31 de março de 2009
A Cidade Secreta
29 de março de 2009
A Segunda Vida de Rimbaud
A realidade, porém, a realidade visível do mundo, das vidas das pessoas de carne e osso, pertence a esse colectivo abominável, a toda a humanidade, e nenhum poeta a pode transformar por via das suas deambulações. Tencionei depois regressar à acção política, mas constatei então que estava só, como estou agora, em reclusão, e caí num universo pessoal de depressão e angústia, apetrechado de horrores góticos e lucubrações macabras alimentadas pela glória alquímica do cânhamo e dos cogumelos, que eu comia como se ainda houvesse uma verdade escondida da qual eu aguardava pelo menos um vislumbre, e que essas drogas poderiam talvez facultar, uma visão libertadora, e continuava a escrever e a pintar as paisagens que encontrava pelo caminho. Depois da anterior decepção, e consciente desta, fi-lo por não haver mais nada na minha vida pessoal, apenas por um desporto de redenção, na continuação inevitável dos dias iguais, até ao fim… Foi quando fiz a melhor poesia, quando não esperava nada dela, quando a entreguei ao destino e à vontade dos elementos naturais e à trajectória dos astros. Caí no lugar obscuro dos suplícios com que resolvi afligir-me, por não haver mais nada. A arte é uma inevitabilidade abjecta, inútil mas obrigatória, como a vida mecânica que as pessoas normais têm, para depois morrerem sem deixarem o seu registo na História. Recomecei a produzir poemas, já não para transgredir ou para explorar, já não para construir o que quer que fosse, mas por uma questão de identidade, por me saber poeta.
14 de março de 2009
O efeito do álcool na percepção do tecelão sulista de Carson McCullers
Carson McCullers, Balada do Café Triste, trad. José M. Guardado Moreira, Relógio d'Água, 2001
8 de março de 2009
Bring me numbness - regarding alcoholism
Tale of a Tub - mais um poema da Sylvia
records bare painted walls, while an electric light
flays the chromium nerves of plumbing raw;
such poverty assaults the ego; caught
naked in the merely actual room,
the stranger in the lavatory mirror
puts on a public grin, repeats our name
but scrupulously reflects the usual terror.
Just how guilty are we when the ceiling
reveals no cracks that can be decoded? when washbowl
maintains it has no more holy calling
than physical ablution, and the towel
dryly disclaims that fierce troll faces lurk
in its explicit folds? or when the window,
blind with steam, will not admit the dark
which shrouds our prospects in ambiguous shadow?
Twenty years ago, the familiar tub
bred an ample batch of omens; but now
water faucets spawn no danger; each crab
and octopus - scrabbling just beyond the view,
waiting for some accidental break
in ritual, to strike - is definitely gone;
the authentic sea denies them and will pluck
fantastic flesh down to the honest bone.
We take the plunge; under water our limbs
waver, faintly green, shuddering away
from the genuine color of skin; can our dreams
ever blur the intransigent lines which draw
the shape that shuts us in? absolute fact
intrudes even when the revolted eye
is closed; the tub exists behind our back;
its glittering surfaces are blank and true.
Yet always the ridiculous nude flanks urge
the fabrication of some cloth to cover
such starkness; accuracy must not stalk at large:
each day demands we create our whole world over,
disguising the constant horror in a coat
of many-colored fictions; we mask our past
in the green of Eden, pretend future's shining fruit
can sprout from the navel of this present waste.
In this particular tub, two knees jut up
like icebergs, while minute brown hairs rise
on arms and legs in a fringe of kelp; green soap
navigates the tidal slosh of seas
breaking on legendary beaches; in faith
we shall board our imagined ship and wildly sail
among sacred islands of the mad till death
shatters the fabulous stars and makes us real.
5 de março de 2009
Pedra Filosofal
O que hei-de fazer com esta pedra jamais vista, esta raridade da natureza? Pô-lo no bolso, atirá-la com força ao oceano de forma a rodopiar e saltar sete vezes até mergulhar finalmente no esquecimento, como se fosse uma pedra vulgar, comê-la com pão, sardinhas e vinho tinto, enterrá-la como os cães fazem com os ossos? Tenho guardado sempre as minhas pedras invulgares, mais invulgares que as pedras encontradas pelos meus conterrâneos – guardo-as num jazigo de vidro, bem fechadinhas e mortas, sem poderem sair, mas visíveis. Recorro ao jazigo ocasionalmente, em noites de desespero, para me lembrar da felicidade de ter encontrado as pedras e das doses de sabedoria, doces ou amargas, que elas me proporcionaram. Mas não tenho orgulho da minha colecção particular de pedras – às vezes até acho ridícula essa posse, a compreensão que aos poucos se vai formando do mundo e do universo. Chegarei a ser Deus? Receio bem que sim. Não me agrada. Tenho inveja de quem não sabe nada. Mas que posso eu fazer? Está tudo a tornar-se horrivelmente claro, transparente, como na poesia mais insuportável e trágica da Sylvia Plath. A lucidez é algo de terrível. Não o disse também o Fernando Pessoa em tantas ocasiões da sua obra? O saber e o desespero… Mas não pretendo parecer reaccionário ao fazer este tipo de afirmações, até porque acredito no saber e na consciência. E os que não sofrem são concerteza cadáveres.