30 de junho de 2010

Excerto de Viagem ao Fim da Noite, Louis-Ferdinand Céline, Trad. Aníbal Fernandes, Ulisseia, 2010:


No meu quarto, a trovoada de sempre vinha às revoadas despedaçar o eco, primeiro os estrondos do metro, que pareciam atirar-se a nós de muito longe, e a cada passagem arrastavam todos os seus aquedutos para despedaçar com eles a cidade, e depois, nos intervalos, chamadas incoerentes de mecanismos que subiam de baixo, da rua, e ainda aquele ruído mole da multidão em redemoinho, hesitante, sempre fastidioso, sempre prestes a remoçar e depois a hesitar de novo e a voltar. A grande marmelada dos homens na cidade.
Lá em cima, onde eu me encontrava, poderia gritar-lhes o que me apetecesse. Foi o que fiz. Todos me enojavam. Não tinha lata para afirmá-lo durante o dia, quando estava à frente deles, mas ali onde me encontrava não arriscava nada e por isso gritei «Socorro! Socorro!», só para ver que resultado dava. Não deu nenhum. Eles, os homens, empurravam a via, e a noite, e o dia. A vida tudo lhes esconde. Com o seu próprio ruído, nada ouvem. Estão-se nas tintas. E quanto maior, e quanto mais alta for a cidade, mas se estão nas tintas. Digo-vos eu. Que experimentei. Não vale a pena.

29 de junho de 2010

Chuva de Novembro

Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.


Eugénio de Andrade

19 de junho de 2010

José Saramago, 1922-2010


Demissão

Este mundo não presta, venha outro.
Já por tempo de mais aqui andamos
A fingir de razões suficientes.
Sejamos cães do cão: sabemos tudo
De morder os mais fracos, se mandamos,
E de lamber as mãos, se dependentes.

José Saramago (em "Os Poemas Possíveis")
O que é a poesia? É a juventude que persiste. O que é o poeta? Criança teimosa e alegre, que não cresce porque não precisa de crescer.

18 de junho de 2010

17 de junho de 2010

Sound Effects

the sound waves of our orgasms could destroy
entire Japanese villages
in horror movies

and one of us could make a fortune
coming as the tornado in a remake of
the wizard of oz

Janice Eidus

12 de junho de 2010

Não há aqui nada que valha a pena, dizias. O poeta morreu nas caves da cidade, soterrado em cimento fresco para a construção do prédio novo. Os quartos deste prédio são perfeitos, não há neles necessidade alguma de fazer poesia. As palavras jáo foram escritas. A estátua foi erigida para sempre. É uma alegria... Não há como fugir daqui. A vida é fácil. Ensinaram-nos o bom senso e a falarmos a mesma língua. Ensinaram-nos tudo - andar, falar, comer, cantar, brincar... Matar. Sabemos tudo. Temos uma resposta para tudo. Somos boa gente, gente com utilidade social. É triste.
O teu poeta morreu num dia como este. As nuvens são cinzentas. Morreu porque o esqueçeram, porque a sua voz perdeu-se entre o tumulto do mundo, no burburinho das paixões falsas. Durante muito tempo pensaste que estava vivo, agindo nas sombras da sociedade de consumo em frenesim louco numa sub-sociedade marginal, mas livre. Depois cresceste e percebeste que o poeta estava morto, para sempre. E depois também tu partiste.

8 de junho de 2010

The Touch

For months my hand was sealed off
in a tin box. Nothing was there but the subway railings.
Perhaps it is bruised, I thought,
and that is why they have locked it up.
But when I looked in it lay there quietly.
You could tell time by this, I thought,
like a clock, by its five knuckles
and the thin underground veins.
It lay there like an unconscious woman
fed by tubes she knew not of.

The hand had collapse,
a small wood pigeon
that had gone into seclusion.
I turned it over and the palm was old,
its lines traced like fine needlepoint
and stitched up into fingers.
It was fat and soft and blind in places.
Nothing but vulnerable.

And all this is metaphor.
An ordinary hand - just lonely
for something to touch
that touches back.
The dog won't do it.
Her tail wags in the swamp for a frog.
I'm no better than a case of dog food.
She owns her own hunger.
My sisters won't do it.
They live in school except for buttons
and tears running down like lemonade.
My father won't do it.
He comes in the house and even at night
he lives in a machine made by my mother
and well oiled by his job, his job.

The trouble is
that I'd let my gestures freeze.
The trouble was not
in the kitchen or the tulips
but only in my head, my head.

Then all this became history.
Your hand found mine.
Life rushed to my fingers like a blood clot.
Oh, my carpenter,
the fingers are rebuilt.
They dance with yours.
They dance in the attic and in Vienna.
My hand is alive all over America.
Not even death will stop it,
death shedding her blood.
Nothing will stop it, for this is the kingdom
and the kingdom come.

em The Complete Poems, Anne Sexton, Mariner Books, 1999


2 de junho de 2010

Chopin

Gosto de escrever a ouvir Chopin, os seus Nocturnos. É uma consciência poética.