Quando acordei e subi à coberta, o navio deslizava por um estreito apertado. De ambos os lados havia colinas baixas e áridas, suaves outeiros de terra salpicados de violetas e de proporções humanas tão íntimas que faziam chorar de alegria. O sol estava quase no zénite e o seu fulgor era ofuscantemente intenso. Encontrava-me precisamente naquele pequeno mundo grego cujas fronteiras descrevera no meu livro alguns meses antes de deixar Paris. Era como acordar e encontrar-me vivo num sonho. Havia algo de fenomenal na proximidade luminosa destas duas costas cor de violeta. Deslizávamos exactamente da mesma maneira que le douanier de Rousseau descrevera no seu quadro. Era mais do que uma atmosfera grega: era poético e não pertencia a nenhum tempo ou lugar efectivamente conhecidos pelo homem. O próprio barco era o único elo com a realidade. Estava cheio até às muradas de almas perdidas desesperadamente agarradas aos seus poucos haveres terrenos. Mulheres esfarrapadas, de peitos desnudos, tentavam em vão amamentar os filhos pequenos que berravam desalmadamente; estavam sentadas no chão da coberta, num chiqueiro de vómito e sangue, e o sonho que iam atravessando nem lhes roçava as pálpebras. Se tivéssemos sido torpedeados naquele instante, teríamos passado assim, no meio de vómito, sangue e confusão, para o negro mundo inferior. Naquele momento rejubilei com o facto de ser livre de haveres, livre de todos os laços, livre de medo e inveja, e maldade. Podia ter passado serenamente de um sonho para outro sem possuir nada, sem lamentar nada, sem desejar nada. Nunca tive maior certeza de que a vida e a morte são uma e a mesma coisa e nenhuma delas pode ser fruída ou abraçada se a outra estiver ausente.
em O Colosso de Maroussi (1941), Henry Miller, trad. Fernanda Pinto Rodrigues, Livros do Brasil, 1996