31 de dezembro de 2010
7 de novembro de 2010
Dois Pássaros a Voar (8)
Olho para baixo, para as casas pequenas, e penso que grande parte do frenesim e do trabalho de que hoje escapei é escusado. Lá se vai construindo a cidade, que se ergue de ruínas antiquíssimas… Só que estas não deixam de existir, porque a memória é coisa que não se destrói facilmente. Levantem-se prédios altos sobre os túmulos, mas os mortos não deixarão de andar entre nós e de se queixar do que lhes aconteceu, que antes da morte já andavam meio mortos, grande parte deles domesticados, para depois a morte não acrescentar nada à vida. Podemos fazer ouvidos moucos, mas as palavras já estão dentro de nós, culpando-nos de não vivermos plenamente. E convivemos com esses fantasmas, essas palavras, culpas e remorsos.
Acendo um cigarro. Gosto do fio de fumo que se desprende. Lanço pequenas argolas cinzentas para o ar e penso que é belo, é como se me estivesse a lançar para fora de mim às baforadas. Houve um tempo em que eu não sabia nada disto. Era feliz. Teria um futuro. Havia de me apaixonar por uma rapariga que me fizesse bem e construiria com ela uma vida decente, que fosse feita de propósito só para nós. Dois filhos e uma pequena nação privada, uma casa na cidade e outra no campo, no Alentejo, onde nos recolhêssemos para fins-de-semana românticos e patuscadas ao calor. E teria um emprego que fosse mais do que um emprego, que seria um trabalho que merecesse o meu esforço. Talvez pudesse ser advogado, e então só aceitaria casos em que de algum modo pudesse servir a humanidade. Daria o meu contributo e sentir-me-ia bem. Defenderia o inocente com eloquência e estaria sempre do lado da justiça. Agora tenho pena de ter sido tão ingénuo, raiva de ninguém me ter dito nada, de não me terem avisado que as coisas não seriam preto no branco, que não há uma verdade absoluta. Se eu agora fosse advogado, pertenceria a uma classe de intrujões profissionais. Claro que não me valeu de muito ter-me tornado arquitecto… Aliás, não é a profissão que faz um homem feliz. Não é o tipo de especialização técnica que ele escolhe. É o seu grau de subserviência. Quando mais servil, mais feliz. E tanto há arquitectos servis, como advogados servis, e bombeiros, médicos, contabilistas, engenheiros, padeiros, uma multidão de gente bem-disposta, que desempenha com alegria essas funções. Gente feliz, aos pontapés. E aos murros, já agora, que gente feliz é gente insensível, que não os sente.
Descarrego o ar sujo dos pulmões. Ouço uns passos ligeiros atrás de mim. Volto-me. É ela, a Madalena, de sorriso trocista e vencedor.
– Olha! Ainda estás vivo? Pensava que te tinhas suicidado – diz.
Não estava à espera desta. Tento dizer qualquer coisa, mas fico engasgado com saliva, que de repente abunda, e tusso uma e outra vez, até ela me vir bater nas costas, a rir-se da minha figura.
– Obrigado – balbucio.
– De nada. O que é que fazes aqui, em vez de no trabalho a desenhar prédios?
– Nada. Hoje não consegui ir trabalhar, dói-me a cabeça… E tu? Não tens aulas?
– Tinha aulas teóricas, mas não me apeteceu. Não se aprende nada com essas aulas. Arranjas-me um cigarrinho?
– Claro.
Tiro o maço do bolso, saco um cigarro e estendo-lho.
– Lume?
Põe o cigarro na boca e inclina-se lentamente para mim, de olhos fechados. Alcanço o isqueiro e acendo-o. Ela aspira, encosta-se ao banco com desleixe e atira o ar para cima. Depois cruza as pernas em cima do banco, de lado, e volta-se para mim.
– Com que então, dói-te a cabeça e resolveste vir para aqui arejá-la…
– Sim, é isso.
– Pois eu, sempre que posso, perco tempo em sítios como este, tento não pensar em nada. Claro que a maioria das vezes não consigo, mas é um bom exercício.
– Ah sim? Não te parece que é um exercício perigoso? Porque estás a abdicar de um direito que ninguém te pode tirar, a menos que te matem – digo-lhe. Ela sorri. – É uma espécie de suicídio rápido e transitório.
– Não estou a abdicar de nada, nem quero deixar de pensar e viver. E tens razão, é um direito… É das poucas coisas que podemos ter verdadeiramente, a nossa mente. Mas de vez em quando é bom libertares-te da lógica e tornares a tua mente absolutamente receptiva e permeável, porque é quando aceitas plenamente a realidade imediata, sem a analisares.
– Estou a ver…
– Se calhar é por isso que te dói a cabeça. Pensas demasiado. Estás sempre a pensar, a matutar nessa tua cabeça porque é que as coisas são assim e não assado. Quer dizer, eu não te conheço bem e estou arriscar ao dizer isto, mas tu ao pensares estás a filtrar a realidade, a transformá-la em informação. Toda a gente faz isto, claro, mas tu estás sempre a fazê-lo e não te deixas intoxicar. Mas a mente precisa de se intoxicar de vez em quando, com a beleza do mundo. E às vezes vemos coisas que não queremos ver, vemos a fealdade, mas isso faz parte. Desculpa, também não quero que fiques chateado…
– Não, está-se bem. Eu não fico chateado. Mas és sempre assim, tão directa com as pessoas?
– Tento ser, pelo menos com quem precisa – diz. Os cabelos soltam-se ao vento e apetece-me estender a mão e tocar-lhe a cara, para ver se é real.
É ela que estende a mão e a põe sobre a minha face direita. Olhamo-nos e compreendemos que temos de nos aproximar. As bocas caem uma sobre a outra e as línguas cumprimentam-se e brincam uma com a outra. Demoramo-nos.
– Vamos sair daqui.
Descemos para cidade com a pressa de dois adolescentes apaixonados, e de mãos dadas subimos as escadas do prédio dela. Desembaraçamo-nos das roupas e conhecemo-nos.
Dois Pássaros a Voar (7)
Confuso como é costume, levanta-se e, depois de se vestir, dirige-se para a cozinha onde liga o rádio que todas as manhãs o informa um pouco sobre o mundo, o rádio que o irrita, que o desinteressa cada vez mais, mas do qual não se consegue distanciar. Com o rádio ligado não consegue distinguir uma única palavra. Invariavelmente, o melhor a fazer é sintonizar outra estação. Após uns segundos a girar o grande botão azul, finalmente chega a uma estação onde um anúncio está mesmo a acabar e a música irritante, que normalmente acompanha a ordem de compra que move a sociedade de consumo, é perfeitamente clara. Descansado, o nosso amigo dirige-se para o frigorifico, de onde tira duas fatias de pão e um ovo que se apressa a cozinhar. Quando a música acaba e as notícias voltam, de novo o rádio soa fora de sintonia.
– Merda de rádio... – balbucia.
Cumpridos os rituais matinais domésticos, está na hora de executar o maior ritual da vida actual, que é sair para o emprego. Desmotivado e decidido a ignorar um feito de mais de um ano e meio, o arquitecto decide ir comprar um maço de cigarros no café do fundo da rua – nem todos os dias uma pessoa se sente suficientemente forte para aguentar a vida sem uma muleta. O café tem a habitual demonstração de pastelaria de segunda classe por detrás de uma montra de vidro, e vários cachecóis de clubes de futebol pendurados por toda a parte. Um empregado juvenil, magro, com o acne ainda a marcar-lhe a cara, ridículo numa camisa branca e laço preto, põe-se em frente do arquitecto e, sem dizer nada, fica à espera de um sinal.
– Um maço de Português Vermelho e um isqueiro.
– Quatro e trinta e dois.
– Quatro euros e trinta e dois cêntimos, se faz favor! – insiste o empregado.
Embora tenha claramente ouvido algo, e tenha visto os lábios finos do empregado a mexer-se, nada foi apreendido pelo homem que, com cara de parvo, olha de volta para o jovem e para a sua ridícula vestimenta. Notando que o maço e o isqueiro estão em cima do balcão e que o empregado está à espera de algo, o nosso personagem decide simplesmente meter a mão ao bolso e apresentar uma nota de 10. Recolhido o troco, apressa-se a sair.
De novo na rua, o barulho matinal dos carros toma conta dos sentidos do arquitecto. As buzinas, os motores, o pára-arranca. As portas dos prédios a abrir e a fechar, enquanto todos saem para cumprir os seus destinos, fazem os habituais estrondos ao embater. Seguindo em frente, tem apenas que deixar a inércia tomar controlo e percorrer o caminho que sempre percorre até à estação de comboios.
Perante os seus olhos desenrola-se o movimento coordenado de centenas de pessoas a seguirem uma instrução que para ele é misteriosa. Como magia, esta miríade de formigas humanas dirige-se para a linha 4. Guiado apenas pela intuição, o arquitecto junta-se à colónia e segue-os. Poucos minutos depois o comboio chega. Reconhencendo-o, o arquitecto entra e apressa-se a procurar um lugar onde se sentar.
Nada faz muito sentido. Para quê ir para o trabalho? O arquiteto olha à volta, há pessoas de todas as idades, de todas as fases da vida. Uns perto da morte natural, uns perto de prematuras, uns longe de ambas. Todos terão o mesmo destino, incluindo o arquiteto. Imagens de violência saltam-lhe no espírito. As cabeças dos seus companheiros de carruagem explodem-lhe na imaginação... o chão inunda-se de sangue, aqueles que ainda estão intactos escorregam no lago dos mortos sem gritar e ficam no chão à espera do inevitável.
Um suspiro. Um momento e todas as cabeças voltam ao lugar, todo o chão fica limpo, fica apenas o sentimento de algo por cumprir.
Uma coisa torna-se óbvia: o arquitecto não pode ir para o trabalho. Numa invulgar mestria do seu tumulto interior, toma a decisão de se deixar ir no combóio até uma das últimas paragens que o deixará nos arredores da cidade. Aí chegado, reconhecendo o sítio, não são mais de 15 minutos até ao miradouro. O miradouro é um pequeno largo situado no topo de uma colina com vista para a cidade e para o mar. Nesse largo há um antigo café de qualidade duvidosa que obviamente explora os seus clientes com preços desnecessariamente altos pelo previlégio de se sentarem nas cadeiras da esplanada. Sem mais alternativa, o nosso amigo senta-se numa das cadeiras e pega no telemovel. Um rápido telefonema à Celeste (que raramente atende o telefone) serve para lhe deixar uma mensagem a dizer que hoje não poderá contar com ele. Com o assunto mais premente resolvido, puxa de um cigarro do maço que comprou de manhã, acende-o e começa a contemplar qual será o melhor curso de acção. Sem surpresa para o próprio, dois minutos depois o que ocupa a mente do nosso personagem já não é o que fazer, mas sim vagas recordações dos tempos em que era jovem e das ilusões de grandeza que tinha para si e para a sua vida. Mas estes pensamentos tão profundos, e ao mesmo tempo tão banais, serão em breve interrompidos por uma mão leve que desvia a cara do arquitecto e a dirige para uma jovem cara feminina com um sorriso trocista e vencedor.
– Olha! Ainda estás vivo? Pensava que te tinhas suicidado – diz Madalena, saboreando o momento.
A visão daquela cara, daquele corpo, daquela pessoa, chega para engasgar o jovem arquitecto e provocar uma tosse espasmódica como se algo lhe estivesse preso na garganta, sem sair.
21 de outubro de 2010
4 de outubro de 2010
23 de setembro de 2010
17 de setembro de 2010
25 de agosto de 2010
24 de agosto de 2010
Do Fantástico
16 de agosto de 2010
15 de agosto de 2010
8 de agosto de 2010
And while you evoke the muse
And dress the literary uniform
The trendy swastika of the mind
Your freedom departs
Your anger is strictly academic
Trained for consent
While birds and corn fields are simple
Unaware of their greatness
And someone writes a better poem from within
A child place
More revolutionary than mastered thoughts
Of adult minds
Are you striving for meaning?
Are you a passionate dog?
Are you looking at the lawns of injustice right in your front yard?
Are the bugs beneath your head itching while you’re trying to sleep?
Is the pillow full of blood?
Are you looking for the human being?
Are your fanciful skills aware of the suffering of your brothers?
Your sense of justice is too defined for me
You are a hater not a pacifist
Please give up being an artist and go fix your makeup instead
It's ruined with pointless despair.
7 de agosto de 2010
3 de agosto de 2010
31 de julho de 2010
A Lover´s Quarrel in a Private Drunkyard
– Jesus, do you really despise yourself so much?
The guy shouts an ample laugh, his face a madman´s in the alley of accepted joyful despair, and says:
– Don’t you know it keeps me alive? Don’t you know I have to witness miracles every time? I thought you knew me better… I mean, you know, I’m not a mere wino. I don’t drink to forget myself and those around. I get astonished, instead. I’m a saint. I need beatitude.
Words are difficult, so the woman starts crying. She doesn’t understand. Her weak mind is set to common perspectives.
– Now, get lost! – he shouts.
The woman disappears. Her sobbing vanishes in the distance. She will never come back. Daily he sits in a high chair contemplating the surroundings, the gray buildings, the flowers, children playing in the grass lawn, beings of the vast land… He’s a spectator of beautiful things.
But he´s not a saint, only is mind is intoxicated and sees greatness. True reality is simple and plain and he doesn’t stand it. Sure he’s a wino… He has to miss it.
27 de julho de 2010
que procuram o propósito para a existência
em vez do heroísmo dos segundos vividos.
Mas que mania as pessoas têm
de exagerarem nas contas
de passarem a vida a cacarejar insultos umas às outras
como se no mundo não houvesse mais para ver,
parvas
impossíveis criaturas de olhos brancos
contemplando a imagem fictícia do que são
imaginando obscenidades várias para ser menor a dor de viver
sonhos de si-mesmas,
medonhas criaturas fracas
craituras hediondas de peso na consciência
de não o serem autenticamente
incapazes seque de absoluta fealdade
derrapando nas verdades que vomitam.
Não serei igual.
25 de julho de 2010
14 de julho de 2010
8 de julho de 2010
30 de junho de 2010
Lá em cima, onde eu me encontrava, poderia gritar-lhes o que me apetecesse. Foi o que fiz. Todos me enojavam. Não tinha lata para afirmá-lo durante o dia, quando estava à frente deles, mas ali onde me encontrava não arriscava nada e por isso gritei «Socorro! Socorro!», só para ver que resultado dava. Não deu nenhum. Eles, os homens, empurravam a via, e a noite, e o dia. A vida tudo lhes esconde. Com o seu próprio ruído, nada ouvem. Estão-se nas tintas. E quanto maior, e quanto mais alta for a cidade, mas se estão nas tintas. Digo-vos eu. Que experimentei. Não vale a pena.
29 de junho de 2010
Adeus
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.
Eugénio de Andrade
19 de junho de 2010
Demissão
Já por tempo de mais aqui andamos
A fingir de razões suficientes.
Sejamos cães do cão: sabemos tudo
De morder os mais fracos, se mandamos,
E de lamber as mãos, se dependentes.
José Saramago (em "Os Poemas Possíveis")
18 de junho de 2010
17 de junho de 2010
Sound Effects
entire Japanese villages
in horror movies
and one of us could make a fortune
coming as the tornado in a remake of
the wizard of oz
Janice Eidus
12 de junho de 2010
O teu poeta morreu num dia como este. As nuvens são cinzentas. Morreu porque o esqueçeram, porque a sua voz perdeu-se entre o tumulto do mundo, no burburinho das paixões falsas. Durante muito tempo pensaste que estava vivo, agindo nas sombras da sociedade de consumo em frenesim louco numa sub-sociedade marginal, mas livre. Depois cresceste e percebeste que o poeta estava morto, para sempre. E depois também tu partiste.
8 de junho de 2010
The Touch
in a tin box. Nothing was there but the subway railings.
Perhaps it is bruised, I thought,
and that is why they have locked it up.
But when I looked in it lay there quietly.
You could tell time by this, I thought,
like a clock, by its five knuckles
and the thin underground veins.
It lay there like an unconscious woman
fed by tubes she knew not of.
The hand had collapse,
a small wood pigeon
that had gone into seclusion.
I turned it over and the palm was old,
its lines traced like fine needlepoint
and stitched up into fingers.
It was fat and soft and blind in places.
Nothing but vulnerable.
And all this is metaphor.
An ordinary hand - just lonely
for something to touch
that touches back.
The dog won't do it.
Her tail wags in the swamp for a frog.
I'm no better than a case of dog food.
She owns her own hunger.
My sisters won't do it.
They live in school except for buttons
and tears running down like lemonade.
My father won't do it.
He comes in the house and even at night
he lives in a machine made by my mother
and well oiled by his job, his job.
The trouble is
that I'd let my gestures freeze.
The trouble was not
in the kitchen or the tulips
but only in my head, my head.
Then all this became history.
Your hand found mine.
Life rushed to my fingers like a blood clot.
Oh, my carpenter,
the fingers are rebuilt.
They dance with yours.
They dance in the attic and in Vienna.
My hand is alive all over America.
Not even death will stop it,
death shedding her blood.
Nothing will stop it, for this is the kingdom
and the kingdom come.
em The Complete Poems, Anne Sexton, Mariner Books, 1999
2 de junho de 2010
29 de maio de 2010
Second God
Before it exploded
The crowd was dancing around
Little worms grabbing his precious air
And the void beneath they were afraid of
Opening the mouth of nothingness
The famous head exploded
The good inside spread across the universe
And there's shit everywhere now
All over the crowd
The stars dripping diarrhea
And the people say
This was a hoax! There's no God!
But I always knew
I knew it before any first Christmas
'Cause I'm the second head
The invisible one
The great mind apart
And I'm also full of shit
I suppose I will explode someday
27 de maio de 2010
Dois Pássaros a Voar (6)
Dentro de mim, o comboio vai através duma noite muito densa – deve ter havido um corte geral de electricidade e as luzes das ruas e dos prédios estão apagadas –, as pessoas todas muito caladas, fechadas num mutismo horrível, e uma luz vermelha de câmara de revelação fotográfica predomina como o ar abafado, pesado, que temos de respirar. Ninguém comenta o desconforto. Vejo as mamas da rapariga a subir e a descer, o seu rosto inexpressivo como o de uma boneca insuflável. Ao seu lado, os olhos do preto estão vermelhos de sangue, mas não têm pupilas, e os seus pulmões incham e desincham muito rapidamente, a um ritmo que eu não julgava ser possível. De repente, mais à frente no corredor, cai uma velha ao chão, morta, e da sua boca sai um pequeno rio de sangue. Ninguém reage, talvez por estarem todos demasiado ocupados com este esforço pulmonar de sobrevivência, tentando capturar o pouco oxigénio que existe; e eu não sou diferente, também os meus pulmões são sacos que se abrem e fecham sem se cansarem, embora não tão freneticamente quanto os do preto – deve ser o próximo a cair ao chão, morto. Assim acontece. O cadáver tomba sobre as minhas pernas. O peso é insuportável, as pernas doem-me. O meu instinto é erguer-me e empurrar o cadáver para o outro lado, mas, quando o tento fazer, percebo logo que estou congelado, cativo daquela imobilidade que não é só minha, que é também das outras pessoas, que é de todos. Não me consigo mexer. O meu organismo não me pertence. Só os pulmões se mexem, num movimento autónomo, como se me quisessem manter naquele estado angustiante em vez de me deixarem morrer. Começo a respirar cada vez mais depressa, abrindo e fechando os sacos como eu não acreditava ser possível, e uma violência enorme, incomensurável, chega-me ao coração e à consciência. É a minha vez de morrer. Entro logo num pânico de tal ordem, que consigo desfazer a imobilidade, gritando.
Acordo assarapantado. De certeza que gritei. As pessoas à minha volta olham para mim e riem-se. Sinto-me envergonhado, e então levanto-me e vou para a carruagem da frente, onde fico em pé a olhar para a cidade, que é uma festa de luzes. As pessoas falam, gesticulam, mexem-se nos assentos, volteiam as cabeças… Estão vivas. Continuo a sentir os pulmões a abrirem-se e a fecharam-se.
Entretendo, a minha estação aparece na paisagem e o comboio para. Saio angustiado, convicto de que o sonho ainda existe dentro de mim, levando-me a entrar aos poucos numa verdade que não pode ser revelada de imediato por ser demasiado aterradora (a verdade age na semi-obscuridade, tendo os símbolos como intermediários). Mas tenho medo de passar a sonhar de dia, e de a minha lucidez testemunhar essas visões – ficaria então irremediavelmente louco…
Dois Pássaros a Voar (5)
Continuo sentado. À espera. Como um animal exausto depois de um enorme esforço, não me quero mexer nunca mais. Oiço uma voz a chamar o meu nome. Não me consigo mexer. Estou agarrado ao “algo” que sou. A voz chama de novo. De novo não me mexo – não quero largar. Oiço o som dos sapatos altos de alguém a aproximar-se da sala onde estou. Olho à volta e todos estão a olhar para mim – já deduziram que algo se passa. A senhora responsável pelo cloque cloque dos saltos altos entra pela porta à minha direita e repete o meu nome para o ar. Ao reparar que estão todos a olhar para mim, ela percebe que o nome me pertence.
– Não tem uma consulta?
“Uma consulta.” “Exacto... foi para isso que vim aqui, foi por isso que saí do trabalho mais cedo.” De repente apercebo-me da situação, apercebo-me de que o normal teria sido levantar-me e ter ido em direcção ao consultório quando o meu nome foi chamado. Agora que sei onde estou, começo a testar os limites da situação: sei que todos estão à minha espera, já percebi que devia responder, mas não o faço. Em vez disso, espero. Fico a olhar para a senhora, que olha de volta para mim, e vejo-me reflectido nos olhos dela, a olhar de volta para ela. Conto até 5 pausadamente na minha cabeça. “Um. Dois. Três.” Ainda estão ainda todos a olhar para mim. “Quatro. Cinco.” Todos esperam algo.
Inspiro fundo.
– Com certeza, desculpe.
E, como se nada se tivesse passado, vou em direcção à médica.
O gabinete é desnecessariamente grande, com mobília velha castanha escura. Uma senhora já com alguma idade, sentada numa secretária colocada mesmo no centro da sala, olha-me, convida-me a entrar simplesmente por sorrir e inclinar a cabeça ligeiramente para baixo.
– Então, trouxe-me o exame?
“Trouxe”, penso sem dizer. Chego a mão ao envelope que tenho comigo e entrego à médica o seu conteúdo.
A médica pega nas folhas, cheias de números e palavras que não entendo, e desata a tossir convulsivamente. Um pouco mais de força e os pulmões saltariam para a mesa, e ficaríamos os dois espantados a olhar para o par de órgãos pulsando mesmo à nossa frente. Depois de acabar de tossir, demora ainda uns bons 2 minutos a ler tudo o que tem nas folhas, e finalmente diz-me:
– Não tem nada de mal. Está tudo em ordem!
Fico desiludido. Não que quisesse estar doente, mas se ao menos houvesse algo que pudesse culpar… Algo que tivesse um nome que eu pudesse responsabilizar… Mas não, não tenho nada de mal.
– Ah, ainda bem.
– Sim senhor, não se preocupe. Estou aqui a olhar para o exame – uma tomografia da minha cabeça – e não tem um único ponto estranho; o seu cérebro parece estar em óptimas condições.
Como é possivel? Eu sinto-o a separar-se de mim a cada instante. A tomar uma vida própria, a decidir viver por si. “Vou-me embora”, diz-me ele a cada instante, “Faz tu essa merda que eu não estou para isso.” Sinto-o a queixar-se quando não gosta do que eu lhe fiz ou do que o obrigo a fazer, sinto-o a apertar-se e a contorcer-se causando-me uma dor agoniante. Sinto uma mão lá dentro a apertar-me os miolos, a espremê-los como se fossem uma esponja, a rasgá-los como quem rasga um tecido.
– Então e para as dores?
– Os analgésicos que já lhe receitei devem bastar. Não?
– Bem... nem por isso. Há dias que nem me consigo mexer.
– Hmm. Podemos passar para algo mais forte.
Desgastado, saio do consultório e vou apanhar o comboio de volta para casa.
Uns 10 minutos antes de chegar à estação onde apanho o comboio, percorro uma das ruas mais movimentadas da cidade na hora de ponta. Pessoas por todo lado circulam freneticamente para regressar à toca. Ainda vou a pensar na consulta. Às vezes só me apetece furar a minha cabeça e aliviá-la de todas as dores. Ganhei novos medicamentos, pode ser que façam algo.
Enquanto caminho, tenho que me desviar daqueles que andam mais lentamente. À minha frente está um casal nos seus trinta anos. A mulher extremamente alta com saltos altos vermelhos e uma saia apertada pelas canelas, e ele mais baixo e largo, com ténis e umas calças azuis escuras. Caminham os dois lado a lado com extrema confiança, não vão certamente mais lentamente do que eu. Observo os pés de ambos sincronizados enquanto eles conversam sobre qualquer coisa. De repente, sem mais nem menos, sem ter pensado no que ia fazer, exactamente quando o homem levanta o pé direito, eu pontapeio levemente o seu pé esquerdo (o único em que ele se apoiava) e o coitado cai ao chão. É um caos. O homem cai, tenta agarrar-se à mulher, agarra-lhe a mala, rompe-lhe uma das pegas, e cai ao mesmo tempo que todo o conteúdo da mala dela se espalha pelo chão. Toda a gente fica a olhar.
– Peço imensa desculpa! – Apresso-me a gritar. Vou directamente em direcção a ele para tentar ajudar. Enquanto se levanta atrapalhado, o homem obedece às convenções de educação:
– Pronto, não faz mal, está tudo bem.
A mulher ajuda-o enquanto as pessoas continuam a observar a situação. Agora tento apanhar a tralha que caiu da mala dela. Enquanto lhe devolvo as coisas, reparo na sua cara. Já deve ter mais de trinta e cinco anos, mas ainda tem uma cara jovem. Cabelo preto, um nariz redondo e muito batom vermelho escuro. Os brincos pequenos e brilhantes ficam-lhe bem.
– Peço muita desculpa – vou dizendo, enquanto olho para o casal. A verdade, claro, é que estou satisfeito com o que fiz. É ridículo. O que se está a passar? Acabei de atirar um homem ao chão, e por de baixo da máscara de embaraço que tive que vestir, na verdade estou a sorrir. Não tiro nenhum prazer de ter magoado o homem, claro, mas algo no caos que gerei excita-me. “O que se passou aqui?”
– Peço desculpa, não estava a reparar onde punha os pés.
– Vá, não se fala mais nisso – responde-me o homem, enquanto sacode o casaco da poeira da rua –, não me magoei.
Dois Pássaros a Voar (4)
Eu e a Celeste sentamo-nos frente a frente e ela serve o habitual café preto forte.
– Ora bem… Tenho uma boa notícia para ti. – Faz uma pausa, como que para apreciar e espicaçar a minha curiosidade. – Ganhámos o concurso!
– Boa! Estamos de parabéns!
– Estás. Os aspectos originais são teus. Sem ti, não conseguíamos de certeza.
– Eu por ti faço tudo.
– És um amor. Sabes o que tens a fazer. Vou dar ao Francisco o projecto da Sarmento e tu ficas com este.
Este projecto é um centro pluricultural, chamam-lhe assim, numa freguesia suburbana. É suposto ter uma biblioteca, com uma grande secção à parte para a criançada, e uma sala polivalente para concertos, conferências e projecções de filmes. O projecto do ano. Cresce-me o ego. Sou um bom arquitecto, o melhor da firma.
Saio do gabinete e encontro as caras matinais pregadas aos monitores, sorvendo golos de café, preparando-se para operações de linhas paralelas e perpendiculares sobre terras desocupadas. Terras a ocupar. Há que civilizá-las até deixarem de ser terras. Não é essa a minha concepção do que a arquitectura deve ser… Mas não interessa, porque o meu idealismo é pouco importante, até mesmo para mim. Vendo o meu esforço, o meu trabalho, alugo-me para poder comprar coisas de que preciso para viver com a ilusão de que não vou morrer tão cedo.
– Então, a patroa deu-te um presente?
– Deu-me a mim e deu-te a ti. Ganhámos o centro cultural e eu fico com o projecto. Ela disse-me para eu te passar o complexo da Sarmento.
– Que simpatia.
Que simpatia, a escassez na tua mente, penso sem dizer. Ligo o computador para ver os e-mails. Também eu com a minha cara matinal pregada ao meu monitor. Uma fotografia de mais uma invenção artística de um amigo meio maluco, o pleno voo da sua imaginação – pintou as paredes do quarto de preto, e sobre o preto deixou escorrer tintas de várias cores garridas, como se fosse uma tela do Pollock, mas uma tela preta; no chão de tacos de madeira e poeira, garrafas de vidro verde, de adega velha, suportam velas vermelhas que, na semi-obscuridade do habitáculo, acendam esperanças mágicas de uma satânica sensualidade desabrida, uma enxurrada violenta de sangue em possessas bocas… Deixo que a minha imaginação, também doentia, participe na construção do quadro, e vejo ali a irmã do meu amigo, deitada nua e ofegante na cama, com as chamas vermelhas à volta e sob a influência de bruxedos que haviam sido excomungados, mas que voltam para a possuir. E ela respira dificilmente, numa apoteótica espera de mim. Mergulharíamos, sim, mergulharíamos para não mais voltarmos à superfície…
Mas eis que me encontro solitariamente sobre a superfície, tentando caminhar através da bruma que alguém lançou no caminho, tropeçando em obstáculos cuja existência não compreendo. A Madalena não é para aqui chamada.
Passo a manhã a tratar da papelada e a transferir para o Chico o que passará a ser da sua responsabilidade, preparando-o para a eventualidade de a Celeste não gostar da sua técnica demasiado caloira e de criticar maternalmente, com ambígua rispidez dócil, o seu método académico, que por certo não se adequa à rapidez cruel do mercado.
Saio à tarde para almoçar, aliás sem deixar de cumprir o que me é rotineiramente destinado, mas com alegria de pausa e de ar da rua quebrando a rigidez das faces, um intervalo de soalheira calçada portuguesa. Atravessamos (sim, trata-se de uma quase obrigatória alegria plural) o alcatrão e entramos no tasquedo que diariamente acolhe a satisfação da nossa fome, saudados pelo prazenteiro bigode do senhor Silva, personagem patusca que não podia ter outro nome, mesmo que tivesse outro apelido. E desfrutamos da hora. Merecemo-la.
À minha frente, o Fialho lambuza o seu bitoque de terça-feira, efectuado pausas contentes para engolir uma porção do tintol de classe média-baixa, ou para libertar uma gargalhada genuína quando, à sua direita, o puto Chico diz uma parvoíce qualquer sem eira nem beira, que porém não deixa de ter a sua utilidade. A Ana Maria não come. Em contrapartida, bebe mais do que a conta e sorri para nós de um modo quase lascivo, declarando sem saber a fome da sua sensualidade de beata. Outra mulher, a Elsa, é bem mais equilibrada e saudável – quarentona em estado impecável, bem casada e mãe de dois filhos traquinas. Não se farta de relatar a evolução dos filhos e aproveita todas as oportunidades para evocar o bem-estar da família e a sua felicidade, da qual já todos estão fartos. Outras personagens habituais são o Miguel, a Sandra e o João – por ordem de normalidade, numa ascendência que pontifica para o desinteresse e o aborrecimento, características adquiridas por quem suprime catolicamente a individualidade e o desejo e se esconde atrás da máscara da moderação. Que coisa horrível, a aparência de normalidade… Por exemplo, o último da lista, o João, é aparentemente normal ao ponto de se ter tornado invisível, mas não tem consciência dessa irrelevância. Atribuiu-se a ele próprio uma importância mental que não se chegou a manifestar fisicamente, presa a uma espécie de infância prolongada. O que é a timidez? Narcisismo cobarde, que não se assume e vive de enredos e criatividade oclusa, luzes e sombras fechadas num pátio interior, dentro de linhas infindas de trincheiras e barreiras num descampado onde ninguém entra sem antes se transformar numa imagem, numa representação psíquica. Os seus amigos são fantasmas. Se ele se conseguisse libertar, seria talvez um grande artista.
A Celeste não é presença frequente e só muito raramente almoça connosco. Nessas ocasiões, deixa de ser a chefe e fala-nos de cinema, livros e viagens, e aprendemos coisas com ela que, de outro modo, não aprenderíamos. Na última vez ouvimos falar da Índia, onde esteve com o seu companheiro actual. O dito está envolvido num projecto de produção de biodiesel e teve de se deslocar à Índia para negociar o fornecimento de sementes oleaginosas à empresa. Ela acompanhou-o e aproveitou para conhecer uma pequena parte daquele grande país. Pelo que nos contou da viagem, teve um choque cultural tremendo que a enriqueceu, e naquele almoço ela deu-nos um vislumbre desse conhecimento.
– Então e agora, que tenho de pegar no trabalho deste gajo? Como se já não tivesse bastante que fazer… Vai-te foder – a Celeste não está connosco e o puto queixa-se de eu ter-lhe passado o meu trabalho.
– Tu estás aqui é para trabalhar. Vai-te habituando.
Dou por mim a repetir o que o Fialho lhe está sempre a dizer – e ele próprio não é um grande exemplo de trabalhador, embora já esteja a trabalhar para a Celeste há quase vinte anos.
Dois Pássaros a Voar (3)
Trabalho numa firma de arquitectura. Fica no terceiro andar de um prédio feio de esquina. Entro no prédio, entro no elevador, fecho a porta e carrego no botão para subir. Cada nível passa à minha frente enquanto o elevador sobe deixando para trás a rua barulhenta lá fora. Vou-me habituando à ideia de que agora estou no trabalho. Chego ao meu andar e abro a porta.
Somos 7. A empresa é da Celeste, uma arquitecta nos seus 50 anos que vai conseguindo trabalho suficiente para nos manter a todos ocupados e assalariados. O clima é geralmente amigável, sem grandes cumplicidades. A maioria dos meus colegas conheci-os quando me juntei à empresa, mas um deles (o Fialho) tinha sido meu companheiro na faculdade. Um personagem bastante desinteressante – aluno médio, cidadão pacificado, trabalhador sem motivação; sempre a fazer um esforço para parecer alegre, não muito diferente dos outros.
Mal chego, os meus pensamentos são interrompidos pelas saudações matinais do rebanho plastificado.
– Bom dia. Então, tudo bem?
– Oi – respondo.
– Olha, ela quer falar contigo. Disse para quando puderes passares pelo gabinete dela.
– Hmm ok. Obrigado, já lá vou.
Antes de me entregar ao dia, dou uma vista de olhos pelos jornais que são entregues de manhã no escritório. Sento-me para os ler num sofá que o escritório tem para esse propósito (acho que a Celeste o comprou a pensar em mim, mais ninguém o usa). As capas do dia têm todas mais ou menos o mesmo assunto: mais um fogo-posto num armazém abandonado. É o terceiro este mês. Parece que anda por aí alguém a queimar armazéns nos subúrbios industriais da cidade. Instintivamente, tenho uma certa simpatia pela causa, penso. Depois da história da capa, nas primeiras páginas o assunto é política. Mas nem é verdadeiramente política!, são só os casos pessoais envolvendo os políticos. Já ninguém discute política, a discussão agora centra-se nas pessoas. Ninguém fala sobre ideias para a sociedade. Os jornais fazem o favor de manter tudo isto à margem dos leitores e pacifica-os com intrigas, cumprindo o seu papel de ocuparem o lugar de supostos jornalistas sérios que falam sobre assuntos sérios. Leio os textos durante uns minutos, mas quando dou por isso já não estou a ler nada. É tudo tão superficial que nem me consigo concentrar, não há nada onde me agarrar e inevitavelmente divago. Fico só a olhar para o papel e a pensar. A pensar que esta é a minha vida! Sou um empregado numa firma de arquitectura. Como cheguei aqui? O que aconteceu? Era este o caminho inevitável? E, se não fosse, estaria eu a pensar a mesma coisa onde quer que estivesse? Acho que sim. Tenho a certeza que, se estivesse agora por trás do balcão no café ou na padaria ao pé de minha casa, estaria a pensar exactamente o mesmo – a olhar nos olhos de um cliente qualquer a gritar comigo por eu não lhe estar a responder. Qualquer que seja a vida particular que qualquer pessoa tenha, essa vida não passa de um ponto aleatório no meio de um universo de possibilidades. É muito mais aquilo que não somos do que aquilo que somos. E, se chegamos a onde estamos por virtude de tanta coisa que não podemos controlar, o que tem de especial o sítio onde estamos? Nada. E a verdade é que não me sinto apegado a nada do que está à minha volta. O escritório podia arder todo até ao último pedaço de cinza carbonizada, que não me faria a mínima diferença. Num dia de céu carregado, no meio de um ar abafado, imagino-me a vasculhar nos destroços de um imenso incêndio. Onde era o escritório, agora estão escombros. A cinza cobre-me e eu procuro zonas ainda incandescentes para vislumbrar algo da força magistral que teria destruído todo o edifício.
– Bom dia! – Ao ouvir a voz, desvio o olhar do infinito e volto a focá-lo no que se passa à minha frente. Podemos falar no meu gabinete, se não te importares?
A Celeste é uma mulher que de certa forma admiro. É solteira e tem uma filha. Conseguiu mais ou menos o que queria na vida sem sacrificar o humor, o bom senso, o interesse pela arte e a cultura, a empatia, o envolvimento na sociedade. Não sei se é feliz – as mágoas pessoais e privadas de cada um estão para além do meu saber –, mas vive uma vida razoavelmente completa e rica. É a única pessoa no trabalho com quem falar não é apenas uma obrigação. Pouco mais de um mês depois de estar a trabalhar para ela, a empresa teve um grande projecto com um prazo apertado. Lembro-me de fazer noitadas de trabalho, e de essas noitadas serem pautadas por algumas conversas agradáveis. Ambos reservados e cientes da nossa privacidade, íamos deixando pingar pequenos detalhes pessoais por entre outras conversas. Gostava especialmente de notar que a Celeste não parecia fazer nenhum esforço para causar nenhuma impressão em particular. Era como era, sem criar uma personagem para os outros. Nem se masculinizava para parecer mais forte, nem se abonecava para agradar a ninguém. Não era extra-simpática com os amigos e amigas, nem era formal com os colegas. Lidava com todos com a mesma naturalidade (e complexidade). Não há preconceitos, rótulos ou categorias na cabeça da Celeste, há apenas o mundo, e isso dá-me conforto.
21 de maio de 2010
20 de maio de 2010
Ao Miguel, no seu 4º Aniversário, e contra o nuclear, naturalmente.
luz do mundo. Não foi um paraíso,
que não é medida humana, o que para ti
sonhei. Só quis que a terra fosse limpa,
nela pudesses respirar desperto
e aprender que todo o homem, todo,
tem direito a sê-lo inteiramente
até ao fim. Terra de sol maduro,
redonda terra de cavalos e maçãs,
terra generosa, agora atormentada
no próprio coração; terra onde teu pai
e tua mãe amaram para que fosses
o pulsar da vida, tornada inferno
vivo onde nos vão encurralando
o medo, a ambição, a estupidez,
se não for demência apenas a razão;
terra inocente, terra atraiçoada,
em que nem sequer é já possível
pousar num rio os olhos de alegria,
e partilhar o pão, ou a palavra;
terra onde o ódio a tanta e tão vil
besta fardada é tudo o que nos resta;
abutres e chacais que do saber fizeram
comércio tão contrário à natureza
que só crimes e crimes e crimes pariam.
Que faremos nós, filho, para que a vida
seja mais que cegueira e cobardia?
em Antologia Breve, Eugénio de Andrade, Fundação Eugénio de Andrade, 7ª Edição, 1999
9 de maio de 2010
A mente do escritor é habitada pela humanidade.
1 de maio de 2010
Mas há distâncias de vidro entre nós
Onde flutuam obscenidades
Imaginações apenas da adolescência em que teimamos ficar presos.
Só os olhares se tocam
Creio que atravessam estas fronteiras
O cimento estala e cai
Fios se sangue saltam de ti
E prendem-me.
Conheces-me por dentro. É recíproco – eu conheço-te a ti
Há séculos
Milénios talvez
Desde sempre
E há um encontro que é uma maldição e não devia acontecer nunca.
Se também as mãos agissem
E tu me tocasses
Eu morreria.
30 de abril de 2010
Matinée d'Ivresse
O mon Bien ! O mon Beau ! Fanfare atroce où je ne trébuche point ! Chevalet féerique ! Hourra pour l'oeuvre inouïe et pour le corps merveilleux, pour la première fois ! Cela commença sous les rires des enfants, cela finira par eux. Ce poison va rester dans toutes nos veines même quand, la fanfare tournant, nous serons rendus à l'ancienne inharmonie. O maintenant, nous si digne de ces tortures ! rassemblons fervemment cette promesse surhumaine faite à notre corps et à notre âme créés: cette promesse, cette démence ! L'élégance, la science, la violence ! On nous a promis d'enterrer dans l'ombre l'arbre du bien et du mal, de déporter les honnêtetés tyranniques, afin que nous amenions notre très pur amour. Cela commença par quelques dégoûts et cela finit, - ne pouvant nous saisir sur-le-champ de cette éternité, - cela finit par une débandade de parfums.29 de abril de 2010
26 de abril de 2010
25 de abril de 2010
Obra Acabada
O escritor está sentado na sala a fingir que olha para a televisão. Pelos seus olhos correm imagens velozes que a mente não capta. Há um mundo muito grande dentro de si, tão vasto e rico que por momentos substitui a realidade exterior que o corpo veste, como se as muralhas se tivessem tornado gigantes e intransponíveis, feitas de um material que não pode ser destruído. Dentro destas muralhas, personagens interessantes atacam-se com ferocidade. Decorre uma luta, uma dança de corpos, e ouve-se uma sinfonia terrível. De repente, João acorda para a percepção da realidade sensorial imediata, sem a qual aliás as tais personagens e a tal luta não existiriam, e lembra-se que está à espera da companheira, que se demora na casa de banho e no quarto com a pomada para o rosto, a forma do cabelo, a roupa que fica melhor e um sem número de preparativos do género. Leonor quer sair para a rua com confiança e optimismo, recorrendo para tal ao expediente da imagem, mas demora-se a arranjar a combinação estética final e João exaspera-se:
– Despacha-te!
– Estou quase! – grita Leonor, esganiçadamente.
Penteia-se com pressa defronte do espelho, desemaranhando o cabelo com raiva. Por momentos, o escritor de 34 anos de vida, apercebendo-se do lugar-comum do homem à espera da mulher na sala de estar dum apartamento num bairro habitacional para a classe média, crê que a sua vida se tornou igualzinha à que o pai tinha, o que o deixa num estado de tristeza subtil e resignada. Tira mais um cigarro do maço e acende-o. Enquanto o vai aspirando, a ficção retoma lugar na sua mente, onde as tais personagens continuam com fúria e agridem-se. João não sabe ao certo o que é que a personagem central da história, uma jovem universitária de 23 anos que sofre de psicose maníaco-depressiva, vai fazer a seguir, mas deixa que a sua presença apareça timidamente na nuvem de fumo – uma presença ténue e incerta, que ele tem de descortinar e decifrar, como um sonho misterioso que esconde o significado de tudo o que existe. Entretanto, ouve os tacões de salto alto da companheira a bater freneticamente nos mosaicos do hall de entrada.
– Já estou pronta. Vamos? – pergunta, aparecendo à porta da sala enfiada num vestido preto elegante.
Só que João tem de permanecer ali por mais uns momentos, na contemplação daquelas vidas imaginárias, e não reage. Os seus olhos são grandes como os de um peixe pequeno e inteligente no meio dum oceano desocupado.
– Vou descer. Levo as chaves do carro.
Leonor está habituada aos acessos de criatividade do namorado e sabe que o melhor é deixá-lo estar um bocado sozinho a resolver os enigmas, para que estes não se percam para sempre e a literatura deixe de existir. Ela sente que tem de servir o seu génio. Não por ele ser um homem e ela estar apaixonada por ele, e por ela ser mulher, mas porque no génio há uma fraqueza que tem de ser ultrapassada através da cumplicidade total com outro ser humano. Se Leonor se tivesse apaixonado por uma mulher, seria a mesma coisa. Desce as escadas, abre a porta do carro, senta-se no lugar do condutor e fica à espera dele com o rádio ligado. Entretanto, a visão do escritor chega ao fim. A jovem mulher pede que o seu criador a leve ao suicídio. Tem de ser assim. João escreve umas frases no caderno de capa de couro que anda sempre consigo, vai à casa de banho mijar, calça os ténis, veste o casaco e sai para a rua. O briol entra-lhe no corpo, enfia-se-lhe nos ossos. Corre para o carro, abre a porta do carro e senta-se ao lado de Leonor.
– Porra, estou a morrer de frio. Vamos embora.
Leonor arranca. São 21h30 de uma noite fria de Novembro, em Lisboa. Em Alcântara, na Galeria Seis, Luís, um ex-namorado, mostra os seus quadros aos convidados. É a inauguração da sua primeira exposição individual na galeria mais conceituada da cidade. O artista está nervoso. O seu trabalho é sobre a morte e a procura de Deus, temas que se evidenciam através de figurações carregadas de onirismo sobre experiências vividas na infância. Ele e Leonor tiveram uma relação amorosa acidentada, marcada pela dúvida permanente dele quanto ao seu valor enquanto artista, um complexo de inferioridade que se manifestava no consumo excessivo de álcool e de erva e em fulminantes ataques de raiva. A relação durou uns três anos. Quando começou a expor a sério, Luís encetou um projecto de vida um tanto estranho – centralizou a sua existência na sua pessoa e na sua arte, passando os dias em reflexões solitárias e celibatárias das quais saiam representações da sua psique atribulada, alheia à existência das pessoas que faziam parte da sua vida real. Descobriu que a riqueza da sua arte estava na revivência dos episódios traumáticos da infância e passou a viver obsessivamente no passado. Estas reclusões nostálgicas e masoquistas não agradaram a Leonor e os dois separaram-se.
– Estás nervosa? – pergunta João.
– Não. E tu, estás nervoso por o conheceres?
– Não – responde. – Só espero que não seja uma seca – abre o porta-luvas, saca de um cantil com whisky que costuma ter para as emergências e bebe uns goles valentes.
– Passa para cá – pede Leonor, e bebe também.
Encontram a tal galeria e estacionam o carro. Entram. O sítio está animado. Montes de gente. João reconhece um colega da faculdade e vai falar com ele. Entabulam uma conversa sobre as coisas habituais – os empregos, as mulheres, as recordações da juventude –, e embarcam no saudosismo obrigatório de quem não se vê há muito e já não se conhece, restando apenas o brilho dos tempos áureos passados. Leonor avista o ex-namorado rodeado de gente ávida e acena-lhe. Ele também acena a mão e sorri-lhe. Leonor dirige então a sua atenção para os quadros e passeia pela galeria contemplando este e aquele e aqueloutro quadro, tentando tirar ilações sobre uma pessoa com quem partilhou três anos da sua vida. Encontra quadros que já conhece. Num deles, um rapazinho está deitado numa cama sobre uma nuvem, um conjunto fechado dentro duma jaula de barras negras e espessas suspensa no ar azul-celeste. O miúdo tem os olhos quase fechados e sonolentos voltados para uma figura beatífica e de Virgem Maria flutuando sobre a jaula e segurando nas mãos um livro, como se estivesse a contar ao miúdo uma história para adormecer. Leonor tinha detestado aquele quadro – o rosto da Virgem era o seu e o do rapazinho era o de Luís, mas o pintor não lhe tinha dito nada. Leonor tinha-se irritado e houve uma discussão horrível. Ainda por cima, o quadro tinha sido comprado. Estava ali naquele dia porque era considerada uma das obras-primas do artista, e como os donos da galeria tinham decidido fazer uma pequena retrospectiva da sua obra fundamental, pediram a alguns compradores que as emprestassem para a exposição.
Entretanto, João consegue despachar o colega e vai ter com Leonor.
– Então, já conseguiste falar com ele?
– Não. Há muita gente à volta dele.
– É aquele ali? De calças de bombazina e gravata vermelha?
– Sim, é esse. Olha lá para este quadro com atenção.
João olha para o quadro com atenção.
– Olha, és tu, a Virgem Maria. Grande pancada. Estavas apaixonada por este gajo?
– Sim. Devo ter queda para me apaixonar por gajos com pancada.
– Portanto, eu tenho pancada e tu estás apaixonada por mim.
Leonor sorri, enlaça o braço no do escritor e os dois caminham fitando as obras em exposição. Deparam-se com um quadro de tamanho superior aos outros e ficam a olhar para ele com espanto – uma representação gótica, macabra e violenta da crucificação de Cristo, o espectáculo dramático do sangue brotando com abundância de lacerações profundas recentes, como no filme do Mel Gibson. O vermelho do sangue é berrante e causa impacto, é um vermelho obsceno. As outras cores do quadro são propositadamente escuras e mortiças. A atmosfera é cinzenta, quase preta e carregada de nuvens gigantes e pesadas, como se fossem cair de repente sobre a cena. Apesar disso, as duas mulheres não arredam pé da base da cruz, prostradas sob o mártir num velório silencioso, duradouro e já sem lágrimas, depois dos momentos de histerismo. No espaço à volta das mulheres não há ninguém, dando a impressão de o sítio ser um descampado imenso e agreste, um desterro onde os criminosos são executados e deixados a apodrecer sob um céu duro sem piedade. Dá a impressão de pouca gente ter assistido à crucificação, depois da qual todos se foram embora, à excepção das duas mulheres – a amante e a mãe, ou a irmã e a mãe, ou as duas amantes, ou duas mulheres que são simultaneamente mãe, amante e irmã. O rosto de Jesus é o do pintor.
– Narcisista – observa João.
– Deve estar envolvido sexualmente com as mulheres – diz Leonor.
Uma gargalhada irrompe do silêncio por trás deles. Voltam-se para trás – é o pintor.
– É claro que são as minhas mulheres – e solta mais uma gargalhada louca. – Como é que estás? Obrigado por teres vindo.
– Estou bem. Este é o João, o meu homem – os dois artistas apertam as mãos.
– Prazer em conhecer-te – diz Luís. – Obrigado por teres vindo também.
– É um prazer. Os teus quadros são muito marados.
– Claro que são.
Um silêncio breve. Há algo de indizivelmente sofrido nestes homens que transformam as cinzas das suas vidas em arte, ou no que julgam ser arte, sem nunca se aproximaram de algo verdadeiro. Algo verdadeiro é uma mulher, por vezes. Nunca entram nela e nunca a apreendem verdadeiramente, mas, por outro lado, nunca se libertam da necessidade de estarem perto dela. Há mulheres que parece que foram feitas de propósito para os artistas. Leonor é uma delas. Mas uma musa gera conflito quando há mais do que um artista a disputá-la, mesmo quando a disputa é inconsciente. Depois de a ter perdido, o pintor acordou para a percepção da necessidade dela e teve vontade de se matar. Não o fez. Continuou com a sua arte. Agora, há entre João e Luís uma animosidade de amantes e artistas. No entanto, João é tímido, nunca suportou aquele olhar que Luís lança sobre si, de avaliação, e então desculpa-se e retira-se, dizendo que vai buscar um Favaios.
– Alguém quer uma bebida?
– Não, obrigado.
Luís e Leonor ficam perante o quadro da crucificação a falar das coisas. Ela fala da sua vida com João, do amor e das despesas que este acarreta. Do sacrifício de ser companheira de um escritor de noites e fins-de-semana.
– É uma obsessão. Às vezes, chego a casa e encontro-o em transe em frente ao computador. Nem me fala. Outras vezes, encontro-o bêbado, a rir-se e a dizer que não tem talento, que a escrita dele não serve para nada, a gozar consigo próprio.
– Isso é-me familiar. Reconheço-o, agora que não tenho dúvidas quanto à minha arte. É uma fase.
– Pode ser. Mas também pode ser que ele se afeiçoe à sensação do fracasso e fique agarrado a ela para sempre.
– Não me parece. Eu já o li. É demasiado talentoso e deve acreditar nesse talento. Só está a ser preguiçoso, acredita.
Entretanto, João pede o seu Favaios e senta-se numa poltrona. Há uma movimentação há volta dos canapés que não lhe agrada, uma histeria que usufrui do intelecto para ser menos óbvia, mas João tem a sensação de conseguir cheirar estes pacóvios elegantes a quilómetros de distância. Dá-lhe vontade de gritar que o artista ali é ele e mais ninguém, mas não o faz. Bebe o seu Favaios e vai pedir outro. O homenzinho do bar olha para ele com ar de desaprovação, mas dá-lhe a bebida e João senta-se outra vez no mesmo sítio, procurando eliminar o nervosismo.
Uma mulher entra de rompante na galeria. João olha para ela. Está nervosa e tem a cara ruborizada e o cabelo despenteado. As roupas condizem com o estado deplorável do corpo. Parece que acordou e vestiu os andrajos de trazer por casa, que tinha à mão de semear, para chegar o mais depressa possível à galeria, não se sabe para fazer o quê – de certeza que não era para ver os quadros. A mulher é avistada e reconhecida por algumas codornizes empinocadas, que a tentam cumprimentar.
– Com licença – diz-lhes com raiva.
– Está maluca!
E corre em direcção ao artista plástico, que continua a falar com Leonor. Os dois voltam-se e assustam-se.
– Seu filho da puta! É com esta cabra que tens andado?
– Eu não tenho nada a ver com a história – diz logo Leonor, desviando-se.
– Estás maluca, ou quê? – diz Luís.
– Já vais ver, cabrão!
E então abre a mala e tira uma lata de spray. É tão rápida que ninguém tem tempo para a impedir. Lança a tinta para a frente, para o quadro da crucificação. O artista põe-se à frente, mas não consegue impedir que um risco enorme e vermelho apareça no quadro.
– Tirem-me esta gaja daqui! – grita Luís.
Os seguranças aparecem e levam a louca, que ainda consegue lançar tinta para a cara de um deles. As pessoas fazem logo um círculo à volta do artista, com a mão na boca. O escritor aparece também, liberta uma gargalhada e diz:
– Agora sim, agora é que está uma obra-prima – a contorcer-se de tanto rir.
– João! – diz Leonor.
O pintor avança e espeta-lhe um murro na cara. João perde a consciência.
21 de abril de 2010
Cada macaco na sua ilha.
Passa-se o seguinte. No mundo há muitas ilhas. Não há senão ilhas. Os meus vizinhos da cave esquerda, por exemplo, habitam numa ilha próxima da minha. Próxima, mas distante. A família é numerosa e eles divertem-se – os putos brincam na praia, fazem castelos na areia que são réplicas em miniatura dos que existem nas ilhas da imaginação. Mas é terrível, porque há noite o homem embebeda-se sozinho e pragueja, amaldiçoando a sua condição de pai. Para ele, já não há ilhas imaginárias, porque perdeu a capacidade de sonhar. Já viu muito. Já esteve em outras ilhas de outros arquipélagos. Teve amantes e aventuras. Mas agora não há volta a dar, está casado com uma mulher, uma família e uma ilha, e por isso embebeda-se e contempla o horizonte, onde outras ilhas flutuam num mar imenso de solidão. Numa das ilhas que ele vê ao longe, estou eu. A minha ilha é de cimento e não há sombras. Não há nada. Tenho miragens. Muitas miragens. O sol entra na minha cabeça e vejo coisas que não devia ver. Também sou uma criança, mas os meus castelos construo-os no ar e eles desfazem-se, porque não são nada, mas eu não desisto e volto a construí-los, como se algum dia fossem ser alguma coisa. Passo o dia assim, nestas edificações mentais. Se pudesse, lançava-me ao mar e nadava até encontrar outra ilha ou até morrer, mas não sei nadar nem morrer. Às vezes sonho que posso caminhar sobre a água e visito as mais diversas ilhas e vivo as mais diversas pândegas. Sonho que caminho sobre o mar pelo menos até encontrar uma ilha habitada por uma mulher solitária, como eu; mas a ilha não é de cimento, e tem árvores frondosas que dão muita sombra, uma floresta cheia de pássaros coloridos que cantam. E essa mulher trataria das minhas feridas e eu não precisaria de ter visões, porque o nosso amor seria suficiente para apaziguar a minha fúria de rasgar a realidade. E, se soubesse andar sobre a água, ou pelo menos nadar sem me cansar, visitaria outras gentes e outros lugares, seria um verdadeiro cidadão do mundo.
Mas permaneço no meu país de cimento. Falo sozinho com frequência, faz parte da minha loucura. Há outros como eu. Há uma ilha com um velho que foi casado três vezes e tem imensos netos, só que ele já não sabe onde eles estão. Nunca o visitam. A esposa está moribunda e geme. Diz que quer morrer. Haverá uma ilha para os mortos? Noutra ilha há um rapaz e uma rapariga que à noite conjugam os corpos num jogo às vezes terno e doce, outras furioso e violento, e de manhã fogem um do outro. Fazem isto todos os dias. Estão apaixonados. Não há mais ninguém à volta por quem se possam apaixonar. Todas estas pessoas estão longe de mim. Outro sonho recorrente é o de um dia os homens construírem pontes ligando as ilhas, e de as pessoas irem por elas ao encontro umas das outras e celebrarem-se umas às outras. Declarações de amor. Às vezes tenho este sonho quando estou acordado. Dói-me sonhar acordado. Dói-me imenso.
O Tipo desliga o telefone.
20 de abril de 2010
Eu, Jesus e Karl Marx! A faceta política de Carson McCullers.

18 de abril de 2010
De quando as noites tinham cores e cheiros e formas
De quando não era casado
Com NADA!
Recordo-ma da inocência
Da aventura
De desconhecer que o meu corpo inteiro havia de desaguar com as minhas próprias fezes no lago subterrâneo onde hoje me encontro
Subalterno
Com as outras cabeças decapitadas cheias de razão
Insulares
Arredadas das mãos
Que haviam de construir um país enorme sem bandeira onde se pudesse brincar à vontade
Um eterno jardim-de-infância
De pernas que haviam de correr através de campos infindos verdes e vermelhos
(e atravessá-los-íamos, e nadaríamos também em oceanos infinitos).
Havíamos de construir um barco e chegaríamos ao outro lado!
As nossas mentes insólitas ao abrigo da luz, seguras na sua imundície…
Agora vem ter comigo uma ratazana fluorescente enorme e diz-me
- Vem ter comigo à esquina sem nome, a tal que não vem nos mapas. Sabes bem qual é.
Uma velha ratazana sabichona. Encontro-a na tal esquina sem nome. Uma velha esquina. Ninguém me havia dito qual era, mas eu tinha a sua imagem na minha mente. Uma memória genética da humanidade. Percorri o submundo e encontrei-a.
Acordo. Flutuo como os outros merdas inteligentes.
Deixo o sonho. À minha volta só há escuridão. Para quê sonhar?
Fico feliz.
Perco as chaves, deixo-as cair para baixo, para o abismo do qual formo o começo.
Já não existem. Nunca existiram. Foram ilusões.
Subitamente
Um oceano de luz ilumina a nossa gente
Não somos cães, não somos merdas
Somos homens e mulheres
Com braços, pernas, corações
E mentes vivas que fazem.
Mas a luz acendeu-se somente para os guardas imperiais descerem
E pisarem
E matarem
Os braços, as pernas
As mentes
As palavras
A liberdade.
Porque um de nós acordou. Fui eu.
17 de abril de 2010
She penetrates my radar
14 de abril de 2010
Episódio sem Importância
Eu tinha 17 anos. Nessa altura, eu era um miúdo da rua. Estava sempre com os meus camaradas. Frequentávamos tascas e enfrascávamo-nos sempre que podíamos. Uma tarde de Sábado, depois de termos estado a beber cerveja e a comer caracóis, íamos nós a sair da tasca, vêm ao nosso encontro um homem e uma mulher de meia-idade. Queriam vender-nos qualquer coisa. Reparámos que tinham uns panfletos horríveis nas mãos e uns sorrisos otários nas bocas. Uns sorrisos beatíficos. A entrada para o Paraíso, era o que eles nos queriam vender, e nós meio tocados. Perguntaram-nos se lhes podíamos dispensar um poucochinho do nosso tempo. O Miguel disse logo que não, que tínhamos mais que fazer (e é claro que nós não tínhamos nada para fazer, senão andar por ali ás voltas a pandilhar), mas eu disse «Não, espera lá, deixa-os lá dizerem o que têm para dizer. Temos que lhes dar uma oportunidade.» Naquela altura eu já era ateu e sabia que Deus não existia, mas sabia-o há pouco tempo e era muito arrogante com esse assunto. Ria-me à vontade das pessoas que eram cegamente crentes.
– Os meninos foram baptizados?
– Eu fui baptizado, mas agora sou satanista – isto foi precisamente o que eu disse, e os outros riram-se. – O satanismo, sabe o que isso é? – perguntei-lhes em tom de provocação, em voz muito alta, quase a gritar. Estava possesso.
O homem e a mulher entreolharam-se, meio assustados, mas o homem respondeu:
– O menino é adorador do Sátã? – com um sotaque de aldeia do distrito de Bragança.
– De certa meneira. Quer dizer que eu celebro a minha vida pelo culto da luxúria e do hedonismo. Não tenho namorada, arranjo sempre mulheres aí da rua para enfiar o pincel, só me venho em conas porcas, e só saio à rua para me embebedar e arranjar disparates. Não é, pá? – e dou uma chapada valente nas costas do Miguel.
Deitámo-nos logo a rir.
– Vamos embora – disse a mulher, com os olhos grandes e nervosa. – Não vale a pena. Vamos – a voz a tremer-lhe. Também, não era caso para tanto.
– Vamos orar por vocês – ainda disse o velho, ao irem-se embora. – Que Deus esteja convosco.
– Ele não está no meio de nós! – gritou o Carlos.
Não sei por que é que me recordo tão bem deste episódio.


