Tendo acabado de ler “A Invenção de Morel”, do argentino Adolfo Bioy Cesares, coloca-se-me a seguinte questão: Pode a Tecnologia criar imagens tão fortes e tão verosimilhantes que eliminem a necessidade do indivíduo apropriar-se de objectos reais? Neste romance, a personagem central é um escritor venezuelano que foge da Justiça. Encontra refúgio numa misteriosa ilha situada na Polinésia. Diz-se desta ilha que é assolada por uma doença cujos sintomas são análogos aos do envenenamento por radiação, razão pela qual a ilha é inabitada. Contudo, o fugitivo encontra nela um grupo de turistas franceses que residem num velho museu abandonado. Apaixona-se por Faustine, uma mulher que contempla todos os dias o pôr-do-sol do cimo de um penhasco, e tenta abordá-la, mas ela despreza-o. As suas tentativas de comunicar com os outros são igualmente vãs. Acontecem coisas estranhas na ilha, como a aparição de um segundo sol e uma segunda lua, ou os turistas aparecerem e desaparecerem subitamente e terem conversas que se repetem, e ele chega então a pensar que está louco ou que come tubérculos alucinogénicos para se alimentar. Depois ouve a confissão de Morel aos outros turistas e percebe tudo. Morel inventou uma máquina capaz de reproduzir a realidade. O que o fugitivo vê constantemente são então reproduções dos eventos que aconteceram na semana em que os turistas residiram realmente na ilha. Assim sendo, dos dois sóis há apenas um que é real, sendo o outro a imagem do sol real um pouco mais jovem. No princípio sente repugna, mas depois apercebe-se do poder do invento. Descobre na cave do museu a máquina que reproduz as imagens e tenta então capturar a imagem dele e justapõe-na com a de Faustine, para assim poder estar com ela eternamente. O fugitivo apaixonou-se pela imagem holográfica de uma mulher.
O que acontecerá quando os avanços da Tecnologia possibilitarem a substituição da realidade pela fantasia (isso seria ir ainda mais além da invenção de Morel, uma vez que esta apenas grava a realidade e reprodu-la)? Quando tal for possível, o indivíduo viverá em dois universos – o universo da realidade, ao qual recorre para conseguir a sobrevivência do organismo, através do trabalho e dos bens que recebe como recompensa (comida), e o universo da ficção. E este será tão importante e tão presente na vida do indivíduo que os senhores do patamar superior da pirâmide social encarregar-se-ão de engendrar imagens poderosas para o hipnotizar. A força da imagem… Isto já acontece um bocado. Quanto da nossa psique e das nossas emoções são criadas pelo que vemos diariamente na televisão? É um bocado assustador, se considerarmos que a qualidade da imagem vai aumentar.
