Joana percorre a desolação da noite, caminhando solitária entre os prédios da cidade que jaz em sono absoluto, a cidade que é um universo vasto de sonhos sob as estrelas distantes no firmamento infinito. Joana, singela na sua pequenez inocente – apenas uma jovem mulher um pouco alcoolizada, ladeada a cada passo pelos despojos grotescos da civilização. Ainda há momentos tinha estado numa festa ruidosa com os amigos da faculdade, numa das casas habituais do convívio nocturno, divagando filosofias de algibeira com a mente enevoada – como habitual, a conversa situada nos extremos irreais da existência humana, onde somente as construções imaginárias sobrevivem, a impossibilidade dos ideais quase compensada pelo álcool e pela erva, numa idolatria esplendorosa, descomplicada e eficiente. Tinha-se sentado numa mesinha posta a um canto da sala, com o Xavier e a namorada dele, a Francisca, que exibia o luxo do seu corpo imaginado dentro de um vestidinho de caxemira, corpo abandonado a um langor vagamente erótico e sugestivo, calada e com os olhos fitos num vazio idílico. Joana tinha-se sentado entre eles e pusera-se a falar das coisas que enchem os dias de sofrimento e angústia – foi ela que começou com a conversa, com a notícia da desistência do irmão, que fora militante da religião do inconformismo, da sua displicente obediência ao casamento, à esposa e aos filhos, de como o irmão, que era inteligentíssimo, tinha sido engolido por aquela vida e se esquecera de tudo o que aprendera, de como tinha vendido a sua ousadia a troco de uma soturna e muda felicidade. E a desistência do irmão fora comentada pela Francisca, que, apesar da intoxicação, não estava verdadeiramente apartada do seu namorado e de Joana, e disse que o que acontecera ao irmão é o que lhe ia acontecer a ela, e o que ia acontecer a toda a gente, a entrega, inevitavelmente, e tinha dito aquilo com uma tristeza incomensurável, de tal ordem que parecia que estava a afirmar a sua própria desistência imediata, ali mesmo, no meio daquele alvoroço de farra da intelectualidade, como se a inteligência mais arreigada fosse por fim soçobrar a um determinismo do tipo biológico inviolável. Depois do comentário pouco auspicioso da Francisca, calaram-se os três, conscientes talvez de que aquela verdade era a última das verdades, a morte do ser perante a ciência atroz da vida quotidiana. E então, Joana pegou na garrafa de tinto alentejano que estava especada à sua frente, levantou-a bem alto e gritou:
– Um brinde à juventude!
E logo da outra ponta da sala, outra rapariga que estava sozinha numa poltrona repetiu histericamente, bradando do fundo do seu torpor alquímico:
– Um brinde! Um brinde à juventude! – as pernas esticadas sobre o chão empoeirado, bandolete vermelha na cabeça coroando um rosto macilento e triste subitamente transmutado em alegria animal, incompatível com a verdade íntima desta personagem esguia.
A rapariga lançou o grito e a sua voz partiu-se, fragmentou-se no ar esganiçadamente, e os convivas logo ergueram as garrafas e os copos, vidros baços e verdes através da luz da lâmpada que bailava incendiária no tecto que ressumava a humidade antiga. Um ar aprisionado em superfícies transparentes e atravessado pelos suores dos noctívagos, que desgraçadamente se encharcavam com um gáudio que não havia de acabar nunca. Entre o estrídulo da pequena multidão académica, Joana engoliu o seu vinho com a sede que já conhecia, desde há muito, e que para ela não era uma alegria, uma coisa fenomenal e esporádica, mas tão-somente um hábito que cumpria com um rigor terapêutico.
– Eu não acho que esse seja um destino obrigatório para toda a gente – disse Xavier, como sempre positivista, depois do momentâneo chinfrim. – Não tem de ser. É a mais comum das consequências, mas não é a única via possível. Não acredito nesse tipo de fatalidade social.
– Hás-de acreditar, quando lá chegares – contrariou Francisca, a verdade nos seus olhos tristes e sem esperança, tão insuportavelmente negros, enquanto Joana lançava pequenas argolas de fumo para cima com um ar absorto, mas não absolutamente absorto, somente semi-absorto, mas sem deixar de se projectar um pouco nos círculos cinzentos que voavam e se dissolviam no espaço. O desejo de qualquer rapariga fumadora, ou rapaz, é desaparecer como o fumo desaparece, misturando-se com os elementos imóveis? Fazer parte da imobilidade? Aniquilação?
– Xavier, se tu tivesses conhecido o meu irmão, não serias tão optimista. Ele era assim, como tu és agora, mas mil vezes mais dotado. Andava sempre com projectos espectaculares. Alguns resultavam, outros não, mas ele não desistia, estava-se sempre a mexer. De repente, num dia como estes, reparei que ele já não se estava a mexer mais, que estava parado, ou melhor, a mexer-se como os meus pais se mexem, com um desejo secreto de inércia, a vida por obrigação. Eu orgulhava-me de o ter por irmão, e agora a sua vidinha dá-me pena.
Assim, de repente. Uma mulher acorda e vê que as coisas mudaram e que ela é a única pessoa a ver que mudaram, para pior, porque a infância, acreditar em coisas, impermanência, deixou de existir. E então, uma tristeza incomensurável apodera-se dela e os dias tornam-se trágicos, marcados por uma sensação horrível de impotência.
– Ao fim e ao cabo, andamos todos a chafurdar na merda uns dos outros, a esbracejar cegamente, como se houvesse um caminho para fora – concluiu Francisca, deitada com a cabeça apoiada na coxa esquerda de almofada do companheiro.
– Não acredito que penses mesmo assim. Deves acreditar numa coisa que não podes definir, da qual se calhar nem consciência tens.
– Referes-te a quê, a Deus? Eu não sou crente.
– Não sei se me estou a referir a Deus. Qualquer coisa… Qualquer coisa que, quando a defines e a tentas encaixar num conceito, simplesmente desaparece, foge à tua lucidez.
– Sim… Não podemos aceder à verdade. Estamos condenados à ignorância – diz Joana –, e por mais estudos que tenhamos, ou inteligência, não conseguimos perceber onde estamos, porque estamos aqui, porque vivemos, etc. Todos os clichés existencialistas.
E o silêncio entra em cena, recuperando uma soberania implacável, e os três amigos, de olhos fitos numa ausência em que não existem uns para os outros, mas só para si mesmos, como se fizessem parte de um cosmos infinito de ilhas meditativas, vão bebendo da garrafa de vinho, coisa que de certa maneira faz uma ponte, pouca gente o admite, entre o tempo presente e o tempo que não existe nas coisas concretas, mas que existe nas mentes que vogam, vogam sem fim à procura duma verdade, o tempo que existe absolutamente e que é a única verdade concreta, o tempo absoluto que é um vaivém de causas e feitos que se alternam em delirância louca, galopante e inegável. Para Joana, a alcoolemia corresponde à assimilação dessa verdade, e é por isso que ela recorre com tanta frequência ao estupefaciente, para aceder à santidade – é isso, o alcoolismo é consequência de um desejo crónico de santidade.
A noite continua, uma terna devassidão vai-se desprendendo dos corpos, mas Joana quer sair dali e despede-se. Atrás de si, assim que sai do prédio e se deixa engolir pela escuridão, ouve ainda as vozes, a algazarra em que teria ficado até ao fim se fosse apenas dois anos mais nova, mas que agora, depois de tudo o que se passou, vitimada por uma lucidez desconcertante, abandona para ir a pé para casa. A cidade despovoada, as ruas negras, mantas porcas sobre os corpos dos sem-abrigo, eternos cidadãos da noite sem luz, caem também sobre ela. E ela, com o peso que é imenso, decide cair violentamente no chão e dormir para não mais acordar.
– Um brinde à juventude!
E logo da outra ponta da sala, outra rapariga que estava sozinha numa poltrona repetiu histericamente, bradando do fundo do seu torpor alquímico:
– Um brinde! Um brinde à juventude! – as pernas esticadas sobre o chão empoeirado, bandolete vermelha na cabeça coroando um rosto macilento e triste subitamente transmutado em alegria animal, incompatível com a verdade íntima desta personagem esguia.
A rapariga lançou o grito e a sua voz partiu-se, fragmentou-se no ar esganiçadamente, e os convivas logo ergueram as garrafas e os copos, vidros baços e verdes através da luz da lâmpada que bailava incendiária no tecto que ressumava a humidade antiga. Um ar aprisionado em superfícies transparentes e atravessado pelos suores dos noctívagos, que desgraçadamente se encharcavam com um gáudio que não havia de acabar nunca. Entre o estrídulo da pequena multidão académica, Joana engoliu o seu vinho com a sede que já conhecia, desde há muito, e que para ela não era uma alegria, uma coisa fenomenal e esporádica, mas tão-somente um hábito que cumpria com um rigor terapêutico.
– Eu não acho que esse seja um destino obrigatório para toda a gente – disse Xavier, como sempre positivista, depois do momentâneo chinfrim. – Não tem de ser. É a mais comum das consequências, mas não é a única via possível. Não acredito nesse tipo de fatalidade social.
– Hás-de acreditar, quando lá chegares – contrariou Francisca, a verdade nos seus olhos tristes e sem esperança, tão insuportavelmente negros, enquanto Joana lançava pequenas argolas de fumo para cima com um ar absorto, mas não absolutamente absorto, somente semi-absorto, mas sem deixar de se projectar um pouco nos círculos cinzentos que voavam e se dissolviam no espaço. O desejo de qualquer rapariga fumadora, ou rapaz, é desaparecer como o fumo desaparece, misturando-se com os elementos imóveis? Fazer parte da imobilidade? Aniquilação?
– Xavier, se tu tivesses conhecido o meu irmão, não serias tão optimista. Ele era assim, como tu és agora, mas mil vezes mais dotado. Andava sempre com projectos espectaculares. Alguns resultavam, outros não, mas ele não desistia, estava-se sempre a mexer. De repente, num dia como estes, reparei que ele já não se estava a mexer mais, que estava parado, ou melhor, a mexer-se como os meus pais se mexem, com um desejo secreto de inércia, a vida por obrigação. Eu orgulhava-me de o ter por irmão, e agora a sua vidinha dá-me pena.
Assim, de repente. Uma mulher acorda e vê que as coisas mudaram e que ela é a única pessoa a ver que mudaram, para pior, porque a infância, acreditar em coisas, impermanência, deixou de existir. E então, uma tristeza incomensurável apodera-se dela e os dias tornam-se trágicos, marcados por uma sensação horrível de impotência.
– Ao fim e ao cabo, andamos todos a chafurdar na merda uns dos outros, a esbracejar cegamente, como se houvesse um caminho para fora – concluiu Francisca, deitada com a cabeça apoiada na coxa esquerda de almofada do companheiro.
– Não acredito que penses mesmo assim. Deves acreditar numa coisa que não podes definir, da qual se calhar nem consciência tens.
– Referes-te a quê, a Deus? Eu não sou crente.
– Não sei se me estou a referir a Deus. Qualquer coisa… Qualquer coisa que, quando a defines e a tentas encaixar num conceito, simplesmente desaparece, foge à tua lucidez.
– Sim… Não podemos aceder à verdade. Estamos condenados à ignorância – diz Joana –, e por mais estudos que tenhamos, ou inteligência, não conseguimos perceber onde estamos, porque estamos aqui, porque vivemos, etc. Todos os clichés existencialistas.
E o silêncio entra em cena, recuperando uma soberania implacável, e os três amigos, de olhos fitos numa ausência em que não existem uns para os outros, mas só para si mesmos, como se fizessem parte de um cosmos infinito de ilhas meditativas, vão bebendo da garrafa de vinho, coisa que de certa maneira faz uma ponte, pouca gente o admite, entre o tempo presente e o tempo que não existe nas coisas concretas, mas que existe nas mentes que vogam, vogam sem fim à procura duma verdade, o tempo que existe absolutamente e que é a única verdade concreta, o tempo absoluto que é um vaivém de causas e feitos que se alternam em delirância louca, galopante e inegável. Para Joana, a alcoolemia corresponde à assimilação dessa verdade, e é por isso que ela recorre com tanta frequência ao estupefaciente, para aceder à santidade – é isso, o alcoolismo é consequência de um desejo crónico de santidade.
A noite continua, uma terna devassidão vai-se desprendendo dos corpos, mas Joana quer sair dali e despede-se. Atrás de si, assim que sai do prédio e se deixa engolir pela escuridão, ouve ainda as vozes, a algazarra em que teria ficado até ao fim se fosse apenas dois anos mais nova, mas que agora, depois de tudo o que se passou, vitimada por uma lucidez desconcertante, abandona para ir a pé para casa. A cidade despovoada, as ruas negras, mantas porcas sobre os corpos dos sem-abrigo, eternos cidadãos da noite sem luz, caem também sobre ela. E ela, com o peso que é imenso, decide cair violentamente no chão e dormir para não mais acordar.