15 de junho de 2009

O inconformista segundo Morelli

“Este homem movimenta-se entre as frequências mais baixas e as mais altas, menosprezando deliberadamente as intermédias, isto é, a zona comum da aglomeração espiritual humana. Incapaz de liquidar a circunstância, tenta virar-lhe as costas; incapaz de juntar-se aos que lutam por liquidá-la, uma vez que acredita que essa liquidação não passará de uma mera substituição por outra coisa igualmente parcial e intolerável, afasta-se desse movimento com um encolher de ombros. Para os seus amigos, o facto de encontrar a sua satisfação no insignificante, no pueril, num pedaço de linha ou num solo de Stan Getz são indícios de um empobrecimento lamentável; eles não sabem da existência do outro extremo, das suas aproximações a um todo que se recusa, se isola e se esconde, mas que a sua busca não tem fim, que não terminará nem com a morte desse homem, porque a sua morte não será a morte dessa zona intermédia, das frequências que se ouvem com os ouvidos que ouvem a marcha fúnebre de Sigfried.
[…]
Num plano de ocorrências diárias, a atitude do meu inconformista é marcada pela recusa de tudo o que cheira a ideia recebida, a traição, a estruturas gregárias baseadas no medo e nas vantagens falsamente recíprocas. Poderia ser um Robinson sem grande esforço. Não é um misantropo, mas dos homens e das mulheres aceita apenas a parte que escapou à plastificação da super-estrutura social: ele próprio tem meio-corpo enfiado nesse molde e sabe disso, mas esse conhecimento é activo e recusa a resignação dos que ficam a marcar passo. Esbofeteia a sua própria cara com a mão livre durante a maior parte do dia e nos seus tempos livres esbofeteia a dos outros, que retribuem em triplicado. Ocupa assim os seus dias com as complicações monstruosas inerentes a amantes, amigos, credores e funcionários, e no pouco tempo livre que lhe sobra, usa a sua liberdade de uma forma que assusta os demais e que acaba sempre em pequenas e irrelevantes catástrofes, à medida dele e das suas ambições realizáveis; uma outra liberdade, mais secreta e evasiva, trabalha no seu interior, mas apenas ele (ainda que mal) poderia dar-se conta dos seus jogos.”


Julio Cortázar, O Jogo do Mundo (Rayuela), trad. Alberto Simões, Cavalo de Ferro, 2008