30 de abril de 2010

Matinée d'Ivresse

O mon Bien ! O mon Beau ! Fanfare atroce où je ne trébuche point ! Chevalet féerique ! Hourra pour l'oeuvre inouïe et pour le corps merveilleux, pour la première fois ! Cela commença sous les rires des enfants, cela finira par eux. Ce poison va rester dans toutes nos veines même quand, la fanfare tournant, nous serons rendus à l'ancienne inharmonie. O maintenant, nous si digne de ces tortures ! rassemblons fervemment cette promesse surhumaine faite à notre corps et à notre âme créés: cette promesse, cette démence ! L'élégance, la science, la violence ! On nous a promis d'enterrer dans l'ombre l'arbre du bien et du mal, de déporter les honnêtetés tyranniques, afin que nous amenions notre très pur amour. Cela commença par quelques dégoûts et cela finit, - ne pouvant nous saisir sur-le-champ de cette éternité, - cela finit par une débandade de parfums.

Rire des enfants, discrétion des esclaves, austérité des vierges, horreur des figures et des objets d'ici, sacrés soyez-vous par le souvenir de cette veille. Cela commençait par toute la rustrerie, voici que cela finit par des anges de flamme et de glace.

Petite veille d'ivresse, sainte ! quand ce ne serait que pour le masque dont tu as gratifié. Nous t'affirmons, méthode ! Nous n'oublions pas que tu as glorifié hier chacun de nos âges. Nous avons foi au poison. Nous savons donner notre vie tout entière tous les jours.

Voici le temps des Assassins.

29 de abril de 2010

Quando for grande, quero não ser escritor.

26 de abril de 2010

Enquanto não escrevo, estou morta.

25 de abril de 2010

Obra Acabada

O escritor está sentado na sala a fingir que olha para a televisão. Pelos seus olhos correm imagens velozes que a mente não capta. Há um mundo muito grande dentro de si, tão vasto e rico que por momentos substitui a realidade exterior que o corpo veste, como se as muralhas se tivessem tornado gigantes e intransponíveis, feitas de um material que não pode ser destruído. Dentro destas muralhas, personagens interessantes atacam-se com ferocidade. Decorre uma luta, uma dança de corpos, e ouve-se uma sinfonia terrível. De repente, João acorda para a percepção da realidade sensorial imediata, sem a qual aliás as tais personagens e a tal luta não existiriam, e lembra-se que está à espera da companheira, que se demora na casa de banho e no quarto com a pomada para o rosto, a forma do cabelo, a roupa que fica melhor e um sem número de preparativos do género. Leonor quer sair para a rua com confiança e optimismo, recorrendo para tal ao expediente da imagem, mas demora-se a arranjar a combinação estética final e João exaspera-se:
– Despacha-te!
– Estou quase! – grita Leonor, esganiçadamente.
Penteia-se com pressa defronte do espelho, desemaranhando o cabelo com raiva. Por momentos, o escritor de 34 anos de vida, apercebendo-se do lugar-comum do homem à espera da mulher na sala de estar dum apartamento num bairro habitacional para a classe média, crê que a sua vida se tornou igualzinha à que o pai tinha, o que o deixa num estado de tristeza subtil e resignada. Tira mais um cigarro do maço e acende-o. Enquanto o vai aspirando, a ficção retoma lugar na sua mente, onde as tais personagens continuam com fúria e agridem-se. João não sabe ao certo o que é que a personagem central da história, uma jovem universitária de 23 anos que sofre de psicose maníaco-depressiva, vai fazer a seguir, mas deixa que a sua presença apareça timidamente na nuvem de fumo – uma presença ténue e incerta, que ele tem de descortinar e decifrar, como um sonho misterioso que esconde o significado de tudo o que existe. Entretanto, ouve os tacões de salto alto da companheira a bater freneticamente nos mosaicos do hall de entrada.
– Já estou pronta. Vamos? – pergunta, aparecendo à porta da sala enfiada num vestido preto elegante.
Só que João tem de permanecer ali por mais uns momentos, na contemplação daquelas vidas imaginárias, e não reage. Os seus olhos são grandes como os de um peixe pequeno e inteligente no meio dum oceano desocupado.
– Vou descer. Levo as chaves do carro.
Leonor está habituada aos acessos de criatividade do namorado e sabe que o melhor é deixá-lo estar um bocado sozinho a resolver os enigmas, para que estes não se percam para sempre e a literatura deixe de existir. Ela sente que tem de servir o seu génio. Não por ele ser um homem e ela estar apaixonada por ele, e por ela ser mulher, mas porque no génio há uma fraqueza que tem de ser ultrapassada através da cumplicidade total com outro ser humano. Se Leonor se tivesse apaixonado por uma mulher, seria a mesma coisa. Desce as escadas, abre a porta do carro, senta-se no lugar do condutor e fica à espera dele com o rádio ligado. Entretanto, a visão do escritor chega ao fim. A jovem mulher pede que o seu criador a leve ao suicídio. Tem de ser assim. João escreve umas frases no caderno de capa de couro que anda sempre consigo, vai à casa de banho mijar, calça os ténis, veste o casaco e sai para a rua. O briol entra-lhe no corpo, enfia-se-lhe nos ossos. Corre para o carro, abre a porta do carro e senta-se ao lado de Leonor.
– Porra, estou a morrer de frio. Vamos embora.
Leonor arranca. São 21h30 de uma noite fria de Novembro, em Lisboa. Em Alcântara, na Galeria Seis, Luís, um ex-namorado, mostra os seus quadros aos convidados. É a inauguração da sua primeira exposição individual na galeria mais conceituada da cidade. O artista está nervoso. O seu trabalho é sobre a morte e a procura de Deus, temas que se evidenciam através de figurações carregadas de onirismo sobre experiências vividas na infância. Ele e Leonor tiveram uma relação amorosa acidentada, marcada pela dúvida permanente dele quanto ao seu valor enquanto artista, um complexo de inferioridade que se manifestava no consumo excessivo de álcool e de erva e em fulminantes ataques de raiva. A relação durou uns três anos. Quando começou a expor a sério, Luís encetou um projecto de vida um tanto estranho – centralizou a sua existência na sua pessoa e na sua arte, passando os dias em reflexões solitárias e celibatárias das quais saiam representações da sua psique atribulada, alheia à existência das pessoas que faziam parte da sua vida real. Descobriu que a riqueza da sua arte estava na revivência dos episódios traumáticos da infância e passou a viver obsessivamente no passado. Estas reclusões nostálgicas e masoquistas não agradaram a Leonor e os dois separaram-se.
– Estás nervosa? – pergunta João.
– Não. E tu, estás nervoso por o conheceres?
– Não – responde. – Só espero que não seja uma seca – abre o porta-luvas, saca de um cantil com whisky que costuma ter para as emergências e bebe uns goles valentes.
– Passa para cá – pede Leonor, e bebe também.
Encontram a tal galeria e estacionam o carro. Entram. O sítio está animado. Montes de gente. João reconhece um colega da faculdade e vai falar com ele. Entabulam uma conversa sobre as coisas habituais – os empregos, as mulheres, as recordações da juventude –, e embarcam no saudosismo obrigatório de quem não se vê há muito e já não se conhece, restando apenas o brilho dos tempos áureos passados. Leonor avista o ex-namorado rodeado de gente ávida e acena-lhe. Ele também acena a mão e sorri-lhe. Leonor dirige então a sua atenção para os quadros e passeia pela galeria contemplando este e aquele e aqueloutro quadro, tentando tirar ilações sobre uma pessoa com quem partilhou três anos da sua vida. Encontra quadros que já conhece. Num deles, um rapazinho está deitado numa cama sobre uma nuvem, um conjunto fechado dentro duma jaula de barras negras e espessas suspensa no ar azul-celeste. O miúdo tem os olhos quase fechados e sonolentos voltados para uma figura beatífica e de Virgem Maria flutuando sobre a jaula e segurando nas mãos um livro, como se estivesse a contar ao miúdo uma história para adormecer. Leonor tinha detestado aquele quadro – o rosto da Virgem era o seu e o do rapazinho era o de Luís, mas o pintor não lhe tinha dito nada. Leonor tinha-se irritado e houve uma discussão horrível. Ainda por cima, o quadro tinha sido comprado. Estava ali naquele dia porque era considerada uma das obras-primas do artista, e como os donos da galeria tinham decidido fazer uma pequena retrospectiva da sua obra fundamental, pediram a alguns compradores que as emprestassem para a exposição.
Entretanto, João consegue despachar o colega e vai ter com Leonor.
– Então, já conseguiste falar com ele?
– Não. Há muita gente à volta dele.
– É aquele ali? De calças de bombazina e gravata vermelha?
– Sim, é esse. Olha lá para este quadro com atenção.
João olha para o quadro com atenção.
– Olha, és tu, a Virgem Maria. Grande pancada. Estavas apaixonada por este gajo?
– Sim. Devo ter queda para me apaixonar por gajos com pancada.
– Portanto, eu tenho pancada e tu estás apaixonada por mim.
Leonor sorri, enlaça o braço no do escritor e os dois caminham fitando as obras em exposição. Deparam-se com um quadro de tamanho superior aos outros e ficam a olhar para ele com espanto – uma representação gótica, macabra e violenta da crucificação de Cristo, o espectáculo dramático do sangue brotando com abundância de lacerações profundas recentes, como no filme do Mel Gibson. O vermelho do sangue é berrante e causa impacto, é um vermelho obsceno. As outras cores do quadro são propositadamente escuras e mortiças. A atmosfera é cinzenta, quase preta e carregada de nuvens gigantes e pesadas, como se fossem cair de repente sobre a cena. Apesar disso, as duas mulheres não arredam pé da base da cruz, prostradas sob o mártir num velório silencioso, duradouro e já sem lágrimas, depois dos momentos de histerismo. No espaço à volta das mulheres não há ninguém, dando a impressão de o sítio ser um descampado imenso e agreste, um desterro onde os criminosos são executados e deixados a apodrecer sob um céu duro sem piedade. Dá a impressão de pouca gente ter assistido à crucificação, depois da qual todos se foram embora, à excepção das duas mulheres – a amante e a mãe, ou a irmã e a mãe, ou as duas amantes, ou duas mulheres que são simultaneamente mãe, amante e irmã. O rosto de Jesus é o do pintor.
– Narcisista – observa João.
– Deve estar envolvido sexualmente com as mulheres – diz Leonor.
Uma gargalhada irrompe do silêncio por trás deles. Voltam-se para trás – é o pintor.
– É claro que são as minhas mulheres – e solta mais uma gargalhada louca. – Como é que estás? Obrigado por teres vindo.
– Estou bem. Este é o João, o meu homem – os dois artistas apertam as mãos.
– Prazer em conhecer-te – diz Luís. – Obrigado por teres vindo também.
– É um prazer. Os teus quadros são muito marados.
– Claro que são.
Um silêncio breve. Há algo de indizivelmente sofrido nestes homens que transformam as cinzas das suas vidas em arte, ou no que julgam ser arte, sem nunca se aproximaram de algo verdadeiro. Algo verdadeiro é uma mulher, por vezes. Nunca entram nela e nunca a apreendem verdadeiramente, mas, por outro lado, nunca se libertam da necessidade de estarem perto dela. Há mulheres que parece que foram feitas de propósito para os artistas. Leonor é uma delas. Mas uma musa gera conflito quando há mais do que um artista a disputá-la, mesmo quando a disputa é inconsciente. Depois de a ter perdido, o pintor acordou para a percepção da necessidade dela e teve vontade de se matar. Não o fez. Continuou com a sua arte. Agora, há entre João e Luís uma animosidade de amantes e artistas. No entanto, João é tímido, nunca suportou aquele olhar que Luís lança sobre si, de avaliação, e então desculpa-se e retira-se, dizendo que vai buscar um Favaios.
– Alguém quer uma bebida?
– Não, obrigado.
Luís e Leonor ficam perante o quadro da crucificação a falar das coisas. Ela fala da sua vida com João, do amor e das despesas que este acarreta. Do sacrifício de ser companheira de um escritor de noites e fins-de-semana.
– É uma obsessão. Às vezes, chego a casa e encontro-o em transe em frente ao computador. Nem me fala. Outras vezes, encontro-o bêbado, a rir-se e a dizer que não tem talento, que a escrita dele não serve para nada, a gozar consigo próprio.
– Isso é-me familiar. Reconheço-o, agora que não tenho dúvidas quanto à minha arte. É uma fase.
– Pode ser. Mas também pode ser que ele se afeiçoe à sensação do fracasso e fique agarrado a ela para sempre.
– Não me parece. Eu já o li. É demasiado talentoso e deve acreditar nesse talento. Só está a ser preguiçoso, acredita.
Entretanto, João pede o seu Favaios e senta-se numa poltrona. Há uma movimentação há volta dos canapés que não lhe agrada, uma histeria que usufrui do intelecto para ser menos óbvia, mas João tem a sensação de conseguir cheirar estes pacóvios elegantes a quilómetros de distância. Dá-lhe vontade de gritar que o artista ali é ele e mais ninguém, mas não o faz. Bebe o seu Favaios e vai pedir outro. O homenzinho do bar olha para ele com ar de desaprovação, mas dá-lhe a bebida e João senta-se outra vez no mesmo sítio, procurando eliminar o nervosismo.
Uma mulher entra de rompante na galeria. João olha para ela. Está nervosa e tem a cara ruborizada e o cabelo despenteado. As roupas condizem com o estado deplorável do corpo. Parece que acordou e vestiu os andrajos de trazer por casa, que tinha à mão de semear, para chegar o mais depressa possível à galeria, não se sabe para fazer o quê – de certeza que não era para ver os quadros. A mulher é avistada e reconhecida por algumas codornizes empinocadas, que a tentam cumprimentar.
– Com licença – diz-lhes com raiva.
– Está maluca!
E corre em direcção ao artista plástico, que continua a falar com Leonor. Os dois voltam-se e assustam-se.
– Seu filho da puta! É com esta cabra que tens andado?
– Eu não tenho nada a ver com a história – diz logo Leonor, desviando-se.
– Estás maluca, ou quê? – diz Luís.
– Já vais ver, cabrão!
E então abre a mala e tira uma lata de spray. É tão rápida que ninguém tem tempo para a impedir. Lança a tinta para a frente, para o quadro da crucificação. O artista põe-se à frente, mas não consegue impedir que um risco enorme e vermelho apareça no quadro.
– Tirem-me esta gaja daqui! – grita Luís.
Os seguranças aparecem e levam a louca, que ainda consegue lançar tinta para a cara de um deles. As pessoas fazem logo um círculo à volta do artista, com a mão na boca. O escritor aparece também, liberta uma gargalhada e diz:
– Agora sim, agora é que está uma obra-prima – a contorcer-se de tanto rir.
– João! – diz Leonor.
O pintor avança e espeta-lhe um murro na cara. João perde a consciência.

21 de abril de 2010

Cada macaco na sua ilha.

Telefono ao Tipo e digo-lhe:
Passa-se o seguinte. No mundo há muitas ilhas. Não há senão ilhas. Os meus vizinhos da cave esquerda, por exemplo, habitam numa ilha próxima da minha. Próxima, mas distante. A família é numerosa e eles divertem-se – os putos brincam na praia, fazem castelos na areia que são réplicas em miniatura dos que existem nas ilhas da imaginação. Mas é terrível, porque há noite o homem embebeda-se sozinho e pragueja, amaldiçoando a sua condição de pai. Para ele, já não há ilhas imaginárias, porque perdeu a capacidade de sonhar. Já viu muito. Já esteve em outras ilhas de outros arquipélagos. Teve amantes e aventuras. Mas agora não há volta a dar, está casado com uma mulher, uma família e uma ilha, e por isso embebeda-se e contempla o horizonte, onde outras ilhas flutuam num mar imenso de solidão. Numa das ilhas que ele vê ao longe, estou eu. A minha ilha é de cimento e não há sombras. Não há nada. Tenho miragens. Muitas miragens. O sol entra na minha cabeça e vejo coisas que não devia ver. Também sou uma criança, mas os meus castelos construo-os no ar e eles desfazem-se, porque não são nada, mas eu não desisto e volto a construí-los, como se algum dia fossem ser alguma coisa. Passo o dia assim, nestas edificações mentais. Se pudesse, lançava-me ao mar e nadava até encontrar outra ilha ou até morrer, mas não sei nadar nem morrer. Às vezes sonho que posso caminhar sobre a água e visito as mais diversas ilhas e vivo as mais diversas pândegas. Sonho que caminho sobre o mar pelo menos até encontrar uma ilha habitada por uma mulher solitária, como eu; mas a ilha não é de cimento, e tem árvores frondosas que dão muita sombra, uma floresta cheia de pássaros coloridos que cantam. E essa mulher trataria das minhas feridas e eu não precisaria de ter visões, porque o nosso amor seria suficiente para apaziguar a minha fúria de rasgar a realidade. E, se soubesse andar sobre a água, ou pelo menos nadar sem me cansar, visitaria outras gentes e outros lugares, seria um verdadeiro cidadão do mundo.
Mas permaneço no meu país de cimento. Falo sozinho com frequência, faz parte da minha loucura. Há outros como eu. Há uma ilha com um velho que foi casado três vezes e tem imensos netos, só que ele já não sabe onde eles estão. Nunca o visitam. A esposa está moribunda e geme. Diz que quer morrer. Haverá uma ilha para os mortos? Noutra ilha há um rapaz e uma rapariga que à noite conjugam os corpos num jogo às vezes terno e doce, outras furioso e violento, e de manhã fogem um do outro. Fazem isto todos os dias. Estão apaixonados. Não há mais ninguém à volta por quem se possam apaixonar. Todas estas pessoas estão longe de mim. Outro sonho recorrente é o de um dia os homens construírem pontes ligando as ilhas, e de as pessoas irem por elas ao encontro umas das outras e celebrarem-se umas às outras. Declarações de amor. Às vezes tenho este sonho quando estou acordado. Dói-me sonhar acordado. Dói-me imenso.
O Tipo desliga o telefone.

Wave of Mutilation

20 de abril de 2010

Eu, Jesus e Karl Marx! A faceta política de Carson McCullers.

No entanto, à noite, Jake sentiu-se novamente tenso. Singer havia guardado o tabuleiro de xadrez e agora estavam sentados à frente um do outro. O nervosismo fazia tremer os lábios de Jake e ele bebia para se acalmar. De repente, foi invadido por um turbilhão de inquietação e ansiedade. Bebeu o uísque de um trago e recomeçou a falar com Singer. As palavras cresciam dentro dele e saíam em catadupa da sua boca. Jake caminhava entre a janela e a cama, repetidamente. Até que, por fim, o dilúvio de palavras ganhou forma e ele proferiu-as com uma ênfase embriagada:
– As coisas que eles nos fizerem! As verdades que eles transformaram em mentiras. Os ideais que conspurcaram e destruíram. Jesus, por exemplo. Era um dos nossos. Ele sabia. Quando disse que era mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus… Ele sabia muito bem o que estava a dizer, com um raio! Olhe bem para o que a Igreja fez a Jesus nestes últimos dois mil anos. Naquilo em que o transformaram. A maneira como a Igreja manipulou todas as Suas palavras para o seu próprio proveito. Se ainda fosse vivo, Jesus estaria agora preso. Seria uma das poucas pessoas que sabem realmente. Eu e Jesus sentar-nos-íamos a uma mesa, olhar-nos-íamos nos olhos e ambos saberíamos. Eu, Jesus e Karl Marx podíamos sentar-nos e uma mesa e…


em O Coração é um Caçador Solitário, Carson McCullers, trad. Marta Mendonça, Ed. Presença, 2010

18 de abril de 2010

Recordo-me
De quando as noites tinham cores e cheiros e formas
De quando não era casado
Com NADA!

Recordo-ma da inocência
Da aventura
De desconhecer que o meu corpo inteiro havia de desaguar com as minhas próprias fezes no lago subterrâneo onde hoje me encontro
Subalterno
Com as outras cabeças decapitadas cheias de razão
Insulares
Arredadas das mãos
Que haviam de construir um país enorme sem bandeira onde se pudesse brincar à vontade
Um eterno jardim-de-infância
De pernas que haviam de correr através de campos infindos verdes e vermelhos
(e atravessá-los-íamos, e nadaríamos também em oceanos infinitos).
Havíamos de construir um barco e chegaríamos ao outro lado!

As nossas mentes insólitas ao abrigo da luz, seguras na sua imundície…

Agora vem ter comigo uma ratazana fluorescente enorme e diz-me
- Vem ter comigo à esquina sem nome, a tal que não vem nos mapas. Sabes bem qual é.
Uma velha ratazana sabichona. Encontro-a na tal esquina sem nome. Uma velha esquina. Ninguém me havia dito qual era, mas eu tinha a sua imagem na minha mente. Uma memória genética da humanidade. Percorri o submundo e encontrei-a.

Acordo. Flutuo como os outros merdas inteligentes.
Deixo o sonho. À minha volta só há escuridão. Para quê sonhar?
Fico feliz.
Perco as chaves, deixo-as cair para baixo, para o abismo do qual formo o começo.
Já não existem. Nunca existiram. Foram ilusões.

Subitamente
Um oceano de luz ilumina a nossa gente
Não somos cães, não somos merdas
Somos homens e mulheres
Com braços, pernas, corações
E mentes vivas que fazem.

Mas a luz acendeu-se somente para os guardas imperiais descerem
E pisarem
E matarem
Os braços, as pernas
As mentes
As palavras
A liberdade.

Porque um de nós acordou. Fui eu.
Um exército de bonecos inexpressivos percorre as ruas. Uma engenharia de comportamentos sociais soube moldar-lhes os passos – direita, esquerda, direita, esquerda, um ritmo que não se cansa – e pôs-lhes bandeiras nas mãos, que agitam com alegria fictícia no ar igualmente fictício, perfumado. Estou no meio deles. Faço parte da multidão. Gosto da multidão. Sombras enormes protegem-nos do sol. A cidade é um túmulo. Faces de estátuas são fotografadas e postas nas ruas em outdoors gigantes. Nas capas das revistas. Na televisão. As estátuas falam. São inteligentes. É preciso amá-las.
Estou no meio da multidão. Mas tenho uma espécie de tumor no cérebro. Isto não estava previsto. Não sei como marchar. Direita? Esquerda? Desaparecem os rostos e no seu lugar aparecem linhas infindas de letras, números e operações algébricas. Não sei para que servem. De súbito, o horror dos horrores – descubro que também eu sou um número.
E então transformo-me num pássaro e voo para todo o lado. Multiplico-me. Há uma espécie nova sobre os símbolos – somos nós. Voamos sobre as ilusões, atravessamos as brumas e os elementos. Abrimos o túmulo.

17 de abril de 2010

She penetrates my radar

Abro os olhos. Continua estendida na cama, é mesmo um milagre. Espanto-me por continuar comigo. É uma beleza excessiva para um homem incompleto, que não a merece. É a razão da minha loucura. Acaba com a minha virilidade, esgota-ma por completo. Em noites de uma fúria específica que não consigo explicar, eu despenho-me neste corpo e morro. Nesses momentos eu não existo, ou outro em mim existe que percorre voraz este pequeno continente fecundo, ou, para ser mais claro, o indivíduo taciturno e matinal transforma-se em aventureiro despótico e embrenha-se nesta terra brava à procura da fonte primordial. Pois acaba por encontrá-la e beber dela e ficar louco.
Mas agora que, à luz do dia, o ser pragmático me regressa, decido que o que está aqui é apenas um monte de vísceras e ossos e o caralho desentesa-se e regressa ao estado normal, à quotidiana humildade. Afinal a presença dela na minha cama enoja-me. É assim… Quando a luz invade o quarto e o despoja das sombras que encobriam o foco luminoso do próprio espírito erótico, protegendo-o numa redoma de mistério, este desaparece também, como poeira para dentro do grande aspirador atroz da manhã, e os seres efémeros, à noite criminosos fabulosos, sucumbem à tirania da sobrevivência e avançam lúcidos para a dor matinal de viver.
Pois levanto-me com cuidado, sem fazer barulho, por respeito à Raquel que em sonho se autoriza uma doce fornicação ininterrupta sem a cristã consciência do pecado. Sei que a possuo em sonhos, ou talvez ela seja possuída por outro demónio barbudo e musculado com uma verga maior do que a minha – é que eu nem posso cobiçar a ditadura de saber se ela em sonhos vai comigo se com outros, para depois me zangar e a admoestar; nem ela pode conhecer o teor das minhas fantasias íntimas, que até a mim me escapam. Vou para a cozinha fazer o café ritual, que porventura me ajudará a varrer alguns estilhaços oníricos que ainda me teimam na cabeça, a transitar com razoável ânimo para a nova realidade, a diurna. Tomo o café numa chávena enorme com a janela aberta, a olhar lá para fora, para as nuvens carregadas de um cinzento austero promissor de angustiantes correrias pelo mundo atrás das pessoas que açambarcam a sociedade, o mercado de trabalho e todos os sítios civilizados, malditos sejam, para lhes pedir esmola com este meu rosto submisso e impotente. Filhos da puta… Mas eu vou atrás deles e persisto, insisto, para ter com que comer, e poder nutrir com os mais diversos afrodisíacos a paixão que tenho pela minha diaba, para alimentar o fogo que sentimos à noite alastrar para além de nós e chegar talvez a terras por descobrir, planetas onde a honestidade não seja considerada pelos poderes vigentes uma obscenidade e um perigo, a manter dentro dos redis da Arte, esse júbilo dos insanos.
Mas eis que ela também se levanta e agora caminha para mim, nua, com as mamas a saltitar de contentamento juvenil e a darem-me os bons-dias, enquanto os olhos caçadores perversamente me percorrem e destapam e ferem. Com uma languidez sensual, empurra para si a minha nuca com a mão direita, para sugar-me através dos lábios, enquanto a esquerda desflora violentamente a disposição virginal do meu caralho, acometendo-o outra vez daquela raiva de querer entrar dentro dela e derrubar tudo lá dentro, uma raiva que se revolta contra o amor, e insurge-se, incha de sangue e pulsa, torna-se gigante, fica possesso e comete o crime, irrompe com violência pela floresta selvagem e embate, embate, embate repetidamente naquelas areias movediças, dá marretadas valentes sem se cansar, sem compreender aquela deliquescência. Despejo-me nela. É a celebração, o triunfo do nosso matrimónio.
Acabamos exaustos sob a claridade de início que entra pela janela sem permissão, invadindo o quarto, iluminando a terra nos amantes que somos, meros despojos da batalha dos elementos. Rajadas fulminantes destroem a sensualidade e acordam os sentidos para a aspereza do quotidiano. As palavras que dizemos são já nostalgias, memórias da infância louca de há momentos, e nós, poetas velhos que sobrevivem a despeito de ser parco o desejo de viver, dizemo-las de olhos fitos no tecto, fronteira da nossa ilha exótica.
– Gosto quando te portas mal logo de manhã – diz-me ela.
– E eu gosto quando tu me obrigas a isso. És a minha diaba, a minha tentação, a minha musa.
– Sou o teu objecto poético?
– Não. És tanto objecto poético como eu. Somos dois objectos poéticos de uma harmonia que só entendemos quando nos unimos. Fazemos parte da música, percebes?
– Perfeitamente – diz com ironia.
Mas eu sei que ela percebe. Nesse aspecto é mais homem do que eu, porque não liberta tanto as emoções quanto eu e racionaliza tudo, tirando imediatez à realidade quando a peneira com rigor através de intricadas leis de causalidade que servem para tudo, ao passo que eu, mesmo acreditando nessas leis e explicações, deixo que a realidade entre em mim como um tóxico. Chego a ser lamechas e a chorar, ocasiões em que ela por vezes me diz para eu me comportar como um homenzinho, como se costuma dizer aos rapazinhos.
– A tua mente excessivamente racional não te autoriza a que acredites no amor.
E ela cala-se, porque sabe que não é verdade mas não o diz, porque isso significaria dizer que me ama, e isso sim, isso seria contra a sua mente científica. Levanta-se e vai para a casa de banho. Ouço a ignição da chama do esquentador e espero um bocado. Levanto-me e vou ter com ela. Também a água quente é uma protecção do mundo. Demoramo-nos ali, calados, sem vontade de sairmos da banheira. Beijamo-nos longamente. Ela masturba-me. O tempo não existe até eu me esvair outra vez. Saímos para o frio e vestimo-nos.
E agora sim, agora estamos lúcidos. Enfrentamos o mundo. Saio de casa e dirijo-me para a paragem do autocarro apinhada sob a chuva furiosa, que castiga a raiva do ser humano e a sua estupidez, a obsessão por símbolos e coisas inexistentes, o trabalho abstracto. Volto-me para trás. A minha diaba está à janela a olhar para mim, envolta no meu robe e curvada sob uma caneca de chá fumegante.

14 de abril de 2010

Episódio sem Importância

Lembro-me de um episódio que se passou na minha vida que não teve grande importância. De todos os que me aconteceram, não sei por que me estou sempre a lembrar deste. Se calhar é mesmo porque não teve importância.
Eu tinha 17 anos. Nessa altura, eu era um miúdo da rua. Estava sempre com os meus camaradas. Frequentávamos tascas e enfrascávamo-nos sempre que podíamos. Uma tarde de Sábado, depois de termos estado a beber cerveja e a comer caracóis, íamos nós a sair da tasca, vêm ao nosso encontro um homem e uma mulher de meia-idade. Queriam vender-nos qualquer coisa. Reparámos que tinham uns panfletos horríveis nas mãos e uns sorrisos otários nas bocas. Uns sorrisos beatíficos. A entrada para o Paraíso, era o que eles nos queriam vender, e nós meio tocados. Perguntaram-nos se lhes podíamos dispensar um poucochinho do nosso tempo. O Miguel disse logo que não, que tínhamos mais que fazer (e é claro que nós não tínhamos nada para fazer, senão andar por ali ás voltas a pandilhar), mas eu disse «Não, espera lá, deixa-os lá dizerem o que têm para dizer. Temos que lhes dar uma oportunidade.» Naquela altura eu já era ateu e sabia que Deus não existia, mas sabia-o há pouco tempo e era muito arrogante com esse assunto. Ria-me à vontade das pessoas que eram cegamente crentes.
– Os meninos foram baptizados?
– Eu fui baptizado, mas agora sou satanista – isto foi precisamente o que eu disse, e os outros riram-se. – O satanismo, sabe o que isso é? – perguntei-lhes em tom de provocação, em voz muito alta, quase a gritar. Estava possesso.
O homem e a mulher entreolharam-se, meio assustados, mas o homem respondeu:
– O menino é adorador do Sátã? – com um sotaque de aldeia do distrito de Bragança.
– De certa meneira. Quer dizer que eu celebro a minha vida pelo culto da luxúria e do hedonismo. Não tenho namorada, arranjo sempre mulheres aí da rua para enfiar o pincel, só me venho em conas porcas, e só saio à rua para me embebedar e arranjar disparates. Não é, pá? – e dou uma chapada valente nas costas do Miguel.
Deitámo-nos logo a rir.
– Vamos embora – disse a mulher, com os olhos grandes e nervosa. – Não vale a pena. Vamos – a voz a tremer-lhe. Também, não era caso para tanto.
– Vamos orar por vocês – ainda disse o velho, ao irem-se embora. – Que Deus esteja convosco.
– Ele não está no meio de nós! – gritou o Carlos.
Não sei por que é que me recordo tão bem deste episódio.

13 de abril de 2010

Deus
escreve direito por linhas tortas
Eu
escrevo torto por linhas direitas

11 de abril de 2010

Novelos de Paixão

Advertência ao Eremita

Estúpido, não há erotismo na literatura. Se queres erotismo, procura-o fora de ti e dos teus livros cheios de poeira, fora do teu casamento com o que quer seja, esposa, casa, carro, fora do teu habitat profissional (longe!), fora dessa vida de instituição privada. Longe do quotidiano e onde possas esquecê-lo, por breves momentos que sejam, caindo com paixão numa armadilha montada por uma mulher ou por um homem, ou por um pequeno colectivo de almas danadas. Não há erotismo numa casa bafienta. Onde não entra o sol e há uma lâmpada espalhando uma luz branca e higiénica de morgue por toda a parte, matando os micróbios, dizimando as vidas individuais, incluindo a tua, e tornando tudo limpo – até a alma, tornando-a imaculada como algo por estrear. Não vês os corpos, porque estes estão dentro de burkas burkas burkas perfumadas, negras e pesadas. Os corpos soterrados em camadas múltiplas de pano preto. Não podes cheirar os corpos. Em vez dos corpos, cheiras o perfume, seduzem-te artificialmente com esse perfume, que é melhor do que nada. Uma embriaguez que te ausenta da sujidade do real. Não há erotismo na casa fechada. Não há erotismo no mundo. Não há erotismo na literatura. Estúpido.

6 de abril de 2010

Do filme "Henry & June", realizado por Philip Kaufman, adaptação de parte do diário de Anaïs Nin

Anaïs Anaïs...

Fui ter com Henry e encontrei-o a trabalhar. Recebeu-me com um beijo feliz. Trabalhámos juntos. Sentei-me à minha mesa, ao lado da dele, examinando fragmentos a inserir no meu livro. Eu estava repleta da força da sua escrita. Quando ele ficou com fome, ofereci-me para cozinhar o jantar.
– Deixa-me fingir que sou a esposa de um génio – e fui para a cozinha com o meu imponente vestido cor-de-rosa.
A própria voz de Henry me eleva, penso no que ele me disse:
– Quando escrever sobre ti, terei de escrever como se fosses um anjo. Não consigo pôr-te numa cama.
– Mas eu não me comporto como um anjo. Sabes bem que não.
– Sim eu sei, eu sei. Deste cabo de mim estes últimos dias. És um anjo sexual, mas és um anjo na mesma. A tua sensualidade não me convence.
– Vou castigar-te por isso – disse eu. – A partir de agora hei-de comportar-me como um anjo.

em Henry & June, Anaïs Nin, trad. Ana Fonseca, Editorial Presença