8 de dezembro de 2008

A Cidade e o Ser

Qual de nós nasceu primeiro, eu ou a cidade? Não me lembro de ter nascido, o que me parece é que sempre estive aqui. Não me lembro de não existir. O que é “não existir”? Tenho medo de morrer porque não sei o que é deixar de existir. Mas sei que morrerei primeiro, que a humanidade, se acaso existir, morrerá depois de mim, ou talvez nem morra, que a sociedade é um animal enclausurado na sua imortalidade, na consciência que tem de si, um animal invencível… Permanente. E que, apesar de eu querer infligir golpes furiosos na sua fronte enrugada, testa estúpida que é reflexo de paixões mórbidas, não terei força ou tempo para me satisfazer, não serei saciado de nenhuma sede de vingança. Mas vou escrevendo porque a escrita é prolongação da vida e as palavras sobrevivem à morte de quem as escreve, insistem nas paredes e nas mentes, cravam-se como um punhal aguçado na carne do leitor – a poesia pode ser exasperante. Anos depois da última leitura, as palavras estão-lhe no corpo sem que ele disso se aperceba. Estão-lhe no corpo e na filosofia, tão presentes na vida do homem que a necessidade de explosão é quase insuportável.
(O Jack Kerouac mora em mim. O Henry Miller mora em mim. O Kurt Cobain mora em mim. O George Orwell mora em mim. O Jim Morrison mora em mim. O Ievgueni Zamiatine mora em mim. O Fernando Pessoa mora em mim. O Jack London mora em mim. O Mikhail Bakunin mora em mim. O Herman Melville mora em mim. O Albert Camus mora em mim. O Antonin Artaud mora em mim. A Janis Joplin mora em mim. A Sylvia Plath mora em mim. O Guy Debord mora em mim. O Henry David Thoreau mora em mim. O Walt Whitman mora em mim. O Ruy Belo mora em mim. O Eugène Delacroix mora em mim. Uma multidão de fantasmas mora em mim, sem eles eu não seria eu. Eu sou eles, e eles comigo se levantam todos os dias, e comigo morrem todos os dias para entraram no lugar dos sonhos, sempre à espera de novos alvoreceres. Juntos blasfemamos Deus e libertamos uma fúria que faz do mundo um incêndio.)
O homem morre, mas a acção fica e espalha-se pelo universo. Se houver memória… É preciso haver memória no consciente colectivo, não deixar a multidão esquecer-se dos nomes dos sábios, dos guerreiros e dos poetas. É preciso honrar a memória dos mortos e saudar a vinda de um futuro que as acções históricas tornarão possível. É preciso afirmar o papel do indivíduo na construção da História. É preciso afirmar a utilidade da poesia no império da tecnocracia, dizer bem alto que as palavras que um homem escreve são importantes e merecem destaque.