Estou sentado à espera. De súbito, sinto um sentimento familiar a trepar por mim. Trepa como um lagarto que sobe pelas minhas costas e rasga a pele e a carne para entrar pelo meu pescoço adentro. Aberta a ferida, faz caminho pela aorta até ao meu cérebro. O lagarto instala-se, e com ele instala-se o conforto vago de uma sensação familiar: desejo de repente ser um bloco de algo – uma entidade coesa, um contínuo imparável, impenetrável e inescapável. “Como será ser um grito sem fim, um clarão de luz, ou uma dor contínua?” Tento fixar-me numa dessas possibilidades, mas ao invés de obter algo de tangível e concreto, a minha cabeça estilhaça-se e parte em todas as direcções, deixando no seu lugar um vazio profundo. Passados uns segundos para recuperar, repito a tentativa, agarrando-me à ideia de que sou uma única coisa. Sou algo, só há um problema: não sei o quê.
Continuo sentado. À espera. Como um animal exausto depois de um enorme esforço, não me quero mexer nunca mais. Oiço uma voz a chamar o meu nome. Não me consigo mexer. Estou agarrado ao “algo” que sou. A voz chama de novo. De novo não me mexo – não quero largar. Oiço o som dos sapatos altos de alguém a aproximar-se da sala onde estou. Olho à volta e todos estão a olhar para mim – já deduziram que algo se passa. A senhora responsável pelo cloque cloque dos saltos altos entra pela porta à minha direita e repete o meu nome para o ar. Ao reparar que estão todos a olhar para mim, ela percebe que o nome me pertence.
– Não tem uma consulta?
“Uma consulta.” “Exacto... foi para isso que vim aqui, foi por isso que saí do trabalho mais cedo.” De repente apercebo-me da situação, apercebo-me de que o normal teria sido levantar-me e ter ido em direcção ao consultório quando o meu nome foi chamado. Agora que sei onde estou, começo a testar os limites da situação: sei que todos estão à minha espera, já percebi que devia responder, mas não o faço. Em vez disso, espero. Fico a olhar para a senhora, que olha de volta para mim, e vejo-me reflectido nos olhos dela, a olhar de volta para ela. Conto até 5 pausadamente na minha cabeça. “Um. Dois. Três.” Ainda estão ainda todos a olhar para mim. “Quatro. Cinco.” Todos esperam algo.
Inspiro fundo.
– Com certeza, desculpe.
E, como se nada se tivesse passado, vou em direcção à médica.
O gabinete é desnecessariamente grande, com mobília velha castanha escura. Uma senhora já com alguma idade, sentada numa secretária colocada mesmo no centro da sala, olha-me, convida-me a entrar simplesmente por sorrir e inclinar a cabeça ligeiramente para baixo.
– Então, trouxe-me o exame?
“Trouxe”, penso sem dizer. Chego a mão ao envelope que tenho comigo e entrego à médica o seu conteúdo.
A médica pega nas folhas, cheias de números e palavras que não entendo, e desata a tossir convulsivamente. Um pouco mais de força e os pulmões saltariam para a mesa, e ficaríamos os dois espantados a olhar para o par de órgãos pulsando mesmo à nossa frente. Depois de acabar de tossir, demora ainda uns bons 2 minutos a ler tudo o que tem nas folhas, e finalmente diz-me:
– Não tem nada de mal. Está tudo em ordem!
Fico desiludido. Não que quisesse estar doente, mas se ao menos houvesse algo que pudesse culpar… Algo que tivesse um nome que eu pudesse responsabilizar… Mas não, não tenho nada de mal.
– Ah, ainda bem.
– Sim senhor, não se preocupe. Estou aqui a olhar para o exame – uma tomografia da minha cabeça – e não tem um único ponto estranho; o seu cérebro parece estar em óptimas condições.
Como é possivel? Eu sinto-o a separar-se de mim a cada instante. A tomar uma vida própria, a decidir viver por si. “Vou-me embora”, diz-me ele a cada instante, “Faz tu essa merda que eu não estou para isso.” Sinto-o a queixar-se quando não gosta do que eu lhe fiz ou do que o obrigo a fazer, sinto-o a apertar-se e a contorcer-se causando-me uma dor agoniante. Sinto uma mão lá dentro a apertar-me os miolos, a espremê-los como se fossem uma esponja, a rasgá-los como quem rasga um tecido.
– Então e para as dores?
– Os analgésicos que já lhe receitei devem bastar. Não?
– Bem... nem por isso. Há dias que nem me consigo mexer.
– Hmm. Podemos passar para algo mais forte.
Desgastado, saio do consultório e vou apanhar o comboio de volta para casa.
Uns 10 minutos antes de chegar à estação onde apanho o comboio, percorro uma das ruas mais movimentadas da cidade na hora de ponta. Pessoas por todo lado circulam freneticamente para regressar à toca. Ainda vou a pensar na consulta. Às vezes só me apetece furar a minha cabeça e aliviá-la de todas as dores. Ganhei novos medicamentos, pode ser que façam algo.
Enquanto caminho, tenho que me desviar daqueles que andam mais lentamente. À minha frente está um casal nos seus trinta anos. A mulher extremamente alta com saltos altos vermelhos e uma saia apertada pelas canelas, e ele mais baixo e largo, com ténis e umas calças azuis escuras. Caminham os dois lado a lado com extrema confiança, não vão certamente mais lentamente do que eu. Observo os pés de ambos sincronizados enquanto eles conversam sobre qualquer coisa. De repente, sem mais nem menos, sem ter pensado no que ia fazer, exactamente quando o homem levanta o pé direito, eu pontapeio levemente o seu pé esquerdo (o único em que ele se apoiava) e o coitado cai ao chão. É um caos. O homem cai, tenta agarrar-se à mulher, agarra-lhe a mala, rompe-lhe uma das pegas, e cai ao mesmo tempo que todo o conteúdo da mala dela se espalha pelo chão. Toda a gente fica a olhar.
– Peço imensa desculpa! – Apresso-me a gritar. Vou directamente em direcção a ele para tentar ajudar. Enquanto se levanta atrapalhado, o homem obedece às convenções de educação:
– Pronto, não faz mal, está tudo bem.
A mulher ajuda-o enquanto as pessoas continuam a observar a situação. Agora tento apanhar a tralha que caiu da mala dela. Enquanto lhe devolvo as coisas, reparo na sua cara. Já deve ter mais de trinta e cinco anos, mas ainda tem uma cara jovem. Cabelo preto, um nariz redondo e muito batom vermelho escuro. Os brincos pequenos e brilhantes ficam-lhe bem.
– Peço muita desculpa – vou dizendo, enquanto olho para o casal. A verdade, claro, é que estou satisfeito com o que fiz. É ridículo. O que se está a passar? Acabei de atirar um homem ao chão, e por de baixo da máscara de embaraço que tive que vestir, na verdade estou a sorrir. Não tiro nenhum prazer de ter magoado o homem, claro, mas algo no caos que gerei excita-me. “O que se passou aqui?”
– Peço desculpa, não estava a reparar onde punha os pés.
– Vá, não se fala mais nisso – responde-me o homem, enquanto sacode o casaco da poeira da rua –, não me magoei.
Continuo sentado. À espera. Como um animal exausto depois de um enorme esforço, não me quero mexer nunca mais. Oiço uma voz a chamar o meu nome. Não me consigo mexer. Estou agarrado ao “algo” que sou. A voz chama de novo. De novo não me mexo – não quero largar. Oiço o som dos sapatos altos de alguém a aproximar-se da sala onde estou. Olho à volta e todos estão a olhar para mim – já deduziram que algo se passa. A senhora responsável pelo cloque cloque dos saltos altos entra pela porta à minha direita e repete o meu nome para o ar. Ao reparar que estão todos a olhar para mim, ela percebe que o nome me pertence.
– Não tem uma consulta?
“Uma consulta.” “Exacto... foi para isso que vim aqui, foi por isso que saí do trabalho mais cedo.” De repente apercebo-me da situação, apercebo-me de que o normal teria sido levantar-me e ter ido em direcção ao consultório quando o meu nome foi chamado. Agora que sei onde estou, começo a testar os limites da situação: sei que todos estão à minha espera, já percebi que devia responder, mas não o faço. Em vez disso, espero. Fico a olhar para a senhora, que olha de volta para mim, e vejo-me reflectido nos olhos dela, a olhar de volta para ela. Conto até 5 pausadamente na minha cabeça. “Um. Dois. Três.” Ainda estão ainda todos a olhar para mim. “Quatro. Cinco.” Todos esperam algo.
Inspiro fundo.
– Com certeza, desculpe.
E, como se nada se tivesse passado, vou em direcção à médica.
O gabinete é desnecessariamente grande, com mobília velha castanha escura. Uma senhora já com alguma idade, sentada numa secretária colocada mesmo no centro da sala, olha-me, convida-me a entrar simplesmente por sorrir e inclinar a cabeça ligeiramente para baixo.
– Então, trouxe-me o exame?
“Trouxe”, penso sem dizer. Chego a mão ao envelope que tenho comigo e entrego à médica o seu conteúdo.
A médica pega nas folhas, cheias de números e palavras que não entendo, e desata a tossir convulsivamente. Um pouco mais de força e os pulmões saltariam para a mesa, e ficaríamos os dois espantados a olhar para o par de órgãos pulsando mesmo à nossa frente. Depois de acabar de tossir, demora ainda uns bons 2 minutos a ler tudo o que tem nas folhas, e finalmente diz-me:
– Não tem nada de mal. Está tudo em ordem!
Fico desiludido. Não que quisesse estar doente, mas se ao menos houvesse algo que pudesse culpar… Algo que tivesse um nome que eu pudesse responsabilizar… Mas não, não tenho nada de mal.
– Ah, ainda bem.
– Sim senhor, não se preocupe. Estou aqui a olhar para o exame – uma tomografia da minha cabeça – e não tem um único ponto estranho; o seu cérebro parece estar em óptimas condições.
Como é possivel? Eu sinto-o a separar-se de mim a cada instante. A tomar uma vida própria, a decidir viver por si. “Vou-me embora”, diz-me ele a cada instante, “Faz tu essa merda que eu não estou para isso.” Sinto-o a queixar-se quando não gosta do que eu lhe fiz ou do que o obrigo a fazer, sinto-o a apertar-se e a contorcer-se causando-me uma dor agoniante. Sinto uma mão lá dentro a apertar-me os miolos, a espremê-los como se fossem uma esponja, a rasgá-los como quem rasga um tecido.
– Então e para as dores?
– Os analgésicos que já lhe receitei devem bastar. Não?
– Bem... nem por isso. Há dias que nem me consigo mexer.
– Hmm. Podemos passar para algo mais forte.
Desgastado, saio do consultório e vou apanhar o comboio de volta para casa.
Uns 10 minutos antes de chegar à estação onde apanho o comboio, percorro uma das ruas mais movimentadas da cidade na hora de ponta. Pessoas por todo lado circulam freneticamente para regressar à toca. Ainda vou a pensar na consulta. Às vezes só me apetece furar a minha cabeça e aliviá-la de todas as dores. Ganhei novos medicamentos, pode ser que façam algo.
Enquanto caminho, tenho que me desviar daqueles que andam mais lentamente. À minha frente está um casal nos seus trinta anos. A mulher extremamente alta com saltos altos vermelhos e uma saia apertada pelas canelas, e ele mais baixo e largo, com ténis e umas calças azuis escuras. Caminham os dois lado a lado com extrema confiança, não vão certamente mais lentamente do que eu. Observo os pés de ambos sincronizados enquanto eles conversam sobre qualquer coisa. De repente, sem mais nem menos, sem ter pensado no que ia fazer, exactamente quando o homem levanta o pé direito, eu pontapeio levemente o seu pé esquerdo (o único em que ele se apoiava) e o coitado cai ao chão. É um caos. O homem cai, tenta agarrar-se à mulher, agarra-lhe a mala, rompe-lhe uma das pegas, e cai ao mesmo tempo que todo o conteúdo da mala dela se espalha pelo chão. Toda a gente fica a olhar.
– Peço imensa desculpa! – Apresso-me a gritar. Vou directamente em direcção a ele para tentar ajudar. Enquanto se levanta atrapalhado, o homem obedece às convenções de educação:
– Pronto, não faz mal, está tudo bem.
A mulher ajuda-o enquanto as pessoas continuam a observar a situação. Agora tento apanhar a tralha que caiu da mala dela. Enquanto lhe devolvo as coisas, reparo na sua cara. Já deve ter mais de trinta e cinco anos, mas ainda tem uma cara jovem. Cabelo preto, um nariz redondo e muito batom vermelho escuro. Os brincos pequenos e brilhantes ficam-lhe bem.
– Peço muita desculpa – vou dizendo, enquanto olho para o casal. A verdade, claro, é que estou satisfeito com o que fiz. É ridículo. O que se está a passar? Acabei de atirar um homem ao chão, e por de baixo da máscara de embaraço que tive que vestir, na verdade estou a sorrir. Não tiro nenhum prazer de ter magoado o homem, claro, mas algo no caos que gerei excita-me. “O que se passou aqui?”
– Peço desculpa, não estava a reparar onde punha os pés.
– Vá, não se fala mais nisso – responde-me o homem, enquanto sacode o casaco da poeira da rua –, não me magoei.
O casal entrelaça os braços e segue em frente. Eu no entanto fico parado a pensar no que fiz. Estou a tremer. Não é medo do homem que já se afasta ao longe. Não é a excitação que já passou. É o pensamento, cada vez mais frequente e mais vívido, de que estou a perder o controlo. “Isto pode acabar mal.”