A arte e o crime provêem talvez da mesma fonte. A arte é essencialmente criminosa, se for a sério, porque transgride, isto é, só encontra sentido na revolta, porque o desacordo com a realidade tem de se manifestar num comportamento hostil à mesma. Em virtude dessa tensão entre o sujeito e aquilo que o enjoa, este acumula durante uma boa parte da sua vida um ódio e uma energia que inicialmente se reprimem, por serem assustadores, mas que depois, por continuarem a encher em catadupas a cabeça do pobre demónio, o obrigam a deitar tudo cá para fora. E então o gajo canta, e diz que é tudo horrível e que tudo está mal… Não chega a dizer que é preciso mudar a realidade, nem parte desse pressuposto, nem muitas vezes toma consciência dessa vontade; antes grita e chora. Mas, nos outros que o ouvem e o vêm nos seus andrajos, o seu público, começa a acordar uma consciência, a qual é verdadeiramente perigosa porque se pode traduzir em mudança.
A arte é um crime. A arte é um crime político.
A arte é um crime. A arte é um crime político.