13 de dezembro de 2008

Insónia

Cinco da manhã. São dias de confusão rotineira estes em que não sabemos o que fazer da vida, dias de luto pela morte de uma liberdade. Adivinho a aproximação do sol, sinto-o a tentar seduzir-me de longe e a impelir-me para a escuridão da praça pública. O sacana do astro orgulha-se de ser majestoso e de estar acima do suplício que os súbditos aguentam… Mas afinal ele não é Deus, é apenas uma massa que rebenta de energia e de fúria. Ele era como eu antes de me tornar Eu (Amanhã). Ele é Agora, o sol que nos invade, o incêndio de uma vida.
Cinco da manhã. Os opostos temporais encontram-se nas horas finais da madrugada – noite e dia, as metades dilacerantes. Constato, tomado de pânico, que as têmporas do corpo latejam o meu trabalho nocturno, a velha insónia na qual o criador verte o seu sangue, a longa dolorosa noite. O organismo amaldiçoado geme, queixa-se da dor a que me submeti por ser maluco e me pôr a elaborar objectos artísticos em vez de dormir como os outros fazem, e é então que de repente me abandono ao desfalecimento e caio feito pedra no abismo confortável que é o sono, um oblívio. Mais uma morte… Vejo, sinto com intensidade a matéria concreta e onírica da qual não terei consciência quando acordar, a carne de outro mundo, as paixões de outra vida. Antes de acordar para o espectáculo diário de terror que temos de ver sem desviarmos os olhos. A mente voga por oceanos de incenso afrodisíaco, ópio maravilhoso e céleres caleidoscópios nos quais se entra, luzes vivas em mutação perpétua, aventuras orgásmicas nas matriarcas da civilização antes da civilização. Vivemos. Não temos culpa de nada nem somos responsáveis por nada. Na verdade nem queremos nada, mas vamos comendo a merda que nos dão de comer na boca porque é melhor do que não ter nada para comer. Enquanto sonhamos, julgamos estar ausentes deste purgatório indesejado. É uma mentira.
Pois de repente o despertador berra. O que é o despertador? É a irritante máquina que te dá um valente safanão e te empurra para o caos da vida popular, infelizmente o único sítio onde há pão (que o diabo amassa continuamente com o suor dos escravos). Para quê esta luta? Julgo que não a mereço. Por mim não faz qualquer espécie de sentido... Mesmo que dela obtenha o pão de cada dia, não faz sentido. Recuso-me a acreditar no significado de tudo isto! Sinto-me preso de uma ordem que não compreendo e, como um animal bem amestrado, levanto-me, nego o saudável desejo de inércia (desprezo a necessidade do organismo) e faço de conta que sou uma máquina. Torna-se indolor quando abafamos os sentidos, quando nos esquecemos de quem somos e do que queremos. Transformo-me numa peça fria e metálica desta nova Babilónia em construção, devidamente automatizada e auto-controlada, uma megacidade que se alimenta dos vermes que nela habitam e que dela nascem, um colossal milagre monstruoso em movimento perpétuo (a godlike monster swallows my will), um remoinho gigantesco em que todos se afogam. Felizmente existe café, o combustível da mente para as fastidiosas funções diárias de desperdício de inteligência – os nossos neurónios pertencem ao Estado e ao que resta da comunidade... Levanto-me cedo para a vida. Está um frio glacial e ponho-me a pensar que este regime é realmente uma estupidez, porque um gajo devia poder trabalhar quando lhe fosse mais conveniente em vez de ser com horário marcado, nas horas em que está incapacitado para fazer as coisas bem feitas e devia estar a dormir. Toda a gente aflui para a estação de comboios, os rostos escuros e sonolentos que caminham mecânica e pesadamente, estátuas sem identidade que carregam um fardo terrível chamado “existência”. Os sonhos ficaram para trás, pegados às camas mornas tipo mel que aguarda a chegada do mestre, entre os lençóis, ou levados com a água fria com que se fizeram espevitar (onde morrem os sonhos? – nos esgotos subterrâneos da cidade), ou entornados nas chávenas de café. A labuta é dura e começa cedo, no dissipar das energias que escasseiam ao sermos deslocados a pé, e na tormenta dos transportes públicos, por meio de forças incompreendidas. Se algures no caminho da minha existência encontrar Deus (se tal personagem existir), espeto-lhe um valente murro no queixo arrogante como paga de tudo quanto nos faz sofrer diariamente… Somos tão impotentes nesta puta desta vida que sentimos vontade de acreditar em Deus e não fazemos nada, aguardarmos apenas o milagre de uma mão generosa. Somos, ao contrário dos animais, excessivamente patéticos.