E todos percorremos as ruas como se fôssemos numa procissão antiga e sagrada, uma procissão de vermes movidos por uma implacável fisiologia exterior a cada um de nós, a de um animal feroz de que nós somos as células, o sangue e o pensamento que se repete década a década, século a século, fossilizado no fluido necrótico do seu egoísmo de rosto encoberto, besta senil e teimosa que se recusa a morrer. Percorremos as ruas aos tropeções, soltando envergonhados ganidos mudos, vergados por um cansaço indigno mas silencioso e humilde, cobardemente camuflado de acordo com a pedagogia dos heróis da frente, fiéis à escultura que se fez sem consentimento no cérebro de uma infância remota, de uma esperteza ingénua e tímida que não havia de percorrer estas velhas ruas … Mas percorre, necessariamente percorre com resignação faminta de pão. Não se trata de prostração, portanto. Caminhamos assim, de olhos chumbados, mal-humorados, permanentemente exaustos, porque a tal somos obrigados. Trata-se do mais elementar sentido de sobrevivência. Porque havia eu de ser diferente?
Não. Não sou diferente. E, por conseguinte, esta rua já nem a sinto ao certo, já não apreendo as vidas que por ela passam gemebundas, porque sei que são iguais à minha, de uma displicente vontade de chegar ao trabalho a horas de levar com os habituais bons-dias dos colegas, preferencialmente apáticos, a obsessão trágica de um relógio pela exactidão. E já só presto atenção aos cagalhões que de quando em quando flutuam na de resto alarmantemente branca e cinzenta paisagem urbana, este deserto habitado por fantasmas, pelos fantasmas que somos nós. Já só olho para o chão onde ponho os pés para não pisar um cagalhão.
Mas um cagalhão como este que acabo de ver é uma obra de arte! Uma peça de génio despretensioso e autêntico. Tomara eu ser um cão e poder defecar e urinar à vontade nesta e noutras ruas, em todas as ruas e todos os sítios, onde me apetecesse. Urinar e defecar sobre os tapetes das senhoras, para cima dos carros, urinar e defecar e fornicar frente à apatia de toda a gente, com um obsceno à-vontade de rei da cidade. Quem me dera ser um grande mastim rafeiro, urinar e defecar e encontrar cadelas por essa cidade, que para mim seria de uma infinita, de uma perpétua novidade. Quem me dera passar a vida num alegre deambular selvagem, como o cão que passou por esta rua e lançou a sua bosta sem se envergonhar do que fez.
Mas sou um ser humano. Sou um ser humano, e ainda por cima bem comportado. Não fui sempre assim. Este violento torpor quotidiano socorre-se das memórias da juventude para nelas depositar a alma do caminhante, nostálgico, que assim faz da vida um túmulo em que ele não está verdadeiramente morto, mas numa letargia de recordações de um outro tempo que não morrerá, que é a única coisa que resta de verdadeiramente seu e o define, a sua imortalidade. Recordo-me agora de quando andava na vadiagem com a trupe… Éramos então pequenos demónios maltrapilhos e percorríamos as ruas de outra maneira, de uma maneira que já não existe. Vagueávamos sem pressa à procura de coisas várias com que satisfazer uma ociosa sede de conhecimentos. Lembro-me de cada rosto moreno e voo para o ferro velho, que ficava atrás do cemitério, e revejo-me nesse degredo cheio de antigos carros amontoados numa desordem imóvel, com os meus companheiros de aventuras, sentados na capota de um Toyota Corolla de 73 cheio de ferrugem, contemplando a cidade em baixo sob o pôr-do-sol, fumando um charro proibido e bebendo vinho de pacote. E lembro-me da fedelha violência divertida com que nos vingávamos da escola e de todas as outras catequeses, com que libertávamos a fúria acumulada com uma disciplina que não compreendíamos nem queríamos compreender. Bem abençoada essa fúria … De vidros partidos com calhaus arrancados à calçada, arremessados com histérica força adolescente, bombas de alumínio e ácido muriático rebentando em caixotes do lixo, mijo nos puxadores das portas dos prédios, nas soleiras das janelas, colchões imundos e trotinetas largadas com estardalhaço de madrugada em quintais de vizinhos antipáticos (e uma vez até foi uma cabra) … E dá-me uma raiva de tudo isso ter acabado e por ter, sem o ter desejado deveras, singrado na vida e ser agora um homem feito carregando um fardo de obrigações morais. Uma raiva de já só ter amigos bem comportados e com uma decência orgulhosa e altiva, indivíduos sérios e carrancudos movidos por uma obsessão abstracta, esquecidos de si, e por eu próprio ser de certo modo assim.
Não. Não sou diferente. E, por conseguinte, esta rua já nem a sinto ao certo, já não apreendo as vidas que por ela passam gemebundas, porque sei que são iguais à minha, de uma displicente vontade de chegar ao trabalho a horas de levar com os habituais bons-dias dos colegas, preferencialmente apáticos, a obsessão trágica de um relógio pela exactidão. E já só presto atenção aos cagalhões que de quando em quando flutuam na de resto alarmantemente branca e cinzenta paisagem urbana, este deserto habitado por fantasmas, pelos fantasmas que somos nós. Já só olho para o chão onde ponho os pés para não pisar um cagalhão.
Mas um cagalhão como este que acabo de ver é uma obra de arte! Uma peça de génio despretensioso e autêntico. Tomara eu ser um cão e poder defecar e urinar à vontade nesta e noutras ruas, em todas as ruas e todos os sítios, onde me apetecesse. Urinar e defecar sobre os tapetes das senhoras, para cima dos carros, urinar e defecar e fornicar frente à apatia de toda a gente, com um obsceno à-vontade de rei da cidade. Quem me dera ser um grande mastim rafeiro, urinar e defecar e encontrar cadelas por essa cidade, que para mim seria de uma infinita, de uma perpétua novidade. Quem me dera passar a vida num alegre deambular selvagem, como o cão que passou por esta rua e lançou a sua bosta sem se envergonhar do que fez.
Mas sou um ser humano. Sou um ser humano, e ainda por cima bem comportado. Não fui sempre assim. Este violento torpor quotidiano socorre-se das memórias da juventude para nelas depositar a alma do caminhante, nostálgico, que assim faz da vida um túmulo em que ele não está verdadeiramente morto, mas numa letargia de recordações de um outro tempo que não morrerá, que é a única coisa que resta de verdadeiramente seu e o define, a sua imortalidade. Recordo-me agora de quando andava na vadiagem com a trupe… Éramos então pequenos demónios maltrapilhos e percorríamos as ruas de outra maneira, de uma maneira que já não existe. Vagueávamos sem pressa à procura de coisas várias com que satisfazer uma ociosa sede de conhecimentos. Lembro-me de cada rosto moreno e voo para o ferro velho, que ficava atrás do cemitério, e revejo-me nesse degredo cheio de antigos carros amontoados numa desordem imóvel, com os meus companheiros de aventuras, sentados na capota de um Toyota Corolla de 73 cheio de ferrugem, contemplando a cidade em baixo sob o pôr-do-sol, fumando um charro proibido e bebendo vinho de pacote. E lembro-me da fedelha violência divertida com que nos vingávamos da escola e de todas as outras catequeses, com que libertávamos a fúria acumulada com uma disciplina que não compreendíamos nem queríamos compreender. Bem abençoada essa fúria … De vidros partidos com calhaus arrancados à calçada, arremessados com histérica força adolescente, bombas de alumínio e ácido muriático rebentando em caixotes do lixo, mijo nos puxadores das portas dos prédios, nas soleiras das janelas, colchões imundos e trotinetas largadas com estardalhaço de madrugada em quintais de vizinhos antipáticos (e uma vez até foi uma cabra) … E dá-me uma raiva de tudo isso ter acabado e por ter, sem o ter desejado deveras, singrado na vida e ser agora um homem feito carregando um fardo de obrigações morais. Uma raiva de já só ter amigos bem comportados e com uma decência orgulhosa e altiva, indivíduos sérios e carrancudos movidos por uma obsessão abstracta, esquecidos de si, e por eu próprio ser de certo modo assim.
Enquanto a mente divaga, certa que está da ausência de perigo no ambiente físico que a rodeia, os pés caminham automáticos. Quinze minutos e estou na estação de comboios da CP, onde a multidão se acumula à espera de um contentor que a leve aos diversos empregos. Sento-me num pequeno muro e sinto o vento gelado a varrer-me os pensamentos, que logo se diluem na atmosfera fria e cinzenta, e fico com a sensação de ter uma cara que contrasta com tudo o resto. E penso que tenho uma identidade susceptível de sofrimento, uma coisa com vontade própria. O comboio lá vem, já cheio, e a turba operária entra lá para dentro e aperta-se com a destreza habitual. O veículo arranca com uma força de sentido contrário ao do vento, que lá fora, furioso, protesta e reclama a sua soberania perdida, mas ninguém o ouve. O ar condicionado está ligado e as pessoas tiram os casacos e põem-se a ler o jornal gratuito, ou o romance de pacotilha da moda, ou falam com frenesi matinal dos assuntos do dia anterior, enquanto outros, como eu, lançam o olhar para o exterior que invernalmente fere o ânimo que sobra de tão costumeira vidinha laboral. E o monstro pára em todos os apeadeiros para deixar entrar e sair mais mão-de-obra.