Um romance permite que as contradições do seu autor se manifestem, através das personagens que ele cria. Ultrapassa assim a censura dos tempos modernos, que consiste na obsessão pela consistência, o caminho austero do indivíduo, uma personalidade única para um ser único, uma formiga entre as formigas que grita furibunda a importância da sua singularidade enquanto formiga, como se esta deveras existe. Mas não existe. O romancista, como qualquer Zé, é crente e céptico, submisso e rebelde, racional e espontâneo, introvertido e expansivo, diligente e preguiçoso, yin e yang… A sua obra é a expressão épica de uma individualidade de mil facetas. Ele afirma que é múltiplo, que é vários ao mesmo tempo, que não se satisfaz com ser apenas um indivíduo, portador do bilhete de identidade número tal, caucasiano ou preto, homem ou mulher… Ele é branco e preto ao mesmo tempo, homem e mulher, jovem e velho. Cada homem tem mil dentro de si, e os dedos do escritor trabalham freneticamente para afirmarem essa profusão da existência, essa teimosia em ser vários. A mente do escritor é habitada pela humanidade.