7 de dezembro de 2008

O caminho, o caminho...

Talvez o dia te esteja a correr mal… Aguenta aí os cavalos, leva a mão à boca, suprime o escândalo que nasce. Não terias palavras que pudessem descrever o que estás a sentir, por isso cala-te, fecha a boca antes que os outros vejam que há qualquer coisa que te aflige. Não deixes que os teus olhos denunciem o medo, torna-los inexpressivos e absortos num vácuo de realidade, convence-os a entrarem num estratagema de entretenimento. Tudo fantástico… Tudo mágico e surreal, nada de que te possas queixar. Olhas para dentro de ti e vês um mundo cheio de espelhos.
De repente, abres os olhos e vês uma faca a rasgar o ar na tua direcção. Consegues ser rápido e desvias-te, e a faca continua a voar e atinge um gajo qualquer. Olhas para trás e vês o sangue abundante a sair em jacto do cadáver recente. Mas afinal o homem ainda está vivo (!) e grita que o acudam, só que ninguém o ouve para além de ti. Os outros continuam a andar como se nada se estivesse a passar (mais à frente haverá um abismo voraz, porque é que eles continuam a andar?). Conseguirás tu ajudá-lo? Mas não te sabes mexer de outra maneira e continuas a andar imperturbável. Tiquetaque… Sempre na mesma direcção. Um gajo tem de estar atento, um passo em falso é a morte certa. À tua passagem, as flores carnívoras erguem-se e tentam apanhar-te como se tu fosses um insecto cuja existência fosse absurda e desprezível. Esquivas-te facilmente, não existe ninguém mais esperto e ágil do que tu. Consegues ainda zelar pela tua mulher, que anda ao teu lado com a boca aberta e os olhos arregalados, constantemente em pânico – ela pode mostrá-lo porque é mulher, tu não podes porque és homem. Dentro de ti, lágrimas enfurecidas revoltadas constroem o teu cemitério. Elas querem a tua morte porque tu não gostas delas, porque tu não as aceitas. Qual é a pior cobardia, a tua ou a delas? Mas eu não tenho culpa, pensas, estou apenas a dar o melhor de mim, senão os outros apanham-me e espancam-me.
Continua a andar com o ar mais sereno do mundo. Não podes ser o próximo a morrer. Mantém a rédea curta.