28 de março de 2010

Os Malefícios do Vinho

Acordo com uma dor de cabeça enorme num quarto amarelo a rodopiar. Quando estou sóbrio, este é o meu quarto. Quando estou bêbado, ou depois de bêbado mas não completamente sóbrio, doente, num estado insuportável de vómito, como agora, este quarto é mais do que o meu quarto, porque assume as proporções de uma jaula com vida que se contrai e expande sem eu poder fazer nada. Neste momento encolhe-se, fecha-se sobre mim como um caixão – só que eu ainda estou vivo! –, ou como o estômago de um animal mandado por um Deus tirânico para castigar os preguiçosos e os alcoólicos. Está com sorte, porque comigo é logo dois em um. Respiro a custo através das fímbrias deste lodo.
Mas levanto-me, apesar do movimento do quarto, ou da jaula, ou da câmara de tortura amarela, ponho os pés no chão e, apesar de ser um inválido, vou andando, tropeçando e gemendo em direcção à casa de banho, contrariando o desejo orgânico de desaparecer absolutamente deste mundo. Acendo a luz, que embate em mim como uma onda de infinitas agulhas rasgando-me a pele em todo o corpo. Debruço-me sobre o lavatório, pequena lagoa onde passou a última seca do país, ou talvez do Universo, abro a torneira e acontece o milagre – a água sai e eu engulo-a com avidez, a água atravessa-me como uma corrente de rejuvenescimento. Molho a cara, os braços, o peito, e o meu cérebro ocorre-lhe pensar que eu sou aquele que faz parte da água, dum mundo subterrâneo de lençóis de água onde nadam as criaturas mais feias, mas também as mais obscenamente livres; e no enjoo da minha ressaca, apetece-me contrair o meu corpo e esvair-me desta existência de cidade através do ralo do lavatório e ir com a corrente através do submundo, penetrar no anonimato do esgoto e por lá ficar, entre todas as sereias que imaginei antes de ter caído no erro do crescimento, com todas as responsabilidades, traições e desilusões que este acarreta.
Não cedo ao disparate e fico aqui, neste mundo em ruínas que se propagam, estas sim, verdadeiramente bêbadas de si, um descalabro de destruição para sempre incompleta e que nunca chega a ressacar. Acordo. Suporto a dor. Saio da casa de banho com ela no corpo, mas com a consciência de esta ser um emblema da vida teimosa vitoriando sobre a morte. Mas onde está ela? Gemo o seu nome, a palavra que em toda a casa é uma presença que denuncia a minha necessidade dela, só que ela não está, porque se escapou à minha ressaca, com certeza irritada com a minha recaída na vida do vinho, ontem, quando me encontrou a gargalhar artificialmente na sala, fronte a uma garrafa ainda sorridente e meio cheia de vinho de Palmela, ao lado de uma tristonha e vazia de tinto alentejano. Lembro-me que ela fez uma expressão de horror e de um grande desconsolo, e tenho uma recordação muito vaga do que pode ter dito, mas que o meu torpor pode ter alterado, e portanto nem o digo, não o relato ao ar exterior que forma o invólucro da minha ressaca de indivíduo sem forças. Recordo-me somente da sua expressão e das lágrimas que romperam dos seus olhos de um assombro que sempre me assustou, do seu histerismo que durou pouco tempo, em que ela proferiu palavras que provocariam a minha morte imediata se eu estivesse sóbrio (mas é claro que se eu estivesse sóbrio, ela não as teria dito, não é?). E é agora que eu as sinto, essas palavras que não recordo. É agora que sinto a ferida das palavras que ela disse. E então deixo-me derramar sobre o sofá da sala com uma culpa quase tão agonizante quanto o transtorno físico habitual que se segue a uma bebedeira excessiva. Deixo-me para ali ficar sem vida, mole e gasto como uma farrapo velho, e ligo a televisão para me distrair do sofrimento e do remorso. Não sei por quanto tempo fico ali deitado, a fitar imagens que não compreendo por serem tão absurdas, imagens de sorrisos principalmente, sequências intermináveis de sorrisos públicos. De vez em quando, tendo o comando na mão, vou mudando de canal e faço o mundo saltar de lugar para lugar, lixado por tudo isto ser tão aleatório, e vou chamando nomes às personagens. Não acontece nada, porque as personagens reaparecem e continuam a sorrir no canal a seguir, e no outro, e no outro… Rostos diferentes da mesma personagem de fabrico, possuidora de uma beleza insuperável.
Um barulho de metais desperta-me da contemplação melancólica da representação televisiva, como que acordando-me para este mundo, o meu, em que o caixão amarelo é tão insuportavelmente real e fecha-se sobre mim com força. As chaves rodam no canhão da fechadura. É ela. Entra em casa, abre de rompante a porta da sala e encontra-me ali deitado, no esplendor do meu enjoo. Por momentos, a realidade imobiliza-se num gelo de inaptidão para o confronto e ficamos os dois a olhar um para o outro. Decide ser ela a interromper a imobilidade, que é mais horrível que qualquer ressaca, para dizer simplesmente:
– Estás bonito, estás… – palavras brandas para uma fúria que eu julgava que ia ser maior.
– Não comeces. Deixa-me estar aqui sozinho.
E fecha a porta com a maior das displicências. Mais um bocado e olho para o relógio. Já são 2 da tarde. Dói-me a cabeça. Levanto-me e vou à cozinha para tirar um café. Encontro-a a fumar debruçada na janela, só de cuecas e sutiã. A luz solar ilumina-lhe o corpo e humilha-me a consciência, dá-me um medo que olhos intrusos me roubem este amor monogâmico. Fico irritado.
– O que é que estás a fazer? Estás maluca?
– Estou, mas deixa-me estar. Eu ontem também te deixei estar bêbado. Olha, porque é que não te vais embora, como eu fiz?
– Vai tu, que sou eu que pago a renda. Vai mesmo assim como estás.
– OK. Tens a certeza que queres que eu me vá embora?
– Quero. Deixa-me em paz.
Ela não diz mais nada. Vai para o quarto. Eu vou atrás dela. Tira a mala de cima do armário e desata a pôr a roupa dela lá dentro, sem a dobrar e com fúria, e diz-me com a voz tremida e quase gritada:
– De qualquer maneira, estou farta de estar aqui contigo. Não prestas para nada, por isso é que estás sempre a querer beber, porque sabes que não tens utilidade para nada. Já nem vontade de foder tens, estás sempre com a picha mole.
– Se queres foda, há para aí muitos que te podem dar isso – e rio-me.
Agora as lágrimas correm-lhe com abundância pela face, enquanto se veste e calça os sapatos, e eu fico a ver, encostado ao umbral da porta. Depois ela agarra na mala e no casaco, diz sai-me da frente e vai-se embora. Que dor de cabeça.

27 de março de 2010

Génese do Romancista Contemporâneo

Em um ano terá desaparecido nas corrosivas areias do tempo histórico, tragado pelo esplendor da paranóia social. Pai de família. Lembro-me das conquistas de uma juventude que partilhávamos – primeiro o berlinde, o jogo das escondidas e o bolicao, depois coisas mais sérias, como a alcoolemia de vinho de pacote, pandilhar pela cidade, a procura das raparigas, pequenas e ridículas competições de masculinidade… Tudo isto está em mim e cresce, porque em mim a juventude continua e expande-se. Cabe tudo cá dentro. Sou incapaz de sair de mim. No entanto, depois de uma certa idade, o orgulho da juventude deixa de existir, para dar lugar a uma fome insólita e solitária, uma procura idealista e perigosa de qualquer coisa para lá dos contratos, da celibatária função social, do contexto… Enquanto outros se apaixonam pela mulher certa e casam e têm filhos, tu não te vês livre da tua arrogância e continuas abrindo caminho através das lianas. Mas a paisagem torna-se agreste, porque as coisas tornam-se escassas, vão fugindo para as mãos dos verdadeiramente jovens, futuros pais de família, e tu, à falta dessas coisas, adquires o talento necessário para as criares.

23 de março de 2010

Corpos Submersos

Esta tarde vivo dentro de um órgão sexual, o dela, que se aproximou de mim e me apanhou. A vulva dela, a minha, é uma boca faminta e um narcótico invencível, uma prisão de deslumbramento. Não quero fugir desta morte deliciosa. Eu entrei nela e ela deteve-me lá dentro, onde cuida de mim – apoderou-se para sempre do meu corpo, que já foi simplesmente feliz na solidão. Pois agora tudo se revela irreal, as coisas podem voar e mudar de cor, podem transmutar-se em êxtases vermelhos e de outras cores. Gritamos os dois, os corpos movidos por um vício de embriaguez. Esta tarde é uma pequena eternidade. Estamos nus. Ela é impossivelmente bela. Estende-se na cama e contorce-se de prazer enquanto eu lhe mexo com a língua. Geme. Eu não paro, sinto que a minha missão é dar-lhe um prazer muito grande e insuportável. Depois ela ergue-se, olha-me em pânico e beija-me. Agarra-me o pénis. Masturba-me. Eu deito-me de olhos fechados e deixo-a aproveitar-se de mim. Ela beija-me a boca, o pescoço, desce aos mamilos e lambe-os, beija-me o peito. Lambe-me o pénis. Balbucio umas palavras. Agradeço-a. Ela salta para cima de mim e enfia-o nela. Fornicamos loucamente. Explodimos. Não sabemos o que se passa, lançamo-nos ao desvario.
A verdade é que sinto uma obsessão indesejada a invadir-me o corpo, o espírito, a vida – um jugo quase absoluto. Encontrei-a à minha espera numa das madrugadas insólitas do mundo, sozinha numa rua mergulhada em trevas assassinas imperturbáveis. Sem falar, pediu a minha ajuda e eu ajudei-a, julgando que não estaria prestes a sacrificar a minha independência. Agora, conhecemos a volúpia e entregamo-nos a ela sem grandes pensamentos. Não temos mais nada e o universo pode consumir-se de um dia para o outro, devido à implosão do seu egocentrismo, de um exacerbo que não toleramos. Queremos esquecer o apocalipse, a derradeira explosão que pressentimos encontrar-se já ao virar da esquina. Ela tem mamas e vagina reais mas, mais do que isso, é diferente da população estatística porque tem um espírito e eu tenho medo dele – é talvez a mulher que não morreu, que sofre justamente porque não morreu. Nesse aspecto somos iguais, dois espécimes raros. Sofremos porque estamos demasiado vivos, a despeito de tudo à nossa volta ser um amontoado de cadáveres nauseabundos com um sorriso sórdido estampado na cara – nesta ditadura da felicidade, a atitude mais natural é esboçar um sorriso e posar, e é inconcebível perder tempo a pensar em causas secretas. Não aceitamos a morte, pois temos uma doença singular que é a fome de vida. Somos, numa palavra, humanos. Somos párias da sociedade.
Somos companheiros sexuais e podemos ser mais do que isso, apesar de ambos querermos a independência mais do que o amor. Talvez a possamos procurar em conjunto, fugir em conjunto daqui ou gritar em conjunto. Queremos novas madrugadas, ficar a salvo da civilização antes de esta nos obrigar a ceder à loucura e à morte. Mas agora só existem os corpos, o homem e a mulher doentes a quem restam o alívio no seio do turbilhão da fornicação. É coisa séria, isto da fornicação – não é uma brincadeira, é uma droga. Ela sai do trabalho e vai direita ao meu apartamento – dei-lhe as chaves com o propósito de a ter lá para sempre, à espera do meu corpo de animal doente. Põe-se à vontade e prepara qualquer coisa para comer. Quando chego a casa, encontro-a geralmente a folhear um livro dos que encontram espalhados pela minha casa, que é o género de livros que mais se encontram também nas caves do Diabo (tanto eu como o Diabo vivemos obcecados com a ideia de liberdade, pessoal ou social; ambos somos anjos caídos, mas não nos calaremos, não, não nos calaremos). Ela abandona o livro e atira-se a mim. Despimo-nos e fazemos amor freneticamente. Estamos nus e mergulhamos juntos. Exploramo-nos, arrancamos gemidos um ao outro, exaltações. Libertamo-nos de tudo menos do corpo, e este é bem real e superior a tudo. Passamos os dias assim, sem ambições externas.

22 de março de 2010

Love of a monk aged seventeen before successful manhood

Come closer now
Come near my insanity
Misbehave for me… I approve freedom!

No no no… I must be dreaming
For this body before me
This body before me
This love behind this horror of black veils
This body I do not touch - do not touch, they say…
The corruption of distance almost kills me
Before this body I do not touch
For such touch would make me burn and turn ash
Nonexistence would come and I’m afraid
Afraid of death
And of all its full winds of suffering
And razors and holes where I would fit for all eternity
In eternal nostalgia of eternal love.

I do not wish eternity. I am not perfect. Sanctity is not for me.
I am mortal, and like mortals I wish death, forever chastity
Forever love.

Revolution will not happen.
Not before I die.

Beauty will then become explicit.

21 de março de 2010



Neal Casal

http://www.nealcasalphoto.com/

20 de março de 2010

A Noite

Joana percorre a desolação da noite, caminhando solitária entre os prédios da cidade que jaz em sono absoluto, a cidade que é um universo vasto de sonhos sob as estrelas distantes no firmamento infinito. Joana, singela na sua pequenez inocente – apenas uma jovem mulher um pouco alcoolizada, ladeada a cada passo pelos despojos grotescos da civilização. Ainda há momentos tinha estado numa festa ruidosa com os amigos da faculdade, numa das casas habituais do convívio nocturno, divagando filosofias de algibeira com a mente enevoada – como habitual, a conversa situada nos extremos irreais da existência humana, onde somente as construções imaginárias sobrevivem, a impossibilidade dos ideais quase compensada pelo álcool e pela erva, numa idolatria esplendorosa, descomplicada e eficiente. Tinha-se sentado numa mesinha posta a um canto da sala, com o Xavier e a namorada dele, a Francisca, que exibia o luxo do seu corpo imaginado dentro de um vestidinho de caxemira, corpo abandonado a um langor vagamente erótico e sugestivo, calada e com os olhos fitos num vazio idílico. Joana tinha-se sentado entre eles e pusera-se a falar das coisas que enchem os dias de sofrimento e angústia – foi ela que começou com a conversa, com a notícia da desistência do irmão, que fora militante da religião do inconformismo, da sua displicente obediência ao casamento, à esposa e aos filhos, de como o irmão, que era inteligentíssimo, tinha sido engolido por aquela vida e se esquecera de tudo o que aprendera, de como tinha vendido a sua ousadia a troco de uma soturna e muda felicidade. E a desistência do irmão fora comentada pela Francisca, que, apesar da intoxicação, não estava verdadeiramente apartada do seu namorado e de Joana, e disse que o que acontecera ao irmão é o que lhe ia acontecer a ela, e o que ia acontecer a toda a gente, a entrega, inevitavelmente, e tinha dito aquilo com uma tristeza incomensurável, de tal ordem que parecia que estava a afirmar a sua própria desistência imediata, ali mesmo, no meio daquele alvoroço de farra da intelectualidade, como se a inteligência mais arreigada fosse por fim soçobrar a um determinismo do tipo biológico inviolável. Depois do comentário pouco auspicioso da Francisca, calaram-se os três, conscientes talvez de que aquela verdade era a última das verdades, a morte do ser perante a ciência atroz da vida quotidiana. E então, Joana pegou na garrafa de tinto alentejano que estava especada à sua frente, levantou-a bem alto e gritou:
– Um brinde à juventude!
E logo da outra ponta da sala, outra rapariga que estava sozinha numa poltrona repetiu histericamente, bradando do fundo do seu torpor alquímico:
– Um brinde! Um brinde à juventude! – as pernas esticadas sobre o chão empoeirado, bandolete vermelha na cabeça coroando um rosto macilento e triste subitamente transmutado em alegria animal, incompatível com a verdade íntima desta personagem esguia.
A rapariga lançou o grito e a sua voz partiu-se, fragmentou-se no ar esganiçadamente, e os convivas logo ergueram as garrafas e os copos, vidros baços e verdes através da luz da lâmpada que bailava incendiária no tecto que ressumava a humidade antiga. Um ar aprisionado em superfícies transparentes e atravessado pelos suores dos noctívagos, que desgraçadamente se encharcavam com um gáudio que não havia de acabar nunca. Entre o estrídulo da pequena multidão académica, Joana engoliu o seu vinho com a sede que já conhecia, desde há muito, e que para ela não era uma alegria, uma coisa fenomenal e esporádica, mas tão-somente um hábito que cumpria com um rigor terapêutico.
– Eu não acho que esse seja um destino obrigatório para toda a gente – disse Xavier, como sempre positivista, depois do momentâneo chinfrim. – Não tem de ser. É a mais comum das consequências, mas não é a única via possível. Não acredito nesse tipo de fatalidade social.
– Hás-de acreditar, quando lá chegares – contrariou Francisca, a verdade nos seus olhos tristes e sem esperança, tão insuportavelmente negros, enquanto Joana lançava pequenas argolas de fumo para cima com um ar absorto, mas não absolutamente absorto, somente semi-absorto, mas sem deixar de se projectar um pouco nos círculos cinzentos que voavam e se dissolviam no espaço. O desejo de qualquer rapariga fumadora, ou rapaz, é desaparecer como o fumo desaparece, misturando-se com os elementos imóveis? Fazer parte da imobilidade? Aniquilação?
– Xavier, se tu tivesses conhecido o meu irmão, não serias tão optimista. Ele era assim, como tu és agora, mas mil vezes mais dotado. Andava sempre com projectos espectaculares. Alguns resultavam, outros não, mas ele não desistia, estava-se sempre a mexer. De repente, num dia como estes, reparei que ele já não se estava a mexer mais, que estava parado, ou melhor, a mexer-se como os meus pais se mexem, com um desejo secreto de inércia, a vida por obrigação. Eu orgulhava-me de o ter por irmão, e agora a sua vidinha dá-me pena.
Assim, de repente. Uma mulher acorda e vê que as coisas mudaram e que ela é a única pessoa a ver que mudaram, para pior, porque a infância, acreditar em coisas, impermanência, deixou de existir. E então, uma tristeza incomensurável apodera-se dela e os dias tornam-se trágicos, marcados por uma sensação horrível de impotência.
– Ao fim e ao cabo, andamos todos a chafurdar na merda uns dos outros, a esbracejar cegamente, como se houvesse um caminho para fora – concluiu Francisca, deitada com a cabeça apoiada na coxa esquerda de almofada do companheiro.
– Não acredito que penses mesmo assim. Deves acreditar numa coisa que não podes definir, da qual se calhar nem consciência tens.
– Referes-te a quê, a Deus? Eu não sou crente.
– Não sei se me estou a referir a Deus. Qualquer coisa… Qualquer coisa que, quando a defines e a tentas encaixar num conceito, simplesmente desaparece, foge à tua lucidez.
– Sim… Não podemos aceder à verdade. Estamos condenados à ignorância – diz Joana –, e por mais estudos que tenhamos, ou inteligência, não conseguimos perceber onde estamos, porque estamos aqui, porque vivemos, etc. Todos os clichés existencialistas.
E o silêncio entra em cena, recuperando uma soberania implacável, e os três amigos, de olhos fitos numa ausência em que não existem uns para os outros, mas só para si mesmos, como se fizessem parte de um cosmos infinito de ilhas meditativas, vão bebendo da garrafa de vinho, coisa que de certa maneira faz uma ponte, pouca gente o admite, entre o tempo presente e o tempo que não existe nas coisas concretas, mas que existe nas mentes que vogam, vogam sem fim à procura duma verdade, o tempo que existe absolutamente e que é a única verdade concreta, o tempo absoluto que é um vaivém de causas e feitos que se alternam em delirância louca, galopante e inegável. Para Joana, a alcoolemia corresponde à assimilação dessa verdade, e é por isso que ela recorre com tanta frequência ao estupefaciente, para aceder à santidade – é isso, o alcoolismo é consequência de um desejo crónico de santidade.
A noite continua, uma terna devassidão vai-se desprendendo dos corpos, mas Joana quer sair dali e despede-se. Atrás de si, assim que sai do prédio e se deixa engolir pela escuridão, ouve ainda as vozes, a algazarra em que teria ficado até ao fim se fosse apenas dois anos mais nova, mas que agora, depois de tudo o que se passou, vitimada por uma lucidez desconcertante, abandona para ir a pé para casa. A cidade despovoada, as ruas negras, mantas porcas sobre os corpos dos sem-abrigo, eternos cidadãos da noite sem luz, caem também sobre ela. E ela, com o peso que é imenso, decide cair violentamente no chão e dormir para não mais acordar.

18 de março de 2010

Generalmente, esa sensación de estar solo en el mundo aparece mezclada a un orgulloso sentimiento de superioridad: desprecio a los hombres, los veo sucios, feos, incapaces, ávidos, groseros, mezquinos: mi soledad no me asusta, es casi olímpica.
Pero en aquel momento, como en otros semejantes, me encontraba solo como consecuencia de mis peores atributos, de mis bajas acciones. En esos casos siento que el mundo es despreciable, pero comprendo que yo también formo parte de él; en esos instantes me invade la furia de aniquilación, me dejo acariciar por la tentación del suicidio, me emborracho, busco a las prostitutas. Y siento cierta satisfacción en probar mi propia bajeza y en verificar que no soy mejor que los sucios monstruos que me rodean.

em El Túnel, Ernesto Sabato, Planeta, 2006
Catadupas de cimento entram fulminantes pelo comboio adentro
Sentam-se pesadamente nos bancos que existem, outros ficam de pé contemplando.
Porque é isso o que somos, não é? Blocos de construção. Peças edificantes?
Para quê?
Entretanto, a outra trabalha para a aniquilação. Chegará.

10 de março de 2010

O artista é uma puta louca que oferece ao mundo o banquete da sua carne.

3 de março de 2010

Carson McCullers

she died of alcoholism
wrapped in a blanket
on a deck chair
on an ocean
steamer.

all her books of
terrified loneliness

all her books about
the cruelty
of loveless love

were all that was left
of her

as the strolling vacationer
discovered her body

notified the captain

and she was quickly dispatched
to somewhere else
on the ship

as everything
continued just
as
she had written it.

em The Pleasures of the Damned: Poems, 1951-1993, Charles Bukowski, Ecco, 2008

Phillipe's 1950

Phillipe's is an old time
cafe off Alameda street
just a little north and east of
the main post office.
Phillipe's opens at 5 a.m.
and serves a cup of coffee
with cream and sugar
for a nickel.

in the early mornings
the bums come down off Bunker Hill,
as they say,
"with our butts wrapped
around our ears."
Los Angeles nights have a way
of getting very
cold.
"Phillipe's," they say,
"is the only place that doesn't
hassle us."

the waitresses are old
and most of the bums are
too.

come down there some
early morning.

for a nickel
you can see the most beautiful faces
in town.

em The Pleasures of the Damned: Poems, 1951-1993, Charles Bukowski, Ecco, 2008

Eulogy To A Hell Of A Dame

some dogs who sleep At night
must dream of bones
and I remember your bones
in flesh
and best
in that dark green dress
and those high-heeled bright
black shoes,
you always cursed when you
drank,
your hair coming down you
wanted to explode out of
what was holding you:
rotten memories of a
rotten
past, and
you finally got
out
by dying,
leaving me with the
rotten
present;
you've been dead
28 years
yet I remember you
better than any of
the rest;
you were the only one
who understood
the futility of the
arrangement of
life;
all the others were only
displeased with
trivial segments,
carped
nonsensically about
nonsense;
Jane, you were
killed by
knowing too much.
here's a drink
to your bones
that
this dog
still
dreams about.

em The Pleasures of the Damned: Poems, 1951-1993, Charles Bukowski, Ecco, 2008

1 de março de 2010

Cure for Pain