Passam dias, semanas, meses… Morrem os dois muito lentamente, sem se aperceberem. Para além de copularem com uma dedicação desmesurada e tóxica, possuídos de uma voracidade extraordinária, falam muito do que lhes vai na alma e dos livros que podem ler. Ambos conhecem a estética, apesar de não serem artistas (pelo menos não oficialmente). Conhecem a estética que lhes enche a cabeça, a estética que está dentro deles e que é uma doença que os põe contra o mundo, que é terrivelmente feio. Ele escreve e ela pinta, o que é singularmente romântico e estúpido. Ela diz que tem visões extraordinárias que tem de pôr nos quadros para não ficar maluca, para não explodir, e ele diz-lhe que as palavras que entram para dentro dele tem de as pôr no papel para não ficar maluco, para não explodir. Estão obcecados com a beleza e querem inventar formas novas de a materializar. Querem dar visibilidade ao milagre, pô-lo à solta na rua para que os transeuntes tropecem nele e se apercebam que estão vivos. São infelizes e têm a cabeça cheia de ilusões e de sonhos, de ideais. Constataram isso e perceberam a tragédia da vida inusitada que escolheram, da qual não há volta a dar. Tal não os impede de, ao olharem para os cães que desfilam contentes nas suas fatiotas públicas, terem inveja dessa distracção. Ora aplaudem a simplicidade dessas gentes, ora gozam com ela. Não há volta a dar. Não há volta a dar.