16 de dezembro de 2008

O tempo (toda a gente sabe) voa por vezes como um pássaro, outras vezes arrasta-se como uma lagarta; mas o homem sente-se especialmente bem quando nem nota se o tempo passa depressa ou devagar.

Uma lição para si, meu caro jovem amigo, um exemplo instrutivo. Só o diabo sabe que absurdo! Cada homem está pendurado por um fio, o abismo pode abrir-se por baixo dele a qualquer momento, e ele ainda inventa para si mesmo toda a espécie de dificuldades, estraga a sua vida.

O estreito espaço que ocupo é tão minúsculo em comparação com o restante espaço, onde eu não estou e onde nada tenho que fazer; e a porção de tempo que tenho para viver é tão insignificante comparada com a eternidade, em que eu não estive e não estarei... E neste átomo, neste ponto matemático, o sangue circula, o cérebro funciona, e também deseja qualquer coisa... Que absurdo! Que futilidades!

Estás a ver o que eu faço: tinha na mala um espaço vazio e meto ali feno; assim é na mala da nossa vida: metemos lá tudo, só para que não haja um espaço vazio.

Ivan Turguéniev, Pais e Filhos, trad. António Pescada, Relógio D'Água, Maio 2007