27 de maio de 2010

Dois Pássaros a Voar (3)

É a minha estação. Eu e mais umas quantas cabeças grosseiras saímos para que outros possam preencher o vazio deixado por nós, entrando na carruagem que os levará a cumprir a rotina diária. Vou em direcção ao trabalho e ganho consciência de não estar sozinho na rua. O ruído, os cheiros, todo o mundo visível que me rodeia, entram pelos meus sentidos cavalgando sem que eu possa decidir se os quero deixar entrar. Levanto a cabeça por uns instantes e olho à volta, e vendo os que me rodeiam não consigo afastar um pensamento: a ideia de que a maioria de nós parece ser feita de plástico… uma breve camada de verniz a proteger uma superfície fina, nada lá dentro. Apodera-se de mim um forte impulso de ir ter com alguém e espetar-lhe um alfinete para ver se se esvazia deixando apenas um pequeno trapo do que era. Estou certo que alguns são muito mais espessos do que imagino. De facto, se me visse a mim mesmo à distância, olhando para o vazio, caminhando submisso, eu próprio estaria certo que um alfinete bem colocado seria fatal para a minha integridade neste mundo. É um facto da vida, cada pessoa anda pela rua tapada por esta camada superficial, e as breves trocas de olhares, ou parcas palavras trocadas, não chegam para espreitar para dentro e ver se algo lá existe.

Trabalho numa firma de arquitectura. Fica no terceiro andar de um prédio feio de esquina. Entro no prédio, entro no elevador, fecho a porta e carrego no botão para subir. Cada nível passa à minha frente enquanto o elevador sobe deixando para trás a rua barulhenta lá fora. Vou-me habituando à ideia de que agora estou no trabalho. Chego ao meu andar e abro a porta.
Somos 7. A empresa é da Celeste, uma arquitecta nos seus 50 anos que vai conseguindo trabalho suficiente para nos manter a todos ocupados e assalariados. O clima é geralmente amigável, sem grandes cumplicidades. A maioria dos meus colegas conheci-os quando me juntei à empresa, mas um deles (o Fialho) tinha sido meu companheiro na faculdade. Um personagem bastante desinteressante – aluno médio, cidadão pacificado, trabalhador sem motivação; sempre a fazer um esforço para parecer alegre, não muito diferente dos outros.
Mal chego, os meus pensamentos são interrompidos pelas saudações matinais do rebanho plastificado.
– Bom dia. Então, tudo bem?
– Oi – respondo.
– Olha, ela quer falar contigo. Disse para quando puderes passares pelo gabinete dela.
– Hmm ok. Obrigado, já lá vou.
Antes de me entregar ao dia, dou uma vista de olhos pelos jornais que são entregues de manhã no escritório. Sento-me para os ler num sofá que o escritório tem para esse propósito (acho que a Celeste o comprou a pensar em mim, mais ninguém o usa). As capas do dia têm todas mais ou menos o mesmo assunto: mais um fogo-posto num armazém abandonado. É o terceiro este mês. Parece que anda por aí alguém a queimar armazéns nos subúrbios industriais da cidade. Instintivamente, tenho uma certa simpatia pela causa, penso. Depois da história da capa, nas primeiras páginas o assunto é política. Mas nem é verdadeiramente política!, são só os casos pessoais envolvendo os políticos. Já ninguém discute política, a discussão agora centra-se nas pessoas. Ninguém fala sobre ideias para a sociedade. Os jornais fazem o favor de manter tudo isto à margem dos leitores e pacifica-os com intrigas, cumprindo o seu papel de ocuparem o lugar de supostos jornalistas sérios que falam sobre assuntos sérios. Leio os textos durante uns minutos, mas quando dou por isso já não estou a ler nada. É tudo tão superficial que nem me consigo concentrar, não há nada onde me agarrar e inevitavelmente divago. Fico só a olhar para o papel e a pensar. A pensar que esta é a minha vida! Sou um empregado numa firma de arquitectura. Como cheguei aqui? O que aconteceu? Era este o caminho inevitável? E, se não fosse, estaria eu a pensar a mesma coisa onde quer que estivesse? Acho que sim. Tenho a certeza que, se estivesse agora por trás do balcão no café ou na padaria ao pé de minha casa, estaria a pensar exactamente o mesmo – a olhar nos olhos de um cliente qualquer a gritar comigo por eu não lhe estar a responder. Qualquer que seja a vida particular que qualquer pessoa tenha, essa vida não passa de um ponto aleatório no meio de um universo de possibilidades. É muito mais aquilo que não somos do que aquilo que somos. E, se chegamos a onde estamos por virtude de tanta coisa que não podemos controlar, o que tem de especial o sítio onde estamos? Nada. E a verdade é que não me sinto apegado a nada do que está à minha volta. O escritório podia arder todo até ao último pedaço de cinza carbonizada, que não me faria a mínima diferença. Num dia de céu carregado, no meio de um ar abafado, imagino-me a vasculhar nos destroços de um imenso incêndio. Onde era o escritório, agora estão escombros. A cinza cobre-me e eu procuro zonas ainda incandescentes para vislumbrar algo da força magistral que teria destruído todo o edifício.
– Bom dia! – Ao ouvir a voz, desvio o olhar do infinito e volto a focá-lo no que se passa à minha frente. Podemos falar no meu gabinete, se não te importares?
A Celeste é uma mulher que de certa forma admiro. É solteira e tem uma filha. Conseguiu mais ou menos o que queria na vida sem sacrificar o humor, o bom senso, o interesse pela arte e a cultura, a empatia, o envolvimento na sociedade. Não sei se é feliz – as mágoas pessoais e privadas de cada um estão para além do meu saber –, mas vive uma vida razoavelmente completa e rica. É a única pessoa no trabalho com quem falar não é apenas uma obrigação. Pouco mais de um mês depois de estar a trabalhar para ela, a empresa teve um grande projecto com um prazo apertado. Lembro-me de fazer noitadas de trabalho, e de essas noitadas serem pautadas por algumas conversas agradáveis. Ambos reservados e cientes da nossa privacidade, íamos deixando pingar pequenos detalhes pessoais por entre outras conversas. Gostava especialmente de notar que a Celeste não parecia fazer nenhum esforço para causar nenhuma impressão em particular. Era como era, sem criar uma personagem para os outros. Nem se masculinizava para parecer mais forte, nem se abonecava para agradar a ninguém. Não era extra-simpática com os amigos e amigas, nem era formal com os colegas. Lidava com todos com a mesma naturalidade (e complexidade). Não há preconceitos, rótulos ou categorias na cabeça da Celeste, há apenas o mundo, e isso dá-me conforto.
Ao vir ter comigo esta manhã ao sofá, não parece estar demasiado séria, por isso não devem ser más notícias. De bom grado, deixo para trás as minhas interrogações matinais sobre a vida e sigo-a até ao gabinete.