No gabinete da Celeste entram catadupas de luz que atravessam espaços intermédios carregados de reflexões de nicotina e acabam por incidir no velho estirador, onde reina uma confusão de pilhas de envelopes de correio por abrir e esboços de configurações de cimento por erigir, na imensidão caótica de um sucesso mental que ali tem as suas crias precoces. Sabemos incubá-las nas nossas matemáticas verticais, para depois parirmos o monstro em que habitar a humana soberania de uma inteligência por cumprir, a absoluta indecência de um saber infinitamente escasso. Criamos um espaço físico que esteja de acordo com a incompletude das nossas laboriosas colmeias de pensamento. A maioria das vezes, porém, pedem-nos que elaboremos umas casas e uns prédios onde somente se durma, e deixamos os sonhos académicos-artísticos para depois. Construímos então, tijolo sobre tijolo, uma rede que se fecha sobre a inutilidade dos sonhos das pessoas, e fazemos um abrigo para o anonimato que teimosamente insiste, persiste na sua reaccionária importância, e torna-nos cínicos e tímidos, incapazes de verdadeiras emoções, impotentes e cobardes.
Eu e a Celeste sentamo-nos frente a frente e ela serve o habitual café preto forte.
– Ora bem… Tenho uma boa notícia para ti. – Faz uma pausa, como que para apreciar e espicaçar a minha curiosidade. – Ganhámos o concurso!
– Boa! Estamos de parabéns!
– Estás. Os aspectos originais são teus. Sem ti, não conseguíamos de certeza.
– Eu por ti faço tudo.
– És um amor. Sabes o que tens a fazer. Vou dar ao Francisco o projecto da Sarmento e tu ficas com este.
Este projecto é um centro pluricultural, chamam-lhe assim, numa freguesia suburbana. É suposto ter uma biblioteca, com uma grande secção à parte para a criançada, e uma sala polivalente para concertos, conferências e projecções de filmes. O projecto do ano. Cresce-me o ego. Sou um bom arquitecto, o melhor da firma.
Saio do gabinete e encontro as caras matinais pregadas aos monitores, sorvendo golos de café, preparando-se para operações de linhas paralelas e perpendiculares sobre terras desocupadas. Terras a ocupar. Há que civilizá-las até deixarem de ser terras. Não é essa a minha concepção do que a arquitectura deve ser… Mas não interessa, porque o meu idealismo é pouco importante, até mesmo para mim. Vendo o meu esforço, o meu trabalho, alugo-me para poder comprar coisas de que preciso para viver com a ilusão de que não vou morrer tão cedo.
– Então, a patroa deu-te um presente?
– Deu-me a mim e deu-te a ti. Ganhámos o centro cultural e eu fico com o projecto. Ela disse-me para eu te passar o complexo da Sarmento.
– Que simpatia.
Que simpatia, a escassez na tua mente, penso sem dizer. Ligo o computador para ver os e-mails. Também eu com a minha cara matinal pregada ao meu monitor. Uma fotografia de mais uma invenção artística de um amigo meio maluco, o pleno voo da sua imaginação – pintou as paredes do quarto de preto, e sobre o preto deixou escorrer tintas de várias cores garridas, como se fosse uma tela do Pollock, mas uma tela preta; no chão de tacos de madeira e poeira, garrafas de vidro verde, de adega velha, suportam velas vermelhas que, na semi-obscuridade do habitáculo, acendam esperanças mágicas de uma satânica sensualidade desabrida, uma enxurrada violenta de sangue em possessas bocas… Deixo que a minha imaginação, também doentia, participe na construção do quadro, e vejo ali a irmã do meu amigo, deitada nua e ofegante na cama, com as chamas vermelhas à volta e sob a influência de bruxedos que haviam sido excomungados, mas que voltam para a possuir. E ela respira dificilmente, numa apoteótica espera de mim. Mergulharíamos, sim, mergulharíamos para não mais voltarmos à superfície…
Mas eis que me encontro solitariamente sobre a superfície, tentando caminhar através da bruma que alguém lançou no caminho, tropeçando em obstáculos cuja existência não compreendo. A Madalena não é para aqui chamada.
Passo a manhã a tratar da papelada e a transferir para o Chico o que passará a ser da sua responsabilidade, preparando-o para a eventualidade de a Celeste não gostar da sua técnica demasiado caloira e de criticar maternalmente, com ambígua rispidez dócil, o seu método académico, que por certo não se adequa à rapidez cruel do mercado.
Saio à tarde para almoçar, aliás sem deixar de cumprir o que me é rotineiramente destinado, mas com alegria de pausa e de ar da rua quebrando a rigidez das faces, um intervalo de soalheira calçada portuguesa. Atravessamos (sim, trata-se de uma quase obrigatória alegria plural) o alcatrão e entramos no tasquedo que diariamente acolhe a satisfação da nossa fome, saudados pelo prazenteiro bigode do senhor Silva, personagem patusca que não podia ter outro nome, mesmo que tivesse outro apelido. E desfrutamos da hora. Merecemo-la.
À minha frente, o Fialho lambuza o seu bitoque de terça-feira, efectuado pausas contentes para engolir uma porção do tintol de classe média-baixa, ou para libertar uma gargalhada genuína quando, à sua direita, o puto Chico diz uma parvoíce qualquer sem eira nem beira, que porém não deixa de ter a sua utilidade. A Ana Maria não come. Em contrapartida, bebe mais do que a conta e sorri para nós de um modo quase lascivo, declarando sem saber a fome da sua sensualidade de beata. Outra mulher, a Elsa, é bem mais equilibrada e saudável – quarentona em estado impecável, bem casada e mãe de dois filhos traquinas. Não se farta de relatar a evolução dos filhos e aproveita todas as oportunidades para evocar o bem-estar da família e a sua felicidade, da qual já todos estão fartos. Outras personagens habituais são o Miguel, a Sandra e o João – por ordem de normalidade, numa ascendência que pontifica para o desinteresse e o aborrecimento, características adquiridas por quem suprime catolicamente a individualidade e o desejo e se esconde atrás da máscara da moderação. Que coisa horrível, a aparência de normalidade… Por exemplo, o último da lista, o João, é aparentemente normal ao ponto de se ter tornado invisível, mas não tem consciência dessa irrelevância. Atribuiu-se a ele próprio uma importância mental que não se chegou a manifestar fisicamente, presa a uma espécie de infância prolongada. O que é a timidez? Narcisismo cobarde, que não se assume e vive de enredos e criatividade oclusa, luzes e sombras fechadas num pátio interior, dentro de linhas infindas de trincheiras e barreiras num descampado onde ninguém entra sem antes se transformar numa imagem, numa representação psíquica. Os seus amigos são fantasmas. Se ele se conseguisse libertar, seria talvez um grande artista.
A Celeste não é presença frequente e só muito raramente almoça connosco. Nessas ocasiões, deixa de ser a chefe e fala-nos de cinema, livros e viagens, e aprendemos coisas com ela que, de outro modo, não aprenderíamos. Na última vez ouvimos falar da Índia, onde esteve com o seu companheiro actual. O dito está envolvido num projecto de produção de biodiesel e teve de se deslocar à Índia para negociar o fornecimento de sementes oleaginosas à empresa. Ela acompanhou-o e aproveitou para conhecer uma pequena parte daquele grande país. Pelo que nos contou da viagem, teve um choque cultural tremendo que a enriqueceu, e naquele almoço ela deu-nos um vislumbre desse conhecimento.
– Então e agora, que tenho de pegar no trabalho deste gajo? Como se já não tivesse bastante que fazer… Vai-te foder – a Celeste não está connosco e o puto queixa-se de eu ter-lhe passado o meu trabalho.
– Tu estás aqui é para trabalhar. Vai-te habituando.
Dou por mim a repetir o que o Fialho lhe está sempre a dizer – e ele próprio não é um grande exemplo de trabalhador, embora já esteja a trabalhar para a Celeste há quase vinte anos.
Eu e a Celeste sentamo-nos frente a frente e ela serve o habitual café preto forte.
– Ora bem… Tenho uma boa notícia para ti. – Faz uma pausa, como que para apreciar e espicaçar a minha curiosidade. – Ganhámos o concurso!
– Boa! Estamos de parabéns!
– Estás. Os aspectos originais são teus. Sem ti, não conseguíamos de certeza.
– Eu por ti faço tudo.
– És um amor. Sabes o que tens a fazer. Vou dar ao Francisco o projecto da Sarmento e tu ficas com este.
Este projecto é um centro pluricultural, chamam-lhe assim, numa freguesia suburbana. É suposto ter uma biblioteca, com uma grande secção à parte para a criançada, e uma sala polivalente para concertos, conferências e projecções de filmes. O projecto do ano. Cresce-me o ego. Sou um bom arquitecto, o melhor da firma.
Saio do gabinete e encontro as caras matinais pregadas aos monitores, sorvendo golos de café, preparando-se para operações de linhas paralelas e perpendiculares sobre terras desocupadas. Terras a ocupar. Há que civilizá-las até deixarem de ser terras. Não é essa a minha concepção do que a arquitectura deve ser… Mas não interessa, porque o meu idealismo é pouco importante, até mesmo para mim. Vendo o meu esforço, o meu trabalho, alugo-me para poder comprar coisas de que preciso para viver com a ilusão de que não vou morrer tão cedo.
– Então, a patroa deu-te um presente?
– Deu-me a mim e deu-te a ti. Ganhámos o centro cultural e eu fico com o projecto. Ela disse-me para eu te passar o complexo da Sarmento.
– Que simpatia.
Que simpatia, a escassez na tua mente, penso sem dizer. Ligo o computador para ver os e-mails. Também eu com a minha cara matinal pregada ao meu monitor. Uma fotografia de mais uma invenção artística de um amigo meio maluco, o pleno voo da sua imaginação – pintou as paredes do quarto de preto, e sobre o preto deixou escorrer tintas de várias cores garridas, como se fosse uma tela do Pollock, mas uma tela preta; no chão de tacos de madeira e poeira, garrafas de vidro verde, de adega velha, suportam velas vermelhas que, na semi-obscuridade do habitáculo, acendam esperanças mágicas de uma satânica sensualidade desabrida, uma enxurrada violenta de sangue em possessas bocas… Deixo que a minha imaginação, também doentia, participe na construção do quadro, e vejo ali a irmã do meu amigo, deitada nua e ofegante na cama, com as chamas vermelhas à volta e sob a influência de bruxedos que haviam sido excomungados, mas que voltam para a possuir. E ela respira dificilmente, numa apoteótica espera de mim. Mergulharíamos, sim, mergulharíamos para não mais voltarmos à superfície…
Mas eis que me encontro solitariamente sobre a superfície, tentando caminhar através da bruma que alguém lançou no caminho, tropeçando em obstáculos cuja existência não compreendo. A Madalena não é para aqui chamada.
Passo a manhã a tratar da papelada e a transferir para o Chico o que passará a ser da sua responsabilidade, preparando-o para a eventualidade de a Celeste não gostar da sua técnica demasiado caloira e de criticar maternalmente, com ambígua rispidez dócil, o seu método académico, que por certo não se adequa à rapidez cruel do mercado.
Saio à tarde para almoçar, aliás sem deixar de cumprir o que me é rotineiramente destinado, mas com alegria de pausa e de ar da rua quebrando a rigidez das faces, um intervalo de soalheira calçada portuguesa. Atravessamos (sim, trata-se de uma quase obrigatória alegria plural) o alcatrão e entramos no tasquedo que diariamente acolhe a satisfação da nossa fome, saudados pelo prazenteiro bigode do senhor Silva, personagem patusca que não podia ter outro nome, mesmo que tivesse outro apelido. E desfrutamos da hora. Merecemo-la.
À minha frente, o Fialho lambuza o seu bitoque de terça-feira, efectuado pausas contentes para engolir uma porção do tintol de classe média-baixa, ou para libertar uma gargalhada genuína quando, à sua direita, o puto Chico diz uma parvoíce qualquer sem eira nem beira, que porém não deixa de ter a sua utilidade. A Ana Maria não come. Em contrapartida, bebe mais do que a conta e sorri para nós de um modo quase lascivo, declarando sem saber a fome da sua sensualidade de beata. Outra mulher, a Elsa, é bem mais equilibrada e saudável – quarentona em estado impecável, bem casada e mãe de dois filhos traquinas. Não se farta de relatar a evolução dos filhos e aproveita todas as oportunidades para evocar o bem-estar da família e a sua felicidade, da qual já todos estão fartos. Outras personagens habituais são o Miguel, a Sandra e o João – por ordem de normalidade, numa ascendência que pontifica para o desinteresse e o aborrecimento, características adquiridas por quem suprime catolicamente a individualidade e o desejo e se esconde atrás da máscara da moderação. Que coisa horrível, a aparência de normalidade… Por exemplo, o último da lista, o João, é aparentemente normal ao ponto de se ter tornado invisível, mas não tem consciência dessa irrelevância. Atribuiu-se a ele próprio uma importância mental que não se chegou a manifestar fisicamente, presa a uma espécie de infância prolongada. O que é a timidez? Narcisismo cobarde, que não se assume e vive de enredos e criatividade oclusa, luzes e sombras fechadas num pátio interior, dentro de linhas infindas de trincheiras e barreiras num descampado onde ninguém entra sem antes se transformar numa imagem, numa representação psíquica. Os seus amigos são fantasmas. Se ele se conseguisse libertar, seria talvez um grande artista.
A Celeste não é presença frequente e só muito raramente almoça connosco. Nessas ocasiões, deixa de ser a chefe e fala-nos de cinema, livros e viagens, e aprendemos coisas com ela que, de outro modo, não aprenderíamos. Na última vez ouvimos falar da Índia, onde esteve com o seu companheiro actual. O dito está envolvido num projecto de produção de biodiesel e teve de se deslocar à Índia para negociar o fornecimento de sementes oleaginosas à empresa. Ela acompanhou-o e aproveitou para conhecer uma pequena parte daquele grande país. Pelo que nos contou da viagem, teve um choque cultural tremendo que a enriqueceu, e naquele almoço ela deu-nos um vislumbre desse conhecimento.
– Então e agora, que tenho de pegar no trabalho deste gajo? Como se já não tivesse bastante que fazer… Vai-te foder – a Celeste não está connosco e o puto queixa-se de eu ter-lhe passado o meu trabalho.
– Tu estás aqui é para trabalhar. Vai-te habituando.
Dou por mim a repetir o que o Fialho lhe está sempre a dizer – e ele próprio não é um grande exemplo de trabalhador, embora já esteja a trabalhar para a Celeste há quase vinte anos.
O almoço prossegue. O bacalhau com natas é mais interessante do que os meus colegas, aliás todo o mau vinho que bebo, com total desrespeito pelo que se designa por ética profissional, é mais interessante que os meus colegas. Hoje bebo tanto quanto a Ana Maria e, à tarde, finjo que começo a trabalhar no raio do centro cultural. Às quatro da tarde vou-me finalmente embora.