29 de maio de 2010

It's a beer shit! GENIAL

Second God

God's head was a bag of shit
Before it exploded
The crowd was dancing around
Little worms grabbing his precious air
And the void beneath they were afraid of
Opening the mouth of nothingness

The famous head exploded
The good inside spread across the universe
And there's shit everywhere now
All over the crowd
The stars dripping diarrhea

And the people say
This was a hoax! There's no God!
But I always knew
I knew it before any first Christmas
'Cause I'm the second head
The invisible one
The great mind apart

And I'm also full of shit
I suppose I will explode someday

27 de maio de 2010

Dois Pássaros a Voar (6)

Entro no vagão com as outras pessoas, vacas furibundas como eu, e vou dentro dele enquanto escurece, escurece sobre os telhados dos prédios mais frágeis do que toda a gente supõe. Célere, o vagão fura a cidade a caminho de paraísos e infernos pessoais, das diversas noites em que nos recolhemos exaustos para descansarmos do dia, e aqueles que não precisam de repouso extremo, que não sentem a necessidade de sucumbir ao torpor da cidade para a ele voltarem amanhã, tentam fazer uma aproximação à vida, se não forem suficientemente cobardes para a desperdiçarem – isto porque a vida não é um mito, não, a vida existe perto de nós à espera da conquista, da nossa conquista, e ninguém a pode realmente sabotar. Porque vou para casa e tenho algumas horas livres pela frente, deixo que a minha disposição se altere automaticamente, libertando-me até de pensar na minha saúde mental. Estas transições rápidas de humor são frequentes, talvez diárias – agendar emoções, é disso que se trata. Não posso estar sempre chateado, nem constantemente em desacordo com o mundo. Por exemplo, neste momento concordo plenamente com as mamas da rapariga que vai sentada à minha frente, apertadas dentro duma blusa preta, as pernas cruzadas sob uma sebenta de álgebra elementar de que os olhos se alimentam, estudiosos. Concordo também com o preto que vai ao lado dela, lançando-lhe pequenos olhares indiscretos, fingindo contemplar a paisagem de prédios que monstruosamente nos cerca – e, neste momento, é somente com esta que discordo, porque sou arquitecto, mas já estou habituado. Em certos dias, não estou para pensar em discordâncias e no que fazer com elas. Deixo-me então absorver pela realidade, pelo mundo que se concentra totalmente neste ou noutro comboio, em permanente mudança. Entretanto, presto atenção ao estrépito da carruagem, ao ruído das rodas a girarem sobre as calhas, e deixo-me embalar pela sua monotonia, lentamente resvalando pela ladeira do sono. Encosto a cabeça à janela e adormeço.
Dentro de mim, o comboio vai através duma noite muito densa – deve ter havido um corte geral de electricidade e as luzes das ruas e dos prédios estão apagadas –, as pessoas todas muito caladas, fechadas num mutismo horrível, e uma luz vermelha de câmara de revelação fotográfica predomina como o ar abafado, pesado, que temos de respirar. Ninguém comenta o desconforto. Vejo as mamas da rapariga a subir e a descer, o seu rosto inexpressivo como o de uma boneca insuflável. Ao seu lado, os olhos do preto estão vermelhos de sangue, mas não têm pupilas, e os seus pulmões incham e desincham muito rapidamente, a um ritmo que eu não julgava ser possível. De repente, mais à frente no corredor, cai uma velha ao chão, morta, e da sua boca sai um pequeno rio de sangue. Ninguém reage, talvez por estarem todos demasiado ocupados com este esforço pulmonar de sobrevivência, tentando capturar o pouco oxigénio que existe; e eu não sou diferente, também os meus pulmões são sacos que se abrem e fecham sem se cansarem, embora não tão freneticamente quanto os do preto – deve ser o próximo a cair ao chão, morto. Assim acontece. O cadáver tomba sobre as minhas pernas. O peso é insuportável, as pernas doem-me. O meu instinto é erguer-me e empurrar o cadáver para o outro lado, mas, quando o tento fazer, percebo logo que estou congelado, cativo daquela imobilidade que não é só minha, que é também das outras pessoas, que é de todos. Não me consigo mexer. O meu organismo não me pertence. Só os pulmões se mexem, num movimento autónomo, como se me quisessem manter naquele estado angustiante em vez de me deixarem morrer. Começo a respirar cada vez mais depressa, abrindo e fechando os sacos como eu não acreditava ser possível, e uma violência enorme, incomensurável, chega-me ao coração e à consciência. É a minha vez de morrer. Entro logo num pânico de tal ordem, que consigo desfazer a imobilidade, gritando.
Acordo assarapantado. De certeza que gritei. As pessoas à minha volta olham para mim e riem-se. Sinto-me envergonhado, e então levanto-me e vou para a carruagem da frente, onde fico em pé a olhar para a cidade, que é uma festa de luzes. As pessoas falam, gesticulam, mexem-se nos assentos, volteiam as cabeças… Estão vivas. Continuo a sentir os pulmões a abrirem-se e a fecharam-se.
Entretendo, a minha estação aparece na paisagem e o comboio para. Saio angustiado, convicto de que o sonho ainda existe dentro de mim, levando-me a entrar aos poucos numa verdade que não pode ser revelada de imediato por ser demasiado aterradora (a verdade age na semi-obscuridade, tendo os símbolos como intermediários). Mas tenho medo de passar a sonhar de dia, e de a minha lucidez testemunhar essas visões – ficaria então irremediavelmente louco…
Ponho-me a caminhar através da chuva oblíqua, seguindo a corrente dos trabalhadores que vão para casa, para a vida familiar. A mim, espera-me uma casa vazia. Entro nela e ligo a aparelhagem, e ponho Black Sabath, que conjuga bem com o meu estado de espírito. Vinho tinto também – abro uma garrafa e sento-me no sofá, a encher copos e a tragá-los. Nos primeiros, o vinho sabe muito mal, é horrível, mas continuo a beber até ficar um suficientemente zonzo. Depois, a garrafa quase consumida, levanto-me e vou deliciar-me com a preparação do jantar – peito de frango salteado com cogumelos, pimento vermelho e bastante alho e cebola, em molho de natas e açafrão, a acompanhar com arroz selvagem e uma cerveja belga excelente. Como ao som do Ali Farka Touré, hipnotizado. Depois, deixo que os licores me embotem ainda mais o cérebro, dando-me uma sonolência tal que morro na solitude do meu quarto. Apaga-se a luz, acaba-se o dia.

Dois Pássaros a Voar (5)

Estou sentado à espera. De súbito, sinto um sentimento familiar a trepar por mim. Trepa como um lagarto que sobe pelas minhas costas e rasga a pele e a carne para entrar pelo meu pescoço adentro. Aberta a ferida, faz caminho pela aorta até ao meu cérebro. O lagarto instala-se, e com ele instala-se o conforto vago de uma sensação familiar: desejo de repente ser um bloco de algo – uma entidade coesa, um contínuo imparável, impenetrável e inescapável. “Como será ser um grito sem fim, um clarão de luz, ou uma dor contínua?” Tento fixar-me numa dessas possibilidades, mas ao invés de obter algo de tangível e concreto, a minha cabeça estilhaça-se e parte em todas as direcções, deixando no seu lugar um vazio profundo. Passados uns segundos para recuperar, repito a tentativa, agarrando-me à ideia de que sou uma única coisa. Sou algo, só há um problema: não sei o quê.
Continuo sentado. À espera. Como um animal exausto depois de um enorme esforço, não me quero mexer nunca mais. Oiço uma voz a chamar o meu nome. Não me consigo mexer. Estou agarrado ao “algo” que sou. A voz chama de novo. De novo não me mexo – não quero largar. Oiço o som dos sapatos altos de alguém a aproximar-se da sala onde estou. Olho à volta e todos estão a olhar para mim – já deduziram que algo se passa. A senhora responsável pelo cloque cloque dos saltos altos entra pela porta à minha direita e repete o meu nome para o ar. Ao reparar que estão todos a olhar para mim, ela percebe que o nome me pertence.
– Não tem uma consulta?
“Uma consulta.” “Exacto... foi para isso que vim aqui, foi por isso que saí do trabalho mais cedo.” De repente apercebo-me da situação, apercebo-me de que o normal teria sido levantar-me e ter ido em direcção ao consultório quando o meu nome foi chamado. Agora que sei onde estou, começo a testar os limites da situação: sei que todos estão à minha espera, já percebi que devia responder, mas não o faço. Em vez disso, espero. Fico a olhar para a senhora, que olha de volta para mim, e vejo-me reflectido nos olhos dela, a olhar de volta para ela. Conto até 5 pausadamente na minha cabeça. “Um. Dois. Três.” Ainda estão ainda todos a olhar para mim. “Quatro. Cinco.” Todos esperam algo.
Inspiro fundo.
– Com certeza, desculpe.
E, como se nada se tivesse passado, vou em direcção à médica.

O gabinete é desnecessariamente grande, com mobília velha castanha escura. Uma senhora já com alguma idade, sentada numa secretária colocada mesmo no centro da sala, olha-me, convida-me a entrar simplesmente por sorrir e inclinar a cabeça ligeiramente para baixo.
– Então, trouxe-me o exame?
“Trouxe”, penso sem dizer. Chego a mão ao envelope que tenho comigo e entrego à médica o seu conteúdo.
A médica pega nas folhas, cheias de números e palavras que não entendo, e desata a tossir convulsivamente. Um pouco mais de força e os pulmões saltariam para a mesa, e ficaríamos os dois espantados a olhar para o par de órgãos pulsando mesmo à nossa frente. Depois de acabar de tossir, demora ainda uns bons 2 minutos a ler tudo o que tem nas folhas, e finalmente diz-me:
– Não tem nada de mal. Está tudo em ordem!
Fico desiludido. Não que quisesse estar doente, mas se ao menos houvesse algo que pudesse culpar… Algo que tivesse um nome que eu pudesse responsabilizar… Mas não, não tenho nada de mal.
– Ah, ainda bem.
– Sim senhor, não se preocupe. Estou aqui a olhar para o exame – uma tomografia da minha cabeça – e não tem um único ponto estranho; o seu cérebro parece estar em óptimas condições.
Como é possivel? Eu sinto-o a separar-se de mim a cada instante. A tomar uma vida própria, a decidir viver por si. “Vou-me embora”, diz-me ele a cada instante, “Faz tu essa merda que eu não estou para isso.” Sinto-o a queixar-se quando não gosta do que eu lhe fiz ou do que o obrigo a fazer, sinto-o a apertar-se e a contorcer-se causando-me uma dor agoniante. Sinto uma mão lá dentro a apertar-me os miolos, a espremê-los como se fossem uma esponja, a rasgá-los como quem rasga um tecido.
– Então e para as dores?
– Os analgésicos que já lhe receitei devem bastar. Não?
– Bem... nem por isso. Há dias que nem me consigo mexer.
– Hmm. Podemos passar para algo mais forte.
Desgastado, saio do consultório e vou apanhar o comboio de volta para casa.

Uns 10 minutos antes de chegar à estação onde apanho o comboio, percorro uma das ruas mais movimentadas da cidade na hora de ponta. Pessoas por todo lado circulam freneticamente para regressar à toca. Ainda vou a pensar na consulta. Às vezes só me apetece furar a minha cabeça e aliviá-la de todas as dores. Ganhei novos medicamentos, pode ser que façam algo.
Enquanto caminho, tenho que me desviar daqueles que andam mais lentamente. À minha frente está um casal nos seus trinta anos. A mulher extremamente alta com saltos altos vermelhos e uma saia apertada pelas canelas, e ele mais baixo e largo, com ténis e umas calças azuis escuras. Caminham os dois lado a lado com extrema confiança, não vão certamente mais lentamente do que eu. Observo os pés de ambos sincronizados enquanto eles conversam sobre qualquer coisa. De repente, sem mais nem menos, sem ter pensado no que ia fazer, exactamente quando o homem levanta o pé direito, eu pontapeio levemente o seu pé esquerdo (o único em que ele se apoiava) e o coitado cai ao chão. É um caos. O homem cai, tenta agarrar-se à mulher, agarra-lhe a mala, rompe-lhe uma das pegas, e cai ao mesmo tempo que todo o conteúdo da mala dela se espalha pelo chão. Toda a gente fica a olhar.
– Peço imensa desculpa! – Apresso-me a gritar. Vou directamente em direcção a ele para tentar ajudar. Enquanto se levanta atrapalhado, o homem obedece às convenções de educação:
– Pronto, não faz mal, está tudo bem.
A mulher ajuda-o enquanto as pessoas continuam a observar a situação. Agora tento apanhar a tralha que caiu da mala dela. Enquanto lhe devolvo as coisas, reparo na sua cara. Já deve ter mais de trinta e cinco anos, mas ainda tem uma cara jovem. Cabelo preto, um nariz redondo e muito batom vermelho escuro. Os brincos pequenos e brilhantes ficam-lhe bem.
– Peço muita desculpa – vou dizendo, enquanto olho para o casal. A verdade, claro, é que estou satisfeito com o que fiz. É ridículo. O que se está a passar? Acabei de atirar um homem ao chão, e por de baixo da máscara de embaraço que tive que vestir, na verdade estou a sorrir. Não tiro nenhum prazer de ter magoado o homem, claro, mas algo no caos que gerei excita-me. “O que se passou aqui?”
– Peço desculpa, não estava a reparar onde punha os pés.
– Vá, não se fala mais nisso – responde-me o homem, enquanto sacode o casaco da poeira da rua –, não me magoei.
O casal entrelaça os braços e segue em frente. Eu no entanto fico parado a pensar no que fiz. Estou a tremer. Não é medo do homem que já se afasta ao longe. Não é a excitação que já passou. É o pensamento, cada vez mais frequente e mais vívido, de que estou a perder o controlo. “Isto pode acabar mal.”

Dois Pássaros a Voar (4)

No gabinete da Celeste entram catadupas de luz que atravessam espaços intermédios carregados de reflexões de nicotina e acabam por incidir no velho estirador, onde reina uma confusão de pilhas de envelopes de correio por abrir e esboços de configurações de cimento por erigir, na imensidão caótica de um sucesso mental que ali tem as suas crias precoces. Sabemos incubá-las nas nossas matemáticas verticais, para depois parirmos o monstro em que habitar a humana soberania de uma inteligência por cumprir, a absoluta indecência de um saber infinitamente escasso. Criamos um espaço físico que esteja de acordo com a incompletude das nossas laboriosas colmeias de pensamento. A maioria das vezes, porém, pedem-nos que elaboremos umas casas e uns prédios onde somente se durma, e deixamos os sonhos académicos-artísticos para depois. Construímos então, tijolo sobre tijolo, uma rede que se fecha sobre a inutilidade dos sonhos das pessoas, e fazemos um abrigo para o anonimato que teimosamente insiste, persiste na sua reaccionária importância, e torna-nos cínicos e tímidos, incapazes de verdadeiras emoções, impotentes e cobardes.
Eu e a Celeste sentamo-nos frente a frente e ela serve o habitual café preto forte.
– Ora bem… Tenho uma boa notícia para ti. – Faz uma pausa, como que para apreciar e espicaçar a minha curiosidade. – Ganhámos o concurso!
– Boa! Estamos de parabéns!
– Estás. Os aspectos originais são teus. Sem ti, não conseguíamos de certeza.
– Eu por ti faço tudo.
– És um amor. Sabes o que tens a fazer. Vou dar ao Francisco o projecto da Sarmento e tu ficas com este.
Este projecto é um centro pluricultural, chamam-lhe assim, numa freguesia suburbana. É suposto ter uma biblioteca, com uma grande secção à parte para a criançada, e uma sala polivalente para concertos, conferências e projecções de filmes. O projecto do ano. Cresce-me o ego. Sou um bom arquitecto, o melhor da firma.
Saio do gabinete e encontro as caras matinais pregadas aos monitores, sorvendo golos de café, preparando-se para operações de linhas paralelas e perpendiculares sobre terras desocupadas. Terras a ocupar. Há que civilizá-las até deixarem de ser terras. Não é essa a minha concepção do que a arquitectura deve ser… Mas não interessa, porque o meu idealismo é pouco importante, até mesmo para mim. Vendo o meu esforço, o meu trabalho, alugo-me para poder comprar coisas de que preciso para viver com a ilusão de que não vou morrer tão cedo.
– Então, a patroa deu-te um presente?
– Deu-me a mim e deu-te a ti. Ganhámos o centro cultural e eu fico com o projecto. Ela disse-me para eu te passar o complexo da Sarmento.
– Que simpatia.
Que simpatia, a escassez na tua mente, penso sem dizer. Ligo o computador para ver os e-mails. Também eu com a minha cara matinal pregada ao meu monitor. Uma fotografia de mais uma invenção artística de um amigo meio maluco, o pleno voo da sua imaginação – pintou as paredes do quarto de preto, e sobre o preto deixou escorrer tintas de várias cores garridas, como se fosse uma tela do Pollock, mas uma tela preta; no chão de tacos de madeira e poeira, garrafas de vidro verde, de adega velha, suportam velas vermelhas que, na semi-obscuridade do habitáculo, acendam esperanças mágicas de uma satânica sensualidade desabrida, uma enxurrada violenta de sangue em possessas bocas… Deixo que a minha imaginação, também doentia, participe na construção do quadro, e vejo ali a irmã do meu amigo, deitada nua e ofegante na cama, com as chamas vermelhas à volta e sob a influência de bruxedos que haviam sido excomungados, mas que voltam para a possuir. E ela respira dificilmente, numa apoteótica espera de mim. Mergulharíamos, sim, mergulharíamos para não mais voltarmos à superfície…
Mas eis que me encontro solitariamente sobre a superfície, tentando caminhar através da bruma que alguém lançou no caminho, tropeçando em obstáculos cuja existência não compreendo. A Madalena não é para aqui chamada.
Passo a manhã a tratar da papelada e a transferir para o Chico o que passará a ser da sua responsabilidade, preparando-o para a eventualidade de a Celeste não gostar da sua técnica demasiado caloira e de criticar maternalmente, com ambígua rispidez dócil, o seu método académico, que por certo não se adequa à rapidez cruel do mercado.
Saio à tarde para almoçar, aliás sem deixar de cumprir o que me é rotineiramente destinado, mas com alegria de pausa e de ar da rua quebrando a rigidez das faces, um intervalo de soalheira calçada portuguesa. Atravessamos (sim, trata-se de uma quase obrigatória alegria plural) o alcatrão e entramos no tasquedo que diariamente acolhe a satisfação da nossa fome, saudados pelo prazenteiro bigode do senhor Silva, personagem patusca que não podia ter outro nome, mesmo que tivesse outro apelido. E desfrutamos da hora. Merecemo-la.
À minha frente, o Fialho lambuza o seu bitoque de terça-feira, efectuado pausas contentes para engolir uma porção do tintol de classe média-baixa, ou para libertar uma gargalhada genuína quando, à sua direita, o puto Chico diz uma parvoíce qualquer sem eira nem beira, que porém não deixa de ter a sua utilidade. A Ana Maria não come. Em contrapartida, bebe mais do que a conta e sorri para nós de um modo quase lascivo, declarando sem saber a fome da sua sensualidade de beata. Outra mulher, a Elsa, é bem mais equilibrada e saudável – quarentona em estado impecável, bem casada e mãe de dois filhos traquinas. Não se farta de relatar a evolução dos filhos e aproveita todas as oportunidades para evocar o bem-estar da família e a sua felicidade, da qual já todos estão fartos. Outras personagens habituais são o Miguel, a Sandra e o João – por ordem de normalidade, numa ascendência que pontifica para o desinteresse e o aborrecimento, características adquiridas por quem suprime catolicamente a individualidade e o desejo e se esconde atrás da máscara da moderação. Que coisa horrível, a aparência de normalidade… Por exemplo, o último da lista, o João, é aparentemente normal ao ponto de se ter tornado invisível, mas não tem consciência dessa irrelevância. Atribuiu-se a ele próprio uma importância mental que não se chegou a manifestar fisicamente, presa a uma espécie de infância prolongada. O que é a timidez? Narcisismo cobarde, que não se assume e vive de enredos e criatividade oclusa, luzes e sombras fechadas num pátio interior, dentro de linhas infindas de trincheiras e barreiras num descampado onde ninguém entra sem antes se transformar numa imagem, numa representação psíquica. Os seus amigos são fantasmas. Se ele se conseguisse libertar, seria talvez um grande artista.
A Celeste não é presença frequente e só muito raramente almoça connosco. Nessas ocasiões, deixa de ser a chefe e fala-nos de cinema, livros e viagens, e aprendemos coisas com ela que, de outro modo, não aprenderíamos. Na última vez ouvimos falar da Índia, onde esteve com o seu companheiro actual. O dito está envolvido num projecto de produção de biodiesel e teve de se deslocar à Índia para negociar o fornecimento de sementes oleaginosas à empresa. Ela acompanhou-o e aproveitou para conhecer uma pequena parte daquele grande país. Pelo que nos contou da viagem, teve um choque cultural tremendo que a enriqueceu, e naquele almoço ela deu-nos um vislumbre desse conhecimento.
– Então e agora, que tenho de pegar no trabalho deste gajo? Como se já não tivesse bastante que fazer… Vai-te foder – a Celeste não está connosco e o puto queixa-se de eu ter-lhe passado o meu trabalho.
– Tu estás aqui é para trabalhar. Vai-te habituando.
Dou por mim a repetir o que o Fialho lhe está sempre a dizer – e ele próprio não é um grande exemplo de trabalhador, embora já esteja a trabalhar para a Celeste há quase vinte anos.
O almoço prossegue. O bacalhau com natas é mais interessante do que os meus colegas, aliás todo o mau vinho que bebo, com total desrespeito pelo que se designa por ética profissional, é mais interessante que os meus colegas. Hoje bebo tanto quanto a Ana Maria e, à tarde, finjo que começo a trabalhar no raio do centro cultural. Às quatro da tarde vou-me finalmente embora.

Dois Pássaros a Voar (3)

É a minha estação. Eu e mais umas quantas cabeças grosseiras saímos para que outros possam preencher o vazio deixado por nós, entrando na carruagem que os levará a cumprir a rotina diária. Vou em direcção ao trabalho e ganho consciência de não estar sozinho na rua. O ruído, os cheiros, todo o mundo visível que me rodeia, entram pelos meus sentidos cavalgando sem que eu possa decidir se os quero deixar entrar. Levanto a cabeça por uns instantes e olho à volta, e vendo os que me rodeiam não consigo afastar um pensamento: a ideia de que a maioria de nós parece ser feita de plástico… uma breve camada de verniz a proteger uma superfície fina, nada lá dentro. Apodera-se de mim um forte impulso de ir ter com alguém e espetar-lhe um alfinete para ver se se esvazia deixando apenas um pequeno trapo do que era. Estou certo que alguns são muito mais espessos do que imagino. De facto, se me visse a mim mesmo à distância, olhando para o vazio, caminhando submisso, eu próprio estaria certo que um alfinete bem colocado seria fatal para a minha integridade neste mundo. É um facto da vida, cada pessoa anda pela rua tapada por esta camada superficial, e as breves trocas de olhares, ou parcas palavras trocadas, não chegam para espreitar para dentro e ver se algo lá existe.

Trabalho numa firma de arquitectura. Fica no terceiro andar de um prédio feio de esquina. Entro no prédio, entro no elevador, fecho a porta e carrego no botão para subir. Cada nível passa à minha frente enquanto o elevador sobe deixando para trás a rua barulhenta lá fora. Vou-me habituando à ideia de que agora estou no trabalho. Chego ao meu andar e abro a porta.
Somos 7. A empresa é da Celeste, uma arquitecta nos seus 50 anos que vai conseguindo trabalho suficiente para nos manter a todos ocupados e assalariados. O clima é geralmente amigável, sem grandes cumplicidades. A maioria dos meus colegas conheci-os quando me juntei à empresa, mas um deles (o Fialho) tinha sido meu companheiro na faculdade. Um personagem bastante desinteressante – aluno médio, cidadão pacificado, trabalhador sem motivação; sempre a fazer um esforço para parecer alegre, não muito diferente dos outros.
Mal chego, os meus pensamentos são interrompidos pelas saudações matinais do rebanho plastificado.
– Bom dia. Então, tudo bem?
– Oi – respondo.
– Olha, ela quer falar contigo. Disse para quando puderes passares pelo gabinete dela.
– Hmm ok. Obrigado, já lá vou.
Antes de me entregar ao dia, dou uma vista de olhos pelos jornais que são entregues de manhã no escritório. Sento-me para os ler num sofá que o escritório tem para esse propósito (acho que a Celeste o comprou a pensar em mim, mais ninguém o usa). As capas do dia têm todas mais ou menos o mesmo assunto: mais um fogo-posto num armazém abandonado. É o terceiro este mês. Parece que anda por aí alguém a queimar armazéns nos subúrbios industriais da cidade. Instintivamente, tenho uma certa simpatia pela causa, penso. Depois da história da capa, nas primeiras páginas o assunto é política. Mas nem é verdadeiramente política!, são só os casos pessoais envolvendo os políticos. Já ninguém discute política, a discussão agora centra-se nas pessoas. Ninguém fala sobre ideias para a sociedade. Os jornais fazem o favor de manter tudo isto à margem dos leitores e pacifica-os com intrigas, cumprindo o seu papel de ocuparem o lugar de supostos jornalistas sérios que falam sobre assuntos sérios. Leio os textos durante uns minutos, mas quando dou por isso já não estou a ler nada. É tudo tão superficial que nem me consigo concentrar, não há nada onde me agarrar e inevitavelmente divago. Fico só a olhar para o papel e a pensar. A pensar que esta é a minha vida! Sou um empregado numa firma de arquitectura. Como cheguei aqui? O que aconteceu? Era este o caminho inevitável? E, se não fosse, estaria eu a pensar a mesma coisa onde quer que estivesse? Acho que sim. Tenho a certeza que, se estivesse agora por trás do balcão no café ou na padaria ao pé de minha casa, estaria a pensar exactamente o mesmo – a olhar nos olhos de um cliente qualquer a gritar comigo por eu não lhe estar a responder. Qualquer que seja a vida particular que qualquer pessoa tenha, essa vida não passa de um ponto aleatório no meio de um universo de possibilidades. É muito mais aquilo que não somos do que aquilo que somos. E, se chegamos a onde estamos por virtude de tanta coisa que não podemos controlar, o que tem de especial o sítio onde estamos? Nada. E a verdade é que não me sinto apegado a nada do que está à minha volta. O escritório podia arder todo até ao último pedaço de cinza carbonizada, que não me faria a mínima diferença. Num dia de céu carregado, no meio de um ar abafado, imagino-me a vasculhar nos destroços de um imenso incêndio. Onde era o escritório, agora estão escombros. A cinza cobre-me e eu procuro zonas ainda incandescentes para vislumbrar algo da força magistral que teria destruído todo o edifício.
– Bom dia! – Ao ouvir a voz, desvio o olhar do infinito e volto a focá-lo no que se passa à minha frente. Podemos falar no meu gabinete, se não te importares?
A Celeste é uma mulher que de certa forma admiro. É solteira e tem uma filha. Conseguiu mais ou menos o que queria na vida sem sacrificar o humor, o bom senso, o interesse pela arte e a cultura, a empatia, o envolvimento na sociedade. Não sei se é feliz – as mágoas pessoais e privadas de cada um estão para além do meu saber –, mas vive uma vida razoavelmente completa e rica. É a única pessoa no trabalho com quem falar não é apenas uma obrigação. Pouco mais de um mês depois de estar a trabalhar para ela, a empresa teve um grande projecto com um prazo apertado. Lembro-me de fazer noitadas de trabalho, e de essas noitadas serem pautadas por algumas conversas agradáveis. Ambos reservados e cientes da nossa privacidade, íamos deixando pingar pequenos detalhes pessoais por entre outras conversas. Gostava especialmente de notar que a Celeste não parecia fazer nenhum esforço para causar nenhuma impressão em particular. Era como era, sem criar uma personagem para os outros. Nem se masculinizava para parecer mais forte, nem se abonecava para agradar a ninguém. Não era extra-simpática com os amigos e amigas, nem era formal com os colegas. Lidava com todos com a mesma naturalidade (e complexidade). Não há preconceitos, rótulos ou categorias na cabeça da Celeste, há apenas o mundo, e isso dá-me conforto.
Ao vir ter comigo esta manhã ao sofá, não parece estar demasiado séria, por isso não devem ser más notícias. De bom grado, deixo para trás as minhas interrogações matinais sobre a vida e sigo-a até ao gabinete.

21 de maio de 2010

Há uma multidão acocorada na praça central da cidade, uma multidão que rasteja diante das montras em deslumbramento. As nuvens são cinzentas, quase negras, e começa a chover. As pessoas aninham-se ainda mais, recolhendo-se debaixo de pequenas abóbadas negras. Há um crescendo de intensidade na violência da atmosfera, e então as pessoas permanecem ali, paradas e seguras na sua falsa segurança. Subitamente, um homem corre para o centro da praça e ergue um revólver no ar. Ouvem-se gritos e dá-se a debandada. Ninguém fica para ver o milagre. O homem dispara o revólver e dele saem flores, lírios e rosas e tulipas e madressilvas, e o ar cinzento torna-se azul. O homem morre de felicidade, sozinho no centro da praça da cidade, enquanto os outros, os cidadãos, já recolhidos nas suas casas e nas suas famílias, comentam o aparecimento do maluco que queria disparar para a multidão. À noite, na segunda parte das notícias, depois do futebol e da política nacional, é o que se conta, a história do maluco que começou a disparar para a população em fuga. Ninguém diz que do revólver saíram flores e que o céu ficou de um azul intensíssimo de celebração. Ninguém reporta o milagre. Ninguém percebe o milagre.

20 de maio de 2010

Ao Miguel, no seu 4º Aniversário, e contra o nuclear, naturalmente.

Vais crescendo, meu filho, com a difícil
luz do mundo. Não foi um paraíso,
que não é medida humana, o que para ti
sonhei. Só quis que a terra fosse limpa,
nela pudesses respirar desperto
e aprender que todo o homem, todo,
tem direito a sê-lo inteiramente
até ao fim. Terra de sol maduro,
redonda terra de cavalos e maçãs,
terra generosa, agora atormentada
no próprio coração; terra onde teu pai
e tua mãe amaram para que fosses
o pulsar da vida, tornada inferno
vivo onde nos vão encurralando
o medo, a ambição, a estupidez,
se não for demência apenas a razão;
terra inocente, terra atraiçoada,
em que nem sequer é já possível
pousar num rio os olhos de alegria,
e partilhar o pão, ou a palavra;
terra onde o ódio a tanta e tão vil
besta fardada é tudo o que nos resta;
abutres e chacais que do saber fizeram
comércio tão contrário à natureza
que só crimes e crimes e crimes pariam.
Que faremos nós, filho, para que a vida
seja mais que cegueira e cobardia?

em Antologia Breve, Eugénio de Andrade, Fundação Eugénio de Andrade, 7ª Edição, 1999

9 de maio de 2010

A mente do escritor é habitada pela humanidade.

Um romance permite que as contradições do seu autor se manifestem, através das personagens que ele cria. Ultrapassa assim a censura dos tempos modernos, que consiste na obsessão pela consistência, o caminho austero do indivíduo, uma personalidade única para um ser único, uma formiga entre as formigas que grita furibunda a importância da sua singularidade enquanto formiga, como se esta deveras existe. Mas não existe. O romancista, como qualquer Zé, é crente e céptico, submisso e rebelde, racional e espontâneo, introvertido e expansivo, diligente e preguiçoso, yin e yang… A sua obra é a expressão épica de uma individualidade de mil facetas. Ele afirma que é múltiplo, que é vários ao mesmo tempo, que não se satisfaz com ser apenas um indivíduo, portador do bilhete de identidade número tal, caucasiano ou preto, homem ou mulher… Ele é branco e preto ao mesmo tempo, homem e mulher, jovem e velho. Cada homem tem mil dentro de si, e os dedos do escritor trabalham freneticamente para afirmarem essa profusão da existência, essa teimosia em ser vários. A mente do escritor é habitada pela humanidade.

1 de maio de 2010

Próximos os corpos
Mas há distâncias de vidro entre nós
Onde flutuam obscenidades
Imaginações apenas da adolescência em que teimamos ficar presos.

Só os olhares se tocam
Creio que atravessam estas fronteiras
O cimento estala e cai
Fios se sangue saltam de ti
E prendem-me.

Conheces-me por dentro. É recíproco – eu conheço-te a ti
Há séculos
Milénios talvez
Desde sempre
E há um encontro que é uma maldição e não devia acontecer nunca.

Se também as mãos agissem
E tu me tocasses
Eu morreria.
Um golpe
É a palavra certa
A mais adequada para descrever
Um buraco no coração
Fonte deste profuso rio de sangue
Quente vermelho sofrido.

Há-de cair sobre a terra
A prova
De que o amor é impossível
Porque quando acontece
É também a morte
Demasiado
Fatal.

Escravos do Desejo