27 de maio de 2010

Dois Pássaros a Voar (6)

Entro no vagão com as outras pessoas, vacas furibundas como eu, e vou dentro dele enquanto escurece, escurece sobre os telhados dos prédios mais frágeis do que toda a gente supõe. Célere, o vagão fura a cidade a caminho de paraísos e infernos pessoais, das diversas noites em que nos recolhemos exaustos para descansarmos do dia, e aqueles que não precisam de repouso extremo, que não sentem a necessidade de sucumbir ao torpor da cidade para a ele voltarem amanhã, tentam fazer uma aproximação à vida, se não forem suficientemente cobardes para a desperdiçarem – isto porque a vida não é um mito, não, a vida existe perto de nós à espera da conquista, da nossa conquista, e ninguém a pode realmente sabotar. Porque vou para casa e tenho algumas horas livres pela frente, deixo que a minha disposição se altere automaticamente, libertando-me até de pensar na minha saúde mental. Estas transições rápidas de humor são frequentes, talvez diárias – agendar emoções, é disso que se trata. Não posso estar sempre chateado, nem constantemente em desacordo com o mundo. Por exemplo, neste momento concordo plenamente com as mamas da rapariga que vai sentada à minha frente, apertadas dentro duma blusa preta, as pernas cruzadas sob uma sebenta de álgebra elementar de que os olhos se alimentam, estudiosos. Concordo também com o preto que vai ao lado dela, lançando-lhe pequenos olhares indiscretos, fingindo contemplar a paisagem de prédios que monstruosamente nos cerca – e, neste momento, é somente com esta que discordo, porque sou arquitecto, mas já estou habituado. Em certos dias, não estou para pensar em discordâncias e no que fazer com elas. Deixo-me então absorver pela realidade, pelo mundo que se concentra totalmente neste ou noutro comboio, em permanente mudança. Entretanto, presto atenção ao estrépito da carruagem, ao ruído das rodas a girarem sobre as calhas, e deixo-me embalar pela sua monotonia, lentamente resvalando pela ladeira do sono. Encosto a cabeça à janela e adormeço.
Dentro de mim, o comboio vai através duma noite muito densa – deve ter havido um corte geral de electricidade e as luzes das ruas e dos prédios estão apagadas –, as pessoas todas muito caladas, fechadas num mutismo horrível, e uma luz vermelha de câmara de revelação fotográfica predomina como o ar abafado, pesado, que temos de respirar. Ninguém comenta o desconforto. Vejo as mamas da rapariga a subir e a descer, o seu rosto inexpressivo como o de uma boneca insuflável. Ao seu lado, os olhos do preto estão vermelhos de sangue, mas não têm pupilas, e os seus pulmões incham e desincham muito rapidamente, a um ritmo que eu não julgava ser possível. De repente, mais à frente no corredor, cai uma velha ao chão, morta, e da sua boca sai um pequeno rio de sangue. Ninguém reage, talvez por estarem todos demasiado ocupados com este esforço pulmonar de sobrevivência, tentando capturar o pouco oxigénio que existe; e eu não sou diferente, também os meus pulmões são sacos que se abrem e fecham sem se cansarem, embora não tão freneticamente quanto os do preto – deve ser o próximo a cair ao chão, morto. Assim acontece. O cadáver tomba sobre as minhas pernas. O peso é insuportável, as pernas doem-me. O meu instinto é erguer-me e empurrar o cadáver para o outro lado, mas, quando o tento fazer, percebo logo que estou congelado, cativo daquela imobilidade que não é só minha, que é também das outras pessoas, que é de todos. Não me consigo mexer. O meu organismo não me pertence. Só os pulmões se mexem, num movimento autónomo, como se me quisessem manter naquele estado angustiante em vez de me deixarem morrer. Começo a respirar cada vez mais depressa, abrindo e fechando os sacos como eu não acreditava ser possível, e uma violência enorme, incomensurável, chega-me ao coração e à consciência. É a minha vez de morrer. Entro logo num pânico de tal ordem, que consigo desfazer a imobilidade, gritando.
Acordo assarapantado. De certeza que gritei. As pessoas à minha volta olham para mim e riem-se. Sinto-me envergonhado, e então levanto-me e vou para a carruagem da frente, onde fico em pé a olhar para a cidade, que é uma festa de luzes. As pessoas falam, gesticulam, mexem-se nos assentos, volteiam as cabeças… Estão vivas. Continuo a sentir os pulmões a abrirem-se e a fecharam-se.
Entretendo, a minha estação aparece na paisagem e o comboio para. Saio angustiado, convicto de que o sonho ainda existe dentro de mim, levando-me a entrar aos poucos numa verdade que não pode ser revelada de imediato por ser demasiado aterradora (a verdade age na semi-obscuridade, tendo os símbolos como intermediários). Mas tenho medo de passar a sonhar de dia, e de a minha lucidez testemunhar essas visões – ficaria então irremediavelmente louco…
Ponho-me a caminhar através da chuva oblíqua, seguindo a corrente dos trabalhadores que vão para casa, para a vida familiar. A mim, espera-me uma casa vazia. Entro nela e ligo a aparelhagem, e ponho Black Sabath, que conjuga bem com o meu estado de espírito. Vinho tinto também – abro uma garrafa e sento-me no sofá, a encher copos e a tragá-los. Nos primeiros, o vinho sabe muito mal, é horrível, mas continuo a beber até ficar um suficientemente zonzo. Depois, a garrafa quase consumida, levanto-me e vou deliciar-me com a preparação do jantar – peito de frango salteado com cogumelos, pimento vermelho e bastante alho e cebola, em molho de natas e açafrão, a acompanhar com arroz selvagem e uma cerveja belga excelente. Como ao som do Ali Farka Touré, hipnotizado. Depois, deixo que os licores me embotem ainda mais o cérebro, dando-me uma sonolência tal que morro na solitude do meu quarto. Apaga-se a luz, acaba-se o dia.