15 de outubro de 2009

A cirurgia fará, claro, novos progressos, embora seja difícil perceber para que servirão. Todo o nosso modo de vida tem de se modificar. Nós não precisamos de melhores recursos cirúrgicos, precisamos de uma vida melhor. Se todos os cirurgiões, todos os analistas, todos os médicos pudessem ser retirados da sua actividade e reunidos durante um tempo no grande anfiteatro de Epidauro, se pudessem discutir em paz e sossego geral, a resposta seria encontrada rapidamente, e seria unânime: REVOLUÇÃO. Uma revolução à escala mundial de alto a baixo, em todos os países, em todas as classes, em todos os domínios da consciência. O combate não é contra a doença: a doença é um derivado. O inimigo do homem não são os micróbios, mas o próprio homem, o seu orgulho, os seus preconceitos, a sua estupidez, a sua arrogância. Nenhuma classe está imune, nenhum sistema possui uma panaceia. Cada um, individualmente, tem de se revoltar contra um modo de vida que não é o seu. A revolta, para ser eficaz, tem de ser contínua e inexorável. Não chega derrubar governos, senhores, tiranos: cada um tem de derrubar as suas próprias ideias preconcebidas de certo e errado, bom e mau, justo e injusto. Temos de abandonar as trincheiras arduamente disputadas em que nos metemos e sair para terreno aberto, e renunciar às nossas armas, aos nossos haveres, aos nossos direitos como indivíduos, classes, nações, povos. Mil milhões de homens que procuram a paz não podem ser escravizados. Escravizámo-nos a nós próprios com a nossa visão mesquinha e circunscrita da vida. É magnífico oferecer a própria vida por uma causa, mas os mortos não realizam nada. A vida exige que ofereçamos algo mais: espírito, alma, inteligência, boa vontade. A natureza está sempre pronta para preencher as lacunas deixadas pela morte, mas a natureza não pode fornecer a inteligência, a vontade, a imaginação para derrotar as forças da morte. A natureza restaura e repara, mais nada. Ao homem cabe erradicar o instinto homicida, que é infinito nas suas ramificações e manifestações. É inútil evocar Deus, assim como é vão responder à força com a força. Toda a batalha é um casamento concebido em sangue e angústia, toda a guerra é uma derrota para o espírito humano. A guerra é apenas uma imensa manifestação, em estilo dramático, dos falsos, ocos e pseudo conflitos que diariamente têm lugar em toda a parte, até mesmo nos chamados tempos de paz. Todo o homem contribui com a sua parte para manter a carnificina em acção, até aqueles que parecem manter-se afastados. Estamos todos envolvidos, participamos todos, quer queiramos quer não. A Terra é criação nossa e nós temos de aceitar os frutos da nossa criação. Enquanto nos recusarmos a pensar em termos do bem do mundo e dos bens do mundo, de ordem mundial e paz mundial, assassinar-nos-emos e atraiçoar-nos-emos uns aos outros. Isso pode continuar até à trombeta do juízo final, se desejarmos que seja assim. Nada pode trazer um mundo novo e melhor, a não ser o nosso próprio desejo de que ele chegue. O homem mata por medo, e o medo é uma hidra. Desde que comecemos a chacinar, não haverá fim para isso. Uma eternidade não chegará para vencer os demónios que nos torturam. Quem pôs lá os demónios? Eis uma pergunta para cada um fazer a si mesmo. Que cada homem sonde o seu próprio coração. Nem Deus nem o Diabo são os culpados, e certamente que não monstros tão insignificantes como Hitler, Mussolini, Estaline e quejandos. Certamente que não papões como catolicismo, capitalismo, comunismo. Para quê pôr os demónios lá, no nosso coração, para nos torturarem? É uma boa pergunta, e se a única maneira de encontrar a resposta é ir a Epidauro, então rogo a todos que larguem tudo e vão lá. Imediatamente.

em O Colosso de Maroussi (1941), Henry Miller, trad. Fernanda Pinto Rodrigues, Livros do Brasil, 1996