, Bartleby & Companhia, Assírio & Alvim, 2001

26 de agosto de 2009

Uma síntese de Muriel Barbery

Existe sempre o caminho da simplicidade, embora deteste segui-lo. Não tenho filhos, não vejo televisão e não acredito em Deus, tudo veredas que os homens percorrem para que a vida lhes seja mais fácil. Os filhos ajudam a adiar a tarefa de nos encontrarmos e, em seguida, são os netos que garantem o mesmo. A televisão distrai da extenuante necessidade de fazer projectos a partir do nada das nossas existências frívolas; enganando os olhos, alivia o espírito da grande obra de sentido. Por fim, Deus aquieta os nossos medos de mamíferos e a insuportável perspectiva de os nossos prazeres terem um dia fim. Assim, sem futuro nem descendência, sem pixéis para embrutecer a consciência cósmica do absurdo, com a certeza do fim e a antecipação do vazio, julgo poder dizer que não escolhi o caminho da facilidade.

in Muriel Barbery, A Elegância do Ouriço, Editorial Presença, 2008

23 de agosto de 2009

"Deve-se estar sempre embriagado."

Il faut être toujours ivre. Tout est là: c'est l'unique question. Pour ne pas sentir l'horrible fardeau du Temps qui brise vos épaules et vous penche vers la terre, il faut vous enivrer sans trêve.
Mais de quoi? De vin, de poésie ou de vertu, à votre guise. Mais enivrez-vous.
Et si quelquefois, sur les marches d'un palais, sur l'herbe verte d'un fossé, dans la solitude morne de votre chambre, vous vous réveillez, l'ivresse déjà diminuée ou disparue, demandez au vent, à la vague, à l'étoile, à l'oiseau, à l'horloge, à tout ce qui fuit, à tout ce qui gémit, à tout ce qui roule, à tout ce qui chante, à tout ce qui parle, demandez quelle heure il est; et le vent, la vague, l'étoile, l'oiseau, l'horloge, vous répondront: «Il est l'heure de s'enivrer! Pour n'être pas les esclaves martyrisés du Temps, enivrez-vous sans cesse! De vin, de poésie ou de vertu, à votre guise.»

in Charles Baudelaire, Les Paradis Artificiels, GF-Flammarion, 1966

Deve-se estar sempre embriagado. Nada mais conta. Para não sentir o horrível fardo do Tempo que esmaga os vossos ombros e vos faz pender para a terra, deveis embriagar-vos sem tréguas.
Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha.
Mas embriagai-vos. E se algumas vezes, nos degraus de um palácio, na erva verde de uma vala, na solidão baça do vosso quarto, acordais, já diminuída ou desaparecida a embriaguez, perguntai ao vento, à vaga, à estrela, à ave, ao relógio, a tudo que foge, a tudo o que geme, a tudo que rola, a tudo que canta, a tudo que fala, perguntai que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, a ave, o relógio, vos responderão: «São horas de vos embriagardes! Para não serdes os escravos martirizados do Tempo, embriagai-vos sem cessar! De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha.»

in Charles Baudelaire, Os Paraísos Artificiais, Editorial Estampa, 1971

22 de agosto de 2009

Keep on rockin' in the free world

Os Frutos do Mal

A pouco e pouco, Leonor ingressa no mundo criminoso dignificado pela literatura do mal, na pátria metafísica de todos os dissidentes espirituais, atormentados pelo desejo irreprimível de liberdade. Nela encontra o refúgio necessário a uma alma naturalmente transgressora, que deitou por terra aquilo que aprendeu e aceitou em criança, e uma via saudável para essa transgressão, edificante em vez de destrutiva e auto-punitiva. Assim, as caganitas que caem dos pássaros enfurecidos em voos de liberdade individual germinam em flores prodigiosas. Do solo fertilizado pela virilidade singular do poeta brotam árvores frondosas que dão frutos imperecíveis para as gerações vindouras.
Holy the supernatural extra brilliant intelligent kindness of the soul!

16 de agosto de 2009

The Artist's Duty, by Kenneth Patchen

5 - A festança

Tira a chave da mala, enfia-a na ranhura e roda para a esquerda, não para a direita, para abrir a porta da livraria. The Marvellous Pages é o nome que o senhor Tavares se lembrou de atribuir à loja, palavras mágicas que lhe apareceram na cabeça a dançar quando voltava para casa depois de um concerto numa noite mística. Leonor abre a porta para a obscuridade dos livros, para a obscuridade própria da literatura, entra e acende a luz. Imagina que, durante a noite, os espíritos daqueles que criaram todos aqueles livros estiveram para ali a fazer uma grande festa ruidosa, com montes de álcool e erva, guitarras e saxofones, convocados pela poesia que escreveram em vida, vindos de toda a parte. Alguns ressuscitaram por causa da festa, porque de facto a morte para os criadores não existe – sempre que há uma ocasião de grande alegria, júbilo supremo, os espíritos dos artistas vencem a morte e vão ter com os seus pares a uma cave oculta da fúria dos censores, onde comemoram a imortalidade e a invencibilidade da alma, como deuses num Olimpo secreto e inacessível a gente como nós. O primeiro a chegar ao local da celebração sem tempo é o Walt Whitman, que não se alcoolizou mas está ébrio com o fulgor imorredoiro do seu ego de criança grande. Vem outro maluco a seguir, aos saltos e agitando os braços, gritando sílabas a plenos pulmões desde a noite dos tempos – é o Jack Kerouac, poeta prosador que, do esplendor da eterna infância, atirava sinfonias de palavras para o ar que toda a gente ouvia, que muita gente ouvia sem saber, que, como todos os grandes artistas, acabou por definir a história sem pretensamente o querer. Depois do Jack Kerouac, chegam talvez o Fernando Pessoa e o Alexandre O'Neill, que foram oficialmente portugueses por mera coincidência, vítimas de uma arbitrariedade histórica que define a simultaneidade na geografia habitada por dois grandes poetas, quando toda a gente sabe que na poesia há outra geografia, outros rios, outras terras sem limites e sem leis. Mas seguem-se outros, inúmeros poetas que fizeram parte da árvore da humanidade. A Sylvia Plath matou-se, enfiou a cabeça num fogão a gás para aniquilar o ego tormentoso, mas aí está ela, curada de todas as depressões maníacas! E brinca e goza, jaz de amor supremo nos braços do amado Ted Hughes. E segue-se um rol de admiráveis bardos do amor e da liberdade… A festa prossegue e o silêncio da noite acaba, a música assalta a noite, as palavras voam e estilhaçam os vidros, provocam brechas nas paredes e entram em ouvidos de artistas por nascer.
No entanto, mal ela abre a porta a festa dissipa-se, os livros voltam às prateleiras sem as nódoas do vinho entornado em pleno espasmo orgíaco dos génios, as garrafas e os instrumentos musicais volatilizam-se, todas as marcas desaparecem do local. Ela acende a luz e já os livros estão mortos e enfileirados nas prateleiras, prontos a serem devorados pelas traças vorazes, que são os leitores. E então senta-se, abre o computador, vê o mail, as notícias do dia, e espera. Geralmente, pouco há a fazer de manhã, mas alguém tem de estar na loja. Nesses ocasiões, Leonor retoma a leitura de um livro e desliga-se da realidade quotidiana para entrar num dos imensos mundos paralelos que a arte tem para oferecer, mas vai também descobrindo este mundo, os pormenores e as razões profundas, o que é para mudar e a beleza extática, infortúnios e bem-aventurança.

14 de agosto de 2009

13 de agosto de 2009

A banana entalada na vagina

No regresso da sua última viagem psicadélica, equanto o efeito da psilocibina se desvanecia, que é sempre um momento de grande lucidez em que o psiconauta toma decisões que servem para toda a vida, Leonor tomou a augusta resolução de não se preocupar com nada. Se na vida há que escolher uma ditadura para uso caseiro, uma cruz a carregar, Leonor prefere a ditadura da emoção pura, em vez da ditadura da situação histórica. Agora o seu corpo faz parte do jogo dos elementos e não se esconde em lúgebres reflexões inúteis, amputado do universo. Agora o seu corpo é pura sensação.

12 de agosto de 2009

Odetta barks the blues

4 - Corvos da imaginação prodigiosa

― Olá! Como vai isso, tudo bem?
É sempre com este tipo de alegria, excessivamente constante, diária, que a empregada do café lhe dá as boas vindas ao estabelecimento. A sua boa disposição chega a ser irritante. Grotesca. Dá ideia que a mulher é cega para o que se passa no mundo, ou simplesmente louca, talvez tenha uma deficiência neurológica que a destitua da porção de tristeza que faz parte das pessoas normais. Sim, porque uma pessoa que está sempre alegre não é pode ser lá muito saudável…
― Bom dia, Lucinda. Cá se vai andando, com a cabeça entre as orelhas. Faço o que posso.
― O que é que vai ser?
― Um galão e meia torrada.
Senta-se a mesinha livre perto da janela e tira o livrinho preto onde escreve as palavras que lhe ocorrem de vez em quando no comboio, em certas manhãs de inspiração poética. São palavras que a resgatam da confusão da vida e anunciam a existência de uma estética intemporal e sublime, que dá sentido à existência, mesmo que esse estética seja por vezes atroz, por ser incomparavelmente superior ao mundo em que vive, tragicamente inestético. Outras vezes, voam-lhe para a cabeça frases que, em vez de descreverem o belo inexistente, sublimam o feio existente ao horrível e terrífico. Leonor oscila entre as duas utopias, o extremamente belo e o insuportavelmente feio, o Paraíso e o Inferno. Oscila entre os dois absolutos como um trapo esvoaçante no bruto vendaval da inspiração, ante o qual não há nada a fazer. Pega-se numa caneta, num pedaço de papel, e escreve-se, escreve-se com fervor até que a sede de infinito se extinga. Elimina-se o excesso de vida. Cede-se. Eis o que Leonor escreve:
Estes pássaros lançam-se empertigados e frenéticos contra as janelas, querendo
parti-las para entrarem em mim. São milhões e só eu os vejo. São negros como
corvos, mas sei que não existem nos tratados de biologia, porque ainda não foram
estudados, portanto não são corvos. São talvez demasiado aterradores para alguém
lhes prestar atenção, para alguém lhes ver. Eu sou especial. Vejo-os, passo a
vida toda a vê-los porque tenho uma coragem invulgar. Não os quero ver, mas não
posso deixar de ter a minha visão, o meu talento, porque senão morreria. Não
quero morrer. Viverei sob a fúria destes milhões de corvos de um outro mundo,
que querem comer-me os miolos, e entre os cegos da minha própria espécie, que
não os vêem porque não têm tomates. Sou uma mulher com tomates!
Entretanto, chegam-lhe à mesa a torrada e o galão, juntamente com o eterno sorriso imbecil de Lucinda, que se apressa a exclamar-lhe um lancinante bom-apetite. Enquanto come, Leonor observa à sua volta a frequente inquietação matinal das pessoas emproadas, enfiadas nas suas cogitações profissionais, abelhas e formigas, com excepção evidente e rotineira para o pensionista idoso que lê um jornal desportivo, traços fisionómicos de um velho sacana grosseiro e mafioso, características de um rosto antigo que vão desaparecendo sob as areias movediças do tempo, atrás das rugas, dando lugar a outro rosto ainda mais antigo, que é o rosto da morte, da ternura da morte. É isso… Desaparece a inquietação da vida e aparece a ternura denunciado a morte. Tarde ou cedo, essa ternura e essa morte aparecem a toda a gente.
A morte ternurenta é exclusiva dos idosos no fim da linha, mas há em alguns rostos jovens uma outra morte, que é a morte horrível em vida – o caso da trintona caixa-de-óculos que se dedica, sempre que a vê no café, sem companhia, à leitura da invariável revista de empolgantes fofoquices, perdendo uma lastimável quantidade de tempo na secção das previsões astrológicas, enquanto vai sorvendo o café. A mulher tem um rosto apagado e mórbido, fechado para divagações da autoria dos jornalistas da revista – adivinhamo-la na companhia dos cometas que povoam este mundo, em casamentos de luxo ou divórcios conturbados, em hotéis de cinco estrelas ou singularmente adornadas discotecas, distintas perfumarias e boutiques da moda. Leonor surpreende-se a ela própria com este pensamento – as divagações desta leitora infatigável de revistas rosa-choque não são geradas por ela, mas por outras pessoas. Todo o seu imaginário, o teor das suas fantasias conscientes, é configurado pelo poder que vigora na tribuna da comunicação social. Esta mulher está morta porque a sua individualidade não é visível.
Leonor acaba o galão e paga a conta. Lucinda berra-lhe um lancinante volte-sempre.