17 de setembro de 2009

Automaat...

Tento descrever uma paisagem puramente onírica. Que linguagem usar? Tento esgravatar no subconsciente, mas talvez este tenha morrido, soterrado em tanto bloqueio católico. Depois, dizem-me que o subconsciente existe e persiste, que o animal nunca morre, que o monstro é imortal e é por causa dele que eu estou vivo.
Portanto, como descrever uma paisagem onírica? Que linguagem usar?
Respiro fundo. Tudo começa com um golpe profundo na barriga. Urro de dor, ouço a lâmina a raspar-me num osso e tenho a coragem de perguntar: Qual osso? Qual osso? Começo a rir-me, despejo gargalhadas inúteis na solidão da noite encardida.
Devia ter um plano, parar um bocado para pensar nele. Não paro de escrever, sou um autómato. Sou um instrumento, mas não sei quem é que me está usar, quem me grita palavras ao ouvido, que energia é esta que eu tenho... Não para de vomitar essas palavras. Não tenho nenhum plano, nenhuma estrutura dentro da minha cabeça. Não quero salvação, nem procuro o mecanismo. Talvez isto seja terapêutico, esta ruptura com o inteligível?...
Passo dois dias no Inferno e volto de lá alegremente intoxicado. Esta corrupção, esta intoxicação. O acto que represento é dos mais perigosos.
Gostava de inventar uma ficção, para acabar com o tédio do egocentrismo, uma ficção que se possa escrever facilmente, com uma dialética razoável, uma história na qual eu me perca diariamente quando chego a casa, um vício, uma prisão adorável. Uma experiência lírica objectiva, que sirva para eu perder-me de mim. Porque o que eu quero, honestamente, é perder-me de mim e aventurar-me na dimensão dos prazeres impessoais, dedicar-me ao hedonismo antigo.