30 de dezembro de 2009


Amazona Frustrada (1990), óleo sobre tela de Julio Lavallén
http://juliolavallen.blogspot.com/

29 de dezembro de 2009

Dois Pássaros a Voar (2)

E todos percorremos as ruas como se fôssemos numa procissão antiga e sagrada, uma procissão de vermes movidos por uma implacável fisiologia exterior a cada um de nós, a de um animal feroz de que nós somos as células, o sangue e o pensamento que se repete década a década, século a século, fossilizado no fluido necrótico do seu egoísmo de rosto encoberto, besta senil e teimosa que se recusa a morrer. Percorremos as ruas aos tropeções, soltando envergonhados ganidos mudos, vergados por um cansaço indigno mas silencioso e humilde, cobardemente camuflado de acordo com a pedagogia dos heróis da frente, fiéis à escultura que se fez sem consentimento no cérebro de uma infância remota, de uma esperteza ingénua e tímida que não havia de percorrer estas velhas ruas … Mas percorre, necessariamente percorre com resignação faminta de pão. Não se trata de prostração, portanto. Caminhamos assim, de olhos chumbados, mal-humorados, permanentemente exaustos, porque a tal somos obrigados. Trata-se do mais elementar sentido de sobrevivência. Porque havia eu de ser diferente?
Não. Não sou diferente. E, por conseguinte, esta rua já nem a sinto ao certo, já não apreendo as vidas que por ela passam gemebundas, porque sei que são iguais à minha, de uma displicente vontade de chegar ao trabalho a horas de levar com os habituais bons-dias dos colegas, preferencialmente apáticos, a obsessão trágica de um relógio pela exactidão. E já só presto atenção aos cagalhões que de quando em quando flutuam na de resto alarmantemente branca e cinzenta paisagem urbana, este deserto habitado por fantasmas, pelos fantasmas que somos nós. Já só olho para o chão onde ponho os pés para não pisar um cagalhão.
Mas um cagalhão como este que acabo de ver é uma obra de arte! Uma peça de génio despretensioso e autêntico. Tomara eu ser um cão e poder defecar e urinar à vontade nesta e noutras ruas, em todas as ruas e todos os sítios, onde me apetecesse. Urinar e defecar sobre os tapetes das senhoras, para cima dos carros, urinar e defecar e fornicar frente à apatia de toda a gente, com um obsceno à-vontade de rei da cidade. Quem me dera ser um grande mastim rafeiro, urinar e defecar e encontrar cadelas por essa cidade, que para mim seria de uma infinita, de uma perpétua novidade. Quem me dera passar a vida num alegre deambular selvagem, como o cão que passou por esta rua e lançou a sua bosta sem se envergonhar do que fez.
Mas sou um ser humano. Sou um ser humano, e ainda por cima bem comportado. Não fui sempre assim. Este violento torpor quotidiano socorre-se das memórias da juventude para nelas depositar a alma do caminhante, nostálgico, que assim faz da vida um túmulo em que ele não está verdadeiramente morto, mas numa letargia de recordações de um outro tempo que não morrerá, que é a única coisa que resta de verdadeiramente seu e o define, a sua imortalidade. Recordo-me agora de quando andava na vadiagem com a trupe… Éramos então pequenos demónios maltrapilhos e percorríamos as ruas de outra maneira, de uma maneira que já não existe. Vagueávamos sem pressa à procura de coisas várias com que satisfazer uma ociosa sede de conhecimentos. Lembro-me de cada rosto moreno e voo para o ferro velho, que ficava atrás do cemitério, e revejo-me nesse degredo cheio de antigos carros amontoados numa desordem imóvel, com os meus companheiros de aventuras, sentados na capota de um Toyota Corolla de 73 cheio de ferrugem, contemplando a cidade em baixo sob o pôr-do-sol, fumando um charro proibido e bebendo vinho de pacote. E lembro-me da fedelha violência divertida com que nos vingávamos da escola e de todas as outras catequeses, com que libertávamos a fúria acumulada com uma disciplina que não compreendíamos nem queríamos compreender. Bem abençoada essa fúria … De vidros partidos com calhaus arrancados à calçada, arremessados com histérica força adolescente, bombas de alumínio e ácido muriático rebentando em caixotes do lixo, mijo nos puxadores das portas dos prédios, nas soleiras das janelas, colchões imundos e trotinetas largadas com estardalhaço de madrugada em quintais de vizinhos antipáticos (e uma vez até foi uma cabra) … E dá-me uma raiva de tudo isso ter acabado e por ter, sem o ter desejado deveras, singrado na vida e ser agora um homem feito carregando um fardo de obrigações morais. Uma raiva de já só ter amigos bem comportados e com uma decência orgulhosa e altiva, indivíduos sérios e carrancudos movidos por uma obsessão abstracta, esquecidos de si, e por eu próprio ser de certo modo assim.
Enquanto a mente divaga, certa que está da ausência de perigo no ambiente físico que a rodeia, os pés caminham automáticos. Quinze minutos e estou na estação de comboios da CP, onde a multidão se acumula à espera de um contentor que a leve aos diversos empregos. Sento-me num pequeno muro e sinto o vento gelado a varrer-me os pensamentos, que logo se diluem na atmosfera fria e cinzenta, e fico com a sensação de ter uma cara que contrasta com tudo o resto. E penso que tenho uma identidade susceptível de sofrimento, uma coisa com vontade própria. O comboio lá vem, já cheio, e a turba operária entra lá para dentro e aperta-se com a destreza habitual. O veículo arranca com uma força de sentido contrário ao do vento, que lá fora, furioso, protesta e reclama a sua soberania perdida, mas ninguém o ouve. O ar condicionado está ligado e as pessoas tiram os casacos e põem-se a ler o jornal gratuito, ou o romance de pacotilha da moda, ou falam com frenesi matinal dos assuntos do dia anterior, enquanto outros, como eu, lançam o olhar para o exterior que invernalmente fere o ânimo que sobra de tão costumeira vidinha laboral. E o monstro pára em todos os apeadeiros para deixar entrar e sair mais mão-de-obra.

27 de dezembro de 2009

La Piedra

Yo soy el que arroja la piedra,
el que le da su ímpetu y dirección,
el que aporta el músculo y la voluntad.
Ella es la que cruza el aire
y se clava lejos, adonde no se oye
mi paso ni el eco de su partida.
De este lado sólo queda el peso
de una vida que llama con leves
parpadeos: piel quemada, brazos laxos,
del que ha cumprido con su labor.
Del otro lado está el misterio
de la tierra nueva, los surcos
recién abiertos de la nueva edificación.
Pero de eso nada sé: allá no pueden
mis ojos, ni mi oído alcanza
a entender su voz. Sólo saben
que la piedra partió, que está clavada
en alguna parte, sostenida acaso
por su propira fe, adonde no llega
mi voluntad, ni la imaginación.

Rafael Felipe Oteriño

em Nueva Poesía Argentina, organização de Leopoldo Castilla, Hiperión, 1987

Dois Pássaros a Voar (1)

Depois de uma noite mal dormida, acordei tarde e confuso. Entre cada pestanejar, conseguia sentir a realidade a escorrer lentamente pelos meus olhos adentro a caminho do meu cérebro, que, desconfortavelmente, se via obrigado a largar o seus pensamentos etéreos e forçado a tentar decifrar a informação inescapável do mundo tangível. O sono e a vigília entrelaçavam-se ainda um no outro, ondulando como uma cortina ao vento. À medida que o exterior se impunha na minha mente, opressivamente dominando todos os meus sentidos, os primeiros pensamentos conscientes, ainda incoerentes, começavam a formar-se. “Não sei quem sou”, veio-me à superfície momentaneamente para desaparecer logo de seguida, afogado por uma série de considerações desconexas sobre as tarefas vulgares do ritual matutino. A evidência do mundo e de um novo dia, embora severamente filtrada, impunha-se já com alguma clareza. Nada me parecia diferente, nada tinha mudado, e tudo estava ali. Sem nenhuma perspectiva de mudar. E tinha mesmo que me levantar. Obediente, levantei-me então. Praticamente sem me dar conta do que estava a fazer, fui desajeitadamente em direcção à porta do quarto, abri-a e, enquanto saía, o gato entrou. Ignorei-o e continuei em direcção à casa de banho. Quando de lá saí para a cozinha, a neblina mental do acordar tinha sido substituída pelas nuvens carregadas da rotina por cumprir. Na cozinha, levantei a mão e liguei o rádio apanhando apenas o fim do noticiário – uma inutilidade qualquer sobre futebol, de como a “nossa selecção” tinha ganho não sei bem o quê, um jogo contra outras pessoas que eram de outro sítio, ao que parece. “Óptimo!”, pensei, “Ainda bem que aquelas pessoas marcaram mais golos do que as outras pessoas lá do outro sítio.”
Desencorajado, interrompi o repórter e desliguei o rádio. Com um suspiro na boca e no peito, fui em direcção ao frigorífico. Pão, umas latas de cerveja, manteiga, ovos e restos de anteontem. O suficiente. Por momentos, pensei em começar o dia como o Jim Morrison e beber uma cerveja, mas já tinha feito isso uma vez, em circunstâncias que prefiro não recordar e, francamente, não me apetece partilhar. Seja, e com isso tiro o pão e a manteiga, o meu pequeno-almoço preferido. Frente ao balcão, curvo a cabeça, encosto a testa à porta do armário e, nessa posição, com o peso do corpo suportado pela cabeça apoiada contra o móvel, como. Enquanto ponho os nacos de pão com manteiga na boca, os meus sonhos flutuam e dançam nalgum lugar intangível, mas vislumbres das suas sombras roçam a minha consciência. Deixo-me ficar assim enquanto como, nas esperança de que algo se cristalize, que haja alguma breve revelação. Nada.
Volto para o quarto: a rotina da roupa vem de seguida. Evitando ao máximo qualquer escolha complicada (também para poupar tempo, porque já estou atrasado), opto por uma combinação que sei ser aceitável, e assim rapidamente ultrapasso mais uma pequena etapa. Verdadeiramente não há muito mais a fazer. Pego nas coisas que preciso para o trabalho, verifico compulsivamente que tenho as chaves no bolso, saio do apartamento e desço as escadas.
Foda-se.
Com um resignado mau humor, dou meia volta e subo as escadas que tinha acabado de descer. Procuro as chaves na mochila – afinal estão no bolso; lá consigo entrar. Exacto: oiço o gato a miar por de trás da porta do meu quarto. Abro-lhe a porta e ele sai satisfeito, fugindo para qualquer lado. Sem mais demora, saio pela segunda vez pela porta da frente. Espero que o gato tenha comida. Não volto para verificar e desço as escadas. Quando saio pela porta do prédio, o mundo exterior atinge-me como um estrondo mudo: tudo no seu lugar. Habituado ao choque, já mal reajo – como se alguém me viesse dizer algo que eu já sabia. Paro por alguns segundos, respiro fundo e começo a andar. A rua onde moro, sem ser de luxo, é numa das partes relativamente boas da cidade – no centro, relativamente bem conservado, árvores e alguns canteiros. Moram lá pessoas de todos os tipos e de várias classes. Além disso, não é uma zona especialmente chique ou cara, o que a torna ainda mais apetecível. Enquanto faço o meu percurso, vou sobretudo olhando para o chão. No entanto, vou reparando nos pontos que vejo todos os dias e que me fazem sentir simultaneamente seguro e enjoado: o cabeleireiro antes de chegar à esquina, a padaria (o meu sitio preferido), o café onde antes comprava cigarros, etc. Não posso deixar de pensar: diferentes rotinas começam a diferentes horas – a da padaria já começou há algum tempo, a do café seguiu-se, o cabeleireiro ainda não abriu. Os respectivos donos ou donas tiveram uma rotina idêntica à minha de manhã. Só podem ter tido. Momentos de confusão idêntica perante os golpes imperdoáveis do despertador e da realidade exterior, e momentos subsequentes de resposta obediente e previsível – tal como a minha. Cada um deles na sua casa, no seu contexto, mas todos a fazerem o mesmo. Rodeados por objectos diferentes, mas guiados pelo mesmo impulso.
Sigo. Enquanto caminho, o interior da minha cabeça cintila com actividade neuronal que não posso controlar. Variadas memórias, pensamentos e imagens circulam. De um certo ponto de vista, gosto destes momentos – são uma espécie de teatro interior privado, onde constantemente surgem sementes de pensamentos, ideias e visões. Apesar de não ter praticamente nenhum controlo sobre o que se passa na minha cabeça, vou-me entretendo a pensar e a recapitular situações e a revisitar sentimentos. Algumas das memórias mais intensas, pela sua própria natureza e conteúdo, eventualmente brilham com mais força e causam um estranho espasmo físico. É como se os neurónios que tiveram a infelicidade de as recordar explodissem em todas as direcções numa minúscula super-nova de emoção, disparando impulsos eléctricos por todo o lado. O resultado peculiar é que, de tempos a tempos, como se alguém me apertasse subitamente um nervo sensível, torço e arrasto o pé (o esquerdo), que assim se submete às ordens de um órgão coordenador central onde, ironicamente, reina a desordem.
E assim começa mais um dia. Afasto-me de casa arrastando o pé e o espírito, ambos vassalos do passado e do presente, e de algo que verdadeiramente não entendo ou finjo não entender.

Córdoba, Argentina, 8 de Dezembro de 2009

Ao fim da tarde, o calor devidamente dissipado… Na praça central, as crianças morenas correm atrás das pombas e os casais jovens preparam secretas devassidões nocturnas, sob a estátua de um austero cavaleiro de olhos vigiantes que para mim não tem nome. Talvez tenha nome para os nativos, ou, se não nome, pelo menos um certo significado na existência colectiva do povo, é certo que inconsciente, mas talvez por isso mais importante e, atrevo-me a dizer, repressivo. Refiro-me a um vago nacionalismo pernicioso de província. Este pensamento ocorre-me porque sinto uma diferença substancial entre a minha liberdade e a vida destas pessoas, que permanecem acorrentadas à manjedoura onde nasceram, presas de uma beatífica inocência escrava. É como se, como tem acontecido noutras paragens, a minha libertina vontade colidisse com a prostração amorfa dos locais, como se vivêssemos, eu e a multidão, em mundos, não fisicamente, mas espiritualmente separados que de repente quase embatessem num meu assomo de lucidez.
Enquanto escrevo, dou-me conta da minha estupidez sociológica: é que eu só sou livre, isto é, só me posso dar ao luxo desta vadiagem de pensamento e de geografia, porque tenho de comer e tive uma educação que me forneceu os instrumentos necessários para percorrer estes caminhos. O mesmo não se pode dizer das pessoas que exibem uma rotineira alegria pueril nesta praça. É o que sinto… E dá-me uma tristeza…
A narrativa destrói a poesia.