Porque sempre estive isolado, Sofia, durante a escola, o liceu, a faculdade, o hospital, o casamento, isolado com os meus livros por demais lidos e os meus poemas pretensiosos e vulgares, a ânsia de escrever e o torturado pânico de não ser capaz, de não lograr traduzir em palavras o que me apetecia berrar aos ouvidos dos outros e que era Estou aqui, Reparem em mim que estou aqui, Oiçam-me até no meu silêncio e compreendam, mas não se pode compreender, Sofia, o que se não diz, as pessoas olham, não entendem, vão-se embora, conversam umas com as outras longe de nós, esquecidas de nós, e sentimo-nos como as praias em outubro, desabitadas de pés, que o mar assalta e deixa no baloiçar inerte de um braço desmaiado. Sempre estive sozinho, Sofia, mesmo na guerra, sobretudo na guerra, porque a camaradagem da guerra é uma camaradagem de generosidade falsa, feita de um inevitável destino comum que se sofre em conjunto sem de facto se partilhar, estendidos no mesmo abrigo enquanto os morteiros estoiram como os ventres repletos de ferro ferido dos cancerosos nas enfermarias do hospital, apontando ao tecto narizes agudos de pássaros que apodrecem, sozinho, mesmo na missão abandonada, sentado com o tenente no banco traseiro do jipe sobe as acácias, a escutar os insectos e os pássaros e o ensurdecedor silêncio de África, sozinho na enfermaria no meio dos feridos que gemiam, e choravam, e chamavam por mim noites a fio, dobrados pelo medo e pelas dores. Que imbecil aquela guerra, Sofia, digo-te eu aqui acocorado na sanita diante do espelho que implacavelmente me envelhece, sob esta luz de aquário e estes azulejos vidrados, estes metais, estes frascos, estas louças sem arestas, que imbecil aquela guerra numa África miraculosa e ardente onde apetecia nascer como o girassol, o arroz, o algodão e as crianças surdem num impero de géiser, fumegante e triunfal.
em Os Cus de Judas, António Lobo Antunes, Leya, 26ª Edição (bolso), 2008
em Os Cus de Judas, António Lobo Antunes, Leya, 26ª Edição (bolso), 2008