Entretanto, a miúda chega com o seu andar naturalmente pérfido, balanceando a atenção do espectador embasbacado e supliciado, agitando as sementes nos colhões que gostariam de conquistar aquela terra repleta de carícias, romance e tragédia, para nela germinar depois a imortalidade de Adão e de Eva, os amantes primordiais. Vem… À tua passagem cresce a roseira brava onde o orvalho jaz apaixonado, a tua vinda põe termo à malícia de toda a humanidade, que morre perante a contemplação do teu corpo.
Eis o que pensa a velha tartaruga de costas tortas com o que resta da sua juventude, que reside na cabeça aprisionada em memórias, um desejo meramente mental que não tem forma de se expressar porque o corpo não responde, o caralho permanece naquela horrorosa prostração encarquilhada e serena, naquela moleza infecta cheia de medicamentos.
― Se não se importa, não preciso de o ver, mas agradecia que mo embrulhasse.
― Com certeza.
E então o velho, saudoso de antigas erecções, põe-se a agarrar e a agitar o membro preguiçoso com fúria, olhando para o traseiro de Leonor, mas o gajo não se entesa, não, em vez disso são as lágrimas da impotência que se ejaculam dos olhos e correm com abundância pelos vales do rosto cansado. E, mal ela acaba de embrulhar o livro e olha para o cliente, ele continua com a mão a segurar o pirilau reformado, a chorar, e olha para ela com um focinho de cão angustiado que mete dó. Pede desculpa. E ela tem pena, faz uma expressão de tristeza e bondade e dirige-se para ele, põe-se de cócoras e pega-lhe na mão, na outra mão que nervosamente tentava limpar as lágrimas do rosto, e a primeira acanha-se e desgarra o pénis inútil.
― Então, o que é que passa? Diga-me, por favor… – Também ela já com as lágrimas a nascerem-lhe nos olhos, a voz trémula. – Posso fazer alguma coisa?
O velho geme, tenta dizer qualquer coisa, mas não consegue deixar de gaguejar, mas eis que se exalta e grita:
― Já não sou um homem, porra! – Agarra na mão dela com brutalidade e põe-na com violência no pénis senil. – Isto está morto, ouviu!? Morto! …
― Largue-me! – E espeta-lhe um estalo que o leva ao chão.
O velho desfaz-se em lágrimas e encolhe-se em posição fetal, abandonado à devastação da sua fragilidade naquele momento. Leonor recupera a bondade e deposita a mão piedosa no braço do senhor, e diz-lhe:
― Como é que não é homem? Com certeza que é, e com muito para dar…
― Pois então prove-mo. – As lágrimas entrando na garganta quase octogenária, formando nervosas palavras líquidas e ridículas que aprendem a morrer.
Leonor toma consciência de uma sensação estranha que a invade, a de ter um dever premente a cumprir, e então baixa a mão para o sexo do homem e lentamente começa a mexer nele, enquanto a outra mão se enfia no seu próprio sexo e os olhos manifestam uma sensação de deleite que é apenas a recordação de um hábito, revirando-se e fitando o tecto, e geme palavras porcas como se estivesse num filme porno a ser visto por adolescentes virgens. E eis o milagre: o pénis do homem volta à vida e larga uma torrente enorme de sémen, com milhões de lázaros espermatozóides.
O velho vai-se embora balbuciando agradecimentos e batendo nervosamente no chão com a bengala de que já não precisa, e Leonor imagina que, em vez do livro, ele oferecerá à mulher o vigor ressurrecto, e então a mente da esposa desfrutará da recordação do tempo em que os dois eram capazes e gozavam, descrentes do amanhã. Em dias como estes, Leonor sente-se magnânime, de um altruísmo que a liberta por momentos do pequeno caos da sua vida, e rejubila ao constatar que a vida dela pode servir para alguma coisa além de estar atrás daquele balcão a vender livros, que os seus actos são manifestações ocasionais de uma missão cujos contornos reais são por enquanto insondáveis, mas existentes. Pois a nossa heroína sabe da existência de um projecto, entrevê-o vagamente através do nevoeiro que preenche o seu quotidiano, o horrível fumo de escape, vislumbra uma coisa vaga que está ali algures. E talvez não tarde a ouvir o rugido do leão na planície da celebração perpétua, o lugar da sua permanência do Tempo, e talvez o grande felino venha ter consigo amanhã e a encarne.
(Toda a gente tem um animal que a representa. O dela é o leão, criatura obscena mas de uma certa nobreza, o orgulho de uma dignidade denunciada pela pose.)
Eis o que pensa a velha tartaruga de costas tortas com o que resta da sua juventude, que reside na cabeça aprisionada em memórias, um desejo meramente mental que não tem forma de se expressar porque o corpo não responde, o caralho permanece naquela horrorosa prostração encarquilhada e serena, naquela moleza infecta cheia de medicamentos.
― Se não se importa, não preciso de o ver, mas agradecia que mo embrulhasse.
― Com certeza.
E então o velho, saudoso de antigas erecções, põe-se a agarrar e a agitar o membro preguiçoso com fúria, olhando para o traseiro de Leonor, mas o gajo não se entesa, não, em vez disso são as lágrimas da impotência que se ejaculam dos olhos e correm com abundância pelos vales do rosto cansado. E, mal ela acaba de embrulhar o livro e olha para o cliente, ele continua com a mão a segurar o pirilau reformado, a chorar, e olha para ela com um focinho de cão angustiado que mete dó. Pede desculpa. E ela tem pena, faz uma expressão de tristeza e bondade e dirige-se para ele, põe-se de cócoras e pega-lhe na mão, na outra mão que nervosamente tentava limpar as lágrimas do rosto, e a primeira acanha-se e desgarra o pénis inútil.
― Então, o que é que passa? Diga-me, por favor… – Também ela já com as lágrimas a nascerem-lhe nos olhos, a voz trémula. – Posso fazer alguma coisa?
O velho geme, tenta dizer qualquer coisa, mas não consegue deixar de gaguejar, mas eis que se exalta e grita:
― Já não sou um homem, porra! – Agarra na mão dela com brutalidade e põe-na com violência no pénis senil. – Isto está morto, ouviu!? Morto! …
― Largue-me! – E espeta-lhe um estalo que o leva ao chão.
O velho desfaz-se em lágrimas e encolhe-se em posição fetal, abandonado à devastação da sua fragilidade naquele momento. Leonor recupera a bondade e deposita a mão piedosa no braço do senhor, e diz-lhe:
― Como é que não é homem? Com certeza que é, e com muito para dar…
― Pois então prove-mo. – As lágrimas entrando na garganta quase octogenária, formando nervosas palavras líquidas e ridículas que aprendem a morrer.
Leonor toma consciência de uma sensação estranha que a invade, a de ter um dever premente a cumprir, e então baixa a mão para o sexo do homem e lentamente começa a mexer nele, enquanto a outra mão se enfia no seu próprio sexo e os olhos manifestam uma sensação de deleite que é apenas a recordação de um hábito, revirando-se e fitando o tecto, e geme palavras porcas como se estivesse num filme porno a ser visto por adolescentes virgens. E eis o milagre: o pénis do homem volta à vida e larga uma torrente enorme de sémen, com milhões de lázaros espermatozóides.
O velho vai-se embora balbuciando agradecimentos e batendo nervosamente no chão com a bengala de que já não precisa, e Leonor imagina que, em vez do livro, ele oferecerá à mulher o vigor ressurrecto, e então a mente da esposa desfrutará da recordação do tempo em que os dois eram capazes e gozavam, descrentes do amanhã. Em dias como estes, Leonor sente-se magnânime, de um altruísmo que a liberta por momentos do pequeno caos da sua vida, e rejubila ao constatar que a vida dela pode servir para alguma coisa além de estar atrás daquele balcão a vender livros, que os seus actos são manifestações ocasionais de uma missão cujos contornos reais são por enquanto insondáveis, mas existentes. Pois a nossa heroína sabe da existência de um projecto, entrevê-o vagamente através do nevoeiro que preenche o seu quotidiano, o horrível fumo de escape, vislumbra uma coisa vaga que está ali algures. E talvez não tarde a ouvir o rugido do leão na planície da celebração perpétua, o lugar da sua permanência do Tempo, e talvez o grande felino venha ter consigo amanhã e a encarne.
(Toda a gente tem um animal que a representa. O dela é o leão, criatura obscena mas de uma certa nobreza, o orgulho de uma dignidade denunciada pela pose.)