31 de agosto de 2009

Godless

Uma lâmina aguçada golpeando a carne do incrédulo, que de repente se apercebe da realidade imediata da dor e urra em desespero, porque não a pode suportar. Abrimos os olhos para a súbita crueza dos elementos, a frieza do aço, a clara nitidez dos objectos físicos, e constatamos que não há objectos que não sejam físicos – e isto é o desespero, a constatação da natureza somente física da realidade –, e nada no mundo nos seduz positivamente, mas muito nos seduz negativamente, para um prazer agressivo e viciante de auto-flagelação.

Os excessos da imaginação

"À primeira vista não passava de um ser que juntara o seu corpo humano a uma cabeça equina, com cauda de sereia e escamas de serpente."
Umberto Eco

Desligados do fluxo incessante da acção histórica, em recessos antigos e secretos vivem os poetas da intemporalidade – mendigos santos barbudos, beatíficas crianças delinquentes, pelintras maltrapilhos magricelas… Os andrajosos profetas do instante desdenham a traição inerente às intenções e permanecem obstinadamente na aventura do satori, estragando o corpo na derradeira mutilação da iluminação. Esses cósmicos indivíduos são inofensivos, porque não há finalidade nos seus actos. Mas há aquelas raras excepções, de quem parte do exílio para comunicar as visões singulares, e esses casos é que são verdadeiramente insólitos… O Zezinho foi um deles. Abandonou aquele silêncio auto-contemplativo e tomou a firme resolução de proclamar o nirvana como se este se tratasse de um objectivo da sociedade. A coisa tornou-se política, sem contudo deixar de ser artística e devidamente explosiva. Desvairado começou a pintar paredes, como fez primeiro Basquiat, poeta pictórico nova-iorquino janado. A sua arte começava a produzir transfigurações nos rostos, gargalhadas colossais e esgares de pânico, extrema alegria e puro terror. Ele queria construir uma sociedade sem tempo, uma humanidade dominada pela sensualidade, e por isso as suas peças atacavam directamente as vísceras, sem mediação racional. Tornou-se megalómano.
Há um preço a pagar pelo embuste da arte. É que, apesar dos seus eflúvios de poderosa criatividade, o Zezinho ainda tinha um aspecto físico normal, as pessoas consideravam-no um ser humano. Um dia acordou e assustou-se – a sua cabeça parecia a cabeça de um cavalo, e em vez das pernas tinha agora uma cauda de sereia. A namorada apressou-se a chamar a ambulância.
Agora, Zezinho passa os dias num asilo para doentes mentais. É um homem de aspecto normal, mas, na sua demência, continua a achar que tem uma cabeça equina e uma cauda de sereia em vez das pernas. A imaginação atraiçoou-o.

Jean-Michel Basquiat

30 de agosto de 2009

«Por que não publicar?»

Enrique Vila-Matas cita Nicholas Chamfort:

Porque não desejo fazer como as gentes das letras, que se parecem a asnos que dão coices e lutam pelo seu lugar na manjedoura vazia.

in Enrique Vila-Matas, Bartleby & Companhia, Assírio & Alvim, 2001

26 de agosto de 2009

Uma síntese de Muriel Barbery

Existe sempre o caminho da simplicidade, embora deteste segui-lo. Não tenho filhos, não vejo televisão e não acredito em Deus, tudo veredas que os homens percorrem para que a vida lhes seja mais fácil. Os filhos ajudam a adiar a tarefa de nos encontrarmos e, em seguida, são os netos que garantem o mesmo. A televisão distrai da extenuante necessidade de fazer projectos a partir do nada das nossas existências frívolas; enganando os olhos, alivia o espírito da grande obra de sentido. Por fim, Deus aquieta os nossos medos de mamíferos e a insuportável perspectiva de os nossos prazeres terem um dia fim. Assim, sem futuro nem descendência, sem pixéis para embrutecer a consciência cósmica do absurdo, com a certeza do fim e a antecipação do vazio, julgo poder dizer que não escolhi o caminho da facilidade.

in Muriel Barbery, A Elegância do Ouriço, Editorial Presença, 2008

23 de agosto de 2009

"Deve-se estar sempre embriagado."

Il faut être toujours ivre. Tout est là: c'est l'unique question. Pour ne pas sentir l'horrible fardeau du Temps qui brise vos épaules et vous penche vers la terre, il faut vous enivrer sans trêve.
Mais de quoi? De vin, de poésie ou de vertu, à votre guise. Mais enivrez-vous.
Et si quelquefois, sur les marches d'un palais, sur l'herbe verte d'un fossé, dans la solitude morne de votre chambre, vous vous réveillez, l'ivresse déjà diminuée ou disparue, demandez au vent, à la vague, à l'étoile, à l'oiseau, à l'horloge, à tout ce qui fuit, à tout ce qui gémit, à tout ce qui roule, à tout ce qui chante, à tout ce qui parle, demandez quelle heure il est; et le vent, la vague, l'étoile, l'oiseau, l'horloge, vous répondront: «Il est l'heure de s'enivrer! Pour n'être pas les esclaves martyrisés du Temps, enivrez-vous sans cesse! De vin, de poésie ou de vertu, à votre guise.»

in Charles Baudelaire, Les Paradis Artificiels, GF-Flammarion, 1966

Deve-se estar sempre embriagado. Nada mais conta. Para não sentir o horrível fardo do Tempo que esmaga os vossos ombros e vos faz pender para a terra, deveis embriagar-vos sem tréguas.
Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha.
Mas embriagai-vos. E se algumas vezes, nos degraus de um palácio, na erva verde de uma vala, na solidão baça do vosso quarto, acordais, já diminuída ou desaparecida a embriaguez, perguntai ao vento, à vaga, à estrela, à ave, ao relógio, a tudo que foge, a tudo o que geme, a tudo que rola, a tudo que canta, a tudo que fala, perguntai que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, a ave, o relógio, vos responderão: «São horas de vos embriagardes! Para não serdes os escravos martirizados do Tempo, embriagai-vos sem cessar! De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha.»

in Charles Baudelaire, Os Paraísos Artificiais, Editorial Estampa, 1971

22 de agosto de 2009

Keep on rockin' in the free world

Os Frutos do Mal

A pouco e pouco, Leonor ingressa no mundo criminoso dignificado pela literatura do mal, na pátria metafísica de todos os dissidentes espirituais, atormentados pelo desejo irreprimível de liberdade. Nela encontra o refúgio necessário a uma alma naturalmente transgressora, que deitou por terra aquilo que aprendeu e aceitou em criança, e uma via saudável para essa transgressão, edificante em vez de destrutiva e auto-punitiva. Assim, as caganitas que caem dos pássaros enfurecidos em voos de liberdade individual germinam em flores prodigiosas. Do solo fertilizado pela virilidade singular do poeta brotam árvores frondosas que dão frutos imperecíveis para as gerações vindouras.
Holy the supernatural extra brilliant intelligent kindness of the soul!

16 de agosto de 2009

The Artist's Duty, by Kenneth Patchen

5 - A festança

Tira a chave da mala, enfia-a na ranhura e roda para a esquerda, não para a direita, para abrir a porta da livraria. The Marvellous Pages é o nome que o senhor Tavares se lembrou de atribuir à loja, palavras mágicas que lhe apareceram na cabeça a dançar quando voltava para casa depois de um concerto numa noite mística. Leonor abre a porta para a obscuridade dos livros, para a obscuridade própria da literatura, entra e acende a luz. Imagina que, durante a noite, os espíritos daqueles que criaram todos aqueles livros estiveram para ali a fazer uma grande festa ruidosa, com montes de álcool e erva, guitarras e saxofones, convocados pela poesia que escreveram em vida, vindos de toda a parte. Alguns ressuscitaram por causa da festa, porque de facto a morte para os criadores não existe – sempre que há uma ocasião de grande alegria, júbilo supremo, os espíritos dos artistas vencem a morte e vão ter com os seus pares a uma cave oculta da fúria dos censores, onde comemoram a imortalidade e a invencibilidade da alma, como deuses num Olimpo secreto e inacessível a gente como nós. O primeiro a chegar ao local da celebração sem tempo é o Walt Whitman, que não se alcoolizou mas está ébrio com o fulgor imorredoiro do seu ego de criança grande. Vem outro maluco a seguir, aos saltos e agitando os braços, gritando sílabas a plenos pulmões desde a noite dos tempos – é o Jack Kerouac, poeta prosador que, do esplendor da eterna infância, atirava sinfonias de palavras para o ar que toda a gente ouvia, que muita gente ouvia sem saber, que, como todos os grandes artistas, acabou por definir a história sem pretensamente o querer. Depois do Jack Kerouac, chegam talvez o Fernando Pessoa e o Alexandre O'Neill, que foram oficialmente portugueses por mera coincidência, vítimas de uma arbitrariedade histórica que define a simultaneidade na geografia habitada por dois grandes poetas, quando toda a gente sabe que na poesia há outra geografia, outros rios, outras terras sem limites e sem leis. Mas seguem-se outros, inúmeros poetas que fizeram parte da árvore da humanidade. A Sylvia Plath matou-se, enfiou a cabeça num fogão a gás para aniquilar o ego tormentoso, mas aí está ela, curada de todas as depressões maníacas! E brinca e goza, jaz de amor supremo nos braços do amado Ted Hughes. E segue-se um rol de admiráveis bardos do amor e da liberdade… A festa prossegue e o silêncio da noite acaba, a música assalta a noite, as palavras voam e estilhaçam os vidros, provocam brechas nas paredes e entram em ouvidos de artistas por nascer.
No entanto, mal ela abre a porta a festa dissipa-se, os livros voltam às prateleiras sem as nódoas do vinho entornado em pleno espasmo orgíaco dos génios, as garrafas e os instrumentos musicais volatilizam-se, todas as marcas desaparecem do local. Ela acende a luz e já os livros estão mortos e enfileirados nas prateleiras, prontos a serem devorados pelas traças vorazes, que são os leitores. E então senta-se, abre o computador, vê o mail, as notícias do dia, e espera. Geralmente, pouco há a fazer de manhã, mas alguém tem de estar na loja. Nesses ocasiões, Leonor retoma a leitura de um livro e desliga-se da realidade quotidiana para entrar num dos imensos mundos paralelos que a arte tem para oferecer, mas vai também descobrindo este mundo, os pormenores e as razões profundas, o que é para mudar e a beleza extática, infortúnios e bem-aventurança.

14 de agosto de 2009

13 de agosto de 2009

A banana entalada na vagina

No regresso da sua última viagem psicadélica, equanto o efeito da psilocibina se desvanecia, que é sempre um momento de grande lucidez em que o psiconauta toma decisões que servem para toda a vida, Leonor tomou a augusta resolução de não se preocupar com nada. Se na vida há que escolher uma ditadura para uso caseiro, uma cruz a carregar, Leonor prefere a ditadura da emoção pura, em vez da ditadura da situação histórica. Agora o seu corpo faz parte do jogo dos elementos e não se esconde em lúgebres reflexões inúteis, amputado do universo. Agora o seu corpo é pura sensação.

12 de agosto de 2009

Odetta barks the blues

4 - Corvos da imaginação prodigiosa

― Olá! Como vai isso, tudo bem?
É sempre com este tipo de alegria, excessivamente constante, diária, que a empregada do café lhe dá as boas vindas ao estabelecimento. A sua boa disposição chega a ser irritante. Grotesca. Dá ideia que a mulher é cega para o que se passa no mundo, ou simplesmente louca, talvez tenha uma deficiência neurológica que a destitua da porção de tristeza que faz parte das pessoas normais. Sim, porque uma pessoa que está sempre alegre não é pode ser lá muito saudável…
― Bom dia, Lucinda. Cá se vai andando, com a cabeça entre as orelhas. Faço o que posso.
― O que é que vai ser?
― Um galão e meia torrada.
Senta-se a mesinha livre perto da janela e tira o livrinho preto onde escreve as palavras que lhe ocorrem de vez em quando no comboio, em certas manhãs de inspiração poética. São palavras que a resgatam da confusão da vida e anunciam a existência de uma estética intemporal e sublime, que dá sentido à existência, mesmo que esse estética seja por vezes atroz, por ser incomparavelmente superior ao mundo em que vive, tragicamente inestético. Outras vezes, voam-lhe para a cabeça frases que, em vez de descreverem o belo inexistente, sublimam o feio existente ao horrível e terrífico. Leonor oscila entre as duas utopias, o extremamente belo e o insuportavelmente feio, o Paraíso e o Inferno. Oscila entre os dois absolutos como um trapo esvoaçante no bruto vendaval da inspiração, ante o qual não há nada a fazer. Pega-se numa caneta, num pedaço de papel, e escreve-se, escreve-se com fervor até que a sede de infinito se extinga. Elimina-se o excesso de vida. Cede-se. Eis o que Leonor escreve:
Estes pássaros lançam-se empertigados e frenéticos contra as janelas, querendo
parti-las para entrarem em mim. São milhões e só eu os vejo. São negros como
corvos, mas sei que não existem nos tratados de biologia, porque ainda não foram
estudados, portanto não são corvos. São talvez demasiado aterradores para alguém
lhes prestar atenção, para alguém lhes ver. Eu sou especial. Vejo-os, passo a
vida toda a vê-los porque tenho uma coragem invulgar. Não os quero ver, mas não
posso deixar de ter a minha visão, o meu talento, porque senão morreria. Não
quero morrer. Viverei sob a fúria destes milhões de corvos de um outro mundo,
que querem comer-me os miolos, e entre os cegos da minha própria espécie, que
não os vêem porque não têm tomates. Sou uma mulher com tomates!
Entretanto, chegam-lhe à mesa a torrada e o galão, juntamente com o eterno sorriso imbecil de Lucinda, que se apressa a exclamar-lhe um lancinante bom-apetite. Enquanto come, Leonor observa à sua volta a frequente inquietação matinal das pessoas emproadas, enfiadas nas suas cogitações profissionais, abelhas e formigas, com excepção evidente e rotineira para o pensionista idoso que lê um jornal desportivo, traços fisionómicos de um velho sacana grosseiro e mafioso, características de um rosto antigo que vão desaparecendo sob as areias movediças do tempo, atrás das rugas, dando lugar a outro rosto ainda mais antigo, que é o rosto da morte, da ternura da morte. É isso… Desaparece a inquietação da vida e aparece a ternura denunciado a morte. Tarde ou cedo, essa ternura e essa morte aparecem a toda a gente.
A morte ternurenta é exclusiva dos idosos no fim da linha, mas há em alguns rostos jovens uma outra morte, que é a morte horrível em vida – o caso da trintona caixa-de-óculos que se dedica, sempre que a vê no café, sem companhia, à leitura da invariável revista de empolgantes fofoquices, perdendo uma lastimável quantidade de tempo na secção das previsões astrológicas, enquanto vai sorvendo o café. A mulher tem um rosto apagado e mórbido, fechado para divagações da autoria dos jornalistas da revista – adivinhamo-la na companhia dos cometas que povoam este mundo, em casamentos de luxo ou divórcios conturbados, em hotéis de cinco estrelas ou singularmente adornadas discotecas, distintas perfumarias e boutiques da moda. Leonor surpreende-se a ela própria com este pensamento – as divagações desta leitora infatigável de revistas rosa-choque não são geradas por ela, mas por outras pessoas. Todo o seu imaginário, o teor das suas fantasias conscientes, é configurado pelo poder que vigora na tribuna da comunicação social. Esta mulher está morta porque a sua individualidade não é visível.
Leonor acaba o galão e paga a conta. Lucinda berra-lhe um lancinante volte-sempre.

10 de agosto de 2009

ATENÇÃO: A FELICIDADE DESTE POVO É UMA MENTIRA

Cartaz de Propaganda da República Popular da China, 1975

A FELICIDADE É UMA DITADURA!!!

Trata-se de uma antiga lenda sobre o Paraíso (que repuxo de cuspo jorrou deste P). Uma lenda que se aplica ao nosso caso, a este nosso tempo. Sim, vais já pode ajuizar. Aquele casal, no Paraíso, teve que escolher entre felicidade sem liberdade ou liberdade sem felicidade. Não havia terceira alternativa. Os pobres doidos escolheram a liberdade e aconteceu sabes o quê? Evidentemente, durante as épocas que se seguiram suspiraram pelas algemas. Algemas, percebes? É o significado do Weltschmerz. Durante séculos! E só nós é que por fim descobrimos a maneira de recuperar a felicidade. Mas escuta, escuta agora o seguinte: o Deus dos antigos e nós sentamo-nos lado a lado, à mesma mesa. Sim! Ajudámos Deus a vencer o Diabo de uma vez por todas. Porque era o Diabo que incitava os mortais a transgredirem o interdito, a provarem a liberdade perniciosa, era ele, a serpente subtil. Mas nós, com calcanhar forte, esmagámos a cabeça do insignificante ofídio e scratch! E chamámos a nós o Paraíso, novamente. Tornámos a ser simples de coração, inocentes como Adão e Eva. Acabaram-se todas aquelas tolices a respeito do Bem, a respeito do Mal; tudo é tão simples quanto pode sê-lo, infantil, paradisiacamente simples. O Benfeitor, a Máquina, o Cubo, a Campânula Pneumática, os Guardas: tudo isso é bom, grande, esplendidamente belo, nobre, exaltado, cristalino. São tudo formas de proteger a nossa não-liberdade, ou seja, a nossa felicidade. No nosso lugar, os antigos começariam a reflectir sobre tudo isso, a fazer comparações, a quebrar a cabeça com o que é e o que não é ético.

Evgueni Zamiatine, Nós, trad. Manuel João Gomes, Antígona, 2004

9 de agosto de 2009

Fotografia da autoria de Diane Arbus

3 - Leonor chora no comboio

No dia seguinte acorda, abre a persiana e sente-se extremamente sensual. Abre a janela e deixa a aragem fresca correr-lhe suavemente pelos seios nus, e sente que os raios do sol a acariciam e lhe penetram por todos os poros da pele. Dorme nua e a janela dá para as traseiras de um prédio. Abre a janela todos os dias úteis à mesma hora. Há um miúdo de catorze anos que se anda a masturbar todos os dias a olhar para ela. Parece que se levanta cedo só para a contemplar, para se imaginar nu naquele quarto com ela, ou talvez num quarto qualquer em que os dois viveriam em extremo deleite matrimonial. O miúdo masturba-se atrás da cortina tentando passar despercebido, dissimulando o seu corpo de adolescente atravessando o insustentável paraíso pré-orgásmico, e ela finge que não o vê. Geralmente não o vê, mas sabe, tem a certeza, que ele está ali do outro lado a olhar e a fantasiar com ela, e ela gosta e sente-se bem, de facto até se sente magistralmente bem.
Leonor é uma brasa de mulher. Morena cor de café com leite, de andar não propositadamente, mas naturalmente, felino, cabelos selvagens e soltos, formas curvas em que nos temos de despenhar e morrer… O seu corpo é altamente apreciado. Ela tem consciência disso e não consegue deixar de ter orgulho do seu corpo e da sua sensualidade natural e desempoeirada, apesar de saber que esse orgulho é fútil e inútil, tendo em conta uma série de coisas para as quais tem acordado, os tais problemas sem solução, a tal angústia cuja enormidade faz sombra sobre todas as outras coisas, que se tornam ínfimas e de importância nula, apenas trivialidades inevitáveis. Mas goza imenso com essas trivialidades – quando, com alguma sorte, acorda de manhã cedo e o céu está limpo, por exemplo, ou quando, por um motivo desconhecido, mas sempre do tipo ambiental ou psicossomático, há uma nulidade que o seu corpo atinge que permite o gozo da existência, que não se tenta transfigurar noutra coisa qualquer. Leonor veste as cuecas, o sutiã, as calças de ganga, a blusa, a indumentária oficial do mundo em que procura gravar uma pequena marca sua, um pequeno sinal de distinção, quase discreto, quase evidente, uma ténue exigência de individualidade e independência, e sai para a rua, fresca que nem uma alface, juntando-se ao exército habitual. Sem o disfarce, que por sinal odeia, não conseguiria caminhar entre eles.
A nossa outsider não tem trabalho fixo, tal como acontece com muitos outros membros do exército, o chamado precariado. A situação é grave, mas o que é que se pode fazer?… (Havia de ir para a rua gritar. Organizaria protestos inesquecíveis, que fariam mudar o rumo das políticas de emprego, e de todas as políticas. Se fosse necessário, e decerto seria, haveria violência, sangue imenso correndo pelas ruas, deixando sulcos no alcatrão, autênticos rios de sangue e sofrimento.) No dia em que olhamos para ela como através de um buraquinho invisível no seu mundo e lhe estudamos os movimentos, os pensamentos, a sensualidade, Leonor dirige-se a uma livraria, à livraria onde trabalha, na Avenida Elias Garcia, quase a chegar à Calouste Gulbenkian de quem vem da Avenida da República.
No entanto, o lugar onde Leonor trabalha é perfeitamente indiferente para esta história, porque Leonor é uma mulher cujos arrojos de criatividade têm de se manifestar onde quer que se encontre, cujos caminhos mentais diferem e escapam às solicitações de qualquer sítio. É uma mulher em que a sensualidade é tão grande que provoca uma ruptura com o sítio e com a situação, um rasgão de dissidência no pano negro da concórdia. Assim sendo, o local onde Leonor trabalha podia até ser uma lojeca de roupa e artigos eróticos. Mas os livros também são eróticos… Nos livros há uma sensualidade , mais ou menos vaga, que se traduz por palavras, escritas por um homem-falo ou por uma mulher que não receia mostrar a sua vagina a toda a humanidade. Depois há outros livros, no extremo oposto da sexualidade, em que o autor, por via de extrema timidez ou simples paranóia, se nega o direito de fornicação. Não há, nesses estranhos casos, uma ausência de sensualidade, porque esta manifesta-se de forma furtiva e perversa, insana e fatalmente viciante, auto-destrutiva, transformando-se numa doença maior do que a vida. Por muito que se admire o homem-santo que dedica uma amizade excessiva aos pássaros sem olhar com o mínimo de avidez para as mulheres que passam por ele na rua, tem de se admitir que ele é pouco saudável. Esse homem está num estádio avançado de insanidade, um estádio do qual não há regresso. O mesmo se passa com aqueles indivíduos que se dedicam quase exclusivamente à solidariedade social – à sopa dos pobres, por assim dizer. Há neles um orgulho maquilhado, uma ousadia que ofende os que procuram a verdade. São indivíduos de uma sensualidade simbólica, pretensa, arrogante e cobarde. Correm a fugir da verdade, mas nessa fuga levam à frente dos olhos um evangelho excessivamente usado e gasto, que fere os olhos e destrói a necessidade de uma verdade mais científica.
Sim, os livros exprimem o erotismo, consciente ou latente, presentes nas nossas vidas. Leonor tem essa convicção, e também reconhece outra propriedade da verdadeira literatura, que é a sua dissidência em relação à mensagem popular, que resulta do conservadorismo. O conservadorismo é estéril e anti-literário. As pessoas conservadoras podem fornicar e produzir filhos, mas não produzem vida. As crianças que nascem dessas vaginas são de plástico, como os bonecos produzidos na China para as entreter. As crianças não são todas feitas de plástico (a maioria da crianças não são feitas de plástico!), mas temos de as considerar de plástico agora, para arranjarmos uma metáfora que tão bem exemplifique a inutilidade dessas vidas. A maioria das pessoas é produzida em massa para o mesmo fim: a morte.
É nisto que vai a pensar a singular cabeça desta história, num comboio da linha de Sintra, sentada ao lado de uma mulher de meia-idade que vai a tricotar, à frente de um rapaz atraente que vai a ler um jornal de distribuição gratuito, olhando de vez em quando para as suas mamas. O comboio vai mais ou menos apinhado desde o Cacém, onde entra muita gente com os seus fedores, alegrias e tristezas habituais, geralmente taciturnos e embrutecidos na manhã austera destes dias politicamente azedos, tão horrivelmente anti-literários e humilhantes para a mente prodigiosa… É como um murro no estômago diário, o veículo da mão-de-obra a furar a pardacenta paisagem suburbana, de uma fealdade escandalosa, construção apressada de gaiolas que alojem ratos, abelhas, cavalos, iguanas, chimpanzés, cangurus, formigas, cigarras, hipopótamos, pardais, cobras, todos os animais existentes menos o ser humano, que nos subúrbios é um mito e uma exclamação dessas tais mentes brilhantes, que por vezes se sentam nos tais comboios apinhados entre o batalhão dos animais de trabalho, tentando passar despercebidos… E o comboio fura, fura inutilmente os subúrbios e leva-a a Lisboa, onde trabalha para vender livros (eróticos), entre as pessoas já velhas que tricotam inutilmente os casaquinhos a distribuir pelos netos da civilização. Todos pensam na prole, na imensa produção que os vai salvar do lodaçal deste lixado viver quotidiano. Todos… Leonor não faz parte desse todos e sofre de claustrofobia, uma doença estranha que não se limita aos espaços fechados e cheios de pó, como o seu quarto, e que a ataca também noutros espaços, mesmo nos espaços abertos e em que corre o ar, o ar infestado da cidade. Todos menos Leonor, que olha através dos vidros do comboio, pintados com spray de pintar paredes, vidros que alguns miúdos tentam em vão riscar para afirmarem qualquer coisa que lhes convém – o poder, a soberania da juventude, a irreverência tão inocente e passageira, uma revolta tão infrutífera –, para sobreviverem por instantes que sejam ao lixado quotidiano verdadeiro, tão parco em alegrias pródigas e definitivas. Olha através dos vidros e vê amplamente o épico, a poesia trágica da urbanidade periférica, os prédios altos que lançam sombras enormes sobre as pessoas, amontoados horrendos de pardieiros, tugúrios lamentavelmente dispostos sobre os caixões das pessoas, de manhã à noite a mesma merda nociva despejada sobre os transeuntes, empregados até ao fim das suas vidas, até ao fim de todos os comércios e de todas as políticas, nações e profissões. Até ao fim…
Sem se aperceber da sua tristeza, genuinamente inconsciente e fora daquele transporte público, no espaço mítico da angústia extrema, Leonor começa a chorar. Só se apercebe quando a anafada senhora à sua frente (o rapaz já tinha saído, para dar lugar a uma senhora de ar simpático) lhe toca levemente no joelho com a mão inchada de cortisona para artríticos e lhe pergunta, com uma aflição sincera: “A menina está-se a sentir bem?”. E ela desperta do transe.
― Eu estou bem, obrigada. Isto não é nada. – E sorri para a senhora simpática, dando-se conta dos olhares que se erguem dos jornais gratuitos e das rendas que cheiram a mofo, para espiar as suas lágrimas do fundo do vale da modorra, mal se apercebendo que a humilhação é deles e não dela, que apenas chora porque lhe apetece chorar, porque certamente consegue manter o seu humanismo, a sua inquietude, que é realmente uma força sentimental enorme…
― Tem a certeza? Espere lá, eu arranjo-lhe um lençinho…
Abre a mala preta e tira um pacote de lenços de papel. Abre-o e estende um lenço à menina que chora. A menina agradece. O lenço cheira a lavanda. A senhora olha para a menina e a menina sente-se envergonhada e continua a tapar os olhos com o lenço. Quando finalmente se decide a baixá-los e a enfrentar a vergonha, olha para a senhora, que a fita com olhos benevolentes e maternais, olhos que esquecera e que agora reencontra num lugar improvável, como se fosse um milagre. E agradece. Mas a anafada senhora está desejosa de falar:
― Estive a observá-la enquanto olhava lá para fora, para os prédios. Em que é que estava a pensar? É uma paisagem feia, não é?
― É horrível. Estes prédios todos em cima uns dos outros… É uma pocilga, uma prisão. – Leonor diz isto com tal irritação que faz com que a senhora se cale, torcendo a boca e esbugalhando os olhos num esgar de susto.
A senhora desvia os olhos, temendo a erupção de um vulcão que lhe estragasse o dia. E Leonor desvia também os olhos, para a visão de prédios e alcatrão, para o épico suburbano de uma tristeza inconsolável…

DYING IS AN ART, LIKE EVERYTHING ELSE. I DO IT EXCEPTIONALLY WELL.

Jan Saudek, The Journey (2001)
Este artista checo é muito bom. IR AO SITE DELE

8 de agosto de 2009

2 - Leonor come esparguete

Levanta-se, abre a persiana e a janela, acomoda-se à luz que desmaia do entardecer, deixando manchas e reflexos dourados e cor-de-laranja nas superfícies da cidade, fazendo talvez lembrar o domínio da esfera celeste sobre a esfera do desespero humano, feita de terra e sangue, e de acções inúteis que só servem para prolongar a estadia no reino da dor, e acende um cigarro. Fuma-o à janela inclinada, de bruços apoiados, tragando o ar carregado de nicotina e lançando-o através dos lábios sensuais para o ar que escurece a pouco e pouco para dentro de todas as casas, acomodando o desespero domesticado dessa gente, que se fecha em grutas de amor para tomar decisões que não valem nada, porque a vida é um logro. Mas elas persistem. Leonor tem a certeza que essas pessoas são estúpidas, porque não deixam de sonhar. Ela também sonha, mas sabe que apenas sonha, e que sonha com meras fantasias poéticas. Crê no sonho, mas não nas possibilidades do sonho, na súbita transmutação do sonho em realidade. Crê na imaginação, mas somente enquanto valor essencial para a criação artística. Já as pessoas não… Enchem a barriga de ilusões e são felizes. A felicidade é para os estúpidos, e ela não é estúpida.
(Comentário, obviamente faccioso, do autor: esta mulher é o cúmulo do narcisismo. Vive para manter o seu isolamento do mundo, e mascara essa distância com os conhecimentos que vai buscar aos livros. Mas é bom que o leitor tome em consideração a imprudência deste comentário, porque o autor, apesar do poder com que se investe, nada sabe da personagem.)
Apaga o cigarro no cinzeiro de madeira de sândalo que uma tia trouxera da Índia. Vai à casa de banho, abre a torneira e chapinha a cara de água fria, para se aliviar do calor insuportável que assola a cidade, mesmo à hora do jantar, no princípio da noite. Também ela está com fome, como invariavelmente está àquela hora (20h), e põe um tacho com água no fogão. Tira a polpa de tomate do frigorífico. Foi uma estupidez ter posto a água no tacho… Esvazia-o, põe um pouco de azeite no fundo e baixa o lume. Corta cebola aos pedacinhos e junta-os ao azeite borbulhante. Junta a polpa de tomate. Espera um bocado. Põe a água quente, o habitual esparguete, e aguarda no quarto com a televisão ligada, a ver o noticiário. Não há notícias de jeito… O habitual desfile das familiares caras, pagas com o dinheiro dos contribuintes enjoados, a sorrirem nos seus jogos ou a gritarem umas com as outras nos debates parlamentares, raivosas e cheias de si. Depois há as caras dos jogadores de futebol… Segue-se o interminável zapping. Levanta-se, abre uma lata de salsichas, corta-as aos pedacinhos e junta-os à massa. Minutos depois, apaga o lume, escoa a água e deita o esparguete num prato de sopa. Tira uma garrafa de cerveja do frigorífico, o copo do congelador, e deita-lhe a cerveja. Leva o tabuleiro com o prato para o quarto, senta-se na cama com as costas encostadas à parede e vai comendo e bebendo com os olhos fitos na televisão, que, apesar da óbvia falta de estilo e de qualidade das imagens e informações que por ela passam, não deixa de ser a alternativa ao quarto fechado sobre o tumulto do pensamento individual.

1 - Leonor encerrada no seu quarto suburbano

No quarto suburbano extremamente vulgar, abafado, escuro e sem graça, tão excessivamente vulgar que chega a ser sórdido, devidamente periférico e impessoal, jaz Leonor, sobre a cama solteira de olhos fitos no tecto com um buraco inexistente aberto para outra galáxia. Mas este quarto não condiz com ela. Neste quarto há uma janela de onde se vê um quintal onde está sempre um cão a ladrar esganiçadamente junto a uma nespereira velha, mas há também janelas secretas para os mundos, pontos de vigia que escapam aos olhares comuns. É o lugar onde Leonor habita a sua clandestinidade observadora, o lugar insignificante onde vislumbra, com um misto de terror e paixão, a forma esconsa de uma harmonia proibida, pertencente à categoria das coisas que não se mencionam, que nem sequer têm nome, que foram erradicadas dos zonas públicas. Coisas sem nome entrevistas, por vezes adivinhadas, através de um denso nevoeiro. E Leonor encontra essas coisas nos espaços vazios, despovoados, insólitos e perigosos que percorre sozinha com voracidade insatisfeita, arriscando a sanidade, no espaço físico deste quarto lamentavelmente escuro. Encontra os nomes das coisas secretas e regista-os nos seus cadernos, incansavelmente e com a coragem dos rebeldes. Furtivamente.
Lá fora, atrás das persianas corridas e cobertas com a poeira castanha que os carros levantam da estrada, cai sobre os corpos uma luminosidade intensa e vibrante. As pessoas passam felizes na rua e não dão por nada, singelas folhas mortas levadas pelo vento. Passeiam alegrias e tristezas para cá e para lá, efémeras amizades e inimizades, a vida em todo o seu esplendor real, sem desassossegos metafísicos. Há uma certa beleza nesse deambular inofensivo e sem propósito histórico, pensa Leonor. Há uma certa beleza… É a inocência. É a infância.
Digamos que há duas infâncias: a que deveras existe, correspondente a um corpo imaturo e a uma inocência natural, e a que se conquista por nostalgia, essa infância fictícia mas real, pois a realidade mental não deixa de ser uma realidade. Na maioria dos casos, nas pessoas que se passeiam indiferentes na rua, a vida é o exercício do regresso, a chamada segunda infância. Para a maioria das pessoas, esse regresso é inevitável.
Mas Leonor não pertence à espécie. Não pertence a qualquer espécie! É uma pessoa diferente, dessas que não pertencem, das que se vê de longe que não estão bem onde estão, que não encaixam. Aterraram neste planeta com violência, vindas de um país distante onde se pratica o amor livre, mas a nave espacial deixou de funcionar e não há quem a arranje. Depois, não têm outro remédio senão viver assim, na periferia de todas as metrópoles, em lugares esquecidos por Deus, em espera permanente. Os humanos estão na rua incendiados pelos raios do sol primaveril, ou entregues à paixão dos elementos climatéricos de qualquer outra estação, inebriados e fechados no odor pungente da assimilação, irmãos uns dos outros, e ela o que faz? – fecha as persianas e deixa-se estar quieta na cama, perdida num lugar sem nome mas real, insuportavelmente real. Acaso já estiveste num sítio cheio de horrores sem nome do qual não pudesses fugir? Refiro-me a um pequeno monstro de lugar, um quarto sem portas nem janelas mas com uma luz forte incidindo directamente na carne calcinada, nas vísceras que se esgotam no ar nauseabundo, viscoso e peçonhento… E tu tentas abrir uma porta de fuga e não consegues. O problema desse lugar reside na falta de nomeação dos horrores, o que faz com que estes não sejam combatíveis. Não são horrores vulgares. Não é como ires às soluções do teu caderno de exercícios de matemática do 12º ano e estar lá a resposta escarrapachada, e sentires então que a luz do caminho se acende e pões-te de imediato a caminhar até ao próximo enigma, e quando chegares ao próximo enigma é só procurares a solução correspondente no último capítulo do livrinho – digamos que tens toda a legitimidade para fazeres batota… Mas quando o problema é real, não há solução, nem sequer equação, linguagem que o possa descrever, e Leonor sente-se cair nesse abismo da falta de solução. O problema mais difícil, digo-o cabalmente, é o dela, e também o mais perigoso, porque pode-se sempre chegar a uma solução estúpida, o tipo de soluções que são válidas para todos os problemas. Imaginemos por um momento que ela chegava à solução do suicídio… O suicídio é efectivamente uma solução possível para todos os problemas. Elimina-se o mal pela raiz e já está. É unir o nascimento à morte e apagar o resto.
Mas Leonor ainda não pensou seriamente em suicídio. Ocorreu-lhe pensar em suicídio, mas foi apenas como fantasia, e não como realização de um projecto. É que nem teve de pensar se seria capaz de o fazer ou não… O que define a nossa personagem é um enigma indefinível num quarto escuro e isolado do mundo, grotescamente anónimo. Ela ainda não chegou à fase das soluções, porque é ainda muito jovem. Para ela, a inquietude é uma dor, mas é uma dor necessária e talvez até luxuosa, uma dádiva que lhe foi concedida e que ela tem de aproveitar. Sofre injustamente, mas é o sofrimento de uma pessoa que foi eleita para esse sofrimento, porque dele se produzirá uma coisa única. É como a crucificação de Cristo.
Num quarto anónimo encerrado em sombras perpétuas, uma luz insólita treme e agita-se, dança loucamente à volta do mesmo sítio, à espera da coragem de sair lá para fora, para o meio das pessoas, e incendiá-las. Ou à espera que algum acontecimento catalise essa mudança. Somente à espera.
A literatura faz mal à saúde.

4 de agosto de 2009




I WANNA BE SEDATED

Urinol, de Manuel de Freitas

As melhores horas da nossa vida,
as mais contentes, passámo-las
num urinol qualquer, vendo correr o mijo
capaz e fluente numa certeza de louça
branca, amarela ou cinzenta.
Instantes de pouca opressão,
cumprindo embora um estúpido dever,
desses do corpo, sob o silêncio infecto de Deus
- que talvez fosse aquele puxador
de autoclismo que um dia me ficou na mão,
numa taberna discreta ao Poço dos Negros.
Guardei-o ainda alguns meses, mas de Deus
como de um autoclismo, de tudo
acabamos por nos cansar. Até de poemas.

São ruas velhas assim, onde paira
a suposição grosseira de um urinol
divino e sombrio, que nos fazem aceitar
esta voraz forma de extermínio. O nosso,
incandescente, num apogeu de melancólicas
retretes onde os insetos e bactérias do acaso
nos distraem o olhar
embaciado pelo abuso da lixívia.

Uma lucidez pegajosa, toldando a idade
das mãos invariavelmente senis.
Como se bastassem, ou fossem mesmo
excessivas, certas baixas certezas de cão,
desastres menores. Sabendo-se de fonte
segura que o mijo pode ser um poema.
Um poema cansado do que antes foi vinho,
a suicidar-se agora - contente e tão triste -
no vazio evidente de uma louça
branca, amarela, sagrada.

Pequenas alegrias e no entanto as maiores,
essas mesmas que bastarão,
que terão de bastar,
no dia
em que formos
morrer.

in "Os Infernos Artificiais", Manuel de Freitas, Frenesi, 2001
SHEENA IS A PUNK ROCKER

3 de agosto de 2009















Bruno Espadana

2 de agosto de 2009

Para Sabina, viver significa ver. A visão encontra-se limitada por duas fronteiras: uma luz de tal modo intensa que nos cega e uma obscuridade total. Talvez seja daí que lhe vem a repugnância por todos os extremismos. Os extremos marcam a fronteira para lá da qual não há vida, e, tanto em arte como em política, a paixão do extremismo é um desejo de morte disfarçado.
Milan Kundera

Deus não tem intestinos e o homem não se parece com ele

«Quando eu era pequeno, punha-me a olhar para uma imagem de Deus Nosso Senhor de pé, em cima de uma nuvem que havia no Antigo Testamento, contado às crianças e ilustrado com gravuras de Gustavo Doré, que costumava folhear. Era um senhor bastante velho, com olhos, nariz, uma grande barba, e eu achava que, como tinha boca, também devia comer. E, se comia, também devia ter intestinos. Mas ficava logo assustado com a ideia porque, embora a minha família fosse quase ateia, percebia bem a blasfémia que era pensar que Deus Nosso Senhor tinha intestinos.
Sem a mínima preocupação teológica, com toda a espontaneidade, a criança que eu era então já compreendia, portanto, a fragilidade da tese fundamental da antropologia cristã, segundo a qual o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus. Das duas, uma: ou o homem foi criado à imagem de Deus e Deus tem intestinos, ou Deus não tem intestinos e o homem não se parece com ele.
Os gnósticos antigos sentiam-no tão claramente como eu, aos cinco anos. Para acabar de uma vez por todas com este maldito problema, Valentino, grão-mestre da Gnose do século II, afirmava que Jesus "comia, bebia, mas não defecava".
A merda é um problema teológico mais difícil do que o mal. Deus ofereceu a liberdade ao homem e, portanto, pode admitir-se que ele não é responsável pelos crimes da humanidade. Mas a responsabilidade pela existência da merda incumbe inteiramente àquele que criou o homem, e só a ele.»

Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser, trad. Joana Varela, Publicações Dom Quixote, 1986