"I don't consider writing a quiet, closet act.
I consider it a real physical act.
When I'm home writing on the typewriter, I go crazy.
I move like a monkey.
I've wet myself, I've come in my pants writing."
20 de fevereiro de 2010
16 de fevereiro de 2010
15 de fevereiro de 2010
14 de fevereiro de 2010
Perda e Recuperação do Cabelo
A fim de lutar contra o pragmatismo e contra a horrível tendência a prosseguir fins úteis, propunha o meu primo mais velho que se arrancasse um cabelo da cabeça, se fizesse um nó a meio e se o deixasse cair suavemente pelo buraco do lavabo. Se o cabelo se prender no ralo que costuma existir nos ditos buracos, bastará abrir um pouco a torneira para que se perca de vista. Sem desperdiçar um segundo, há que iniciar a tarefa de recuperação do cabelo. A primeira operação reduz-se a desmontar o sifão do lavabo para ver se o cabelo se não prendeu nalguma das rugosidades do cano. Se não se achar, há que pôr a descoberto o pedaço de cano que vai do sifão à tubagem de escoamento principal. Claro que este é um local que está cheio de cabelos e será necessária a ajuda do resto da família para os examinar um a um, à procura do que tem o nó. Se ele não aparecer, põe-se então o interessante problema de desfazer a tubagem de escoamento até aos esgotos, mas isso implica um esforço maior, uma vez que será necessário trabalhar durante oito ou dez anos nalgum ministério ou casa comercial para juntar o dinheiro que permita comprar os quatro apartamentos debaixo do do meu primo mais velho, e tudo isso com a extraordinário desvantagem de, enquanto se trabalha durante esses oito ou dez anos, se não poder evitar a penosa sensação de o cabelo já não estar nos canos, de só por alguma remota casualidade permanecer preso numa saliência enferrujada.
Chegará o dia em que poderemos rebentar todos os canos de todos os apartamentos e, durante meses, viver rodeados de bacias e outros recipientes cheios de cabelos molhados, assim como de auxiliares e mendigos a quem pagaremos generosamente para que procurem, separem, classifiquem e nos tragam os cabelos possíveis a fim de alcançar a desejada certeza. Se o cabelo não aparecer, começa uma etapa muito mais vaga e complicada, porque o passo seguinte leva-nos aos enormes esgotos da cidade. Depois de comprar um fato especial, aprenderemos a deslizar pelos esgotos a altas horas da noite, armados com uma lanterna poderosa e uma máscara de oxigénio, e exploraremos as galerias menores e maiores, se possível ajudados por mendigos com quem teremos travado relações e aos quais daremos uma grande parte do dinheiro ganho num ministério ou casa comercial.
Havemos de frequentemente ficar com a impressão de ter chegado ao fim do trabalho, porque encontraremos (ou nos trarão) cabelos semelhantes ao que procuramos; não se conhecendo, no entanto, caso algum em que um cabelo possua um nó a meio sem a intervenção da mão humana, acabaremos quase sempre por comprovar que o nó em questão é um simples engrossamento do calibre do cabelo (embora não conheçamos nenhum caso semelhante) ou um resíduo de qualquer silicato ou óxido produzido por larga permanência contra uma superfície húmida. É provável que percorramos vários troços de canalizações menores e maiores até chegar ao sítio onde ninguém se decidira a penetrar: o esgoto-mor orientado em direcção ao rio, a torrencial reunião dos detritos, na qual nenhum dinheiro, nenhum barco, nenhum suborno nos levaria a continuar a busca.
Mas antes disso, e talvez muito antes, por exemplo, a poucos centímetros da saída do lavabo, à altura do apartamento do segundo andar, ou no primeiro cano subterrâneo, pode acontecer que encontremos o cabelo. Basta pensar na alegria que isso nos daria, no assombro cálculo dos esforços poupados por pura sorte, para justificar, para eleger, exigir praticamente um trabalho semelhante, que todo o professor consciente deveria aconselhar aos seus alunos desde a mais tenra infância, em vez de lhes secar a alma com regras de três compostas ou com as tristezas de Cancha Rayada.
Chegará o dia em que poderemos rebentar todos os canos de todos os apartamentos e, durante meses, viver rodeados de bacias e outros recipientes cheios de cabelos molhados, assim como de auxiliares e mendigos a quem pagaremos generosamente para que procurem, separem, classifiquem e nos tragam os cabelos possíveis a fim de alcançar a desejada certeza. Se o cabelo não aparecer, começa uma etapa muito mais vaga e complicada, porque o passo seguinte leva-nos aos enormes esgotos da cidade. Depois de comprar um fato especial, aprenderemos a deslizar pelos esgotos a altas horas da noite, armados com uma lanterna poderosa e uma máscara de oxigénio, e exploraremos as galerias menores e maiores, se possível ajudados por mendigos com quem teremos travado relações e aos quais daremos uma grande parte do dinheiro ganho num ministério ou casa comercial.
Havemos de frequentemente ficar com a impressão de ter chegado ao fim do trabalho, porque encontraremos (ou nos trarão) cabelos semelhantes ao que procuramos; não se conhecendo, no entanto, caso algum em que um cabelo possua um nó a meio sem a intervenção da mão humana, acabaremos quase sempre por comprovar que o nó em questão é um simples engrossamento do calibre do cabelo (embora não conheçamos nenhum caso semelhante) ou um resíduo de qualquer silicato ou óxido produzido por larga permanência contra uma superfície húmida. É provável que percorramos vários troços de canalizações menores e maiores até chegar ao sítio onde ninguém se decidira a penetrar: o esgoto-mor orientado em direcção ao rio, a torrencial reunião dos detritos, na qual nenhum dinheiro, nenhum barco, nenhum suborno nos levaria a continuar a busca.
Mas antes disso, e talvez muito antes, por exemplo, a poucos centímetros da saída do lavabo, à altura do apartamento do segundo andar, ou no primeiro cano subterrâneo, pode acontecer que encontremos o cabelo. Basta pensar na alegria que isso nos daria, no assombro cálculo dos esforços poupados por pura sorte, para justificar, para eleger, exigir praticamente um trabalho semelhante, que todo o professor consciente deveria aconselhar aos seus alunos desde a mais tenra infância, em vez de lhes secar a alma com regras de três compostas ou com as tristezas de Cancha Rayada.
em Histórias de Cronópios e de Famas (1962), Julio Cortázar, trad. Alfacinha da Silva, Editorial Estampa, 2ª Edição, 1999

Seventeen Odd Years
Fora do quarto predomina a fúria do vento lançando à janela violentas bátegas de chuva. Só se ouve este som. Porém, na cabeça do jovem deitado sobre a cama, habita num lugar recôndito, clandestino até, um som maior que ninguém poderia ouvir. O jovem lembra-se, com razão, de que o vento condiz frequentemente com a sua cabecinha, a sua doença singular. Permite-se pensar que o vento poderia ser o seu veículo em certas noites, e então ele poderia voar sobre a cidade, atirando sobre ela as suas raivas, que não são meras raivas domésticas e passageiras, como as raivas que os outros têm, são raivas que duram talvez desde a noite dos tempos, desde tempos pré-históricos, entrando em pessoas de forma aleatória, contaminando este e aquele jovem, neste e naquele quarto vulgaríssimo. Sim, quarto vulgaríssimo, porque apesar da originalidade da sua cabecinha, dos tumultos que se passam lá dentro, o seu quarto é tal e qual os quartos dos seus colegas da escola, com mobiliário impessoal que serviria para qualquer um, quatros paredes amareladas, roupas nas gavetas e em cabides pendurados no armário, sebentas de matemática, química e biologia amontoados sobre a escrivaninha e nas prateleiras cheias de pó. Numa das paredes, um calendário oferecido pelo talho onde a mãe costuma comprar a carne marca os dias, onde o jovem regista os aniversários dos familiares e dos amigos e as datas dos testes.
Entretanto, o jovem de dezassete anos levanta-se, vai à casa de banho mijar, puxa o autoclismo e vai para a sala. A mãe encontra-se a tricotar um croché para um bebé recém-nascido da família, nascida da mulher de um primo abastado, com os olhos presos na malha que os dedos vão agilmente fabricando, enquanto a boca sussurra números e direcções de um saber matemático exclusivamente feminino. A entrada do jovem na sala quebra o seu alheamento e ela levanta a cabeça.
– Porque é que não vais sair? – diz-lhe. – Não estará o Miguel em casa? Porque é que não o vais chamar para irem dar uma volta?
– Não, mãe, o Miguel não está em casa, e para além disso eu ainda tenho de estudar.
A verdade, claro, é que o Miguel deve estar em casa, ou, se não está em casa, deve estar por perto e contactável, e os seus outros amigos também devem estar disponíveis, só que ele não lhe apetece conviver ou fingir conviver. Ele pertence a outra espécie, não à espécie caseira, não é isso, ele pertence a uma espécie de seres com necessidades acrescidas, enquanto algumas necessidades que os outros têm, ele crê que não as tem. Só que há critérios que, justamente por serem especiais, por não fazerem parte da normalidade estatística, não se podem simplesmente explicar. De resto, ele nem sequer se saberia explicar, até porque não sabe ao certo que critérios de vida são esses, só sabe que existem e que são estranhíssimos e que hão-de causar transtorno.
Abre a televisão para ver o filme de porrada que está na programação e senta-se refastelado a vê-lo. A mãe regressa ao croché. Passa meia hora. O filme está porreiro. No intervalo, o jovem levanta-se e vai à cozinha buscar uma fatia de bolo de mel. «Queres uma fatia de bolo?», grita à mãe. «Podes trazer.» E o jovem regressa à sala com duas fatias de bolo, uma em cada mão sobre metade dum guardanapo. Comem os dois durante o intervalo do filme.
– Então, o meu bolo ficou bom? – pergunta-lhe a mãe.
– Sim, está bom. Podes fazer mais vezes.
O filme recomeça e o jovem restabelece comunicação com a história do filme, entrando por momentos dentro dela como observador sem corpo e sem possibilidade de agir em defesa da mulher em perigo de vida. Mas está lá. Está efectivamente lá.
Quando a campainha toca, a história perde-se outra vez. O jovem espera que não sejam os amigos, porque quer continuar a ver o filme e não lhe apetece sair.
– Vai lá tu, se faz favor – pede à mãe.
A mãe pousa o entretém na mesinha ao lado da poltrona onde está instalada, levanta-se suspirando e vai atender, enquanto o jovem põe o ouvido à escuta.
– Quem é?
Entretanto, o jovem de dezassete anos levanta-se, vai à casa de banho mijar, puxa o autoclismo e vai para a sala. A mãe encontra-se a tricotar um croché para um bebé recém-nascido da família, nascida da mulher de um primo abastado, com os olhos presos na malha que os dedos vão agilmente fabricando, enquanto a boca sussurra números e direcções de um saber matemático exclusivamente feminino. A entrada do jovem na sala quebra o seu alheamento e ela levanta a cabeça.
– Porque é que não vais sair? – diz-lhe. – Não estará o Miguel em casa? Porque é que não o vais chamar para irem dar uma volta?
– Não, mãe, o Miguel não está em casa, e para além disso eu ainda tenho de estudar.
A verdade, claro, é que o Miguel deve estar em casa, ou, se não está em casa, deve estar por perto e contactável, e os seus outros amigos também devem estar disponíveis, só que ele não lhe apetece conviver ou fingir conviver. Ele pertence a outra espécie, não à espécie caseira, não é isso, ele pertence a uma espécie de seres com necessidades acrescidas, enquanto algumas necessidades que os outros têm, ele crê que não as tem. Só que há critérios que, justamente por serem especiais, por não fazerem parte da normalidade estatística, não se podem simplesmente explicar. De resto, ele nem sequer se saberia explicar, até porque não sabe ao certo que critérios de vida são esses, só sabe que existem e que são estranhíssimos e que hão-de causar transtorno.
Abre a televisão para ver o filme de porrada que está na programação e senta-se refastelado a vê-lo. A mãe regressa ao croché. Passa meia hora. O filme está porreiro. No intervalo, o jovem levanta-se e vai à cozinha buscar uma fatia de bolo de mel. «Queres uma fatia de bolo?», grita à mãe. «Podes trazer.» E o jovem regressa à sala com duas fatias de bolo, uma em cada mão sobre metade dum guardanapo. Comem os dois durante o intervalo do filme.
– Então, o meu bolo ficou bom? – pergunta-lhe a mãe.
– Sim, está bom. Podes fazer mais vezes.
O filme recomeça e o jovem restabelece comunicação com a história do filme, entrando por momentos dentro dela como observador sem corpo e sem possibilidade de agir em defesa da mulher em perigo de vida. Mas está lá. Está efectivamente lá.
Quando a campainha toca, a história perde-se outra vez. O jovem espera que não sejam os amigos, porque quer continuar a ver o filme e não lhe apetece sair.
– Vai lá tu, se faz favor – pede à mãe.
A mãe pousa o entretém na mesinha ao lado da poltrona onde está instalada, levanta-se suspirando e vai atender, enquanto o jovem põe o ouvido à escuta.
– Quem é?
– …
– Ele já vai, só um momento.
Pousa a cena e vai dizer ao jovem.
– Diz-lhe, se faz favor, que eu estou a estudar, que tenho um teste importante para semana.
E a mãe obedece. Depois, regressa à sala e retoma o que estava a fazer, os olhos enfiados naquela meada de cordinhas coloridas, e o jovem continua a ver o filme. Como invariavelmente acontece nestes casos, a mulher foi salva pelo personagem principal masculino e os dois beijaram-se. Na vida, nem tudo é perfeito.
Pousa a cena e vai dizer ao jovem.
– Diz-lhe, se faz favor, que eu estou a estudar, que tenho um teste importante para semana.
E a mãe obedece. Depois, regressa à sala e retoma o que estava a fazer, os olhos enfiados naquela meada de cordinhas coloridas, e o jovem continua a ver o filme. Como invariavelmente acontece nestes casos, a mulher foi salva pelo personagem principal masculino e os dois beijaram-se. Na vida, nem tudo é perfeito.
Elementos de uma lancheira holandesa
This commonplace lunch box contains brownish bread, two slices of cheese (jong belegen), a bright red apple housing a happy worm, or a little mediterranean orange, or something as usual as:
- one piece of paper quoting some ragged up beatnik folk poet marijuana hipster demanding peace and freedom and free love
- one photo showing a naked goddess, the sexiest pin-up you've ever seen lying in the 40s of a twisted mind
- one dice to remember how everything is so random and absurd, a figure craved in each perfect flatness
- one magical sutra in a tiny roll, the spirituality of everyday life
Food for his stomach. Food for his eyes. Food for his mind.
- one piece of paper quoting some ragged up beatnik folk poet marijuana hipster demanding peace and freedom and free love
- one photo showing a naked goddess, the sexiest pin-up you've ever seen lying in the 40s of a twisted mind
- one dice to remember how everything is so random and absurd, a figure craved in each perfect flatness
- one magical sutra in a tiny roll, the spirituality of everyday life
Food for his stomach. Food for his eyes. Food for his mind.
This is not a commonplace dutch lunch box.
9 de fevereiro de 2010
Little bunnies...
Coelhinhos inofensivos saltitam de um lado para o outro, de ficção para ficção, de casamento para casamento, visitando igrejas, patíbulos e bordéis, movidos por uma energia cruel de sobrevivência, nervosamente ensaiando êxtases futuros que nunca chegam, até vir a foice negra e eles deixarem de poder saltitar – as pernas ficam mancas e o cérebro ganha verdete e ferrugem, exala um odor purulento. Depois os animaizinhos morrem, todos se lembram deles, são metidos com carinho dentro de caixões benzidos por padres e fechados dentro da terra, jazendo na santidade eterna dos cadáveres, que são pacíficos, não fazem mal a ninguém.
Também tu saltitas de um lado para o outro, com sede de verdades e cheio de pânicos passageiros, desconhecendo o verdadeiro pânico de saber o que é a vida, o que é a morte, ou talvez sabendo-o de forma pouco sabida, camuflando-o com coisas várias que ajudem a distrair, a passar o tempo da forma mais inocente possível. Saltitas e passeias. Paz na terra, entre todos os coelhos de boa vontade. Queremos histórias que ajudem a eliminar insónias, não as que as provoquem. Queremos continuar a saltitar livres de insónias, pelas manhãs solarengas das nossas fantasias, cobrindo a realidade de sonhos cor-de-rosa.
Também tu saltitas de um lado para o outro, com sede de verdades e cheio de pânicos passageiros, desconhecendo o verdadeiro pânico de saber o que é a vida, o que é a morte, ou talvez sabendo-o de forma pouco sabida, camuflando-o com coisas várias que ajudem a distrair, a passar o tempo da forma mais inocente possível. Saltitas e passeias. Paz na terra, entre todos os coelhos de boa vontade. Queremos histórias que ajudem a eliminar insónias, não as que as provoquem. Queremos continuar a saltitar livres de insónias, pelas manhãs solarengas das nossas fantasias, cobrindo a realidade de sonhos cor-de-rosa.
Ideias e insónias.
O mundo é uma coisa que se constrói e destrói em noites de insónia. As insónias são perigosas, bem como as ideias, e aquelas que se têm na solidão de um quarto ao abrigo da luz, bom, essas podem ter tanto de genial como de homicida.
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