Acordo com uma dor de cabeça enorme num quarto amarelo a rodopiar. Quando estou sóbrio, este é o meu quarto. Quando estou bêbado, ou depois de bêbado mas não completamente sóbrio, doente, num estado insuportável de vómito, como agora, este quarto é mais do que o meu quarto, porque assume as proporções de uma jaula com vida que se contrai e expande sem eu poder fazer nada. Neste momento encolhe-se, fecha-se sobre mim como um caixão – só que eu ainda estou vivo! –, ou como o estômago de um animal mandado por um Deus tirânico para castigar os preguiçosos e os alcoólicos. Está com sorte, porque comigo é logo dois em um. Respiro a custo através das fímbrias deste lodo.
Mas levanto-me, apesar do movimento do quarto, ou da jaula, ou da câmara de tortura amarela, ponho os pés no chão e, apesar de ser um inválido, vou andando, tropeçando e gemendo em direcção à casa de banho, contrariando o desejo orgânico de desaparecer absolutamente deste mundo. Acendo a luz, que embate em mim como uma onda de infinitas agulhas rasgando-me a pele em todo o corpo. Debruço-me sobre o lavatório, pequena lagoa onde passou a última seca do país, ou talvez do Universo, abro a torneira e acontece o milagre – a água sai e eu engulo-a com avidez, a água atravessa-me como uma corrente de rejuvenescimento. Molho a cara, os braços, o peito, e o meu cérebro ocorre-lhe pensar que eu sou aquele que faz parte da água, dum mundo subterrâneo de lençóis de água onde nadam as criaturas mais feias, mas também as mais obscenamente livres; e no enjoo da minha ressaca, apetece-me contrair o meu corpo e esvair-me desta existência de cidade através do ralo do lavatório e ir com a corrente através do submundo, penetrar no anonimato do esgoto e por lá ficar, entre todas as sereias que imaginei antes de ter caído no erro do crescimento, com todas as responsabilidades, traições e desilusões que este acarreta.
Não cedo ao disparate e fico aqui, neste mundo em ruínas que se propagam, estas sim, verdadeiramente bêbadas de si, um descalabro de destruição para sempre incompleta e que nunca chega a ressacar. Acordo. Suporto a dor. Saio da casa de banho com ela no corpo, mas com a consciência de esta ser um emblema da vida teimosa vitoriando sobre a morte. Mas onde está ela? Gemo o seu nome, a palavra que em toda a casa é uma presença que denuncia a minha necessidade dela, só que ela não está, porque se escapou à minha ressaca, com certeza irritada com a minha recaída na vida do vinho, ontem, quando me encontrou a gargalhar artificialmente na sala, fronte a uma garrafa ainda sorridente e meio cheia de vinho de Palmela, ao lado de uma tristonha e vazia de tinto alentejano. Lembro-me que ela fez uma expressão de horror e de um grande desconsolo, e tenho uma recordação muito vaga do que pode ter dito, mas que o meu torpor pode ter alterado, e portanto nem o digo, não o relato ao ar exterior que forma o invólucro da minha ressaca de indivíduo sem forças. Recordo-me somente da sua expressão e das lágrimas que romperam dos seus olhos de um assombro que sempre me assustou, do seu histerismo que durou pouco tempo, em que ela proferiu palavras que provocariam a minha morte imediata se eu estivesse sóbrio (mas é claro que se eu estivesse sóbrio, ela não as teria dito, não é?). E é agora que eu as sinto, essas palavras que não recordo. É agora que sinto a ferida das palavras que ela disse. E então deixo-me derramar sobre o sofá da sala com uma culpa quase tão agonizante quanto o transtorno físico habitual que se segue a uma bebedeira excessiva. Deixo-me para ali ficar sem vida, mole e gasto como uma farrapo velho, e ligo a televisão para me distrair do sofrimento e do remorso. Não sei por quanto tempo fico ali deitado, a fitar imagens que não compreendo por serem tão absurdas, imagens de sorrisos principalmente, sequências intermináveis de sorrisos públicos. De vez em quando, tendo o comando na mão, vou mudando de canal e faço o mundo saltar de lugar para lugar, lixado por tudo isto ser tão aleatório, e vou chamando nomes às personagens. Não acontece nada, porque as personagens reaparecem e continuam a sorrir no canal a seguir, e no outro, e no outro… Rostos diferentes da mesma personagem de fabrico, possuidora de uma beleza insuperável.
Um barulho de metais desperta-me da contemplação melancólica da representação televisiva, como que acordando-me para este mundo, o meu, em que o caixão amarelo é tão insuportavelmente real e fecha-se sobre mim com força. As chaves rodam no canhão da fechadura. É ela. Entra em casa, abre de rompante a porta da sala e encontra-me ali deitado, no esplendor do meu enjoo. Por momentos, a realidade imobiliza-se num gelo de inaptidão para o confronto e ficamos os dois a olhar um para o outro. Decide ser ela a interromper a imobilidade, que é mais horrível que qualquer ressaca, para dizer simplesmente:
– Estás bonito, estás… – palavras brandas para uma fúria que eu julgava que ia ser maior.
– Não comeces. Deixa-me estar aqui sozinho.
E fecha a porta com a maior das displicências. Mais um bocado e olho para o relógio. Já são 2 da tarde. Dói-me a cabeça. Levanto-me e vou à cozinha para tirar um café. Encontro-a a fumar debruçada na janela, só de cuecas e sutiã. A luz solar ilumina-lhe o corpo e humilha-me a consciência, dá-me um medo que olhos intrusos me roubem este amor monogâmico. Fico irritado.
– O que é que estás a fazer? Estás maluca?
– Estou, mas deixa-me estar. Eu ontem também te deixei estar bêbado. Olha, porque é que não te vais embora, como eu fiz?
– Vai tu, que sou eu que pago a renda. Vai mesmo assim como estás.
– OK. Tens a certeza que queres que eu me vá embora?
– Quero. Deixa-me em paz.
Ela não diz mais nada. Vai para o quarto. Eu vou atrás dela. Tira a mala de cima do armário e desata a pôr a roupa dela lá dentro, sem a dobrar e com fúria, e diz-me com a voz tremida e quase gritada:
– De qualquer maneira, estou farta de estar aqui contigo. Não prestas para nada, por isso é que estás sempre a querer beber, porque sabes que não tens utilidade para nada. Já nem vontade de foder tens, estás sempre com a picha mole.
– Se queres foda, há para aí muitos que te podem dar isso – e rio-me.
Agora as lágrimas correm-lhe com abundância pela face, enquanto se veste e calça os sapatos, e eu fico a ver, encostado ao umbral da porta. Depois ela agarra na mala e no casaco, diz sai-me da frente e vai-se embora. Que dor de cabeça.

