7 de novembro de 2010

Dois Pássaros a Voar (8)

Estou sentado no miradouro ao fim da linha. Devia estar sentado numa cadeira de arquitecto, que foi o que me ensinaram a fazer – sentar-me refastelado no conforto do canudo sem ouvir mais nada, sem esperar mais nada, sem ambições que não as próprias, as designadas metas atribuídas pelo velho algoritmo de arrumar cabeças. E um sorriso genuíno no rosto, o sorriso de quem está contente e já não sabe o que é a inquietação. Era suposto… Em vez disso, estou sentado no miradouro ao fim da linha. No alto de uma colina que mais parece uma montanha muito alta, longe da azáfama que lá em baixo é uma ratoeira, cheia de luzes que os estonteiam e os encurralam para recintos bafientos para formarem famílias, partidos, religiões, sindicatos, credos e códigos, um deslumbramento que parece não ter fim. Uma humanidade inteira em espaços fechados. Não há lugar para claustrofóbicos. Hoje não me apanham, porque o meu estado não me permitiu ir trabalhar. Estou seriamente indisposto! Preocupa-me esta coisa na cabeça, este chumbo inacessível que me faz ter comportamentos estranhos. Era bom que só precisasse de descansar. Que eu me pusesse a descansar agora, que me deixasse ficar imóvel neste banco verde, de olhos fitos na cidade distante, absorto, e talvez o vento me varresse os pensamentos, e uma solidão insólita, algo bela também, me cercasse e protegesse do bulício da cidade. Mas qual simplesmente descansar… Eu devia mas é ficar aqui para sempre. Talvez tivesse sorte e alguma tragédia atmosférica acontecesse – uma chuva corrosiva que viesse de céus poluídos e me desfizesse o corpo, ou um raio súbito que me alvejasse. Um choque eléctrico do tamanho do cosmos não me faria mal.
Olho para baixo, para as casas pequenas, e penso que grande parte do frenesim e do trabalho de que hoje escapei é escusado. Lá se vai construindo a cidade, que se ergue de ruínas antiquíssimas… Só que estas não deixam de existir, porque a memória é coisa que não se destrói facilmente. Levantem-se prédios altos sobre os túmulos, mas os mortos não deixarão de andar entre nós e de se queixar do que lhes aconteceu, que antes da morte já andavam meio mortos, grande parte deles domesticados, para depois a morte não acrescentar nada à vida. Podemos fazer ouvidos moucos, mas as palavras já estão dentro de nós, culpando-nos de não vivermos plenamente. E convivemos com esses fantasmas, essas palavras, culpas e remorsos.
Acendo um cigarro. Gosto do fio de fumo que se desprende. Lanço pequenas argolas cinzentas para o ar e penso que é belo, é como se me estivesse a lançar para fora de mim às baforadas. Houve um tempo em que eu não sabia nada disto. Era feliz. Teria um futuro. Havia de me apaixonar por uma rapariga que me fizesse bem e construiria com ela uma vida decente, que fosse feita de propósito só para nós. Dois filhos e uma pequena nação privada, uma casa na cidade e outra no campo, no Alentejo, onde nos recolhêssemos para fins-de-semana românticos e patuscadas ao calor. E teria um emprego que fosse mais do que um emprego, que seria um trabalho que merecesse o meu esforço. Talvez pudesse ser advogado, e então só aceitaria casos em que de algum modo pudesse servir a humanidade. Daria o meu contributo e sentir-me-ia bem. Defenderia o inocente com eloquência e estaria sempre do lado da justiça. Agora tenho pena de ter sido tão ingénuo, raiva de ninguém me ter dito nada, de não me terem avisado que as coisas não seriam preto no branco, que não há uma verdade absoluta. Se eu agora fosse advogado, pertenceria a uma classe de intrujões profissionais. Claro que não me valeu de muito ter-me tornado arquitecto… Aliás, não é a profissão que faz um homem feliz. Não é o tipo de especialização técnica que ele escolhe. É o seu grau de subserviência. Quando mais servil, mais feliz. E tanto há arquitectos servis, como advogados servis, e bombeiros, médicos, contabilistas, engenheiros, padeiros, uma multidão de gente bem-disposta, que desempenha com alegria essas funções. Gente feliz, aos pontapés. E aos murros, já agora, que gente feliz é gente insensível, que não os sente.
Descarrego o ar sujo dos pulmões. Ouço uns passos ligeiros atrás de mim. Volto-me. É ela, a Madalena, de sorriso trocista e vencedor.
– Olha! Ainda estás vivo? Pensava que te tinhas suicidado – diz.
Não estava à espera desta. Tento dizer qualquer coisa, mas fico engasgado com saliva, que de repente abunda, e tusso uma e outra vez, até ela me vir bater nas costas, a rir-se da minha figura.
– Obrigado – balbucio.
– De nada. O que é que fazes aqui, em vez de no trabalho a desenhar prédios?
– Nada. Hoje não consegui ir trabalhar, dói-me a cabeça… E tu? Não tens aulas?
– Tinha aulas teóricas, mas não me apeteceu. Não se aprende nada com essas aulas. Arranjas-me um cigarrinho?
– Claro.
Tiro o maço do bolso, saco um cigarro e estendo-lho.
– Lume?
Põe o cigarro na boca e inclina-se lentamente para mim, de olhos fechados. Alcanço o isqueiro e acendo-o. Ela aspira, encosta-se ao banco com desleixe e atira o ar para cima. Depois cruza as pernas em cima do banco, de lado, e volta-se para mim.
– Com que então, dói-te a cabeça e resolveste vir para aqui arejá-la…
– Sim, é isso.
– Pois eu, sempre que posso, perco tempo em sítios como este, tento não pensar em nada. Claro que a maioria das vezes não consigo, mas é um bom exercício.
– Ah sim? Não te parece que é um exercício perigoso? Porque estás a abdicar de um direito que ninguém te pode tirar, a menos que te matem – digo-lhe. Ela sorri. – É uma espécie de suicídio rápido e transitório.
– Não estou a abdicar de nada, nem quero deixar de pensar e viver. E tens razão, é um direito… É das poucas coisas que podemos ter verdadeiramente, a nossa mente. Mas de vez em quando é bom libertares-te da lógica e tornares a tua mente absolutamente receptiva e permeável, porque é quando aceitas plenamente a realidade imediata, sem a analisares.
– Estou a ver…
– Se calhar é por isso que te dói a cabeça. Pensas demasiado. Estás sempre a pensar, a matutar nessa tua cabeça porque é que as coisas são assim e não assado. Quer dizer, eu não te conheço bem e estou arriscar ao dizer isto, mas tu ao pensares estás a filtrar a realidade, a transformá-la em informação. Toda a gente faz isto, claro, mas tu estás sempre a fazê-lo e não te deixas intoxicar. Mas a mente precisa de se intoxicar de vez em quando, com a beleza do mundo. E às vezes vemos coisas que não queremos ver, vemos a fealdade, mas isso faz parte. Desculpa, também não quero que fiques chateado…
– Não, está-se bem. Eu não fico chateado. Mas és sempre assim, tão directa com as pessoas?
– Tento ser, pelo menos com quem precisa – diz. Os cabelos soltam-se ao vento e apetece-me estender a mão e tocar-lhe a cara, para ver se é real.
É ela que estende a mão e a põe sobre a minha face direita. Olhamo-nos e compreendemos que temos de nos aproximar. As bocas caem uma sobre a outra e as línguas cumprimentam-se e brincam uma com a outra. Demoramo-nos.
– Vamos sair daqui.
Descemos para cidade com a pressa de dois adolescentes apaixonados, e de mãos dadas subimos as escadas do prédio dela. Desembaraçamo-nos das roupas e conhecemo-nos.

Dois Pássaros a Voar (7)

Após uma noite de sono irrequieto, mais uma, o personagem acorda para uma manhã cinzenta, igualzinha à do dia anterior. Uma sujidade pesada na atmosfera, na sua cabeça, de dia para dia, tomando o espaço.
Confuso como é costume, levanta-se e, depois de se vestir, dirige-se para a cozinha onde liga o rádio que todas as manhãs o informa um pouco sobre o mundo, o rádio que o irrita, que o desinteressa cada vez mais, mas do qual não se consegue distanciar. Com o rádio ligado não consegue distinguir uma única palavra. Invariavelmente, o melhor a fazer é sintonizar outra estação. Após uns segundos a girar o grande botão azul, finalmente chega a uma estação onde um anúncio está mesmo a acabar e a música irritante, que normalmente acompanha a ordem de compra que move a sociedade de consumo, é perfeitamente clara. Descansado, o nosso amigo dirige-se para o frigorifico, de onde tira duas fatias de pão e um ovo que se apressa a cozinhar. Quando a música acaba e as notícias voltam, de novo o rádio soa fora de sintonia.
– Merda de rádio... – balbucia.
Cumpridos os rituais matinais domésticos, está na hora de executar o maior ritual da vida actual, que é sair para o emprego. Desmotivado e decidido a ignorar um feito de mais de um ano e meio, o arquitecto decide ir comprar um maço de cigarros no café do fundo da rua – nem todos os dias uma pessoa se sente suficientemente forte para aguentar a vida sem uma muleta. O café tem a habitual demonstração de pastelaria de segunda classe por detrás de uma montra de vidro, e vários cachecóis de clubes de futebol pendurados por toda a parte. Um empregado juvenil, magro, com o acne ainda a marcar-lhe a cara, ridículo numa camisa branca e laço preto, põe-se em frente do arquitecto e, sem dizer nada, fica à espera de um sinal.
– Um maço de Português Vermelho e um isqueiro.
– Quatro e trinta e dois.
– Quatro euros e trinta e dois cêntimos, se faz favor! – insiste o empregado.
Embora tenha claramente ouvido algo, e tenha visto os lábios finos do empregado a mexer-se, nada foi apreendido pelo homem que, com cara de parvo, olha de volta para o jovem e para a sua ridícula vestimenta. Notando que o maço e o isqueiro estão em cima do balcão e que o empregado está à espera de algo, o nosso personagem decide simplesmente meter a mão ao bolso e apresentar uma nota de 10. Recolhido o troco, apressa-se a sair.
De novo na rua, o barulho matinal dos carros toma conta dos sentidos do arquitecto. As buzinas, os motores, o pára-arranca. As portas dos prédios a abrir e a fechar, enquanto todos saem para cumprir os seus destinos, fazem os habituais estrondos ao embater. Seguindo em frente, tem apenas que deixar a inércia tomar controlo e percorrer o caminho que sempre percorre até à estação de comboios.
Perante os seus olhos desenrola-se o movimento coordenado de centenas de pessoas a seguirem uma instrução que para ele é misteriosa. Como magia, esta miríade de formigas humanas dirige-se para a linha 4. Guiado apenas pela intuição, o arquitecto junta-se à colónia e segue-os. Poucos minutos depois o comboio chega. Reconhencendo-o, o arquitecto entra e apressa-se a procurar um lugar onde se sentar.
Nada faz muito sentido. Para quê ir para o trabalho? O arquiteto olha à volta, há pessoas de todas as idades, de todas as fases da vida. Uns perto da morte natural, uns perto de prematuras, uns longe de ambas. Todos terão o mesmo destino, incluindo o arquiteto. Imagens de violência saltam-lhe no espírito. As cabeças dos seus companheiros de carruagem explodem-lhe na imaginação... o chão inunda-se de sangue, aqueles que ainda estão intactos escorregam no lago dos mortos sem gritar e ficam no chão à espera do inevitável.
Um suspiro. Um momento e todas as cabeças voltam ao lugar, todo o chão fica limpo, fica apenas o sentimento de algo por cumprir.
Uma coisa torna-se óbvia: o arquitecto não pode ir para o trabalho. Numa invulgar mestria do seu tumulto interior, toma a decisão de se deixar ir no combóio até uma das últimas paragens que o deixará nos arredores da cidade. Aí chegado, reconhecendo o sítio, não são mais de 15 minutos até ao miradouro. O miradouro é um pequeno largo situado no topo de uma colina com vista para a cidade e para o mar. Nesse largo há um antigo café de qualidade duvidosa que obviamente explora os seus clientes com preços desnecessariamente altos pelo previlégio de se sentarem nas cadeiras da esplanada. Sem mais alternativa, o nosso amigo senta-se numa das cadeiras e pega no telemovel. Um rápido telefonema à Celeste (que raramente atende o telefone) serve para lhe deixar uma mensagem a dizer que hoje não poderá contar com ele. Com o assunto mais premente resolvido, puxa de um cigarro do maço que comprou de manhã, acende-o e começa a contemplar qual será o melhor curso de acção. Sem surpresa para o próprio, dois minutos depois o que ocupa a mente do nosso personagem já não é o que fazer, mas sim vagas recordações dos tempos em que era jovem e das ilusões de grandeza que tinha para si e para a sua vida. Mas estes pensamentos tão profundos, e ao mesmo tempo tão banais, serão em breve interrompidos por uma mão leve que desvia a cara do arquitecto e a dirige para uma jovem cara feminina com um sorriso trocista e vencedor.
– Olha! Ainda estás vivo? Pensava que te tinhas suicidado – diz Madalena, saboreando o momento.
A visão daquela cara, daquele corpo, daquela pessoa, chega para engasgar o jovem arquitecto e provocar uma tosse espasmódica como se algo lhe estivesse preso na garganta, sem sair.