20 de dezembro de 2008

19 de dezembro de 2008

The Night Belongs to Lovers



Esta mulher é um espectáculo... O mundo não seria o mesmo sem ela.
Parece que trabalhava numa fábrica quando um dia lhe apeteceu roubar um livro que foi a sua salvação - Iluminações, do poeta françês Arthur Rimbaud.

Foto de Robert Mapplethorpe

16 de dezembro de 2008

O tempo (toda a gente sabe) voa por vezes como um pássaro, outras vezes arrasta-se como uma lagarta; mas o homem sente-se especialmente bem quando nem nota se o tempo passa depressa ou devagar.

Uma lição para si, meu caro jovem amigo, um exemplo instrutivo. Só o diabo sabe que absurdo! Cada homem está pendurado por um fio, o abismo pode abrir-se por baixo dele a qualquer momento, e ele ainda inventa para si mesmo toda a espécie de dificuldades, estraga a sua vida.

O estreito espaço que ocupo é tão minúsculo em comparação com o restante espaço, onde eu não estou e onde nada tenho que fazer; e a porção de tempo que tenho para viver é tão insignificante comparada com a eternidade, em que eu não estive e não estarei... E neste átomo, neste ponto matemático, o sangue circula, o cérebro funciona, e também deseja qualquer coisa... Que absurdo! Que futilidades!

Estás a ver o que eu faço: tinha na mala um espaço vazio e meto ali feno; assim é na mala da nossa vida: metemos lá tudo, só para que não haja um espaço vazio.

Ivan Turguéniev, Pais e Filhos, trad. António Pescada, Relógio D'Água, Maio 2007

15 de dezembro de 2008

13 de dezembro de 2008

Insónia

Cinco da manhã. São dias de confusão rotineira estes em que não sabemos o que fazer da vida, dias de luto pela morte de uma liberdade. Adivinho a aproximação do sol, sinto-o a tentar seduzir-me de longe e a impelir-me para a escuridão da praça pública. O sacana do astro orgulha-se de ser majestoso e de estar acima do suplício que os súbditos aguentam… Mas afinal ele não é Deus, é apenas uma massa que rebenta de energia e de fúria. Ele era como eu antes de me tornar Eu (Amanhã). Ele é Agora, o sol que nos invade, o incêndio de uma vida.
Cinco da manhã. Os opostos temporais encontram-se nas horas finais da madrugada – noite e dia, as metades dilacerantes. Constato, tomado de pânico, que as têmporas do corpo latejam o meu trabalho nocturno, a velha insónia na qual o criador verte o seu sangue, a longa dolorosa noite. O organismo amaldiçoado geme, queixa-se da dor a que me submeti por ser maluco e me pôr a elaborar objectos artísticos em vez de dormir como os outros fazem, e é então que de repente me abandono ao desfalecimento e caio feito pedra no abismo confortável que é o sono, um oblívio. Mais uma morte… Vejo, sinto com intensidade a matéria concreta e onírica da qual não terei consciência quando acordar, a carne de outro mundo, as paixões de outra vida. Antes de acordar para o espectáculo diário de terror que temos de ver sem desviarmos os olhos. A mente voga por oceanos de incenso afrodisíaco, ópio maravilhoso e céleres caleidoscópios nos quais se entra, luzes vivas em mutação perpétua, aventuras orgásmicas nas matriarcas da civilização antes da civilização. Vivemos. Não temos culpa de nada nem somos responsáveis por nada. Na verdade nem queremos nada, mas vamos comendo a merda que nos dão de comer na boca porque é melhor do que não ter nada para comer. Enquanto sonhamos, julgamos estar ausentes deste purgatório indesejado. É uma mentira.
Pois de repente o despertador berra. O que é o despertador? É a irritante máquina que te dá um valente safanão e te empurra para o caos da vida popular, infelizmente o único sítio onde há pão (que o diabo amassa continuamente com o suor dos escravos). Para quê esta luta? Julgo que não a mereço. Por mim não faz qualquer espécie de sentido... Mesmo que dela obtenha o pão de cada dia, não faz sentido. Recuso-me a acreditar no significado de tudo isto! Sinto-me preso de uma ordem que não compreendo e, como um animal bem amestrado, levanto-me, nego o saudável desejo de inércia (desprezo a necessidade do organismo) e faço de conta que sou uma máquina. Torna-se indolor quando abafamos os sentidos, quando nos esquecemos de quem somos e do que queremos. Transformo-me numa peça fria e metálica desta nova Babilónia em construção, devidamente automatizada e auto-controlada, uma megacidade que se alimenta dos vermes que nela habitam e que dela nascem, um colossal milagre monstruoso em movimento perpétuo (a godlike monster swallows my will), um remoinho gigantesco em que todos se afogam. Felizmente existe café, o combustível da mente para as fastidiosas funções diárias de desperdício de inteligência – os nossos neurónios pertencem ao Estado e ao que resta da comunidade... Levanto-me cedo para a vida. Está um frio glacial e ponho-me a pensar que este regime é realmente uma estupidez, porque um gajo devia poder trabalhar quando lhe fosse mais conveniente em vez de ser com horário marcado, nas horas em que está incapacitado para fazer as coisas bem feitas e devia estar a dormir. Toda a gente aflui para a estação de comboios, os rostos escuros e sonolentos que caminham mecânica e pesadamente, estátuas sem identidade que carregam um fardo terrível chamado “existência”. Os sonhos ficaram para trás, pegados às camas mornas tipo mel que aguarda a chegada do mestre, entre os lençóis, ou levados com a água fria com que se fizeram espevitar (onde morrem os sonhos? – nos esgotos subterrâneos da cidade), ou entornados nas chávenas de café. A labuta é dura e começa cedo, no dissipar das energias que escasseiam ao sermos deslocados a pé, e na tormenta dos transportes públicos, por meio de forças incompreendidas. Se algures no caminho da minha existência encontrar Deus (se tal personagem existir), espeto-lhe um valente murro no queixo arrogante como paga de tudo quanto nos faz sofrer diariamente… Somos tão impotentes nesta puta desta vida que sentimos vontade de acreditar em Deus e não fazemos nada, aguardarmos apenas o milagre de uma mão generosa. Somos, ao contrário dos animais, excessivamente patéticos.

8 de dezembro de 2008

Sylvia Plath - Gulliver

Over your body the clouds go
High, high and icily
And a little flat, as if they

Floated on a glass that was invisible.
Unlike swans,
Having no reflections;

Unlike you,
With no strings attached.
All cool, all blue. Unlike you –

You, there on your back,
Eyes to the sky.
The spider-men have caught you,

Winding and twining their petty fetters,
Their bribes –
So many silks.

How they hate you.
They converse in the valley of your fingers, they are inchworms.
They would have you sleep in their cabinets,

This tow and that toe, a relic.
Step off!
Step off seven leagues, like those distances

That revolve in Crivelli, untouchable.
Let this eye be an eagle,
The shadow of his lip, an abyss.

Egocentrismo

Sou um gigante. Os pés fincados no solo, envoltos em raízes que não me deixam fugir, são pés que amam a terra, apesar do desgosto. O preço para aqui ficar é exorbitante, como se pode ver, mas não conheço outro sítio e tenho pavor à morte. A cabeça no ar, narinas que aspiram o ar celeste e inacessível, olhos lacrimejantes por causa de um vendaval selvagem, quase explode. Alto e feio.
O meu narcisismo, a minha grandeza, é demasiado grande para caber na pequenez do mundo. Demasiado alto para poder entrar na porta da mediocridade, onde vocês lilliputs (tão ridículos…) entram para se alimentarem das vísceras quentes dos animais degolados. Que banquete! Mesmo que pudesse entrar, acho que declinaria o convite. Talvez tenha de morrer de fome.

A Cidade e o Ser

Qual de nós nasceu primeiro, eu ou a cidade? Não me lembro de ter nascido, o que me parece é que sempre estive aqui. Não me lembro de não existir. O que é “não existir”? Tenho medo de morrer porque não sei o que é deixar de existir. Mas sei que morrerei primeiro, que a humanidade, se acaso existir, morrerá depois de mim, ou talvez nem morra, que a sociedade é um animal enclausurado na sua imortalidade, na consciência que tem de si, um animal invencível… Permanente. E que, apesar de eu querer infligir golpes furiosos na sua fronte enrugada, testa estúpida que é reflexo de paixões mórbidas, não terei força ou tempo para me satisfazer, não serei saciado de nenhuma sede de vingança. Mas vou escrevendo porque a escrita é prolongação da vida e as palavras sobrevivem à morte de quem as escreve, insistem nas paredes e nas mentes, cravam-se como um punhal aguçado na carne do leitor – a poesia pode ser exasperante. Anos depois da última leitura, as palavras estão-lhe no corpo sem que ele disso se aperceba. Estão-lhe no corpo e na filosofia, tão presentes na vida do homem que a necessidade de explosão é quase insuportável.
(O Jack Kerouac mora em mim. O Henry Miller mora em mim. O Kurt Cobain mora em mim. O George Orwell mora em mim. O Jim Morrison mora em mim. O Ievgueni Zamiatine mora em mim. O Fernando Pessoa mora em mim. O Jack London mora em mim. O Mikhail Bakunin mora em mim. O Herman Melville mora em mim. O Albert Camus mora em mim. O Antonin Artaud mora em mim. A Janis Joplin mora em mim. A Sylvia Plath mora em mim. O Guy Debord mora em mim. O Henry David Thoreau mora em mim. O Walt Whitman mora em mim. O Ruy Belo mora em mim. O Eugène Delacroix mora em mim. Uma multidão de fantasmas mora em mim, sem eles eu não seria eu. Eu sou eles, e eles comigo se levantam todos os dias, e comigo morrem todos os dias para entraram no lugar dos sonhos, sempre à espera de novos alvoreceres. Juntos blasfemamos Deus e libertamos uma fúria que faz do mundo um incêndio.)
O homem morre, mas a acção fica e espalha-se pelo universo. Se houver memória… É preciso haver memória no consciente colectivo, não deixar a multidão esquecer-se dos nomes dos sábios, dos guerreiros e dos poetas. É preciso honrar a memória dos mortos e saudar a vinda de um futuro que as acções históricas tornarão possível. É preciso afirmar o papel do indivíduo na construção da História. É preciso afirmar a utilidade da poesia no império da tecnocracia, dizer bem alto que as palavras que um homem escreve são importantes e merecem destaque.

7 de dezembro de 2008

"They are murdering all the young men.
For half a century now, every day,
They have hunted them down and killed them.
They are killing them now.
At this minute, all over the world,
They are killing the young men.
They know ten thousand ways to kill them.
Every year they invent new ones.
In the jungles of Africa,
In the marshes of Asia,
In the deserts of Asia,
In the slave pens of Siberia,
In the slums of Europe,
In the nightclubs of America,
The murderers are at work.

They are stoning Stephen,
They are casting him forth from every city in the world.
Under the Welcome sign,
Under the Rotary emblem,
On the highway in the suburbs,
His body lies under the hurling stones.
He was full of faith and power.
He did great wonders among the people.
They could not stand against his wisdom.
They could not bear the spirit with which he spoke.
He cried out in the name
Of the tabernacle of witness in the wilderness.
They were cut to the heart.
They gnashed against him with their teeth.
They cried out with a loud voice.
They stopped their ears.
They ran on him with one accord.
They cast him out of the city and stoned him.
The witnesses laid down their clothes
At the feet of a man whose name was your name —
You.

You are the murderer.
You are killing the young men.
You are broiling Lawrence on his gridiron.
When you demanded he divulge
The hidden treasures of the spirit,
He showed you the poor.
You set your heart against him.
You seized him and bound him with rage.
You roasted him on a slow fire.
His fat dripped and spurted in the flame.
The smell was sweet to your nose.
He cried out,
“I am cooked on this side,
Turn me over and eat,
You
Eat of my flesh.”

You are murdering the young men.
You are shooting Sebastian with arrows.
He kept the faithful steadfast under persecution.
First you shot him with arrows.
Then you beat him with rods.
Then you threw him in a sewer.
You fear nothing more than courage.
You who turn away your eyes
At the bravery of the young men.

You,
The hyena with polished face and bow tie,
In the office of a billion dollar
Corporation devoted to service;
The vulture dripping with carrion,
Carefully and carelessly robed in imported tweeds,
Lecturing on the Age of Abundance;
The jackal in double-breasted gabardine,
Barking by remote control,
In the United Nations;
The vampire bat seated at the couch head,
Notebook in hand, toying with his decerebrator;
The autonomous, ambulatory cancer,
The Superego in a thousand uniforms;
You, the finger man of behemoth,
The murderer of the young men."

Kenneth Rexroth

"If you call yourself a poet, don´t just sit there. Poetry is not a sedentary occupation, not a take your seat practice. Stand up and let them have it."

Lawrence Ferlinghetti


O caminho, o caminho...

Talvez o dia te esteja a correr mal… Aguenta aí os cavalos, leva a mão à boca, suprime o escândalo que nasce. Não terias palavras que pudessem descrever o que estás a sentir, por isso cala-te, fecha a boca antes que os outros vejam que há qualquer coisa que te aflige. Não deixes que os teus olhos denunciem o medo, torna-los inexpressivos e absortos num vácuo de realidade, convence-os a entrarem num estratagema de entretenimento. Tudo fantástico… Tudo mágico e surreal, nada de que te possas queixar. Olhas para dentro de ti e vês um mundo cheio de espelhos.
De repente, abres os olhos e vês uma faca a rasgar o ar na tua direcção. Consegues ser rápido e desvias-te, e a faca continua a voar e atinge um gajo qualquer. Olhas para trás e vês o sangue abundante a sair em jacto do cadáver recente. Mas afinal o homem ainda está vivo (!) e grita que o acudam, só que ninguém o ouve para além de ti. Os outros continuam a andar como se nada se estivesse a passar (mais à frente haverá um abismo voraz, porque é que eles continuam a andar?). Conseguirás tu ajudá-lo? Mas não te sabes mexer de outra maneira e continuas a andar imperturbável. Tiquetaque… Sempre na mesma direcção. Um gajo tem de estar atento, um passo em falso é a morte certa. À tua passagem, as flores carnívoras erguem-se e tentam apanhar-te como se tu fosses um insecto cuja existência fosse absurda e desprezível. Esquivas-te facilmente, não existe ninguém mais esperto e ágil do que tu. Consegues ainda zelar pela tua mulher, que anda ao teu lado com a boca aberta e os olhos arregalados, constantemente em pânico – ela pode mostrá-lo porque é mulher, tu não podes porque és homem. Dentro de ti, lágrimas enfurecidas revoltadas constroem o teu cemitério. Elas querem a tua morte porque tu não gostas delas, porque tu não as aceitas. Qual é a pior cobardia, a tua ou a delas? Mas eu não tenho culpa, pensas, estou apenas a dar o melhor de mim, senão os outros apanham-me e espancam-me.
Continua a andar com o ar mais sereno do mundo. Não podes ser o próximo a morrer. Mantém a rédea curta.