1 de abril de 2009

O que estou a ler: Asfixia, de Chuck Palahniuk

Galinhas pretas e brancas cambaleiam pela Dunsboro Colonial, galinhas com as cabeças achatadas. Aqui estão galinhas sem asas ou só com uma perna. Há galinhas sem pernas, a nadar só com as asas esfarrapadas através da lama da capoeira. Galinhas cegas sem olhos. Sem bicos. Nascidas assim. Defeituosas. Que nasceram com os pequeninos miolos de galinha já desordenados.Há uma linha invisível que separa a ciência do sadismo, mas aqui está bem à vista.
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Para os miúdos do colégio que aqui vêm é uma coisa muito importante visitar o galinheiro e observar os ovos a chocar. Mesmo assim, um pintainho normal não é tão interessante como, supúnhamos, uma galinha só com um olho ou uma galinha sem pescoço ou com uma perna atrofiada paralisada, e por isso os putos abanam os ovos. Abanam-nos com força e põem-nos outra vez a chocar.E que importância é que tem se o que nascer for deformado ou louco? É tudo em nome da educação.Os mais felizardos já nascem mortos.Curiosidade ou crueldade, de certeza que a Dra. Marshall e eu iríamos andar às voltas com esta questão.
A velha inclina a cabeça para trás para mostrar os dentes encaixados na curva castanha. A língua com uma capa branca. Os olhos fechados. É este o aspecto de todas as velhas na comunhão, na missa católica quando és um acólito e tens de andar atrás do padre enquanto ele vai pondo a hóstia numa língua atrás da outra. A igreja diz que podes receber a hóstia na mão e depois metê-la na boca, mas estas velhas senhoras não. Na igreja, continuas, quando olhas para baixo, para a mesa da comunhão, a ver duzentas bocas abertas, duzentas velhas a esticarem a língua para a salvação.A Paige Marshall inclina-se e enfia com toda a força o fio branco no meio nos dentes da velha. Puxa e, quando o fio sai da boca, saltam uns bocadinhos de qualquer coisa cinzenta. Passa o fio pelo meio de dois outros dentes e o fio sai vermelho.
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A única parte boa da profissão de acólito é que tens de segurar a patena por baixo do queixo de cada uma das pessoas que recebe a comunhão. Esta é uma bandeja de ouro, em cima de um pau, que se usa para apanha a hóstia se ela cair. Mesmo que uma hóstia caia no chão, continuas a ter de a comer. Nesta altura já está consagrada. Tornou-se o corpo de Cristo. A carne encarnada.
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A boa parte da profissão de acólito é quando atinges alguém na garganta com a bandeja. As pessoas de joelhos, com as mãos postas em oração, a carinha agoniada que fazem no preciso instante em que estão a ser tão divinas. Eu adorava aquilo.

Chuck Palahniuk, Asfixia, trad. Maria Dulce Guimarães da Costa, Editorial Notícias, 2003