27 de outubro de 2009

Insomniac

The night is only a sort of carbon paper,
Blueblack, with the much-poked periods of stars
Letting in the light, peephole after peephole –
A bonewhite light, like death, behind all things.
Under the eyes of the stars and the moon's rictus
He suffers his desert pillow, sleeplessness
Stretching its fine, irritating sand in all directions.

Over and over the old, granular movie
Exposes embarrassments – the mizzling days
Of childhood and adolescence, sticky with dreams,
Parental faces on tall stalks, alternately stern and tearful,
A garden of buggy rose that made him cry.
His forehead is bumpy as a sack of rocks.
Memories jostle each other for face-room like obsolete film stars.

He is immune to pills: red, purple, blue –
How they lit the tedium of the protracted evening!
Those sugary planets whose influence won for him
A life baptized in no-life for a while,
And the sweet, drugged waking of a forgetful baby.
Now the pills are worn-out and silly, like classical gods.
Their poppy-sleepy colors do him no good.

His head is a little interior of grey mirrors.
Each gesture flees immediately down an alley
Of diminishing perspectives, and its significance
Drains like water out the hole at the far end.
He lives without privacy in a lidless room,
The bald slots of his eyes stiffened wide-open
On the incessant heat-lightning flicker of situations.

Nightlong, in the granite yard, invisible cats
Have been howling like women, or damaged instruments.
Already he can feel daylight, his white disease,
Creeping up with her hatful of trivial repetitions.
The city is a map of cheerful twitters now,
And everywhere people, eyes mica-silver and blank,
Are riding to work in rows, as if recently brainwashed.

Sylvia Plath

24 de outubro de 2009

O RÉPTIL QUE DEIXOU DE SER RÉPTIL

Falamos também de uma aventura de visões que persistem inquietas nas suas mutações escandalosas, que nunca se tornam escassas e que porventura transbordam a taça da sanidade mental, que inevitavelmente transportam o monstro ao local onde ele é executado, apedrejado até à morte pelo povo ainda mais hediondo do que ele, sim o povo que se vê defraudado, talvez injustiçado, vilipendiado porque os actos do gigante se tornaram escabrosos, demasiado extasiantes, demasiado profanos e de uma obscenidade intolerável. Porque o réptil fartou-se de ser réptil, da sua condição reptiliana e rastejante, e decidiu inventar a dignidade e criar uma nova espécie, e então encarnou o conceito e tornou-se um homem e cresceu. Não se contentando com esse primeiro crime, ainda teve a ousadia de expandir o conceito e quis inventar a humanidade. Mas os répteis não querem deixar de ser répteis e rastejar sob o olhar implacável do Deus, também inventado, que logo lhes ordena que assassinem o monstro, o infame ser humano, antes que a humanidade nasça da nebulosa fantasia e comece a debandada geral. E então os répteis montam um altar, levam a ele o gigante e matam-no.
Acontece que o sangue do artista é também um acontecimento que gera um rio que não cessa porque é de uma abundância infinita. E é por isso que estamos aqui e falamos destas coisas, porque continuamente vemos o sangue do poeta extremo e dele bebemos, e dele nascemos, humanos, e continuamos a inventar a humanidade. Não desistimos.
high on rebellion


what i feel when i'm playing guitar is completely cold and crazy. like i don't owe nobody nothing and it's a test just to see how far i can relax into the cold wave of a note. when everything hits just right (just and right) the note of nobility can go on forever. i never tire of the solitary E and i trust my guitar and don't care about anything. sometimes i feel like i've broken through and i'm free and i could dig into eternity riding the wave and realm of the E. sometimes it's useless. here i am struggling and filled with dread – afraid that i'll never squeeze enough graphite from my damaged cranium to inspire or asphyxiate any eyes grazing like hungry cows across the stage or page. inside i'm just crazy. inside i must continue. i see her, my stiff muse, jutting about in the forest like a broken speeding statue. the colonial year is dead and the greeks too are finished. the face of alexander remains not solely due to sculpture but through the power and magnetism and foresight of alexander.

the artist preserves himself. maintain his swagger. is intoxicated by ritual as well as result. look at me i'm laughing. i am lapping cocaine from the hard brown palm of the bouncer. i trust my guitar.

therefore we blackout together. therefore i would wade thru scum for him and scum is ahead but we just laugh. ascending through the hollow mountain i am peeking. we are kneeling we are laughing we are radiating at last. this rebellion is a gas which we pass.

em Babel, Patti Smith, G. P. Putnam's Sons, New York, 1978

15 de outubro de 2009

O estrondo da lucidez quando recuperamos do ilusório estupefaciente... É como um bofetada fria, o choque do ar gelado quando embate com o calor do organismo, as vagas violentas do mar contra um rochedo solitário que perde a esperança e quase desaba para desaparecer nas águas do esquecimento. E nós revoltamo-nos, não gostamos desta diferença. Aqueles que de nós são corajosos, tomam uma de duas vias, em vez de ficarem parados - ou aceitam o mundo e morrem, perdendo-se nele para sempre, ou simplesmente incendeiam o mundo, ateiam fogos em toda a parte até serem assassinados.
Às vezes a música vem trazer alívio à alma danada, que na sua timidez conjectura uma aplicação da sua ira, num quarto onde toma lugar um tumulto secreto e insondável.
A música não tolera o silêncio, o segredo, e assalta todos os lugares, dissipa todas as sombras, desfaz todos os medos...
A cirurgia fará, claro, novos progressos, embora seja difícil perceber para que servirão. Todo o nosso modo de vida tem de se modificar. Nós não precisamos de melhores recursos cirúrgicos, precisamos de uma vida melhor. Se todos os cirurgiões, todos os analistas, todos os médicos pudessem ser retirados da sua actividade e reunidos durante um tempo no grande anfiteatro de Epidauro, se pudessem discutir em paz e sossego geral, a resposta seria encontrada rapidamente, e seria unânime: REVOLUÇÃO. Uma revolução à escala mundial de alto a baixo, em todos os países, em todas as classes, em todos os domínios da consciência. O combate não é contra a doença: a doença é um derivado. O inimigo do homem não são os micróbios, mas o próprio homem, o seu orgulho, os seus preconceitos, a sua estupidez, a sua arrogância. Nenhuma classe está imune, nenhum sistema possui uma panaceia. Cada um, individualmente, tem de se revoltar contra um modo de vida que não é o seu. A revolta, para ser eficaz, tem de ser contínua e inexorável. Não chega derrubar governos, senhores, tiranos: cada um tem de derrubar as suas próprias ideias preconcebidas de certo e errado, bom e mau, justo e injusto. Temos de abandonar as trincheiras arduamente disputadas em que nos metemos e sair para terreno aberto, e renunciar às nossas armas, aos nossos haveres, aos nossos direitos como indivíduos, classes, nações, povos. Mil milhões de homens que procuram a paz não podem ser escravizados. Escravizámo-nos a nós próprios com a nossa visão mesquinha e circunscrita da vida. É magnífico oferecer a própria vida por uma causa, mas os mortos não realizam nada. A vida exige que ofereçamos algo mais: espírito, alma, inteligência, boa vontade. A natureza está sempre pronta para preencher as lacunas deixadas pela morte, mas a natureza não pode fornecer a inteligência, a vontade, a imaginação para derrotar as forças da morte. A natureza restaura e repara, mais nada. Ao homem cabe erradicar o instinto homicida, que é infinito nas suas ramificações e manifestações. É inútil evocar Deus, assim como é vão responder à força com a força. Toda a batalha é um casamento concebido em sangue e angústia, toda a guerra é uma derrota para o espírito humano. A guerra é apenas uma imensa manifestação, em estilo dramático, dos falsos, ocos e pseudo conflitos que diariamente têm lugar em toda a parte, até mesmo nos chamados tempos de paz. Todo o homem contribui com a sua parte para manter a carnificina em acção, até aqueles que parecem manter-se afastados. Estamos todos envolvidos, participamos todos, quer queiramos quer não. A Terra é criação nossa e nós temos de aceitar os frutos da nossa criação. Enquanto nos recusarmos a pensar em termos do bem do mundo e dos bens do mundo, de ordem mundial e paz mundial, assassinar-nos-emos e atraiçoar-nos-emos uns aos outros. Isso pode continuar até à trombeta do juízo final, se desejarmos que seja assim. Nada pode trazer um mundo novo e melhor, a não ser o nosso próprio desejo de que ele chegue. O homem mata por medo, e o medo é uma hidra. Desde que comecemos a chacinar, não haverá fim para isso. Uma eternidade não chegará para vencer os demónios que nos torturam. Quem pôs lá os demónios? Eis uma pergunta para cada um fazer a si mesmo. Que cada homem sonde o seu próprio coração. Nem Deus nem o Diabo são os culpados, e certamente que não monstros tão insignificantes como Hitler, Mussolini, Estaline e quejandos. Certamente que não papões como catolicismo, capitalismo, comunismo. Para quê pôr os demónios lá, no nosso coração, para nos torturarem? É uma boa pergunta, e se a única maneira de encontrar a resposta é ir a Epidauro, então rogo a todos que larguem tudo e vão lá. Imediatamente.

em O Colosso de Maroussi (1941), Henry Miller, trad. Fernanda Pinto Rodrigues, Livros do Brasil, 1996

14 de outubro de 2009

Não concordo com a morte. Tenho medo do escuro.

13 de outubro de 2009

Sei que a arte é um simulacro de liberdade, talvez um treino para aquilo que virá no futuro a encher a gente de turbulências de corpos perigosamente próximos do ideal comum.
Sei que a arte é um engodo e que nele morre o peixe mais comum
próximo das tumescências do ópio, de um êxtase quase religioso - um estado de quase iluminação, quase o cerne da existência...
Sei que me engano quando procuro a verde negação das fronteiras inaliáveis da existência.
Sei que no fim...
Que no fim não haverá pão para ninguém, que tudo será putrefacção e vermes que sobrevivem
Que passam a vida a sobreviver porque nada mais existe.
Sei que produzo embustes para negar a passagem do Tempo.

11 de outubro de 2009

HR Giger

8 - A Mãe do Monstro

À noite, Leonor sonha que os espermatozóides do velho lhe entraram pela boca e agora vivem dentro dela, no estômago, como se ela fosse a baleia de Jonas e os espermatozóides fosses profetas nela aprisionados e angustiados. Um deles, o escolhido, alimenta-se dos vermes que lhe povoam o sistema digestivo e cresce, expande o seu organismo. Não tarda estará demasiado grande para caber dentro dela, e então terá de nascer, possivelmente encontrará o caminho para um buraco já existente, o ânus, e sairá por ele com asas, um homúnculo haplóide capaz de voar, e rasgará o ar silencioso da humanidade. As pessoas hão-de gritar e chorar, receosas da força voraz da terrível alimária, e sucumbirão ao inferno das suas mentes quando a besta exibir as garras. Depois, o mundo será uma desolação de carnes em putrefacção, e acabará assim o esplendor da nossa espécie, como alimento para a fome do demónio que Leonor acordou. Só que ela continuará viva, e será simultaneamente sua esposa e sua mãe, ele fará do seu útero um abrigo e um refúgio da monstruosidade que o faz cometer verdadeiras atrocidades, porque ele também é um ser humano, só que é demasiado grande e tem muita fome, vendo-se na obrigação de assustar toda a gente para depois lhes comer.

8 de outubro de 2009

Ganesh Baba, fotografia da autoria de Ira Cohen

7 de outubro de 2009

Blues Poem

I got no smile cause I'm down
I carry a horn to blow in all these streets
A solo riff out of my head
How could your ever know I feel
So high on life and feet and ass and legs and thighs
That I can rise and dance with all the stars
And I can eat the moon and laugh and I can cry
The dark caves of cities hungry streets
The tired faces dark and dreary bent
and all the death it dies
I let it die
I lift my horn and blow some sounds
some soul for kids to come
Some unborn sun
in darker streets than mine
Magicians carry wings so they can fly
Let's blow a horn and love
Let's get on it and ride
and laugh and dance and jive
Let's shake the dead and let the downers die
The magic of the singers warms the earth
A song
A poem
Some paradise of mind
I got to smile now
I'm feeling good
The city street
The palace of my mind

Jack Micheline


em The Outlaw Bible of American Poetry, edited by Alan Kaufman, Basic Books, 1999
É bom estarmos apenas simplesmente felizes, é um bocadinho melhor sabermos que estamos felizes; mas compreender que estamos felizes e saber porquê e como, de que maneira, graças a que encadeamento de acontecimentos ou circunstâncias, sabê-lo e mesmo assim estarmos felizes, estarmos felizes no estar e no saber, bem, isso transcende a felicidade, isso é beatitude, e se possuímos algum bom senso devemos matar-nos ali, no momento, e acabar com o assunto.

em O Colosso de Maroussi (1941), Henry Miller, trad. Fernanda Pinto Rodrigues, Livros do Brasil, 1996

4 de outubro de 2009

Os extremos marcam a fronteira para lá da qual não há vida, e, tanto em arte como em política, a paixão do extremismo é um desejo de morte disfarçado.

Milan Kundera

(Eh pá, ó Milan, essa afirmação parece ser muito inteligente, mas o meu anarquismo não é um desejo de morte disfarçado, mas uma afirmação de vida.)

3 de outubro de 2009

I think that a guy who is always interested in the condition of the world and changing it, either has no problems of his own or refuses to face them.

Henry Miller no filme Reds (1981), de Warren Beatty, sobre John Reed.

(Para todos aqueles que têm a pretensão de querer mudar a sociedade: a política é uma merda, não há nela altruísmo mas cobardia, cobardia do indivíduo que não toma consciência de si. Sim Henry, o político é um ser cobarde.)

A Ausência do Mito

Vi uma coisa que ainda ninguém viu.
Vi uma coisa que se partiu em mil fragmentos dourados
outros de uma rutilância espectral
outros de uma escuridão fatal, a matriz de toda a absurda escuridão do mundo
tão insuportavelmente real.
Apanhei os fragmentos, e com eles quis fazer um novo Deus, para oferecer ao mundo
- os fragmentos não se juntaram, a desordem tinha uma força que os mantinha soltos e espalhados
e então deitei-os fora, os fragmentos que formam o mundo,
e agora o que é mundo?
Reparo ainda nos fragmentos, nos padrões que formam e que se vão criando e destruindo, a plasticidade das coisas fortuitas,
e os fragmentos deslocam-se para longe,
e não entendo, não entendo como uma coisa tão perfeita se pode assim desconjuntar e transformar-se em porcaria cósmica.
Não entendo a inexistência de Deus.

Nenhuma delas pode ser fruída ou abraçada se a outra estiver ausente.

Quando acordei e subi à coberta, o navio deslizava por um estreito apertado. De ambos os lados havia colinas baixas e áridas, suaves outeiros de terra salpicados de violetas e de proporções humanas tão íntimas que faziam chorar de alegria. O sol estava quase no zénite e o seu fulgor era ofuscantemente intenso. Encontrava-me precisamente naquele pequeno mundo grego cujas fronteiras descrevera no meu livro alguns meses antes de deixar Paris. Era como acordar e encontrar-me vivo num sonho. Havia algo de fenomenal na proximidade luminosa destas duas costas cor de violeta. Deslizávamos exactamente da mesma maneira que le douanier de Rousseau descrevera no seu quadro. Era mais do que uma atmosfera grega: era poético e não pertencia a nenhum tempo ou lugar efectivamente conhecidos pelo homem. O próprio barco era o único elo com a realidade. Estava cheio até às muradas de almas perdidas desesperadamente agarradas aos seus poucos haveres terrenos. Mulheres esfarrapadas, de peitos desnudos, tentavam em vão amamentar os filhos pequenos que berravam desalmadamente; estavam sentadas no chão da coberta, num chiqueiro de vómito e sangue, e o sonho que iam atravessando nem lhes roçava as pálpebras. Se tivéssemos sido torpedeados naquele instante, teríamos passado assim, no meio de vómito, sangue e confusão, para o negro mundo inferior. Naquele momento rejubilei com o facto de ser livre de haveres, livre de todos os laços, livre de medo e inveja, e maldade. Podia ter passado serenamente de um sonho para outro sem possuir nada, sem lamentar nada, sem desejar nada. Nunca tive maior certeza de que a vida e a morte são uma e a mesma coisa e nenhuma delas pode ser fruída ou abraçada se a outra estiver ausente.

em O Colosso de Maroussi (1941), Henry Miller, trad. Fernanda Pinto Rodrigues, Livros do Brasil, 1996

1 de outubro de 2009

Falamos de Arte, falamos de Crime, falamos de Revolução.

A arte e o crime provêem talvez da mesma fonte. A arte é essencialmente criminosa, se for a sério, porque transgride, isto é, só encontra sentido na revolta, porque o desacordo com a realidade tem de se manifestar num comportamento hostil à mesma. Em virtude dessa tensão entre o sujeito e aquilo que o enjoa, este acumula durante uma boa parte da sua vida um ódio e uma energia que inicialmente se reprimem, por serem assustadores, mas que depois, por continuarem a encher em catadupas a cabeça do pobre demónio, o obrigam a deitar tudo cá para fora. E então o gajo canta, e diz que é tudo horrível e que tudo está mal… Não chega a dizer que é preciso mudar a realidade, nem parte desse pressuposto, nem muitas vezes toma consciência dessa vontade; antes grita e chora. Mas, nos outros que o ouvem e o vêm nos seus andrajos, o seu público, começa a acordar uma consciência, a qual é verdadeiramente perigosa porque se pode traduzir em mudança.
A arte é um crime. A arte é um crime político.