Lisboa. Essa cidade em que vives e trabalhas, onde gozas e brincas e vais ao cinema, essa cidade que é a capital de um país chamado Portugal, ao qual pertences como um galináceo triste e orgulhoso pertence ao seu aviário, à sua nação, essa cidade que é das capitais mais portuguesas do consórcio das capitais mundiais da preguiça política, de que tu tens estúpido orgulho, é mais do que a cidade, é mais do que a materialização da ignorância semi-consciente com que te proteges das investidas do Tempo e da Morte – face aos quais pátrias, deuses e drogas são meros paliativos, para uso individual ou colectivo. Mais tarde, quando reconheceres a vera realidade da dor, a tua e a dos outros, quando reconheceres que não há remédio eficaz para a mesma e aprenderes a compaixão, saberás como e porquê. Porque agora talvez eu não saiba dizer mais do que isto: Lisboa é mais do que este nome. Lisboa tem na sua constituição indivíduos que ultrapassam em paixão, beatitude e dignidade a História de que são os filhos ilegítimos, filhos que recusam o esmagador H, que ergueriam vozes furiosas não fosse… Calo-me. Não sei explicar. Talvez tenha sugerido qualquer coisa. Ficas a saber que esses elementos anti-geográficos e anti-históricos, ou supra-históricos, existem.
Para além da monotonia da cidade, para além da própria cidade com as pessoas tristes que sorriem e toda a parafernália e rituais urbanos, toda a horrível sazonalidade, todos os ciclos que se repetem imutáveis de ano para ano, há outra cidade, uma cidade incógnita e pouco importante dentro da cidade propriamente dita. Uma cidade feita de lugares e acontecimentos imprevistos, onde tudo o que há de morte é mesmo morte, e tudo o que há de vida é mesmo vida. Os cidadãos que a habitam têm aparência normal, mas não são bibelôs. Não são bibelôs.
Os cidadãos que habitam a cidade secreta dentro da cidade dos ofícios têm rostos normais, mas esses rostos mascaram uma realidade feita de luzes e sombras em alternância louca. Dentro deles há uma realidade, uma verdade perversa, uma lucidez e uma loucura que é ao mesmo tempo uma dor e um júbilo fenomenais.