Ao fim da tarde, o calor devidamente dissipado… Na praça central, as crianças morenas correm atrás das pombas e os casais jovens preparam secretas devassidões nocturnas, sob a estátua de um austero cavaleiro de olhos vigiantes que para mim não tem nome. Talvez tenha nome para os nativos, ou, se não nome, pelo menos um certo significado na existência colectiva do povo, é certo que inconsciente, mas talvez por isso mais importante e, atrevo-me a dizer, repressivo. Refiro-me a um vago nacionalismo pernicioso de província. Este pensamento ocorre-me porque sinto uma diferença substancial entre a minha liberdade e a vida destas pessoas, que permanecem acorrentadas à manjedoura onde nasceram, presas de uma beatífica inocência escrava. É como se, como tem acontecido noutras paragens, a minha libertina vontade colidisse com a prostração amorfa dos locais, como se vivêssemos, eu e a multidão, em mundos, não fisicamente, mas espiritualmente separados que de repente quase embatessem num meu assomo de lucidez.
Enquanto escrevo, dou-me conta da minha estupidez sociológica: é que eu só sou livre, isto é, só me posso dar ao luxo desta vadiagem de pensamento e de geografia, porque tenho de comer e tive uma educação que me forneceu os instrumentos necessários para percorrer estes caminhos. O mesmo não se pode dizer das pessoas que exibem uma rotineira alegria pueril nesta praça. É o que sinto… E dá-me uma tristeza…
Enquanto escrevo, dou-me conta da minha estupidez sociológica: é que eu só sou livre, isto é, só me posso dar ao luxo desta vadiagem de pensamento e de geografia, porque tenho de comer e tive uma educação que me forneceu os instrumentos necessários para percorrer estes caminhos. O mesmo não se pode dizer das pessoas que exibem uma rotineira alegria pueril nesta praça. É o que sinto… E dá-me uma tristeza…