31 de agosto de 2009
Godless
Os excessos da imaginação
Jean-Michel Basquiat30 de agosto de 2009
«Por que não publicar?»
Enrique Vila-Matas cita Nicholas Chamfort:
Porque não desejo fazer como as gentes das letras, que se parecem a asnos que dão coices e lutam pelo seu lugar na manjedoura vazia.
in Enrique Vila-Matas, Bartleby & Companhia, Assírio & Alvim, 2001
26 de agosto de 2009
Uma síntese de Muriel Barbery
in Muriel Barbery, A Elegância do Ouriço, Editorial Presença, 2008
23 de agosto de 2009
"Deve-se estar sempre embriagado."
Mais de quoi? De vin, de poésie ou de vertu, à votre guise. Mais enivrez-vous.
Et si quelquefois, sur les marches d'un palais, sur l'herbe verte d'un fossé, dans la solitude morne de votre chambre, vous vous réveillez, l'ivresse déjà diminuée ou disparue, demandez au vent, à la vague, à l'étoile, à l'oiseau, à l'horloge, à tout ce qui fuit, à tout ce qui gémit, à tout ce qui roule, à tout ce qui chante, à tout ce qui parle, demandez quelle heure il est; et le vent, la vague, l'étoile, l'oiseau, l'horloge, vous répondront: «Il est l'heure de s'enivrer! Pour n'être pas les esclaves martyrisés du Temps, enivrez-vous sans cesse! De vin, de poésie ou de vertu, à votre guise.»
in Charles Baudelaire, Les Paradis Artificiels, GF-Flammarion, 1966
Deve-se estar sempre embriagado. Nada mais conta. Para não sentir o horrível fardo do Tempo que esmaga os vossos ombros e vos faz pender para a terra, deveis embriagar-vos sem tréguas.
Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha.
Mas embriagai-vos. E se algumas vezes, nos degraus de um palácio, na erva verde de uma vala, na solidão baça do vosso quarto, acordais, já diminuída ou desaparecida a embriaguez, perguntai ao vento, à vaga, à estrela, à ave, ao relógio, a tudo que foge, a tudo o que geme, a tudo que rola, a tudo que canta, a tudo que fala, perguntai que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, a ave, o relógio, vos responderão: «São horas de vos embriagardes! Para não serdes os escravos martirizados do Tempo, embriagai-vos sem cessar! De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha.»
in Charles Baudelaire, Os Paraísos Artificiais, Editorial Estampa, 1971
22 de agosto de 2009
Os Frutos do Mal
16 de agosto de 2009
5 - A festança
No entanto, mal ela abre a porta a festa dissipa-se, os livros voltam às prateleiras sem as nódoas do vinho entornado em pleno espasmo orgíaco dos génios, as garrafas e os instrumentos musicais volatilizam-se, todas as marcas desaparecem do local. Ela acende a luz e já os livros estão mortos e enfileirados nas prateleiras, prontos a serem devorados pelas traças vorazes, que são os leitores. E então senta-se, abre o computador, vê o mail, as notícias do dia, e espera. Geralmente, pouco há a fazer de manhã, mas alguém tem de estar na loja. Nesses ocasiões, Leonor retoma a leitura de um livro e desliga-se da realidade quotidiana para entrar num dos imensos mundos paralelos que a arte tem para oferecer, mas vai também descobrindo este mundo, os pormenores e as razões profundas, o que é para mudar e a beleza extática, infortúnios e bem-aventurança.
14 de agosto de 2009
13 de agosto de 2009
A banana entalada na vagina
12 de agosto de 2009
4 - Corvos da imaginação prodigiosa
É sempre com este tipo de alegria, excessivamente constante, diária, que a empregada do café lhe dá as boas vindas ao estabelecimento. A sua boa disposição chega a ser irritante. Grotesca. Dá ideia que a mulher é cega para o que se passa no mundo, ou simplesmente louca, talvez tenha uma deficiência neurológica que a destitua da porção de tristeza que faz parte das pessoas normais. Sim, porque uma pessoa que está sempre alegre não é pode ser lá muito saudável…
― Bom dia, Lucinda. Cá se vai andando, com a cabeça entre as orelhas. Faço o que posso.
― O que é que vai ser?
― Um galão e meia torrada.
Senta-se a mesinha livre perto da janela e tira o livrinho preto onde escreve as palavras que lhe ocorrem de vez em quando no comboio, em certas manhãs de inspiração poética. São palavras que a resgatam da confusão da vida e anunciam a existência de uma estética intemporal e sublime, que dá sentido à existência, mesmo que esse estética seja por vezes atroz, por ser incomparavelmente superior ao mundo em que vive, tragicamente inestético. Outras vezes, voam-lhe para a cabeça frases que, em vez de descreverem o belo inexistente, sublimam o feio existente ao horrível e terrífico. Leonor oscila entre as duas utopias, o extremamente belo e o insuportavelmente feio, o Paraíso e o Inferno. Oscila entre os dois absolutos como um trapo esvoaçante no bruto vendaval da inspiração, ante o qual não há nada a fazer. Pega-se numa caneta, num pedaço de papel, e escreve-se, escreve-se com fervor até que a sede de infinito se extinga. Elimina-se o excesso de vida. Cede-se. Eis o que Leonor escreve:
Estes pássaros lançam-se empertigados e frenéticos contra as janelas, querendoEntretanto, chegam-lhe à mesa a torrada e o galão, juntamente com o eterno sorriso imbecil de Lucinda, que se apressa a exclamar-lhe um lancinante bom-apetite. Enquanto come, Leonor observa à sua volta a frequente inquietação matinal das pessoas emproadas, enfiadas nas suas cogitações profissionais, abelhas e formigas, com excepção evidente e rotineira para o pensionista idoso que lê um jornal desportivo, traços fisionómicos de um velho sacana grosseiro e mafioso, características de um rosto antigo que vão desaparecendo sob as areias movediças do tempo, atrás das rugas, dando lugar a outro rosto ainda mais antigo, que é o rosto da morte, da ternura da morte. É isso… Desaparece a inquietação da vida e aparece a ternura denunciado a morte. Tarde ou cedo, essa ternura e essa morte aparecem a toda a gente.
parti-las para entrarem em mim. São milhões e só eu os vejo. São negros como
corvos, mas sei que não existem nos tratados de biologia, porque ainda não foram
estudados, portanto não são corvos. São talvez demasiado aterradores para alguém
lhes prestar atenção, para alguém lhes ver. Eu sou especial. Vejo-os, passo a
vida toda a vê-los porque tenho uma coragem invulgar. Não os quero ver, mas não
posso deixar de ter a minha visão, o meu talento, porque senão morreria. Não
quero morrer. Viverei sob a fúria destes milhões de corvos de um outro mundo,
que querem comer-me os miolos, e entre os cegos da minha própria espécie, que
não os vêem porque não têm tomates. Sou uma mulher com tomates!
A morte ternurenta é exclusiva dos idosos no fim da linha, mas há em alguns rostos jovens uma outra morte, que é a morte horrível em vida – o caso da trintona caixa-de-óculos que se dedica, sempre que a vê no café, sem companhia, à leitura da invariável revista de empolgantes fofoquices, perdendo uma lastimável quantidade de tempo na secção das previsões astrológicas, enquanto vai sorvendo o café. A mulher tem um rosto apagado e mórbido, fechado para divagações da autoria dos jornalistas da revista – adivinhamo-la na companhia dos cometas que povoam este mundo, em casamentos de luxo ou divórcios conturbados, em hotéis de cinco estrelas ou singularmente adornadas discotecas, distintas perfumarias e boutiques da moda. Leonor surpreende-se a ela própria com este pensamento – as divagações desta leitora infatigável de revistas rosa-choque não são geradas por ela, mas por outras pessoas. Todo o seu imaginário, o teor das suas fantasias conscientes, é configurado pelo poder que vigora na tribuna da comunicação social. Esta mulher está morta porque a sua individualidade não é visível.
Leonor acaba o galão e paga a conta. Lucinda berra-lhe um lancinante volte-sempre.
10 de agosto de 2009
A FELICIDADE É UMA DITADURA!!!
Evgueni Zamiatine, Nós, trad. Manuel João Gomes, Antígona, 2004
9 de agosto de 2009
3 - Leonor chora no comboio
É nisto que vai a pensar a singular cabeça desta história, num comboio da linha de Sintra, sentada ao lado de uma mulher de meia-idade que vai a tricotar, à frente de um rapaz atraente que vai a ler um jornal de distribuição gratuito, olhando de vez em quando para as suas mamas. O comboio vai mais ou menos apinhado desde o Cacém, onde entra muita gente com os seus fedores, alegrias e tristezas habituais, geralmente taciturnos e embrutecidos na manhã austera destes dias politicamente azedos, tão horrivelmente anti-literários e humilhantes para a mente prodigiosa… É como um murro no estômago diário, o veículo da mão-de-obra a furar a pardacenta paisagem suburbana, de uma fealdade escandalosa, construção apressada de gaiolas que alojem ratos, abelhas, cavalos, iguanas, chimpanzés, cangurus, formigas, cigarras, hipopótamos, pardais, cobras, todos os animais existentes menos o ser humano, que nos subúrbios é um mito e uma exclamação dessas tais mentes brilhantes, que por vezes se sentam nos tais comboios apinhados entre o batalhão dos animais de trabalho, tentando passar despercebidos… E o comboio fura, fura inutilmente os subúrbios e leva-a a Lisboa, onde trabalha para vender livros (eróticos), entre as pessoas já velhas que tricotam inutilmente os casaquinhos a distribuir pelos netos da civilização. Todos pensam na prole, na imensa produção que os vai salvar do lodaçal deste lixado viver quotidiano. Todos… Leonor não faz parte desse todos e sofre de claustrofobia, uma doença estranha que não se limita aos espaços fechados e cheios de pó, como o seu quarto, e que a ataca também noutros espaços, mesmo nos espaços abertos e em que corre o ar, o ar infestado da cidade. Todos menos Leonor, que olha através dos vidros do comboio, pintados com spray de pintar paredes, vidros que alguns miúdos tentam em vão riscar para afirmarem qualquer coisa que lhes convém – o poder, a soberania da juventude, a irreverência tão inocente e passageira, uma revolta tão infrutífera –, para sobreviverem por instantes que sejam ao lixado quotidiano verdadeiro, tão parco em alegrias pródigas e definitivas. Olha através dos vidros e vê amplamente o épico, a poesia trágica da urbanidade periférica, os prédios altos que lançam sombras enormes sobre as pessoas, amontoados horrendos de pardieiros, tugúrios lamentavelmente dispostos sobre os caixões das pessoas, de manhã à noite a mesma merda nociva despejada sobre os transeuntes, empregados até ao fim das suas vidas, até ao fim de todos os comércios e de todas as políticas, nações e profissões. Até ao fim…
Sem se aperceber da sua tristeza, genuinamente inconsciente e fora daquele transporte público, no espaço mítico da angústia extrema, Leonor começa a chorar. Só se apercebe quando a anafada senhora à sua frente (o rapaz já tinha saído, para dar lugar a uma senhora de ar simpático) lhe toca levemente no joelho com a mão inchada de cortisona para artríticos e lhe pergunta, com uma aflição sincera: “A menina está-se a sentir bem?”. E ela desperta do transe.
8 de agosto de 2009
2 - Leonor come esparguete
1 - Leonor encerrada no seu quarto suburbano
Mas Leonor ainda não pensou seriamente em suicídio. Ocorreu-lhe pensar em suicídio, mas foi apenas como fantasia, e não como realização de um projecto. É que nem teve de pensar se seria capaz de o fazer ou não… O que define a nossa personagem é um enigma indefinível num quarto escuro e isolado do mundo, grotescamente anónimo. Ela ainda não chegou à fase das soluções, porque é ainda muito jovem. Para ela, a inquietude é uma dor, mas é uma dor necessária e talvez até luxuosa, uma dádiva que lhe foi concedida e que ela tem de aproveitar. Sofre injustamente, mas é o sofrimento de uma pessoa que foi eleita para esse sofrimento, porque dele se produzirá uma coisa única. É como a crucificação de Cristo.
4 de agosto de 2009
Urinol, de Manuel de Freitas
as mais contentes, passámo-las
num urinol qualquer, vendo correr o mijo
capaz e fluente numa certeza de louça
branca, amarela ou cinzenta.
Instantes de pouca opressão,
cumprindo embora um estúpido dever,
desses do corpo, sob o silêncio infecto de Deus
- que talvez fosse aquele puxador
de autoclismo que um dia me ficou na mão,
numa taberna discreta ao Poço dos Negros.
Guardei-o ainda alguns meses, mas de Deus
como de um autoclismo, de tudo
acabamos por nos cansar. Até de poemas.
São ruas velhas assim, onde paira
a suposição grosseira de um urinol
divino e sombrio, que nos fazem aceitar
esta voraz forma de extermínio. O nosso,
incandescente, num apogeu de melancólicas
retretes onde os insetos e bactérias do acaso
nos distraem o olhar
embaciado pelo abuso da lixívia.
Uma lucidez pegajosa, toldando a idade
das mãos invariavelmente senis.
Como se bastassem, ou fossem mesmo
excessivas, certas baixas certezas de cão,
desastres menores. Sabendo-se de fonte
segura que o mijo pode ser um poema.
Um poema cansado do que antes foi vinho,
a suicidar-se agora - contente e tão triste -
no vazio evidente de uma louça
branca, amarela, sagrada.
Pequenas alegrias e no entanto as maiores,
essas mesmas que bastarão,
que terão de bastar,
no dia
em que formos
morrer.
in "Os Infernos Artificiais", Manuel de Freitas, Frenesi, 2001
3 de agosto de 2009
2 de agosto de 2009
Para Sabina, viver significa ver. A visão encontra-se limitada por duas fronteiras: uma luz de tal modo intensa que nos cega e uma obscuridade total. Talvez seja daí que lhe vem a repugnância por todos os extremismos. Os extremos marcam a fronteira para lá da qual não há vida, e, tanto em arte como em política, a paixão do extremismo é um desejo de morte disfarçado.Deus não tem intestinos e o homem não se parece com ele
«Quando eu era pequeno, punha-me a olhar para uma imagem de Deus Nosso Senhor de pé, em cima de uma nuvem que havia no Antigo Testamento, contado às crianças e ilustrado com gravuras de Gustavo Doré, que costumava folhear. Era um senhor bastante velho, com olhos, nariz, uma grande barba, e eu achava que, como tinha boca, também devia comer. E, se comia, também devia ter intestinos. Mas ficava logo assustado com a ideia porque, embora a minha família fosse quase ateia, percebia bem a blasfémia que era pensar que Deus Nosso Senhor tinha intestinos.
Cartaz de Propaganda da República Popular da China, 1975


