11 de outubro de 2009

8 - A Mãe do Monstro

À noite, Leonor sonha que os espermatozóides do velho lhe entraram pela boca e agora vivem dentro dela, no estômago, como se ela fosse a baleia de Jonas e os espermatozóides fosses profetas nela aprisionados e angustiados. Um deles, o escolhido, alimenta-se dos vermes que lhe povoam o sistema digestivo e cresce, expande o seu organismo. Não tarda estará demasiado grande para caber dentro dela, e então terá de nascer, possivelmente encontrará o caminho para um buraco já existente, o ânus, e sairá por ele com asas, um homúnculo haplóide capaz de voar, e rasgará o ar silencioso da humanidade. As pessoas hão-de gritar e chorar, receosas da força voraz da terrível alimária, e sucumbirão ao inferno das suas mentes quando a besta exibir as garras. Depois, o mundo será uma desolação de carnes em putrefacção, e acabará assim o esplendor da nossa espécie, como alimento para a fome do demónio que Leonor acordou. Só que ela continuará viva, e será simultaneamente sua esposa e sua mãe, ele fará do seu útero um abrigo e um refúgio da monstruosidade que o faz cometer verdadeiras atrocidades, porque ele também é um ser humano, só que é demasiado grande e tem muita fome, vendo-se na obrigação de assustar toda a gente para depois lhes comer.