Telefono ao Tipo e digo-lhe:
Passa-se o seguinte. No mundo há muitas ilhas. Não há senão ilhas. Os meus vizinhos da cave esquerda, por exemplo, habitam numa ilha próxima da minha. Próxima, mas distante. A família é numerosa e eles divertem-se – os putos brincam na praia, fazem castelos na areia que são réplicas em miniatura dos que existem nas ilhas da imaginação. Mas é terrível, porque há noite o homem embebeda-se sozinho e pragueja, amaldiçoando a sua condição de pai. Para ele, já não há ilhas imaginárias, porque perdeu a capacidade de sonhar. Já viu muito. Já esteve em outras ilhas de outros arquipélagos. Teve amantes e aventuras. Mas agora não há volta a dar, está casado com uma mulher, uma família e uma ilha, e por isso embebeda-se e contempla o horizonte, onde outras ilhas flutuam num mar imenso de solidão. Numa das ilhas que ele vê ao longe, estou eu. A minha ilha é de cimento e não há sombras. Não há nada. Tenho miragens. Muitas miragens. O sol entra na minha cabeça e vejo coisas que não devia ver. Também sou uma criança, mas os meus castelos construo-os no ar e eles desfazem-se, porque não são nada, mas eu não desisto e volto a construí-los, como se algum dia fossem ser alguma coisa. Passo o dia assim, nestas edificações mentais. Se pudesse, lançava-me ao mar e nadava até encontrar outra ilha ou até morrer, mas não sei nadar nem morrer. Às vezes sonho que posso caminhar sobre a água e visito as mais diversas ilhas e vivo as mais diversas pândegas. Sonho que caminho sobre o mar pelo menos até encontrar uma ilha habitada por uma mulher solitária, como eu; mas a ilha não é de cimento, e tem árvores frondosas que dão muita sombra, uma floresta cheia de pássaros coloridos que cantam. E essa mulher trataria das minhas feridas e eu não precisaria de ter visões, porque o nosso amor seria suficiente para apaziguar a minha fúria de rasgar a realidade. E, se soubesse andar sobre a água, ou pelo menos nadar sem me cansar, visitaria outras gentes e outros lugares, seria um verdadeiro cidadão do mundo.
Mas permaneço no meu país de cimento. Falo sozinho com frequência, faz parte da minha loucura. Há outros como eu. Há uma ilha com um velho que foi casado três vezes e tem imensos netos, só que ele já não sabe onde eles estão. Nunca o visitam. A esposa está moribunda e geme. Diz que quer morrer. Haverá uma ilha para os mortos? Noutra ilha há um rapaz e uma rapariga que à noite conjugam os corpos num jogo às vezes terno e doce, outras furioso e violento, e de manhã fogem um do outro. Fazem isto todos os dias. Estão apaixonados. Não há mais ninguém à volta por quem se possam apaixonar. Todas estas pessoas estão longe de mim. Outro sonho recorrente é o de um dia os homens construírem pontes ligando as ilhas, e de as pessoas irem por elas ao encontro umas das outras e celebrarem-se umas às outras. Declarações de amor. Às vezes tenho este sonho quando estou acordado. Dói-me sonhar acordado. Dói-me imenso.
O Tipo desliga o telefone.
Passa-se o seguinte. No mundo há muitas ilhas. Não há senão ilhas. Os meus vizinhos da cave esquerda, por exemplo, habitam numa ilha próxima da minha. Próxima, mas distante. A família é numerosa e eles divertem-se – os putos brincam na praia, fazem castelos na areia que são réplicas em miniatura dos que existem nas ilhas da imaginação. Mas é terrível, porque há noite o homem embebeda-se sozinho e pragueja, amaldiçoando a sua condição de pai. Para ele, já não há ilhas imaginárias, porque perdeu a capacidade de sonhar. Já viu muito. Já esteve em outras ilhas de outros arquipélagos. Teve amantes e aventuras. Mas agora não há volta a dar, está casado com uma mulher, uma família e uma ilha, e por isso embebeda-se e contempla o horizonte, onde outras ilhas flutuam num mar imenso de solidão. Numa das ilhas que ele vê ao longe, estou eu. A minha ilha é de cimento e não há sombras. Não há nada. Tenho miragens. Muitas miragens. O sol entra na minha cabeça e vejo coisas que não devia ver. Também sou uma criança, mas os meus castelos construo-os no ar e eles desfazem-se, porque não são nada, mas eu não desisto e volto a construí-los, como se algum dia fossem ser alguma coisa. Passo o dia assim, nestas edificações mentais. Se pudesse, lançava-me ao mar e nadava até encontrar outra ilha ou até morrer, mas não sei nadar nem morrer. Às vezes sonho que posso caminhar sobre a água e visito as mais diversas ilhas e vivo as mais diversas pândegas. Sonho que caminho sobre o mar pelo menos até encontrar uma ilha habitada por uma mulher solitária, como eu; mas a ilha não é de cimento, e tem árvores frondosas que dão muita sombra, uma floresta cheia de pássaros coloridos que cantam. E essa mulher trataria das minhas feridas e eu não precisaria de ter visões, porque o nosso amor seria suficiente para apaziguar a minha fúria de rasgar a realidade. E, se soubesse andar sobre a água, ou pelo menos nadar sem me cansar, visitaria outras gentes e outros lugares, seria um verdadeiro cidadão do mundo.
Mas permaneço no meu país de cimento. Falo sozinho com frequência, faz parte da minha loucura. Há outros como eu. Há uma ilha com um velho que foi casado três vezes e tem imensos netos, só que ele já não sabe onde eles estão. Nunca o visitam. A esposa está moribunda e geme. Diz que quer morrer. Haverá uma ilha para os mortos? Noutra ilha há um rapaz e uma rapariga que à noite conjugam os corpos num jogo às vezes terno e doce, outras furioso e violento, e de manhã fogem um do outro. Fazem isto todos os dias. Estão apaixonados. Não há mais ninguém à volta por quem se possam apaixonar. Todas estas pessoas estão longe de mim. Outro sonho recorrente é o de um dia os homens construírem pontes ligando as ilhas, e de as pessoas irem por elas ao encontro umas das outras e celebrarem-se umas às outras. Declarações de amor. Às vezes tenho este sonho quando estou acordado. Dói-me sonhar acordado. Dói-me imenso.
O Tipo desliga o telefone.