12 de abril de 2009

O Fim da Liberdade na Era da Imagem

Tendo acabado de ler “A Invenção de Morel”, do argentino Adolfo Bioy Cesares, coloca-se-me a seguinte questão: Pode a Tecnologia criar imagens tão fortes e tão verosimilhantes que eliminem a necessidade do indivíduo apropriar-se de objectos reais? Neste romance, a personagem central é um escritor venezuelano que foge da Justiça. Encontra refúgio numa misteriosa ilha situada na Polinésia. Diz-se desta ilha que é assolada por uma doença cujos sintomas são análogos aos do envenenamento por radiação, razão pela qual a ilha é inabitada. Contudo, o fugitivo encontra nela um grupo de turistas franceses que residem num velho museu abandonado. Apaixona-se por Faustine, uma mulher que contempla todos os dias o pôr-do-sol do cimo de um penhasco, e tenta abordá-la, mas ela despreza-o. As suas tentativas de comunicar com os outros são igualmente vãs. Acontecem coisas estranhas na ilha, como a aparição de um segundo sol e uma segunda lua, ou os turistas aparecerem e desaparecerem subitamente e terem conversas que se repetem, e ele chega então a pensar que está louco ou que come tubérculos alucinogénicos para se alimentar. Depois ouve a confissão de Morel aos outros turistas e percebe tudo. Morel inventou uma máquina capaz de reproduzir a realidade. O que o fugitivo vê constantemente são então reproduções dos eventos que aconteceram na semana em que os turistas residiram realmente na ilha. Assim sendo, dos dois sóis há apenas um que é real, sendo o outro a imagem do sol real um pouco mais jovem. No princípio sente repugna, mas depois apercebe-se do poder do invento. Descobre na cave do museu a máquina que reproduz as imagens e tenta então capturar a imagem dele e justapõe-na com a de Faustine, para assim poder estar com ela eternamente. O fugitivo apaixonou-se pela imagem holográfica de uma mulher.
O que acontecerá quando os avanços da Tecnologia possibilitarem a substituição da realidade pela fantasia (isso seria ir ainda mais além da invenção de Morel, uma vez que esta apenas grava a realidade e reprodu-la)? Quando tal for possível, o indivíduo viverá em dois universos – o universo da realidade, ao qual recorre para conseguir a sobrevivência do organismo, através do trabalho e dos bens que recebe como recompensa (comida), e o universo da ficção. E este será tão importante e tão presente na vida do indivíduo que os senhores do patamar superior da pirâmide social encarregar-se-ão de engendrar imagens poderosas para o hipnotizar. A força da imagem… Isto já acontece um bocado. Quanto da nossa psique e das nossas emoções são criadas pelo que vemos diariamente na televisão? É um bocado assustador, se considerarmos que a qualidade da imagem vai aumentar.

7 de abril de 2009

"O Horror da Ficção" - sobre a falta de raiva dos utentes da CP

A cada construção que fazem, a cada prédio que erigem do cemitério da cidade superpopulada, há cimento que se deposita impunemente no coração colectivo e adormecido destas pessoas, já de si empedernido e enclausurado nas operações de estética facial, votado ao ideal da beleza postiça, obcecado pelos enredos da televisão, conquistado pelo fulgor ficcionado dos falsos heróis do entretenimento. O herói verdadeiro, mortificado por esta vergonha tão suburbana, este épico macabro de oclusão, destituído de poder, alheado do que é a sua identidade verdadeira, foi emparedado na trama do teatro moderno.

6 de abril de 2009

Condensação de Nietzsche

Todos os ídolos são de barro. O martelo do cepticismo extremo parte-os sem piedade e exibe os fragmentos na praça central da cidade, para que todos percebam a fragilidade de Deus.

4 de abril de 2009

Excerto de "Estilo", de Herberto Hélder

Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio... Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro... Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida... compreende?... a nossa vida, a vida inteira, está ali como... como um acontecimento excessivo... Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é um mode subtil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação. Faço-me entender? Não? Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida. E então pegamos nela, reduzimo-la a dois ou três tópicos que se equacionam. Depois, por meio de uma operação intelectual, dizemos que esses tópicos se encontram no tópico comum, suponhamos, do Amor ou da Morte. Percebe? Uma dessas abstracções que servem para tudo. O cigarro consome-se, não é?, a cama volta. Mas pode imaginar o que seja isto todas as noites, durante semanas ou meses ou anos?

Herberto Hélder, Os Passos em Volta, Assírio & Alvim, 9ª Edição, 2006

2 de abril de 2009

Fall of a Giant

Running limitless and free
Forbidden lands to be raped explored humiliated
Nobility to bleed
In the mind astonished by power
Desperate feverished
To uncover the truth concealed
To release the birds and watch them fly
Madly
To kiss the sky
To reveal a bomb exploding

Yet
The giant proceeds to annihilation
As of law
Its greatness demands a sorrow he cannot bear
He ceases the labor of passion
The labor of joy
And departs to private shadows of delusion corruption depression
Imprisoned and tortured prison of mirrors
Haunted only by old images of himself
Stupid indulgent child
Now powerless

The world took your will
Removed your wings you demoniac angel
The mermaid will not sing for you anymore
You’re done
Big time

1 de abril de 2009

O que estou a ler: Asfixia, de Chuck Palahniuk

Galinhas pretas e brancas cambaleiam pela Dunsboro Colonial, galinhas com as cabeças achatadas. Aqui estão galinhas sem asas ou só com uma perna. Há galinhas sem pernas, a nadar só com as asas esfarrapadas através da lama da capoeira. Galinhas cegas sem olhos. Sem bicos. Nascidas assim. Defeituosas. Que nasceram com os pequeninos miolos de galinha já desordenados.Há uma linha invisível que separa a ciência do sadismo, mas aqui está bem à vista.
[...]
Para os miúdos do colégio que aqui vêm é uma coisa muito importante visitar o galinheiro e observar os ovos a chocar. Mesmo assim, um pintainho normal não é tão interessante como, supúnhamos, uma galinha só com um olho ou uma galinha sem pescoço ou com uma perna atrofiada paralisada, e por isso os putos abanam os ovos. Abanam-nos com força e põem-nos outra vez a chocar.E que importância é que tem se o que nascer for deformado ou louco? É tudo em nome da educação.Os mais felizardos já nascem mortos.Curiosidade ou crueldade, de certeza que a Dra. Marshall e eu iríamos andar às voltas com esta questão.
A velha inclina a cabeça para trás para mostrar os dentes encaixados na curva castanha. A língua com uma capa branca. Os olhos fechados. É este o aspecto de todas as velhas na comunhão, na missa católica quando és um acólito e tens de andar atrás do padre enquanto ele vai pondo a hóstia numa língua atrás da outra. A igreja diz que podes receber a hóstia na mão e depois metê-la na boca, mas estas velhas senhoras não. Na igreja, continuas, quando olhas para baixo, para a mesa da comunhão, a ver duzentas bocas abertas, duzentas velhas a esticarem a língua para a salvação.A Paige Marshall inclina-se e enfia com toda a força o fio branco no meio nos dentes da velha. Puxa e, quando o fio sai da boca, saltam uns bocadinhos de qualquer coisa cinzenta. Passa o fio pelo meio de dois outros dentes e o fio sai vermelho.
[...]
A única parte boa da profissão de acólito é que tens de segurar a patena por baixo do queixo de cada uma das pessoas que recebe a comunhão. Esta é uma bandeja de ouro, em cima de um pau, que se usa para apanha a hóstia se ela cair. Mesmo que uma hóstia caia no chão, continuas a ter de a comer. Nesta altura já está consagrada. Tornou-se o corpo de Cristo. A carne encarnada.
[...]
A boa parte da profissão de acólito é quando atinges alguém na garganta com a bandeja. As pessoas de joelhos, com as mãos postas em oração, a carinha agoniada que fazem no preciso instante em que estão a ser tão divinas. Eu adorava aquilo.

Chuck Palahniuk, Asfixia, trad. Maria Dulce Guimarães da Costa, Editorial Notícias, 2003