25 de janeiro de 2009

Não Tenho Rolex

O Rolex do Obama é melhor que o do Bush.
O Rolex do Sócrates é melhor que o da Ferreira Leite.
Contudo, o Rolex do Sócrates é muito inferior ao do Bush. Entre os dois, está o do Chávez – vermelho, mas precioso.
O Rolex do Robert Mugabe tem mais valor que as barrigas vazias dos seus súbditos.
O melhor Relox do mundo e do universo é o que está no pulso ariano de Jesus Cristo, o cadáver mais antigo do mundo. Pá, o homem foi embalsamado e transformado numa coisa que não é!
Eu cá não tenho Rolex. Não tenho pátria nem orgulho. Não erguerei nenhuma bandeira. Os impérios, as religiões não alteram o tom do céu, sendo, como tal, essencialmente fúteis. Estarei contente ou triste sem que o país que eu habite, da qual faço parte inevitável, tenha influência sobre mim. Ou, se por acaso o tiver, não quero ter de tal consciência.

14 de janeiro de 2009

Ratos e Homens

Um rato caricato de pêlo cinzento e orelhas grandes e ridículas, como as daquele da televisão que todos os putos de todas as épocas e todas as idades gostam, percorre a sua planície branca com grandes linhas verdes dispostas horizontalmente e verticalmente, ou castanhas, de modo a formarem uma malha verde e castanha imensa, um infinito irrepreensível – a planície urbana dos pequenos animais, a cidade. O chão. A planície que todos os ratos e homens percorrem com igual sofrimento. Quando é que a planície acaba? Abrir-se-á um abismo, o rato pensa, o abismo súbito de um momento que o vai engolir. Ele tem medo desse momento, como todos os ratos e homens, como todas as moscas e abelhas, os cavalos, os pássaros e os monstros marinhos, por mais terríveis que sejam – a crueldade é uma maneira de esquecer o medo, tão legítima como outra qualquer. Todas as maneiras de esquecer o Medo são legítimas face à sua força esmagadora. O Medo, esse, não é legítimo. Mas é real.
Mas ele agora não tem medo, porque corre ansioso para a sua amada, uma rata caricata de pêlo cor-de-rosa e orelhas não menos ridículas, que o espera de perna cruzada, encostada com aparente desleixe a uma parede velha, como todas as paredes deste mundo civilizado, a fumar uma cigarrilha, de perna cruzada a fumar uma cigarrilha e a pensar naquele rapazinho de pêlo cinzento que diz que lhe ama. Ele pensa nela e corre alegremente. Um bom rato precisa de uma boa rata. Bem o sabeis. O nosso ratinho delira. A ratinha cor-de-rosa é a maneira que ele arranjou para esquecer o medo, para o recalcar, arquivá-lo num recanto sombrio da sua consciência de rato de pêlo cinzento, para onde vão as memórias angustiantes do passado e os temores do futuro. Ele corre todos os dias para essa rata de pêlo cor-de-rosa. Corre com a mesma alegria ao sol e à chuva, conforme o dia seja bom ou mau. Há dias bons e dias maus, já se sabe. Saber mais do que isso é talvez saber de mais, e saber de mais é soçobrar. É assim que os ratos pensam. É assim que os ratos precisam de pensar. Existem modos de pensamento convenientes. Os homens não são como os ratos – pensam na razão de ser dos dias maus, na génese maldita dos céus cinzentos e negros, dos ventos furiosos. Os homens são animais estúpidos, enclausurados no seu egocentrismo. Sofrem desnecessariamente. Talvez queiram sofrer – deixai-os estar, os monstros. Deixai-os estar com as suas filosofias presumidas. A rata de pêlo cor-de-rosa é mais importante. E nisto, um buraco negro quebra a monotonia da calçada e ele cai e morre. Deixa de existir. Não vale a pena indagar sobre a origem desta tragédia. Já nada existe.

6 de janeiro de 2009

O Verdadeiro Poeta

É a pressão da sociedade, e a premência de sobreviveres nela, que te leva a querer ter um futuro, mas no fundo queres ser criança e passar a vida a brincar. Os poetas são crianças no momento mágico da poesia, quando não existem futuros e o que existe agora é derradeiro.

Muito se tem dito sobre as qualidades essenciais que fazem do poeta aquilo que ele é no seio de uma sociedade habitada quase exclusivamente por indivíduos que se encontram quase mortos, que só se designam humanos por preguiça de não haver outra palavra que os descreva – ou talvez por vergonha deste estado vegetativo essa palavra não tenha sido encontrada. A poesia é a vida extrema e resulta da autenticidade. Para seres poeta, é preciso antes seres autêntico. Aliás, assim que descobres essa autenticidade não podes deixar de ser poeta. O poeta não o é por escolha nem por convicção. A poesia é uma doença irremediável, a doença crónica de não se estar de acordo com a falta de autenticidade. Posto de forma muito simples, a poesia é a luta contra a falta de autenticidade do mundo, mas também a afirmação da força da autenticidade de uma parte muito pequena desse mundo. O artista é o sal da terra?
Se esse ser autêntico e invulgar escolhe a arte para manifestar esse virtude, por via das palavras ou de outros símbolos, então é um poeta no sentido convencional do termo. Contudo, se for suficientemente louco recusa qualquer tipo de manifestação reflectida e embarca na aventura do agir com total liberdade de movimentos – os do corpo e os da alma, irreflectidos e selváticos, como que viagens aos tempos primordiais, e portanto perigosos para os poderes sociopolíticos, para as chamadas hierarquias históricas, porque nos tempos primordiais não havia Estado. O poeta da existência, devido ao estado de beatitude em que se encontra, não pode deixar de ridicularizar os chefes auto-proclamados, e deita abaixo a suposta legitimidade dos mesmos. O riso é a sua forma de subversão, na verdade a forma mais eficaz de subversão. Rir é pecaminoso.