18 de abril de 2010

Recordo-me
De quando as noites tinham cores e cheiros e formas
De quando não era casado
Com NADA!

Recordo-ma da inocência
Da aventura
De desconhecer que o meu corpo inteiro havia de desaguar com as minhas próprias fezes no lago subterrâneo onde hoje me encontro
Subalterno
Com as outras cabeças decapitadas cheias de razão
Insulares
Arredadas das mãos
Que haviam de construir um país enorme sem bandeira onde se pudesse brincar à vontade
Um eterno jardim-de-infância
De pernas que haviam de correr através de campos infindos verdes e vermelhos
(e atravessá-los-íamos, e nadaríamos também em oceanos infinitos).
Havíamos de construir um barco e chegaríamos ao outro lado!

As nossas mentes insólitas ao abrigo da luz, seguras na sua imundície…

Agora vem ter comigo uma ratazana fluorescente enorme e diz-me
- Vem ter comigo à esquina sem nome, a tal que não vem nos mapas. Sabes bem qual é.
Uma velha ratazana sabichona. Encontro-a na tal esquina sem nome. Uma velha esquina. Ninguém me havia dito qual era, mas eu tinha a sua imagem na minha mente. Uma memória genética da humanidade. Percorri o submundo e encontrei-a.

Acordo. Flutuo como os outros merdas inteligentes.
Deixo o sonho. À minha volta só há escuridão. Para quê sonhar?
Fico feliz.
Perco as chaves, deixo-as cair para baixo, para o abismo do qual formo o começo.
Já não existem. Nunca existiram. Foram ilusões.

Subitamente
Um oceano de luz ilumina a nossa gente
Não somos cães, não somos merdas
Somos homens e mulheres
Com braços, pernas, corações
E mentes vivas que fazem.

Mas a luz acendeu-se somente para os guardas imperiais descerem
E pisarem
E matarem
Os braços, as pernas
As mentes
As palavras
A liberdade.

Porque um de nós acordou. Fui eu.