31 de março de 2009

A Cidade Secreta

Lisboa. Essa cidade em que vives e trabalhas, onde gozas e brincas e vais ao cinema, essa cidade que é a capital de um país chamado Portugal, ao qual pertences como um galináceo triste e orgulhoso pertence ao seu aviário, à sua nação, essa cidade que é das capitais mais portuguesas do consórcio das capitais mundiais da preguiça política, de que tu tens estúpido orgulho, é mais do que a cidade, é mais do que a materialização da ignorância semi-consciente com que te proteges das investidas do Tempo e da Morte – face aos quais pátrias, deuses e drogas são meros paliativos, para uso individual ou colectivo. Mais tarde, quando reconheceres a vera realidade da dor, a tua e a dos outros, quando reconheceres que não há remédio eficaz para a mesma e aprenderes a compaixão, saberás como e porquê. Porque agora talvez eu não saiba dizer mais do que isto: Lisboa é mais do que este nome. Lisboa tem na sua constituição indivíduos que ultrapassam em paixão, beatitude e dignidade a História de que são os filhos ilegítimos, filhos que recusam o esmagador H, que ergueriam vozes furiosas não fosse… Calo-me. Não sei explicar. Talvez tenha sugerido qualquer coisa. Ficas a saber que esses elementos anti-geográficos e anti-históricos, ou supra-históricos, existem.
Para além da monotonia da cidade, para além da própria cidade com as pessoas tristes que sorriem e toda a parafernália e rituais urbanos, toda a horrível sazonalidade, todos os ciclos que se repetem imutáveis de ano para ano, há outra cidade, uma cidade incógnita e pouco importante dentro da cidade propriamente dita. Uma cidade feita de lugares e acontecimentos imprevistos, onde tudo o que há de morte é mesmo morte, e tudo o que há de vida é mesmo vida. Os cidadãos que a habitam têm aparência normal, mas não são bibelôs. Não são bibelôs.
Os cidadãos que habitam a cidade secreta dentro da cidade dos ofícios têm rostos normais, mas esses rostos mascaram uma realidade feita de luzes e sombras em alternância louca. Dentro deles há uma realidade, uma verdade perversa, uma lucidez e uma loucura que é ao mesmo tempo uma dor e um júbilo fenomenais.

29 de março de 2009

A Segunda Vida de Rimbaud

Naveguei durante muito tempo no mar desabitado e selvagem da poesia, barco bêbado à deriva num campo imenso que eu julgava incriado, à procura do amor do ser humano, a compensação de uma orfandade pela via secreta das palavras. Lancei-me com esperança e desvario no encalço do sonho de fraternidade, escravizei-me ao idealismo da arte – não encontrei nada nem ninguém, e talvez ainda agora esteja a sofrer, a ressacar dessa visão fatal do deserto em que o artista tinha visões que eram apenas visões, que não eram nada. A palavra que eu gritei no seio da solidão era afinal tão estéril quanto o mundo que eu abominava, para o qual eu queria criar uma alternativa. Era um ofício de castidade absorvido nas falácias da criação vã.
A realidade, porém, a realidade visível do mundo, das vidas das pessoas de carne e osso, pertence a esse colectivo abominável, a toda a humanidade, e nenhum poeta a pode transformar por via das suas deambulações. Tencionei depois regressar à acção política, mas constatei então que estava só, como estou agora, em reclusão, e caí num universo pessoal de depressão e angústia, apetrechado de horrores góticos e lucubrações macabras alimentadas pela glória alquímica do cânhamo e dos cogumelos, que eu comia como se ainda houvesse uma verdade escondida da qual eu aguardava pelo menos um vislumbre, e que essas drogas poderiam talvez facultar, uma visão libertadora, e continuava a escrever e a pintar as paisagens que encontrava pelo caminho. Depois da anterior decepção, e consciente desta, fi-lo por não haver mais nada na minha vida pessoal, apenas por um desporto de redenção, na continuação inevitável dos dias iguais, até ao fim… Foi quando fiz a melhor poesia, quando não esperava nada dela, quando a entreguei ao destino e à vontade dos elementos naturais e à trajectória dos astros. Caí no lugar obscuro dos suplícios com que resolvi afligir-me, por não haver mais nada. A arte é uma inevitabilidade abjecta, inútil mas obrigatória, como a vida mecânica que as pessoas normais têm, para depois morrerem sem deixarem o seu registo na História. Recomecei a produzir poemas, já não para transgredir ou para explorar, já não para construir o que quer que fosse, mas por uma questão de identidade, por me saber poeta.

14 de março de 2009

O efeito do álcool na percepção do tecelão sulista de Carson McCullers

O álcool de Miss Amélia é uma coisa à parte. É puro e queima na língua, mas, quando desce, faz efeito durante muito tempo. Mas não é tudo. É sabido que, se uma mensagem é escrita com sumo de limão numa folha de papel branco, não se vê. Mas se o papel for aproximado do fogo, então as letras aparecem castanhas e o significado torna-se claro. Imagine-se que o whisky é o fogo, que a mensagem apenas é conhecida pela alma do próprio – é assim que o valor do álcool de Miss Amélia pode ser avaliado. Coisas que passaram despercebidas, pensamentos que, acumulados no fundo da mente, são repentinamente revelados e compreendidos… Um tecelão que só se preocupa com o tear, a lancheira, a cama e novamente o tear – este tecelão pode beber um pouco no domingo e deparar com um lírio do pântano. E, com a flor na palma da mão, examinará a corola frágil e sentirá uma doçura tão penetrante como o sofrimento. O tecelão levantará os olhos vendo, de súbito, pela primeira vez, o sinistro e frio brilho do céu de Janeiro à meia-noite, e o receio profundo da sua própria pequenez far-lhe-á parar o coração… Coisas como esta aconteciam quando um homem bebia o whisky de Miss Amélia. Podia sofrer ou ficar exausto de alegria – mas a verdade fora revelada: a alma tornara-se cálida e lera a mensagem nela escondida.

Carson McCullers, Balada do Café Triste, trad. José M. Guardado Moreira, Relógio d'Água, 2001

8 de março de 2009

Bring me numbness - regarding alcoholism

Farto de percorrer os caminhos desolados e perigosos da simbologia, cansado dos sons estranhos e assustadores que neles encontrava, Hemingway matava ocasionalmente o vício das palavras com o vício do álcool, que é bem menos incómodo. A embriaguez crónica, muitas vezes fatal, que muitas vezes encontras nos teus amigos literatos, não é senão o sintoma menor de uma doença maior: a sobriedade. É preciso abafá-la, eis porque recorremos com frequência pouco recomendável a um estupefaciente qualquer. Refiro-me ao excesso de lucidez, e este, como todos os excessos, resolve-se com outro excesso, que é o do entorpecimento quimicamente induzido. Desenvolve-se uma tensão insuportável entre a minha sobriedade e a loucura do mundo, e então, para nele me integrar e acalmar as marteladas dolorosas da inteligência, emborco o que possa encontrar que tenha álcool, álcool em abundância...

Tale of a Tub - mais um poema da Sylvia

The photographic chamber of the eye
records bare painted walls, while an electric light
flays the chromium nerves of plumbing raw;
such poverty assaults the ego; caught
naked in the merely actual room,
the stranger in the lavatory mirror
puts on a public grin, repeats our name
but scrupulously reflects the usual terror.

Just how guilty are we when the ceiling
reveals no cracks that can be decoded? when washbowl
maintains it has no more holy calling
than physical ablution, and the towel
dryly disclaims that fierce troll faces lurk
in its explicit folds? or when the window,
blind with steam, will not admit the dark
which shrouds our prospects in ambiguous shadow?

Twenty years ago, the familiar tub
bred an ample batch of omens; but now
water faucets spawn no danger; each crab
and octopus - scrabbling just beyond the view,
waiting for some accidental break
in ritual, to strike - is definitely gone;
the authentic sea denies them and will pluck
fantastic flesh down to the honest bone.

We take the plunge; under water our limbs
waver, faintly green, shuddering away
from the genuine color of skin; can our dreams
ever blur the intransigent lines which draw
the shape that shuts us in? absolute fact
intrudes even when the revolted eye
is closed; the tub exists behind our back;
its glittering surfaces are blank and true.

Yet always the ridiculous nude flanks urge
the fabrication of some cloth to cover
such starkness; accuracy must not stalk at large:
each day demands we create our whole world over,
disguising the constant horror in a coat
of many-colored fictions; we mask our past
in the green of Eden, pretend future's shining fruit
can sprout from the navel of this present waste.

In this particular tub, two knees jut up
like icebergs, while minute brown hairs rise
on arms and legs in a fringe of kelp; green soap
navigates the tidal slosh of seas
breaking on legendary beaches; in faith
we shall board our imagined ship and wildly sail
among sacred islands of the mad till death
shatters the fabulous stars and makes us real.

5 de março de 2009

Pedra Filosofal

O que hei-de fazer com esta pedra jamais vista, esta raridade da natureza? Pô-lo no bolso, atirá-la com força ao oceano de forma a rodopiar e saltar sete vezes até mergulhar finalmente no esquecimento, como se fosse uma pedra vulgar, comê-la com pão, sardinhas e vinho tinto, enterrá-la como os cães fazem com os ossos? Tenho guardado sempre as minhas pedras invulgares, mais invulgares que as pedras encontradas pelos meus conterrâneos – guardo-as num jazigo de vidro, bem fechadinhas e mortas, sem poderem sair, mas visíveis. Recorro ao jazigo ocasionalmente, em noites de desespero, para me lembrar da felicidade de ter encontrado as pedras e das doses de sabedoria, doces ou amargas, que elas me proporcionaram. Mas não tenho orgulho da minha colecção particular de pedras – às vezes até acho ridícula essa posse, a compreensão que aos poucos se vai formando do mundo e do universo. Chegarei a ser Deus? Receio bem que sim. Não me agrada. Tenho inveja de quem não sabe nada. Mas que posso eu fazer? Está tudo a tornar-se horrivelmente claro, transparente, como na poesia mais insuportável e trágica da Sylvia Plath. A lucidez é algo de terrível. Não o disse também o Fernando Pessoa em tantas ocasiões da sua obra? O saber e o desespero… Mas não pretendo parecer reaccionário ao fazer este tipo de afirmações, até porque acredito no saber e na consciência. E os que não sofrem são concerteza cadáveres.