Esta tarde vivo dentro de um órgão sexual, o dela, que se aproximou de mim e me apanhou. A vulva dela, a minha, é uma boca faminta e um narcótico invencível, uma prisão de deslumbramento. Não quero fugir desta morte deliciosa. Eu entrei nela e ela deteve-me lá dentro, onde cuida de mim – apoderou-se para sempre do meu corpo, que já foi simplesmente feliz na solidão. Pois agora tudo se revela irreal, as coisas podem voar e mudar de cor, podem transmutar-se em êxtases vermelhos e de outras cores. Gritamos os dois, os corpos movidos por um vício de embriaguez. Esta tarde é uma pequena eternidade. Estamos nus. Ela é impossivelmente bela. Estende-se na cama e contorce-se de prazer enquanto eu lhe mexo com a língua. Geme. Eu não paro, sinto que a minha missão é dar-lhe um prazer muito grande e insuportável. Depois ela ergue-se, olha-me em pânico e beija-me. Agarra-me o pénis. Masturba-me. Eu deito-me de olhos fechados e deixo-a aproveitar-se de mim. Ela beija-me a boca, o pescoço, desce aos mamilos e lambe-os, beija-me o peito. Lambe-me o pénis. Balbucio umas palavras. Agradeço-a. Ela salta para cima de mim e enfia-o nela. Fornicamos loucamente. Explodimos. Não sabemos o que se passa, lançamo-nos ao desvario.
A verdade é que sinto uma obsessão indesejada a invadir-me o corpo, o espírito, a vida – um jugo quase absoluto. Encontrei-a à minha espera numa das madrugadas insólitas do mundo, sozinha numa rua mergulhada em trevas assassinas imperturbáveis. Sem falar, pediu a minha ajuda e eu ajudei-a, julgando que não estaria prestes a sacrificar a minha independência. Agora, conhecemos a volúpia e entregamo-nos a ela sem grandes pensamentos. Não temos mais nada e o universo pode consumir-se de um dia para o outro, devido à implosão do seu egocentrismo, de um exacerbo que não toleramos. Queremos esquecer o apocalipse, a derradeira explosão que pressentimos encontrar-se já ao virar da esquina. Ela tem mamas e vagina reais mas, mais do que isso, é diferente da população estatística porque tem um espírito e eu tenho medo dele – é talvez a mulher que não morreu, que sofre justamente porque não morreu. Nesse aspecto somos iguais, dois espécimes raros. Sofremos porque estamos demasiado vivos, a despeito de tudo à nossa volta ser um amontoado de cadáveres nauseabundos com um sorriso sórdido estampado na cara – nesta ditadura da felicidade, a atitude mais natural é esboçar um sorriso e posar, e é inconcebível perder tempo a pensar em causas secretas. Não aceitamos a morte, pois temos uma doença singular que é a fome de vida. Somos, numa palavra, humanos. Somos párias da sociedade.
Somos companheiros sexuais e podemos ser mais do que isso, apesar de ambos querermos a independência mais do que o amor. Talvez a possamos procurar em conjunto, fugir em conjunto daqui ou gritar em conjunto. Queremos novas madrugadas, ficar a salvo da civilização antes de esta nos obrigar a ceder à loucura e à morte. Mas agora só existem os corpos, o homem e a mulher doentes a quem restam o alívio no seio do turbilhão da fornicação. É coisa séria, isto da fornicação – não é uma brincadeira, é uma droga. Ela sai do trabalho e vai direita ao meu apartamento – dei-lhe as chaves com o propósito de a ter lá para sempre, à espera do meu corpo de animal doente. Põe-se à vontade e prepara qualquer coisa para comer. Quando chego a casa, encontro-a geralmente a folhear um livro dos que encontram espalhados pela minha casa, que é o género de livros que mais se encontram também nas caves do Diabo (tanto eu como o Diabo vivemos obcecados com a ideia de liberdade, pessoal ou social; ambos somos anjos caídos, mas não nos calaremos, não, não nos calaremos). Ela abandona o livro e atira-se a mim. Despimo-nos e fazemos amor freneticamente. Estamos nus e mergulhamos juntos. Exploramo-nos, arrancamos gemidos um ao outro, exaltações. Libertamo-nos de tudo menos do corpo, e este é bem real e superior a tudo. Passamos os dias assim, sem ambições externas.
A verdade é que sinto uma obsessão indesejada a invadir-me o corpo, o espírito, a vida – um jugo quase absoluto. Encontrei-a à minha espera numa das madrugadas insólitas do mundo, sozinha numa rua mergulhada em trevas assassinas imperturbáveis. Sem falar, pediu a minha ajuda e eu ajudei-a, julgando que não estaria prestes a sacrificar a minha independência. Agora, conhecemos a volúpia e entregamo-nos a ela sem grandes pensamentos. Não temos mais nada e o universo pode consumir-se de um dia para o outro, devido à implosão do seu egocentrismo, de um exacerbo que não toleramos. Queremos esquecer o apocalipse, a derradeira explosão que pressentimos encontrar-se já ao virar da esquina. Ela tem mamas e vagina reais mas, mais do que isso, é diferente da população estatística porque tem um espírito e eu tenho medo dele – é talvez a mulher que não morreu, que sofre justamente porque não morreu. Nesse aspecto somos iguais, dois espécimes raros. Sofremos porque estamos demasiado vivos, a despeito de tudo à nossa volta ser um amontoado de cadáveres nauseabundos com um sorriso sórdido estampado na cara – nesta ditadura da felicidade, a atitude mais natural é esboçar um sorriso e posar, e é inconcebível perder tempo a pensar em causas secretas. Não aceitamos a morte, pois temos uma doença singular que é a fome de vida. Somos, numa palavra, humanos. Somos párias da sociedade.
Somos companheiros sexuais e podemos ser mais do que isso, apesar de ambos querermos a independência mais do que o amor. Talvez a possamos procurar em conjunto, fugir em conjunto daqui ou gritar em conjunto. Queremos novas madrugadas, ficar a salvo da civilização antes de esta nos obrigar a ceder à loucura e à morte. Mas agora só existem os corpos, o homem e a mulher doentes a quem restam o alívio no seio do turbilhão da fornicação. É coisa séria, isto da fornicação – não é uma brincadeira, é uma droga. Ela sai do trabalho e vai direita ao meu apartamento – dei-lhe as chaves com o propósito de a ter lá para sempre, à espera do meu corpo de animal doente. Põe-se à vontade e prepara qualquer coisa para comer. Quando chego a casa, encontro-a geralmente a folhear um livro dos que encontram espalhados pela minha casa, que é o género de livros que mais se encontram também nas caves do Diabo (tanto eu como o Diabo vivemos obcecados com a ideia de liberdade, pessoal ou social; ambos somos anjos caídos, mas não nos calaremos, não, não nos calaremos). Ela abandona o livro e atira-se a mim. Despimo-nos e fazemos amor freneticamente. Estamos nus e mergulhamos juntos. Exploramo-nos, arrancamos gemidos um ao outro, exaltações. Libertamo-nos de tudo menos do corpo, e este é bem real e superior a tudo. Passamos os dias assim, sem ambições externas.