"As aves douradas que esvoaçam por entre a folhagem dos seus poemas!" De onde vieram essas aves douradas de Rimbaud? E para onde voam? Nem pombas, nem abutres. Habitam os ares. São mensageiros privativos, incubados na escuridão e libertados para a luz da "iluminação". Não têm semelhanças com as outras criaturas dos ares, mas também não são anjos. São aqueles raros pássaros do espírito, aves de passagem que esvoaçam de sol em sol. Não estão aprisionadas nos poemas; é aí que são libertadas. Sobem nas asas do êxtase e desaparecem numa chama.
Condicionado pelo êxtase, o poeta é como uma ave magnífica, desconhecida, presa nas cinzas do pensamento. Se se consegue libertar, será para fazer um vôo sacrificial em direcção ao sol. Os seus sonhos de um mundo regenerado não são mais que o eco do seu próprio pulsar febril. Imagina que o mundo o há-de seguir, mas, lá em cima, no azul, vê-se sozinho. Sozinho mas rodeado pelas suas criações e, portanto, pronto para ir ao encontro do sacrifício supremo. O impossível foi atingido; está consumado o diálogo do autor com o Autor. E agora a canção expande-se para sempre, através dos tempos, alimentando os corações e penetrando nos espíritos. Na periferia, o mundo extingue-se; no centro, brilha como um tição incandescente. No grande centro solar do universo as aves douradas estão juntas, e cantam em uníssono. Aí, reina perpetuamente o crepúsculo, a paz, a harmonia e a comunhão. Não é em vão que o homem olha para o sol; procura luz e calor, não para o corpo de que se libertará um dia, mas para o seu interior. O seu maior desejo é arder em êxtase, fazer convergir a sua pequena chama para o fogo central do universo. Se concede asas aos anjos, que lhes permitem vir até si com mensagens de paz, de harmonia e de esplendor, trazidas de mundos diferentes, é apenas para alimentar os seus próprios sonhos de vôo, para amparar a sua própria fé de que um dia alcançará, levado por asas de ouro, regiões situadas para além de si mesmo.
Cada criação equivale às outras; na essência são todas idênticas. A fraternidade dos homens consiste, não em pensar da mesma maneira, nem em agir da mesma maneira, mas sim numa aspiração comum à criação. A canção da criação brota das ruínas de esforços terrenos. O homem exterior extingue-se para que se revele a ave dourada que voa já em direcção ao divino.
Cada criação equivale às outras; na essência são todas idênticas. A fraternidade dos homens consiste, não em pensar da mesma maneira, nem em agir da mesma maneira, mas sim numa aspiração comum à criação. A canção da criação brota das ruínas de esforços terrenos. O homem exterior extingue-se para que se revele a ave dourada que voa já em direcção ao divino.
Henry Miller, O Tempo dos Assassinos - Um Estudo Sobre Rimbaud, trad. Manuela R. Miranda, Hiena, 1985