14 de setembro de 2009

Isto vem mesmo a calhar...

Este gajo andou muito pelas europas a constatar a solidão fundamental, castigo para o espírito inquieto. Algo do género... Para onde quer que vás, a fúria vai contigo.

Um poeta está sentado na Holanda. Pensa na tradição. Diz para si mesmo: eu sou alimentado pelos séculos, vivo afogado na história de outros homens. E a sua alma é atravessada pelo sopro primordial. Mas tem a alma perdida: é um inocente que maneja o fogo dos infernos. Abre-se ao fundo da sua meditação holandesa um grande lago: a solidão, e em volta passeiam vacas. A Holanda agora é isto: vacas, e - no centro - o inferno, a revolucionária inocência de um poeta sentado.
– Por quem me tomam? – pode ele perguntar. – O que eu quero é o amor.
E sempre assim, sempre: cidades inexplicáveis no meio da terra ou prados imensos onde se tem medo. Prados para vacas, não para um poeta di-la-ce-ra-do por uma tormentosa inocência.

in Herbeto Hélder, Os Passos em Volta, Assírio & Alvim, 9ª Edição, 2006