Fora do quarto predomina a fúria do vento lançando à janela violentas bátegas de chuva. Só se ouve este som. Porém, na cabeça do jovem deitado sobre a cama, habita num lugar recôndito, clandestino até, um som maior que ninguém poderia ouvir. O jovem lembra-se, com razão, de que o vento condiz frequentemente com a sua cabecinha, a sua doença singular. Permite-se pensar que o vento poderia ser o seu veículo em certas noites, e então ele poderia voar sobre a cidade, atirando sobre ela as suas raivas, que não são meras raivas domésticas e passageiras, como as raivas que os outros têm, são raivas que duram talvez desde a noite dos tempos, desde tempos pré-históricos, entrando em pessoas de forma aleatória, contaminando este e aquele jovem, neste e naquele quarto vulgaríssimo. Sim, quarto vulgaríssimo, porque apesar da originalidade da sua cabecinha, dos tumultos que se passam lá dentro, o seu quarto é tal e qual os quartos dos seus colegas da escola, com mobiliário impessoal que serviria para qualquer um, quatros paredes amareladas, roupas nas gavetas e em cabides pendurados no armário, sebentas de matemática, química e biologia amontoados sobre a escrivaninha e nas prateleiras cheias de pó. Numa das paredes, um calendário oferecido pelo talho onde a mãe costuma comprar a carne marca os dias, onde o jovem regista os aniversários dos familiares e dos amigos e as datas dos testes.
Entretanto, o jovem de dezassete anos levanta-se, vai à casa de banho mijar, puxa o autoclismo e vai para a sala. A mãe encontra-se a tricotar um croché para um bebé recém-nascido da família, nascida da mulher de um primo abastado, com os olhos presos na malha que os dedos vão agilmente fabricando, enquanto a boca sussurra números e direcções de um saber matemático exclusivamente feminino. A entrada do jovem na sala quebra o seu alheamento e ela levanta a cabeça.
– Porque é que não vais sair? – diz-lhe. – Não estará o Miguel em casa? Porque é que não o vais chamar para irem dar uma volta?
– Não, mãe, o Miguel não está em casa, e para além disso eu ainda tenho de estudar.
A verdade, claro, é que o Miguel deve estar em casa, ou, se não está em casa, deve estar por perto e contactável, e os seus outros amigos também devem estar disponíveis, só que ele não lhe apetece conviver ou fingir conviver. Ele pertence a outra espécie, não à espécie caseira, não é isso, ele pertence a uma espécie de seres com necessidades acrescidas, enquanto algumas necessidades que os outros têm, ele crê que não as tem. Só que há critérios que, justamente por serem especiais, por não fazerem parte da normalidade estatística, não se podem simplesmente explicar. De resto, ele nem sequer se saberia explicar, até porque não sabe ao certo que critérios de vida são esses, só sabe que existem e que são estranhíssimos e que hão-de causar transtorno.
Abre a televisão para ver o filme de porrada que está na programação e senta-se refastelado a vê-lo. A mãe regressa ao croché. Passa meia hora. O filme está porreiro. No intervalo, o jovem levanta-se e vai à cozinha buscar uma fatia de bolo de mel. «Queres uma fatia de bolo?», grita à mãe. «Podes trazer.» E o jovem regressa à sala com duas fatias de bolo, uma em cada mão sobre metade dum guardanapo. Comem os dois durante o intervalo do filme.
– Então, o meu bolo ficou bom? – pergunta-lhe a mãe.
– Sim, está bom. Podes fazer mais vezes.
O filme recomeça e o jovem restabelece comunicação com a história do filme, entrando por momentos dentro dela como observador sem corpo e sem possibilidade de agir em defesa da mulher em perigo de vida. Mas está lá. Está efectivamente lá.
Quando a campainha toca, a história perde-se outra vez. O jovem espera que não sejam os amigos, porque quer continuar a ver o filme e não lhe apetece sair.
– Vai lá tu, se faz favor – pede à mãe.
A mãe pousa o entretém na mesinha ao lado da poltrona onde está instalada, levanta-se suspirando e vai atender, enquanto o jovem põe o ouvido à escuta.
– Quem é?
Entretanto, o jovem de dezassete anos levanta-se, vai à casa de banho mijar, puxa o autoclismo e vai para a sala. A mãe encontra-se a tricotar um croché para um bebé recém-nascido da família, nascida da mulher de um primo abastado, com os olhos presos na malha que os dedos vão agilmente fabricando, enquanto a boca sussurra números e direcções de um saber matemático exclusivamente feminino. A entrada do jovem na sala quebra o seu alheamento e ela levanta a cabeça.
– Porque é que não vais sair? – diz-lhe. – Não estará o Miguel em casa? Porque é que não o vais chamar para irem dar uma volta?
– Não, mãe, o Miguel não está em casa, e para além disso eu ainda tenho de estudar.
A verdade, claro, é que o Miguel deve estar em casa, ou, se não está em casa, deve estar por perto e contactável, e os seus outros amigos também devem estar disponíveis, só que ele não lhe apetece conviver ou fingir conviver. Ele pertence a outra espécie, não à espécie caseira, não é isso, ele pertence a uma espécie de seres com necessidades acrescidas, enquanto algumas necessidades que os outros têm, ele crê que não as tem. Só que há critérios que, justamente por serem especiais, por não fazerem parte da normalidade estatística, não se podem simplesmente explicar. De resto, ele nem sequer se saberia explicar, até porque não sabe ao certo que critérios de vida são esses, só sabe que existem e que são estranhíssimos e que hão-de causar transtorno.
Abre a televisão para ver o filme de porrada que está na programação e senta-se refastelado a vê-lo. A mãe regressa ao croché. Passa meia hora. O filme está porreiro. No intervalo, o jovem levanta-se e vai à cozinha buscar uma fatia de bolo de mel. «Queres uma fatia de bolo?», grita à mãe. «Podes trazer.» E o jovem regressa à sala com duas fatias de bolo, uma em cada mão sobre metade dum guardanapo. Comem os dois durante o intervalo do filme.
– Então, o meu bolo ficou bom? – pergunta-lhe a mãe.
– Sim, está bom. Podes fazer mais vezes.
O filme recomeça e o jovem restabelece comunicação com a história do filme, entrando por momentos dentro dela como observador sem corpo e sem possibilidade de agir em defesa da mulher em perigo de vida. Mas está lá. Está efectivamente lá.
Quando a campainha toca, a história perde-se outra vez. O jovem espera que não sejam os amigos, porque quer continuar a ver o filme e não lhe apetece sair.
– Vai lá tu, se faz favor – pede à mãe.
A mãe pousa o entretém na mesinha ao lado da poltrona onde está instalada, levanta-se suspirando e vai atender, enquanto o jovem põe o ouvido à escuta.
– Quem é?
– …
– Ele já vai, só um momento.
Pousa a cena e vai dizer ao jovem.
– Diz-lhe, se faz favor, que eu estou a estudar, que tenho um teste importante para semana.
E a mãe obedece. Depois, regressa à sala e retoma o que estava a fazer, os olhos enfiados naquela meada de cordinhas coloridas, e o jovem continua a ver o filme. Como invariavelmente acontece nestes casos, a mulher foi salva pelo personagem principal masculino e os dois beijaram-se. Na vida, nem tudo é perfeito.
Pousa a cena e vai dizer ao jovem.
– Diz-lhe, se faz favor, que eu estou a estudar, que tenho um teste importante para semana.
E a mãe obedece. Depois, regressa à sala e retoma o que estava a fazer, os olhos enfiados naquela meada de cordinhas coloridas, e o jovem continua a ver o filme. Como invariavelmente acontece nestes casos, a mulher foi salva pelo personagem principal masculino e os dois beijaram-se. Na vida, nem tudo é perfeito.