27 de dezembro de 2009

Dois Pássaros a Voar (1)

Depois de uma noite mal dormida, acordei tarde e confuso. Entre cada pestanejar, conseguia sentir a realidade a escorrer lentamente pelos meus olhos adentro a caminho do meu cérebro, que, desconfortavelmente, se via obrigado a largar o seus pensamentos etéreos e forçado a tentar decifrar a informação inescapável do mundo tangível. O sono e a vigília entrelaçavam-se ainda um no outro, ondulando como uma cortina ao vento. À medida que o exterior se impunha na minha mente, opressivamente dominando todos os meus sentidos, os primeiros pensamentos conscientes, ainda incoerentes, começavam a formar-se. “Não sei quem sou”, veio-me à superfície momentaneamente para desaparecer logo de seguida, afogado por uma série de considerações desconexas sobre as tarefas vulgares do ritual matutino. A evidência do mundo e de um novo dia, embora severamente filtrada, impunha-se já com alguma clareza. Nada me parecia diferente, nada tinha mudado, e tudo estava ali. Sem nenhuma perspectiva de mudar. E tinha mesmo que me levantar. Obediente, levantei-me então. Praticamente sem me dar conta do que estava a fazer, fui desajeitadamente em direcção à porta do quarto, abri-a e, enquanto saía, o gato entrou. Ignorei-o e continuei em direcção à casa de banho. Quando de lá saí para a cozinha, a neblina mental do acordar tinha sido substituída pelas nuvens carregadas da rotina por cumprir. Na cozinha, levantei a mão e liguei o rádio apanhando apenas o fim do noticiário – uma inutilidade qualquer sobre futebol, de como a “nossa selecção” tinha ganho não sei bem o quê, um jogo contra outras pessoas que eram de outro sítio, ao que parece. “Óptimo!”, pensei, “Ainda bem que aquelas pessoas marcaram mais golos do que as outras pessoas lá do outro sítio.”
Desencorajado, interrompi o repórter e desliguei o rádio. Com um suspiro na boca e no peito, fui em direcção ao frigorífico. Pão, umas latas de cerveja, manteiga, ovos e restos de anteontem. O suficiente. Por momentos, pensei em começar o dia como o Jim Morrison e beber uma cerveja, mas já tinha feito isso uma vez, em circunstâncias que prefiro não recordar e, francamente, não me apetece partilhar. Seja, e com isso tiro o pão e a manteiga, o meu pequeno-almoço preferido. Frente ao balcão, curvo a cabeça, encosto a testa à porta do armário e, nessa posição, com o peso do corpo suportado pela cabeça apoiada contra o móvel, como. Enquanto ponho os nacos de pão com manteiga na boca, os meus sonhos flutuam e dançam nalgum lugar intangível, mas vislumbres das suas sombras roçam a minha consciência. Deixo-me ficar assim enquanto como, nas esperança de que algo se cristalize, que haja alguma breve revelação. Nada.
Volto para o quarto: a rotina da roupa vem de seguida. Evitando ao máximo qualquer escolha complicada (também para poupar tempo, porque já estou atrasado), opto por uma combinação que sei ser aceitável, e assim rapidamente ultrapasso mais uma pequena etapa. Verdadeiramente não há muito mais a fazer. Pego nas coisas que preciso para o trabalho, verifico compulsivamente que tenho as chaves no bolso, saio do apartamento e desço as escadas.
Foda-se.
Com um resignado mau humor, dou meia volta e subo as escadas que tinha acabado de descer. Procuro as chaves na mochila – afinal estão no bolso; lá consigo entrar. Exacto: oiço o gato a miar por de trás da porta do meu quarto. Abro-lhe a porta e ele sai satisfeito, fugindo para qualquer lado. Sem mais demora, saio pela segunda vez pela porta da frente. Espero que o gato tenha comida. Não volto para verificar e desço as escadas. Quando saio pela porta do prédio, o mundo exterior atinge-me como um estrondo mudo: tudo no seu lugar. Habituado ao choque, já mal reajo – como se alguém me viesse dizer algo que eu já sabia. Paro por alguns segundos, respiro fundo e começo a andar. A rua onde moro, sem ser de luxo, é numa das partes relativamente boas da cidade – no centro, relativamente bem conservado, árvores e alguns canteiros. Moram lá pessoas de todos os tipos e de várias classes. Além disso, não é uma zona especialmente chique ou cara, o que a torna ainda mais apetecível. Enquanto faço o meu percurso, vou sobretudo olhando para o chão. No entanto, vou reparando nos pontos que vejo todos os dias e que me fazem sentir simultaneamente seguro e enjoado: o cabeleireiro antes de chegar à esquina, a padaria (o meu sitio preferido), o café onde antes comprava cigarros, etc. Não posso deixar de pensar: diferentes rotinas começam a diferentes horas – a da padaria já começou há algum tempo, a do café seguiu-se, o cabeleireiro ainda não abriu. Os respectivos donos ou donas tiveram uma rotina idêntica à minha de manhã. Só podem ter tido. Momentos de confusão idêntica perante os golpes imperdoáveis do despertador e da realidade exterior, e momentos subsequentes de resposta obediente e previsível – tal como a minha. Cada um deles na sua casa, no seu contexto, mas todos a fazerem o mesmo. Rodeados por objectos diferentes, mas guiados pelo mesmo impulso.
Sigo. Enquanto caminho, o interior da minha cabeça cintila com actividade neuronal que não posso controlar. Variadas memórias, pensamentos e imagens circulam. De um certo ponto de vista, gosto destes momentos – são uma espécie de teatro interior privado, onde constantemente surgem sementes de pensamentos, ideias e visões. Apesar de não ter praticamente nenhum controlo sobre o que se passa na minha cabeça, vou-me entretendo a pensar e a recapitular situações e a revisitar sentimentos. Algumas das memórias mais intensas, pela sua própria natureza e conteúdo, eventualmente brilham com mais força e causam um estranho espasmo físico. É como se os neurónios que tiveram a infelicidade de as recordar explodissem em todas as direcções numa minúscula super-nova de emoção, disparando impulsos eléctricos por todo o lado. O resultado peculiar é que, de tempos a tempos, como se alguém me apertasse subitamente um nervo sensível, torço e arrasto o pé (o esquerdo), que assim se submete às ordens de um órgão coordenador central onde, ironicamente, reina a desordem.
E assim começa mais um dia. Afasto-me de casa arrastando o pé e o espírito, ambos vassalos do passado e do presente, e de algo que verdadeiramente não entendo ou finjo não entender.