17 de junho de 2009

Miller sobre Rimbaud

"As aves douradas que esvoaçam por entre a folhagem dos seus poemas!" De onde vieram essas aves douradas de Rimbaud? E para onde voam? Nem pombas, nem abutres. Habitam os ares. São mensageiros privativos, incubados na escuridão e libertados para a luz da "iluminação". Não têm semelhanças com as outras criaturas dos ares, mas também não são anjos. São aqueles raros pássaros do espírito, aves de passagem que esvoaçam de sol em sol. Não estão aprisionadas nos poemas; é aí que são libertadas. Sobem nas asas do êxtase e desaparecem numa chama.
Condicionado pelo êxtase, o poeta é como uma ave magnífica, desconhecida, presa nas cinzas do pensamento. Se se consegue libertar, será para fazer um vôo sacrificial em direcção ao sol. Os seus sonhos de um mundo regenerado não são mais que o eco do seu próprio pulsar febril. Imagina que o mundo o há-de seguir, mas, lá em cima, no azul, vê-se sozinho. Sozinho mas rodeado pelas suas criações e, portanto, pronto para ir ao encontro do sacrifício supremo. O impossível foi atingido; está consumado o diálogo do autor com o Autor. E agora a canção expande-se para sempre, através dos tempos, alimentando os corações e penetrando nos espíritos. Na periferia, o mundo extingue-se; no centro, brilha como um tição incandescente. No grande centro solar do universo as aves douradas estão juntas, e cantam em uníssono. Aí, reina perpetuamente o crepúsculo, a paz, a harmonia e a comunhão. Não é em vão que o homem olha para o sol; procura luz e calor, não para o corpo de que se libertará um dia, mas para o seu interior. O seu maior desejo é arder em êxtase, fazer convergir a sua pequena chama para o fogo central do universo. Se concede asas aos anjos, que lhes permitem vir até si com mensagens de paz, de harmonia e de esplendor, trazidas de mundos diferentes, é apenas para alimentar os seus próprios sonhos de vôo, para amparar a sua própria fé de que um dia alcançará, levado por asas de ouro, regiões situadas para além de si mesmo.
Cada criação equivale às outras; na essência são todas idênticas. A fraternidade dos homens consiste, não em pensar da mesma maneira, nem em agir da mesma maneira, mas sim numa aspiração comum à criação. A canção da criação brota das ruínas de esforços terrenos. O homem exterior extingue-se para que se revele a ave dourada que voa já em direcção ao divino.

Henry Miller, O Tempo dos Assassinos - Um Estudo Sobre Rimbaud, trad. Manuela R. Miranda, Hiena, 1985

15 de junho de 2009

O inconformista segundo Morelli

“Este homem movimenta-se entre as frequências mais baixas e as mais altas, menosprezando deliberadamente as intermédias, isto é, a zona comum da aglomeração espiritual humana. Incapaz de liquidar a circunstância, tenta virar-lhe as costas; incapaz de juntar-se aos que lutam por liquidá-la, uma vez que acredita que essa liquidação não passará de uma mera substituição por outra coisa igualmente parcial e intolerável, afasta-se desse movimento com um encolher de ombros. Para os seus amigos, o facto de encontrar a sua satisfação no insignificante, no pueril, num pedaço de linha ou num solo de Stan Getz são indícios de um empobrecimento lamentável; eles não sabem da existência do outro extremo, das suas aproximações a um todo que se recusa, se isola e se esconde, mas que a sua busca não tem fim, que não terminará nem com a morte desse homem, porque a sua morte não será a morte dessa zona intermédia, das frequências que se ouvem com os ouvidos que ouvem a marcha fúnebre de Sigfried.
[…]
Num plano de ocorrências diárias, a atitude do meu inconformista é marcada pela recusa de tudo o que cheira a ideia recebida, a traição, a estruturas gregárias baseadas no medo e nas vantagens falsamente recíprocas. Poderia ser um Robinson sem grande esforço. Não é um misantropo, mas dos homens e das mulheres aceita apenas a parte que escapou à plastificação da super-estrutura social: ele próprio tem meio-corpo enfiado nesse molde e sabe disso, mas esse conhecimento é activo e recusa a resignação dos que ficam a marcar passo. Esbofeteia a sua própria cara com a mão livre durante a maior parte do dia e nos seus tempos livres esbofeteia a dos outros, que retribuem em triplicado. Ocupa assim os seus dias com as complicações monstruosas inerentes a amantes, amigos, credores e funcionários, e no pouco tempo livre que lhe sobra, usa a sua liberdade de uma forma que assusta os demais e que acaba sempre em pequenas e irrelevantes catástrofes, à medida dele e das suas ambições realizáveis; uma outra liberdade, mais secreta e evasiva, trabalha no seu interior, mas apenas ele (ainda que mal) poderia dar-se conta dos seus jogos.”


Julio Cortázar, O Jogo do Mundo (Rayuela), trad. Alberto Simões, Cavalo de Ferro, 2008

7 de junho de 2009

Cristo Cagão - citação de Céline

"Iria à retrete perante toda a gente, Jesus Cristo? Tenho cá na ideia que o negócio dele não teria resistido muito tempo, se tivesse feito cocó em público."

in Viagem ao Fundo da Noite, Ulisseia, Trad. Aníbal Fernandes