21 de maio de 2010

Há uma multidão acocorada na praça central da cidade, uma multidão que rasteja diante das montras em deslumbramento. As nuvens são cinzentas, quase negras, e começa a chover. As pessoas aninham-se ainda mais, recolhendo-se debaixo de pequenas abóbadas negras. Há um crescendo de intensidade na violência da atmosfera, e então as pessoas permanecem ali, paradas e seguras na sua falsa segurança. Subitamente, um homem corre para o centro da praça e ergue um revólver no ar. Ouvem-se gritos e dá-se a debandada. Ninguém fica para ver o milagre. O homem dispara o revólver e dele saem flores, lírios e rosas e tulipas e madressilvas, e o ar cinzento torna-se azul. O homem morre de felicidade, sozinho no centro da praça da cidade, enquanto os outros, os cidadãos, já recolhidos nas suas casas e nas suas famílias, comentam o aparecimento do maluco que queria disparar para a multidão. À noite, na segunda parte das notícias, depois do futebol e da política nacional, é o que se conta, a história do maluco que começou a disparar para a população em fuga. Ninguém diz que do revólver saíram flores e que o céu ficou de um azul intensíssimo de celebração. Ninguém reporta o milagre. Ninguém percebe o milagre.