30 de setembro de 2009

7 - Lázaro ressuscita para a mão de Leonor

Entretanto, a miúda chega com o seu andar naturalmente pérfido, balanceando a atenção do espectador embasbacado e supliciado, agitando as sementes nos colhões que gostariam de conquistar aquela terra repleta de carícias, romance e tragédia, para nela germinar depois a imortalidade de Adão e de Eva, os amantes primordiais. Vem… À tua passagem cresce a roseira brava onde o orvalho jaz apaixonado, a tua vinda põe termo à malícia de toda a humanidade, que morre perante a contemplação do teu corpo.
Eis o que pensa a velha tartaruga de costas tortas com o que resta da sua juventude, que reside na cabeça aprisionada em memórias, um desejo meramente mental que não tem forma de se expressar porque o corpo não responde, o caralho permanece naquela horrorosa prostração encarquilhada e serena, naquela moleza infecta cheia de medicamentos.
― Se não se importa, não preciso de o ver, mas agradecia que mo embrulhasse.
― Com certeza.
E então o velho, saudoso de antigas erecções, põe-se a agarrar e a agitar o membro preguiçoso com fúria, olhando para o traseiro de Leonor, mas o gajo não se entesa, não, em vez disso são as lágrimas da impotência que se ejaculam dos olhos e correm com abundância pelos vales do rosto cansado. E, mal ela acaba de embrulhar o livro e olha para o cliente, ele continua com a mão a segurar o pirilau reformado, a chorar, e olha para ela com um focinho de cão angustiado que mete dó. Pede desculpa. E ela tem pena, faz uma expressão de tristeza e bondade e dirige-se para ele, põe-se de cócoras e pega-lhe na mão, na outra mão que nervosamente tentava limpar as lágrimas do rosto, e a primeira acanha-se e desgarra o pénis inútil.
― Então, o que é que passa? Diga-me, por favor… – Também ela já com as lágrimas a nascerem-lhe nos olhos, a voz trémula. – Posso fazer alguma coisa?
O velho geme, tenta dizer qualquer coisa, mas não consegue deixar de gaguejar, mas eis que se exalta e grita:
― Já não sou um homem, porra! – Agarra na mão dela com brutalidade e põe-na com violência no pénis senil. – Isto está morto, ouviu!? Morto! …
― Largue-me! – E espeta-lhe um estalo que o leva ao chão.
O velho desfaz-se em lágrimas e encolhe-se em posição fetal, abandonado à devastação da sua fragilidade naquele momento. Leonor recupera a bondade e deposita a mão piedosa no braço do senhor, e diz-lhe:
― Como é que não é homem? Com certeza que é, e com muito para dar…
― Pois então prove-mo. – As lágrimas entrando na garganta quase octogenária, formando nervosas palavras líquidas e ridículas que aprendem a morrer.
Leonor toma consciência de uma sensação estranha que a invade, a de ter um dever premente a cumprir, e então baixa a mão para o sexo do homem e lentamente começa a mexer nele, enquanto a outra mão se enfia no seu próprio sexo e os olhos manifestam uma sensação de deleite que é apenas a recordação de um hábito, revirando-se e fitando o tecto, e geme palavras porcas como se estivesse num filme porno a ser visto por adolescentes virgens. E eis o milagre: o pénis do homem volta à vida e larga uma torrente enorme de sémen, com milhões de lázaros espermatozóides.
O velho vai-se embora balbuciando agradecimentos e batendo nervosamente no chão com a bengala de que já não precisa, e Leonor imagina que, em vez do livro, ele oferecerá à mulher o vigor ressurrecto, e então a mente da esposa desfrutará da recordação do tempo em que os dois eram capazes e gozavam, descrentes do amanhã. Em dias como estes, Leonor sente-se magnânime, de um altruísmo que a liberta por momentos do pequeno caos da sua vida, e rejubila ao constatar que a vida dela pode servir para alguma coisa além de estar atrás daquele balcão a vender livros, que os seus actos são manifestações ocasionais de uma missão cujos contornos reais são por enquanto insondáveis, mas existentes. Pois a nossa heroína sabe da existência de um projecto, entrevê-o vagamente através do nevoeiro que preenche o seu quotidiano, o horrível fumo de escape, vislumbra uma coisa vaga que está ali algures. E talvez não tarde a ouvir o rugido do leão na planície da celebração perpétua, o lugar da sua permanência do Tempo, e talvez o grande felino venha ter consigo amanhã e a encarne.
(Toda a gente tem um animal que a representa. O dela é o leão, criatura obscena mas de uma certa nobreza, o orgulho de uma dignidade denunciada pela pose.)

29 de setembro de 2009

Porque sempre estive isolado, Sofia, durante a escola, o liceu, a faculdade, o hospital, o casamento, isolado com os meus livros por demais lidos e os meus poemas pretensiosos e vulgares, a ânsia de escrever e o torturado pânico de não ser capaz, de não lograr traduzir em palavras o que me apetecia berrar aos ouvidos dos outros e que era Estou aqui, Reparem em mim que estou aqui, Oiçam-me até no meu silêncio e compreendam, mas não se pode compreender, Sofia, o que se não diz, as pessoas olham, não entendem, vão-se embora, conversam umas com as outras longe de nós, esquecidas de nós, e sentimo-nos como as praias em outubro, desabitadas de pés, que o mar assalta e deixa no baloiçar inerte de um braço desmaiado. Sempre estive sozinho, Sofia, mesmo na guerra, sobretudo na guerra, porque a camaradagem da guerra é uma camaradagem de generosidade falsa, feita de um inevitável destino comum que se sofre em conjunto sem de facto se partilhar, estendidos no mesmo abrigo enquanto os morteiros estoiram como os ventres repletos de ferro ferido dos cancerosos nas enfermarias do hospital, apontando ao tecto narizes agudos de pássaros que apodrecem, sozinho, mesmo na missão abandonada, sentado com o tenente no banco traseiro do jipe sobe as acácias, a escutar os insectos e os pássaros e o ensurdecedor silêncio de África, sozinho na enfermaria no meio dos feridos que gemiam, e choravam, e chamavam por mim noites a fio, dobrados pelo medo e pelas dores. Que imbecil aquela guerra, Sofia, digo-te eu aqui acocorado na sanita diante do espelho que implacavelmente me envelhece, sob esta luz de aquário e estes azulejos vidrados, estes metais, estes frascos, estas louças sem arestas, que imbecil aquela guerra numa África miraculosa e ardente onde apetecia nascer como o girassol, o arroz, o algodão e as crianças surdem num impero de géiser, fumegante e triunfal.

em Os Cus de Judas, António Lobo Antunes, Leya, 26ª Edição (bolso), 2008

28 de setembro de 2009

The artist keeps breaking on through to the other side.


TÊM QUE VER ESTE VÍDEO. É OBRIGATÓRIO!!!


O Primeiro

Era uma vez um poeta. Não se sabia o que era um poeta antes de ele ter nascido, nem se sabia o que era o amor ou a liberdade, e ninguém cantava, ou sequer saltava, na rua. A voz não passava de um instrumento ao serviço de um pragmatismo puro e horrível de sobrevivência, porque assim tinha de ser. Ninguém pinocava sem ser na posição de missionário, como estava prescrito e com o mínimo de prazer, para trazer a filharada útil ao reino, e eles cumpriam-no à risca, porque sentiam o olhar implacável de um ser superior sobre as suas cabeças, observando-as sempre de perto, um Deus horrível que até os pensamentos vigiava. O que era o mundo? Que imagens e sonhos povoavam este sítio, que costumes e teorias? O mundo era um pouco o que é hoje, com menos palavras e menos complexidades – uma comunidade de camponeses felizes e simpáticos a mando de um tirano que eles diziam ter sido enviado por Deus para os governar, um rei balofo que tinha tantas meretrizes quantas quisesse e quando quisesse, e que estava constantemente bêbado, o que era um hábito feliz da sua divindade. Mais ninguém bebia, todo o vinho era enfiado em garrafas de vidro de várias formas e cores e armazenado nas caves do palácio real, que os pajens iam buscar para dar de beber ao rei. E quando este se irritava, farto talvez de ver o mundo inteiro a gemer à sua volta numa elíptica permanente de que ele era o centro, malhava nos servos, açoitava os cavalos, queimava as colheitas… Às vazias o rei morria, mas logo a seguir vinha outro, filho do primeiro e mais jovem e bonito, e as pessoas então rejubilavam, aplaudiam muito nos desfiles em que o novo glutão acenava e sorria, exibindo o esplendor da sua figura e poder. Era sempre um homem. Era o Grande Macho, o Grande Latifundiário. E era isso a nação, um galinheiro em que todos andavam a esgravatar na sua felicidade sem nada saberem, a espiritualidade no poder e no sangue, centrada no galináceo principal que flutuava na penugem vermelha dos outros galináceos, e isto sucedia-se com impressionante naturalidade e fazia parte da vida, ninguém julgava nada e sobretudo ninguém pensava nada, tudo fluía sem filosofia.
Um dia, nasceu o primeiro exemplar do que viria a ser designado como um poeta, e a partir daí tudo mudou…

22 de setembro de 2009

O Piano de Michael Nyman

20 de setembro de 2009

O Altruísmo de Susan Sontag



I mean, if you are going to be a creative person, you will be in some way a dissenter, you will be in a diasagreement with a lot what is going on in your society.

A free life is one in which you are willing to be uncomfortable some of the time, and insecure some of the time.

Mulherengos Líricos e Mulherengos Épicos

Os homens que têm a mania das mulheres dividem-se facilmente em duas categorias. Uns procuram em todas as mulheres a ideia que eles próprios têm da mulher tal como ela lhe aparece em sonhos, o que é algo de subjectivo e sempre igual. Aos outros, move-os o desejo de se apoderarem da infinita diversidade do mundo feminino objectivo.
A obsessão dos primeiros é uma obsessão lírica; o que procuram nas mulheres não é senão eles próprios, não é senão o seu próprio ideal, mas, ao fim e ao cabo, apanham sempre uma grande desilusão, porque, como sabemos, o ideal é precisamente o que nunca se encontra. Como a desilusão que os faz andar de mulher em mulher dá, ao mesmo tempo, uma espécie de desculpa melodramática à sua inconstância, não poucos corações sensíveis acham comovente a sua perseverante poligamia.
A outra obsessão é uma obsessão épica e as mulheres não vêem nela nada de comovente: como o homem não projecta nas mulheres um ideal subjectivo, tudo tem interesse e nada pode desiludi-lo. E esta impossibilidade de desilusão encerra em si algo de escandaloso. Aos olhos do mundo, a obsessão do femeeiro épico não tem remissão (porque não é resgatada pela desilusão).
Como o femeeiro lírico gosta sempre do mesmo tipo de mulheres, quase nem se repara quando tem uma amante nova; os amigos causam-lhe sérios embaraços porque nunca vêem que a sua companheira já não é a mesma e tratam as suas amantes sempre pelo mesmo nome.
Na sua caça ao conhecimento, os femeeiros épicos afastam-se cada vez mais da beleza feminina convencional (de que depressa se cansam) e acabam infalivelmente como coleccionadores de curiosidades. Têm consciência de tal coisa, envergonham-se um pouco dela e, para não incomodar os amigos, nunca aparecem em público com as amantes.

em A Insustentável Leveza do Ser, Milan Kundera, trad. Joana Varela, Dom Quixote, 1986

The Black Art, poema de Anne Sexton

A woman who writes feels too much,
those trances and portents!
As if cycles and children and islands
weren't enough; as if mourners and gossips
and vegetables were never enough.
She thinks she can warn the stars.
A writer is essentially a spy.
Dear love, I am that girl.

A man who writes knows too much,
such spells and fetiches!
As if erections and congresses and products
weren't enough; as if machines and galleons
and wars were never enough.
With used furniture he makes a tree.
A writer is essentially a crook.
Dear love, you are that man.

Never loving ourselves,
hating even our shoes and our hats,
we love each other, precious, precious.
Our hands are light blue and gentle.
Our eyes are full of terrible confessions.
But when we marry,
the children leave in disgust.
There is too much food and no one left over
to eat up all the weird abundance.

em The Complete Poems, Anne Sexton, Mariner Books, 1999


19 de setembro de 2009

Arte CoBrA



















Karel Appel, Wild Horse Rider

Logro

A poesia aparece furiosamente com as suas súplicas de uma existência perfeita, eterna, bonita, exigindo a extinção do cheiro da morte e querendo incendiar hospitais e cemitérios, igrejas e todos os edifícios que possam porventura acolher o indizível sofrimento do ser humano, e as palavras que o escolhido profere são de outro tipo – infância, fogo, música, transformação, nudez, movimento, cópula, respiração –, e de repente tudo aparece assim, de uma inocência fundamental que renasce em todo o lado, o absolutismo da arte dominando a vida em todas as instâncias.
No fim, depois de tanto espalhafato inútil, o poeta morre para não mais viver.

Alpinistas

Temos ascendido com frequência notável ao tipo de loucura plena de bem-aventurança, de pernas fracas e bambas e o suor escorrendo como feixes de mel espesso pelas costas atribuladamente, colando-se à roupa, uma aventura através do cansaço para chegarmos lá acima, ao planalto enevoado onde dançamos com as odaliscas nuas em cima das nuvens, a luz na erva e nos pássaros, espalhada com um fulgor obsceno por toda a parte, um azul feérico irreal envolvendo-nos e massajando-nos a pele, que é uma película frágil através da qual comunicamos com o mundo. Chegamos e desaparece-nos o cansaço, desaparece tudo e transformamo-nos em pura sensação, puro júbilo orgásmico infinito. Esta intensidade não tardará a matar-nos, mas o facto não é significativo.

18 de setembro de 2009



















Nighthawks
, Edward Hopper, 1942

Canto Moço



Somos filhos da madrugada
Pelas praias do mar nos vamos
À procura de quem nos traga
Verde oliva de flor no ramo
Navegamos de vaga em vaga
Não sabemos de dor nem mágoa
Pelas praias do mar nos vamos
À procura da manhã clara

Lá no cimo de uma montanha
Acendemos uma fogueira
Para não se apagar a chama
Que dá vida na noite inteira
Mensageira pomba chamada
Companheira da madrugada
Quando a noite vier que venha
Lá no cimo de uma montanha

Onde o vento cortou amarras
Largaremos p´la noite fora
Onde há sempre uma boa estrela
Noite e dia ao romper da aurora
Vira a proa minha galera
Que a vitória já não espera
Fresca brisa moira encantada
Vira a proa da minha barca

Estupor Agradável

E o que dizer do álcool? Um indivíduo que desconhecesse a composição elementar das moléculas e a cadeia de reacções que desemboca no nascimento de todo o tipo de objectos, mesmo contra a vontade destes, esse indivíduo diria simplesmente que o álcool é a substância alquímica da alegria. A ideia aproxima-se da verdade emocional demasiado certeiramente, bate certo com o que sabemos intuitivamente sem considerarmos o conhecimento escolástico de que somos os filhos indesejados, o conhecimento no qual não tomamos parte construtora sem antes perdermos os caralhos as conas os intestinos, sem antes nos transformarmos em meras bocas disformes e grotescas semelhantes a poças lodosas nauseabundas espalhadas pela superfície da terra com desagradável preguiçosa comísera punição, sem antes perdermos a vida e nos tornarmos estátuas corriqueiras que simbolizem um idolatrado deus verdadeiramente ausente, e de tomarmos o rumo da pura representação… E o que sobretudo amamos não passa de um mito inventrado por outrém!
Mas ainda não somos máquinas, queremos ainda ficar emboscados neste redemoinho de alegorias incompreensíveis devoradoras de incauto esperma consagrado a obliteradas aventuras sôfregas, votadas previamente à feliz resignação do fracasso, ao destino onde a transmutação se cumpre eternamente e a vida é simplesmente um rio que transborda e inunda tudo.

17 de setembro de 2009

Lobo Antunes na Guerra Colonial

A pouco e pouco a usura da guerra, a paisagem sempre igual de areia e bosques magros, os longos meses tristes do cacimbo que amareleciam o céu e a noite do iodo dos daguerreótipos desbotados, haviam-nos transformado numa espécie de insectos indiferentes, mecanizados para um quotidiano feito de espera sem esperança, sentados tardes e tardes nas cadeiras de tábuas de barril ou nos degraus da antiga administração de posto, fitando os calendários excessivamente lentos onde os meses se demoravam num vagar enlouquecedor, e dias bissextos, cheios de horas, inchavam, imóveis, à nossa volta, como grandes ventres podres que nos aprisionavam sem salvação. Éramos peixes, percebe, peixes mudos em aquários de pano e de metal, simultaneamente ferozes e mansos, treinados para morrer sem protestos, para nos estendermos sem protestos nos caixões da tropa, nos fecharem a maçarico lá dentro, nos cobrirem com a Bandeira Nacional e nos reenviarem para a Europa no porão dos navios, de medalha de identificação na boca no intuito de nos impedir a veleidade de um berro de revolta. […] Éramos peixes, somos peixes, fomos sempre peixes, equilibrados entre duas águas na busca de um compromisso impossível entre a inconformidade e a resignação, nascidos sob o signo da Mocidade Portuguesa e do seu patriotismo veemente e estúpido de pacotilha, alimentados culturalmente pelo ramal da Beira Baixa, os rios de Moçambique e as serras do sistema Galaico-Duriense, espiados pelos mil olhos ferozes da Pide, condenados ao consumo de jornais que a censura reduzia a louvores melancólicos ao relento de sacristia de província do Estado Novo, e jogados por fim na violência paranóica da guerra, ao som de marchas guerreiras e dos discursos heróicos dos que ficavam em Lisboa, combatendo, combatendo corajosamente o comunismo nos grupos de casais do prior, enquanto nós, os peixes, morríamos nos cus de judas uns após outros, tocava-se um fio de tropeçar, uma granada pulava e dividia-nos ao meio, trás, o enfermeiro sentado na picada fitava estupefacto os próprios intestinos que segurava nas mãos, uma coisa amarela e gorda e repugnante e quente nas mãos…

em Os Cus de Judas, António Lobo Antunes, Leya, 26ª Edição

ALTAMENTE RECOMENDÁVEL

"My mission is to communicate, to wake people up, to give them my energy and accept theirs..."

Automaat...

Tento descrever uma paisagem puramente onírica. Que linguagem usar? Tento esgravatar no subconsciente, mas talvez este tenha morrido, soterrado em tanto bloqueio católico. Depois, dizem-me que o subconsciente existe e persiste, que o animal nunca morre, que o monstro é imortal e é por causa dele que eu estou vivo.
Portanto, como descrever uma paisagem onírica? Que linguagem usar?
Respiro fundo. Tudo começa com um golpe profundo na barriga. Urro de dor, ouço a lâmina a raspar-me num osso e tenho a coragem de perguntar: Qual osso? Qual osso? Começo a rir-me, despejo gargalhadas inúteis na solidão da noite encardida.
Devia ter um plano, parar um bocado para pensar nele. Não paro de escrever, sou um autómato. Sou um instrumento, mas não sei quem é que me está usar, quem me grita palavras ao ouvido, que energia é esta que eu tenho... Não para de vomitar essas palavras. Não tenho nenhum plano, nenhuma estrutura dentro da minha cabeça. Não quero salvação, nem procuro o mecanismo. Talvez isto seja terapêutico, esta ruptura com o inteligível?...
Passo dois dias no Inferno e volto de lá alegremente intoxicado. Esta corrupção, esta intoxicação. O acto que represento é dos mais perigosos.
Gostava de inventar uma ficção, para acabar com o tédio do egocentrismo, uma ficção que se possa escrever facilmente, com uma dialética razoável, uma história na qual eu me perca diariamente quando chego a casa, um vício, uma prisão adorável. Uma experiência lírica objectiva, que sirva para eu perder-me de mim. Porque o que eu quero, honestamente, é perder-me de mim e aventurar-me na dimensão dos prazeres impessoais, dedicar-me ao hedonismo antigo.

16 de setembro de 2009

Les Enfants Terribles

E ainda que os ventos perigosos nos empurram furiosos para as escarpas da morte, nos obriguem a vacilarmos perante o espectáculo aterrador dos abismos de bocas abertas para nos apanharem a carne fresca de crianças loucas, eternamente nascidas para as emboscadas da vida, eternamente ignorantes, eternamente embriagadas, ainda que os elementos conspirem para nos calarem para sempre, grita em nós continuamente uma consciência larvar de esperança, uma promessa de democracia, a ousadia de construir um campo imenso onde se possa brincar à vontade, e o estado original regresse para não mais cair no esquecimento.

15 de setembro de 2009

Silly hangover

The scene stands stubborn: num quarto suburbano mergulhado em trevas homicidas, exactamente no meio da civilização mas longe de qualquer contacto humano, um homem é assaltado pelos pensamentos negros habituais, imaginações que principiaram subtis e que agora o atacam violentamente, que agora quase o submergem. O homem permanece obsequiosamente vivo contra a sua vontade mais genuína, num corpo agonizante que se recusa a mexer, em delírio numa horrível tarde de Domingo depois de um escândalo nocturno – mais um, neste caso. A roupa vomitada no chão. O que é que se pode fazer? – Estes dias são mesmo assim, um gajo sai à rua para espairecer apenas, para levar com ar nas trombas, estar com a gajada emparvecendo a juventude, e acaba por apanhar uma bezana descomunal, de caixão à cova., absolutamente inútil. Quatro compinchas num parque público e três garrafas de estupefacção engarrafada, a danada percentagem de etanol, escassas pessoas passando por eles. A noite é uma criança. Tinham decidido apanhar uma tosga assim de repente, e então passaram pelo contenente e compraram um brande, uma garrafa de cachaça com limonada (dizia caipirinha no rótulo) e uma garrafa de rum ornamentada com a imagem de um palhaço do defunto império britânico. Tudo fácil depois de uns tragos, agora é uma porcaria pesada que não lhe sai da cabeça. Trôpegos e alegres, com a cabeça ausente, limpa de toda a imundície da vida acordada habitual, começaram a correr – esta cena passa-se no Parque das Nações perto do Oceanário, há para ali uns canteiros e umas poças de água que se tornam muito porreiros quando se está alcoolizado. Andaram por ali aos saltos como crianças terríveis sem os pais por perto, putos novos que reencontraram a inocência, a genuína inocência que o álcool por vezes concede. Putos sem pensamentos importantes e com uma alegria genuína no lugar do espírito. Putos genuinamente alegres.
O homem cansou-se de tão neurasténica alegria... Sente-se mal e quer vomitar as entranhas. Está dentro dele encurralado, maior do que a bebedeira que apanhou. Crê que os outros não se deixaram vencer pelo ego da angústia - porque, sem dúvida, a eles também lhes deve estar a custar, mas para eles não passa de um mal-estar físico, uma dor orgânica legítima, sem indícios vagos de preocupações éticas e existencialismos mesquinhos, mas o homem sente-se submerso num mundo a que não pertence, divagando palermas alucinações. Tem estado doente desde que nasceu.

Na curva da estrada à covas feitas no chão e em todas florirão rosas de uma nação.

Back to the 60s!

It can be even more important than reading the byble six times, or becoming a pope, or something like that.

We shall overcome.

Free at last! Free at last! Thank God Almighty, we are free at last!

Cry baby.

Wear some flowers in your head!

California dreamin´.

14 de setembro de 2009

Pura invenção militante - qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência

O Sócrates caiu da cadeira com entalhes rócócós de ouro para o pirilau enorme da mulher do Cavaco Silva, o actual presidente da república, que está em casa a ver a cerimónia de coroação do Salazar. Os quatro homens em questão acreditam no poder e na morte. E em fogo de artificio, pago pelos contribuintes para que a alienação se possa perpetuar infindamente.

Paradoxo

O que é a Democracia? O suicídio progressivo do Estado, a sua morte lenta.
O que é a Arte? Desnudação pública contagiante. O desígnio de extrema liberdade.

6 - A latrina onde Leonor caga sobre despotismo da Literatura

Até à hora do almoço, entra na livraria apenas um velhote de costas tortas com uma bengala, a olhar para os livros muito vagarosamente e demorando-se na leitura dos títulos, murmurando imperceptíveis coisas que nascem da poeira do cérebro. A empregada oferece-lhe os préstimos, ele sorri e diz que está só a ver, obrigado. Leonor deixa-se estar atrás do balcão, põe o cabelo para trás das costas, cruza os braços e recosta-se na cadeira, os seios retesando a blusa vermelha, a olhar para o velhote prestes a desconjuntar-se ao mínimo tropeção numa frase magnífica ou numa imagem sugestiva de algo menos corriqueiro que o quotidiano prenhe de lugares comuns, algo que ainda seja capaz de satisfazer os apetites recônditos de um idoso com os pés para a cova. Não tropeça, mas dirige-se a ela com ar de cágado sabichão com dobras antigas no pescoço, lianas de pântano moribundo aos tremelicos. Em contrapartida, a fragilidade do corpo é recompensada pela esperteza do olhar e a limpidez da voz.
― Bom dia. Eu vim aqui para ver se encontrava um livro de poemas para a minha esposa, que gosta muito de ler. Talvez me possa ajudar. Tem alguma sugestão? António Gedeão não seria má ideia. Andava lá por casa um livro dele, mas o meu neto levou-o.
― António Gedeão não temos. Talvez lhe possa sugerir um livro do Cesário Verde. Saiu há pouco tempo, é de um manuscrito que encontraram recentemente no baú de um descendente de Silva Pinto, que publicou a compilação da sua poesia. Pelos vistos incompleta…
― Parece-me bem. Posso dar uma vista de olhos?
― Com certeza. Vou buscá-lo. Mas sente-se, ponha-se à vontade…
E, enquanto Leonor se dirige à secção onde os rostos dos poetas ainda lutam para ostentarem as suas particularidades – sim, porque a poesia é uma afirmação de rostos, de traços individuais, porque denuncia continuamente a tragédia da individualidade –, o velho senta-se vagarosamente numa poltrona encostada a uma parede de tijolos vermelhos, perto de uma ferrugenta escada em caracol que sobe para o misterioso andar de cima, onde talvez o patrão da empregada faça ocasionalmente uma pequena peregrinação de livros e reflexão, ou somente os livros morram soterrados em pó e escuridão, ou simplesmente o andar onde a empregada possa ir verter os líquidos e putrefacções habituais, que vencem assim literatura, que no andar de baixo constitui um negócio e uma arrogância, um luxo. Subitamente, quando o organismo ruge de orgânica inquietude, as vicissitudes do espírito, com o seu rol de lacrimejantes bramidos de pura embirração, desaparecem, toda a literatura e toda a tolice desaparecem, e tomamos súbita consciência do sangue e dos músculos, do despotismo da carne e do desejo.

Isto vem mesmo a calhar...

Este gajo andou muito pelas europas a constatar a solidão fundamental, castigo para o espírito inquieto. Algo do género... Para onde quer que vás, a fúria vai contigo.

Um poeta está sentado na Holanda. Pensa na tradição. Diz para si mesmo: eu sou alimentado pelos séculos, vivo afogado na história de outros homens. E a sua alma é atravessada pelo sopro primordial. Mas tem a alma perdida: é um inocente que maneja o fogo dos infernos. Abre-se ao fundo da sua meditação holandesa um grande lago: a solidão, e em volta passeiam vacas. A Holanda agora é isto: vacas, e - no centro - o inferno, a revolucionária inocência de um poeta sentado.
– Por quem me tomam? – pode ele perguntar. – O que eu quero é o amor.
E sempre assim, sempre: cidades inexplicáveis no meio da terra ou prados imensos onde se tem medo. Prados para vacas, não para um poeta di-la-ce-ra-do por uma tormentosa inocência.

in Herbeto Hélder, Os Passos em Volta, Assírio & Alvim, 9ª Edição, 2006

13 de setembro de 2009

They fuck you up, your mum and dad,
They may not mean to but they do
They fill you with the faults they had
And add some extra just for you.

But they were fucked up in their turn
By fools in old style hats and coats
Who half the time were soppy-stern
And half at one another's throats.

Man hands on misery to man.
It deepens like a coastal shelf.
Get out as early as you can
And don't have any kids yourself.

Philip Larkin

"Até fazem um casal engraçado..."

Passam dias, semanas, meses… Morrem os dois muito lentamente, sem se aperceberem. Para além de copularem com uma dedicação desmesurada e tóxica, possuídos de uma voracidade extraordinária, falam muito do que lhes vai na alma e dos livros que podem ler. Ambos conhecem a estética, apesar de não serem artistas (pelo menos não oficialmente). Conhecem a estética que lhes enche a cabeça, a estética que está dentro deles e que é uma doença que os põe contra o mundo, que é terrivelmente feio. Ele escreve e ela pinta, o que é singularmente romântico e estúpido. Ela diz que tem visões extraordinárias que tem de pôr nos quadros para não ficar maluca, para não explodir, e ele diz-lhe que as palavras que entram para dentro dele tem de as pôr no papel para não ficar maluco, para não explodir. Estão obcecados com a beleza e querem inventar formas novas de a materializar. Querem dar visibilidade ao milagre, pô-lo à solta na rua para que os transeuntes tropecem nele e se apercebam que estão vivos. São infelizes e têm a cabeça cheia de ilusões e de sonhos, de ideais. Constataram isso e perceberam a tragédia da vida inusitada que escolheram, da qual não há volta a dar. Tal não os impede de, ao olharem para os cães que desfilam contentes nas suas fatiotas públicas, terem inveja dessa distracção. Ora aplaudem a simplicidade dessas gentes, ora gozam com ela. Não há volta a dar. Não há volta a dar.

3 de setembro de 2009

Sinto-me culpado porque o meu trabalho é puramente abstracto, porque só produzo combinações de símbolos. Gostava de produzir batatas em vez de abstracções.