O que hei-de fazer com esta pedra jamais vista, esta raridade da natureza? Pô-lo no bolso, atirá-la com força ao oceano de forma a rodopiar e saltar sete vezes até mergulhar finalmente no esquecimento, como se fosse uma pedra vulgar, comê-la com pão, sardinhas e vinho tinto, enterrá-la como os cães fazem com os ossos? Tenho guardado sempre as minhas pedras invulgares, mais invulgares que as pedras encontradas pelos meus conterrâneos – guardo-as num jazigo de vidro, bem fechadinhas e mortas, sem poderem sair, mas visíveis. Recorro ao jazigo ocasionalmente, em noites de desespero, para me lembrar da felicidade de ter encontrado as pedras e das doses de sabedoria, doces ou amargas, que elas me proporcionaram. Mas não tenho orgulho da minha colecção particular de pedras – às vezes até acho ridícula essa posse, a compreensão que aos poucos se vai formando do mundo e do universo. Chegarei a ser Deus? Receio bem que sim. Não me agrada. Tenho inveja de quem não sabe nada. Mas que posso eu fazer? Está tudo a tornar-se horrivelmente claro, transparente, como na poesia mais insuportável e trágica da Sylvia Plath. A lucidez é algo de terrível. Não o disse também o Fernando Pessoa em tantas ocasiões da sua obra? O saber e o desespero… Mas não pretendo parecer reaccionário ao fazer este tipo de afirmações, até porque acredito no saber e na consciência. E os que não sofrem são concerteza cadáveres.