Era uma vez um poeta. Não se sabia o que era um poeta antes de ele ter nascido, nem se sabia o que era o amor ou a liberdade, e ninguém cantava, ou sequer saltava, na rua. A voz não passava de um instrumento ao serviço de um pragmatismo puro e horrível de sobrevivência, porque assim tinha de ser. Ninguém pinocava sem ser na posição de missionário, como estava prescrito e com o mínimo de prazer, para trazer a filharada útil ao reino, e eles cumpriam-no à risca, porque sentiam o olhar implacável de um ser superior sobre as suas cabeças, observando-as sempre de perto, um Deus horrível que até os pensamentos vigiava. O que era o mundo? Que imagens e sonhos povoavam este sítio, que costumes e teorias? O mundo era um pouco o que é hoje, com menos palavras e menos complexidades – uma comunidade de camponeses felizes e simpáticos a mando de um tirano que eles diziam ter sido enviado por Deus para os governar, um rei balofo que tinha tantas meretrizes quantas quisesse e quando quisesse, e que estava constantemente bêbado, o que era um hábito feliz da sua divindade. Mais ninguém bebia, todo o vinho era enfiado em garrafas de vidro de várias formas e cores e armazenado nas caves do palácio real, que os pajens iam buscar para dar de beber ao rei. E quando este se irritava, farto talvez de ver o mundo inteiro a gemer à sua volta numa elíptica permanente de que ele era o centro, malhava nos servos, açoitava os cavalos, queimava as colheitas… Às vazias o rei morria, mas logo a seguir vinha outro, filho do primeiro e mais jovem e bonito, e as pessoas então rejubilavam, aplaudiam muito nos desfiles em que o novo glutão acenava e sorria, exibindo o esplendor da sua figura e poder. Era sempre um homem. Era o Grande Macho, o Grande Latifundiário. E era isso a nação, um galinheiro em que todos andavam a esgravatar na sua felicidade sem nada saberem, a espiritualidade no poder e no sangue, centrada no galináceo principal que flutuava na penugem vermelha dos outros galináceos, e isto sucedia-se com impressionante naturalidade e fazia parte da vida, ninguém julgava nada e sobretudo ninguém pensava nada, tudo fluía sem filosofia.
Um dia, nasceu o primeiro exemplar do que viria a ser designado como um poeta, e a partir daí tudo mudou…
Um dia, nasceu o primeiro exemplar do que viria a ser designado como um poeta, e a partir daí tudo mudou…